Chapter 3
V. / \
a> Vida devota. 109
leitafTemos nella : antes ao contrario , feria
ofendida a Divina Mageíhde , como o toi
dos Iiraeliras , quando efteve perro delles
quarenta annos ( como elle dilTe ) folicitan-
do-os a que fe converteíTem , fem que já mais
lhe quizeflem dar atenção : por cuja cauia
jurou em lua ira contra elles , que nunca en-
trariaó no feu defcanço. Aílim o Cavalheiro ,
que por muito tempo tiveíTe fervido huma
donzela , eitaria baftantemente defobrigado ,
fe depois difto , elia por nenhum modo qui-
zefle ouvir falar no cafamento que elle folici-
tava.
O gofto que fe íente nas infpirações , con-
duz muito para a gloria de Deos , e defde en-
tão por elle entramos a agradar á Divina Ma-
geftade : porque fe bem eft,a deleitação ainda
naó he cabal confentimento , he huma certa
difpoíiçaõ para elle : e fe he bom final , e coi-
fa mui ucil ouvir com gofto a palavra de
Deos , que he como huma infpiraçaõ exte-
rior , também fira coufa útil e do agrado de
Deos, comprazer-nos na infpiraçaõ interior,
Efte he o prazer de que fala a Efpofa Santa
quando diz : A minha alma [s liquidou , quan-
do falou o meu Amado (1). AíEm o Cavalhei-
ro que afíima diíTemos , fe dá por mui fatis-
feito da donzela a quem oblequeia , e fe tem
por favorecido , quando vè que lhe agrada o
feu ferviço.
Mas em fim o confentimento he quem
com-
CO Cant. 5. v. 6. Anima mea lifyefiifU ejl , ut l<r
-cuias eji.
no Intkoducça6
completa o a£k> virtuofo : porque fe fendo
infpirados , e agradando-nos a infpiraçaó ,
naó obíhnte repugnarmos a dar o confenti-
mento a Deos , Teremos fummamente defcor*
tezes , e ofenderemos fummamente Sua Divi-
na Mageftade : porque bem fe vê , haver nií-
ro grande defprezo. Iftc foi o que fuccedeo á
Efpofa : porque ainda que a doce voz do feu
Amado a tocou no coração com huma fanta
alegria , nem por iiTò lhe abrio a porta , an-
tes fe efcufou mui frlvolamenre : do que juf-
tamente indignado o Efpoío , paííou a outra,
e a deixou. Aííim também aquelle Cavalhei-
ro , que depois de ter muito tempo obfequia-
do a donzela , e ter delia recebido agrado óeC-
te ferviço , em fim folie rejeitado e defpreza-
do , muiro maior motivo teria para fe defcon-
tentar, do que fe os feus obfequios nunca fof-
fem aceitos nem correfpondidos. Refolvei-vos,
Phiiotea , a aceitar de coração , todas as infpi-
raçôes , que Deos for fervido conceder-vos :
e quando vierem , recebei as como embai-
xadores do Rei do Ceo , que defeja comrahir
matrimonio comvofco. Ouvi com focego fuás
propoftas , coníiderai o amor com que fois
infpirada , e a caricia da fanta infpiraçaó.
Confenti-as , porém com hum confentimen»
to píeno amorolo e conftante á fanta infpira-
çaó : porque deita forte Deos*, a quem naó
podeis obrigar , fe dará por mui obrigado ao
voffo afFe&o. Porém antes de confentirdcs nas
infpiraçóes de coifas de importância ou extra-
ordinárias , para naó ferdes enganada , acon-
feihai-vos fempre com o voíTo Dire&or > para
que .
a3 Vida devota. iii
que elle examine fe a infpiraçaó He verdadei-
ra ou falfa ; porque o inimigo vendo numa
alma prompta a coníentir ás infpiraçóes , lhe
propõem mui ordinariamente as falias , para
engana-la : o que nunca poderá conieguir ,
em quanro ella com humildade perfeita obe-
decer a feu Condu&or.
Tendo dado o conientimento , he neceffa-
rio com rodo o cuidado procurar o eíFeito , e
vir á execução da infpiraçaó, que he o rema-
te da verdadeira virtude ; porque ter o con-
fentimento no coração , fem vir ao effeito
delle , feria plantar huma vinha, e naó que-
rer que délTe fruto.
A tudo iílo ferve admiravelmente , prati-
car bem o exercicio da manha , e os retiros
efpirituaes de que acima fiz mençaó ; porque
por efte meio nos difporemos a obrar bem ,
com huma preparação naó fó geral , mas par-
ticular.
CAPITULO XIX.
Do Sacramento da Confijfao.
NOíTo Salvador deixou á fua Igreja o Sa-
cramento da Penitencia e ConfitTaõ , pa-
ra que nelle nos lavemos de rodas noífas cul-
pas , todas as vezes que nos acharmos man-
chados delias. Naó confintais pois , Philotea ,
que o voííb coração ande muito tempo infeclo
do peccado , já que tendes hum remédio taó
prompto e fácil. A leoa que fe deixou cobrir
do
112 Intkoducçao
do leopardo , corre deprefTa a lavar-fe , para
lançar de íi o fedor q-ie lhe deixou efte ajun-
tamento ; para que quando o leaó vier , naó
fe veja ofendido e fe irrite. A alma que con-
fentio no peccado , deve ter horror de fi mef-
ma , e lavar-fe o mais depreíTa que puder ,
pelo refpeito que deve ter aos olhos da Divi-
na Mageftade que a eftá vendo. E para que
he morrermos de morte efpiritual , tendo nós
hum remédio raõ foberano \
ConfeíTai-vos humilde e devotamente to-
dos os oito dias , e fempre que puderdes quan-
do haveis de commungar , ainda que naó fin-
tais em voíla conciencia remórfo algum de
peccado mortal ; porque pela ConfiiTaô naó
fó recebereis abfolviçaó dos peccados veniaes
que confeffardes , fenaô também huma gran-
de fortaleza paca os evitar para o diante , hu-
ma grande luz para bem os difcernir , e huma
graça abundante para reforcir todo o dano que
vos tiverem caufado. Praticareis a virtude da
humildade , da obediência , da íingeleza , e
da caridade : e nefta fó acçzô de confeffar-vos,
exercitareis mais virtudes que em nenhuma
outra.
Tende fempre hum defagrado verdadeiro
dos peccados que confeiTurdes , por pequenos
que fejaõ , com huma firme .efoluçaó de vos
emendar para o diante. Muitos fe confelíaõ
por coftume de peccados veniaes , e por mo-
do de compoftura , fem porem cuidado algum
em fe emendar : ficando toda a fua vida car-
regados , e perdendo por eíle caminho muitos
bens e aumentos eípirituaes. Se vosconfelTar-
dcs
a' Vida devota. 113
des pois , de ter mentido , pofto que fem de-
trimento de ninguém, ou de ter dito alguma
palavra defordenada , ou de ter jogado mui-
to , arrependei-vos e tende firme propofito de
emendar-vos ; porque he abulo , confeiTar de
qualquer género de peccado , mortal ou ve-
nial , fem querer purificar del'e , porque a
ConhíTaó fó para efte fim fe inftituío.
Naó façais fomente eítas acu facões fuper-
fíuas , que muitos fazem por coílume , dizen-
do : Naó tenho amado a Deos como devo :
naõ rezei com tanta devoção , como devia :
naó tenho amado ao próximo como devo : naõ
recebi os Sacramentos com a reverencia devi-
da , e outras femelhantes. A razaó he ; por-
que dizendo ifto , naó dizeis coifa em parti-
cular , que dè a conhecer ao ConfeiTor o eira-
do da vofa conciencia ; porque todos os San-
tos do Ceo , e todos os homens da terra , po-
deria© dizer irto mefmo , fe fe confeflaíTem,
Coniiderai pois , que motivo particular ren-
des para fazer eítas acu facões : e em o def-
cobrindo , acufai-vos da falta que cometeftes ,
íingela e ingenuamente. For exemplo : acu-
fais-vos de naó ter amado o próximo como
devíeis, o que pôde ler , porque tendo viftg
algum pobre mui neceííi ido , que podíeis
facilmente focorrer e confolar , naó fizeftes
cafo diiTo. Acufai-vos pois deíla particulari-
dade , e dizei : vendo hum pobre peceíiuado
naõ o focorri como podia, por negligencia 5
ou por dureza de coração , ou por defprezo ,
fegundo conhecerdes a caufa delia feita. De
íemelhance modo : naõ vos acuiiis , de naõ
H ter
IT4 Introducçaó
ter rezado com tanra devoção como deveis :
mas fe tiveftes diftracçóes voluntárias , ou
foítes negligente em tomar lugar tempo e pof-
tura neceílaria para terdes atenção na reza ;
acufai-vos de tudo íincérameme, fegundo o
que achait.es ter faltado , Tem alegar aquella
generalidade , que naó he fria nem quente na
Confiflaõ.
Naó vos contenteis com dizer voíTbs pec-
cados veniaes, quanto ao faclro , mas acufai-
vos do motivo que vos induzio a cometê-los.
Por exemplo : naó vos fatisfaçais com dizer ,
que mentiftes fem detrimento de ninguém : fe-
naõ dizei também, fe por motivo de váglo-
ria , a fim de vos louvar e efcufar , ou de ale-
gria vá, ou de pertinácia. Se pecaftes em jo-
gar , explicai fe foi por defejo de ganhar , ou
pelo gofto da converfaçaó , e aífímdo mais.
Dizei íe perfeveraíles muito tempo no voíTb
mal , fendo certo que a extenfaõ de tempo
ordinariamente acrecenta muito o peccado :
porque ha notável diferença entre huma vai-
dade paíTageira, que fe demoraria em a noíla
alma hum quarto de hora , e aquella em que
o noflò coração fe demorou dois ou três dias :
convém por tanto , dizer o fa&o , o motivo ,
e a duração dos nolTos peccados. Porque ain-
da que comummente naó ha obrigação de
fer taõ miúdos na declaração dos pecados
veniaes , e pelo mefmo calo , naó ha obriga-
ção de os confeffor ; com tudo, os que que-
rem apurar bem fuás almas, para melhor fe
darem á devoção , devem fer cui Jadofos em
dar bem a conhecer ao Medico efpiritual a
mo-
a5 Vida devota. ii^
moíeítia , por pequena que feja , de que que-
rem farar.
Nem deixeis de dizer o que he prccifo ,
para fe conhecer bem a qualidade da culpa ,
como a ca ufa que tiveíies para vos irar, ou
rolerar o vicio de alguém. Por exemplo : hum
fugcito que me defagrada , me dirá alguma pa-
lavra ligeira por zombaria , e eu a lançarei â
ma parte , e me encolerizarei : e fe outro que
he da minha aceitação me diileiTe outra mais
afpera , a lançaria a boa parte. Explicarme-
hei pois defte modo : defmandei-me em dizer
palavras de enfado contra huma peiToa , dei-
tando a má parte certa coifa que me diffe ,
naó pela qualidade das palavras , mas por me
fer odiofa a pelíba : e fc também he preciío
individuar as palavras , para vos declarardes
bem , julgo que bom leria dizè-las : porque
acufando-vos aííim fincéramente , naõ fó def-
cobris os peccados cometidos , mas juntamen-
te as más inclinações , coílumes , hábitos, e
oucras raizes do peccado : por cujo meio , vem
o Cenfefíbr a adquirir hum conhecimento
mais cabal do coração que trata , e dos remé-
dios que lhe faó próprios. Deveis porém fem-
pre encobrir o terceiro que concorreo para o
voíTo peccado , quanto vos for pcííivel.
Ponde cuidado em huma multidão de pec-
cados , que bem de ordinário reinaó na concí-
encia infenfiveimente ; para que conhecen-
do-o? os confelTeis , e vos purifiqueis delles.
Para ifto lede com arençaó o Capitulo 6, 27,
28, ^5, e 2,6, da terceira Parre ; c o 8 da
quarta Parte. Naó mudeis facilmente de Con-
H ii feílbrj
n6 IntroducçaÕ
feífor ; mas achando bum , continuai em lhe
dar conta da voíTa conciencia , nos dias def-
tinados para iíTo ; referindo-ihe íingela e fran-
camente os peccados que cometeftes : e de
tempos em tempos , como de mes em mes ,
ou de dois em dois mefes , dizei-lhe o eítado
das voíTas inclinações, ainda que por caufa
delias naõ tenhais peccado : como fe foíles
atormentada de trifteza e afflicçaõ a ou fe vos
deixaftes levar de alegria vá aos defejos de
adquirir bens ; e femelhantes inclinações.
CAPITULO XX.
Da frequente Communhxo.
DIz-fe que Mitridates Rei do Ponto , ten-
do inventado o arítidoto delle chamado
Mitridatico , de tal modo reforçou com elle
feu corpo , que procurando depois envenenar-
fe , por evitar fer efcravo dos Romanos , já
mais lhe foi poííível confeguí-lo. Infhtuio o
Salvador o Auguftiíhmo Sacramento da Eu-
cbariftia , que contém realmente fua carne e
feu ianque , para que quem o comer viva
eternamente. Por efta caufa , todo aquelle que
o frequenta a miúdo com devoção , fortalece
a faude e vida de fua alma ^e modo , que he
quafi impoííivel , que feja envenenado de gé-
nero algum de má inclinação. Naõ podemos
alimenrar-nos com efta carne devida, e vi-
ver com affe&os de morte. Aflím como os
homens fe permanece íTem no Paraifo terreftre,
A* V I D A D E V O T A. II7
podiaó naõ morrer quanto ao corpo , pela
força daquelle fruro virai , que Deos alli ri-
nha pofto , aílim podem naõ morrer eípiri-
tualmente pela virtude deíle Sacramento de
vida. E fe os frutos mais tenros e fujeitos á
corrupção , como faó as cerejas os damafcos
os morangáos, fe confervaó facilmente todo o
anno , eftando de conferva em afincar ou em
mel i naó he de admirar , que os noiTos cora-
ções , ainda que frágeis e débeis 3 fejaõ pre-
fervados da corrupção do peccado , fendo af-
fucarados e melados com a carne e fangue in-
corruptível do Filho de Deos. Philorea , os
Chrríiáos que fe condenarem , naó teraó ef-
cufa , quando o juffco Juiz lhes fizer ver , quão
fem rezaó morrerão efpiritualmente , quando
lhes era taó fácil confervar-fe com vida e íau-
de , peia comida de feu corpo , que lhes dei-
xara com eíle fim. Miferaveis , lhes dirá ,
porque vos deixaft.es morrer , tendo á voíTa
ordem o fruto e manjar de vida ?
O receber a Communhaõ da Euchariítia
todos os dias , nem o louvo nem o vitupero :
mas comungar todos os Domingos , o aconfe-
lho e exhorto a todos , com tanto que tenhaõ
feu efpirico fem algum afFe&o de pecar. Ef-
tas faó as próprias palavras de Santo Àgoftinho,
com o qual naó vitupero nem louvo abfolu-
tamente que fe comungue todo- os dia:; mas
deixo ifto á diícriçaó do Padre efpiritual
daquelle , que fe quizer refolver nefte ponto :
porque a difpofiçaó que fe requer para taó
frequente Comunhão , deve fer mui efpecial,
e náó he conveniente aconfelha-la geralmen-
te.
n8 Introducçaó
te. E como eíla difpofiçaó , poílo que exqui-
fita , fe pode achar em mu iras almas boas ,
também naó he conveniente divertir e diflua-
dir delia geralmente a qualquer; mas'iíloíe
deve regular pela coníideraçaó do eítado inte-
rior de cada hum em particular. Seria impru-
dência aconfelhar indiíiin-ílamente a todos taõ
frequente ufo ; mas também feria imprudên-
cia injuriar a alguém por caufa delle , princi-
palmente quando eíie feguiíTe a ordem de al-
gum Diretor prudenie. Engraçada foi a re-
poíla de Santa Catharina de Sena , quando á
frequência da fua Communhaó lhe oppuíe-
raó ; que Santo Agoítinho naó louvava nem
vituperava o commungar todos os dias. Bem
eftà ( refpondeo eiia ) já que Santo Agoftinho
o naó vitupera , peço-vos , que também vós
o naó viiupereis , e com iílo me darei por
contente.
Porém , Philorea , já que vedes que San-
to Agoílinho exhorca e aconfelha com eficá-
cia , que fe comungue todos os Domingos ,
fazei-o aflim quanto vos for poííivel. Porque
fe , como fupponho , vós naó tendes nenhum
género de afreclo ao peccado mortal , nem ao
venial , eftais com a verdadeira difpoílçaó
que o Santo requer , e ainda mais excelen-
te ; porque naó fó naó tendes affeíro a pecar,
mas nem affecto ao peccado.' Aííim quando o
voiío Padre eí pi ritual o achar conveniente ,
podereis utilmente comungar com mais fre-
quência , que todos os Domingos.
Com tudo pode fucceder , terdes legíti-
mos impedimentos 3 que naó eíle jaó da vofla
par-
Ay Vida devota. 119
parte, mas daquelles com quem viveis , que
daraó motivo ao fabio Condu&or , de vos di-
zer , que naõ comungueis com tanta frequên-
cia. Por exemplo : fe ettais com alguma force
de fujeiçaó , e aquelles a quem deveis obedi-
ência ou reverencia , forem taó mal enfinados
ou acondicionados , que ie inquietem e per-
turbem , de vos ver comungar taó frequente-
mente ; talvez coníideradas todas as coifas ,
fera bem condefcender hum pouco com a fua
fraqueza , e naó comungar fenaô de quinze
em quinze dias ; mas ifto fera no cafo , que
de nenhum modo fe polia vencer a dificulda-
de. Naó fe pôde decidir ifto bem em geral ,
he precifo que o Padre efpiritual o diga : pof-
to que feguramente poffo dizer , que a maior
diitancia das Comunhões he de mes a mes ,
entre os que querem fervir a Deos devota-
mente.
Se fordes mui prudente , naó haverá mãi,
nem mulher , nem marido , nem pai , que
vos impida comungar com frequência. Por-
que no dia da voffa Comunhão , naó deixa-
reis de cuidar no que toca ao voíío eirado :
porque fendo vós mais fuave e aprazível para
com elles , e naó lhes faltando em género al-
gum de obrigações , naõ he veroílmil , que
queiraó apartar-vos deíle exercício , que ne-
nhuma incomodidade lhes cauía : fó fe forem
de génio fummamente contenciofo e defarre-
zoado : nefte cafo , talvez como diíTe , que o
voiTo Director queira , que ufeis de condef-
cendencia.
Convém dizer huma palavra aos caiados.
Deos
iiõ Introducçao
Deos na Lei antiga , levava a mal , que os
ac redores execucaiTem feus devedores em dias
de fefta : mas nunca lhe pareceo mal , que os
devedores paga!Tem e exhibiííem fuás dividas
aos que os requeriaõ. He couia indecenre(ain-
da que naó grande peccado ) felicitara paga
do debito nupcial , no dia que fe tem com-
mungado : mas naó he indecenre , antes me-
ritório pagalo : por cuja caula ninguém deve
fer privado da Comunhão por pagar eíte de-
bito , fe por outra parte a fua devoção o ex-
cita a deíejala. Verdade he , que na primiti-
va Igreja os Chriftáos cómungavaó todos os
dias , pofto que foíTem cafados e abençoados
com a geração dos filhos. Por cuja caufa dif-
fe , que a frequente Comunhão naó caufa ne-
nhum género de incomodidade , nem aos pais,
nem ás efpofas , nem aos maridos , com tin-
to que a alma que comunga feja prudente e
difereta. Quanto ás moíeítias corporaes , ne-
nhuma ha que polia fervir de impedimento a
eíta fama participação : excepto aquella que
provocar frequentemente a vomito.
Para comungar todos os oito dias íe requer
naó ter nem peccado mortal , nem aíFeclo al-
gum ao peccado venial , e ter hum grande de-
fejo de comungar: mas para comungar todos
os dias , de mais difto he neceíTario ter venci-
do a maior parte das más incliaaçóes , e que
feja com çonfeiho do Padre efpirimal.
CA-
a5 Vida devota. ih
CAPITULO XXI.
Como fe de^ve commungar.
COmeçai defde a noite antecedente a pre-
parar-vos para a fanta Communhaõ , com
frequentes afpiraçóes e jaculatórias arnorofas :
recolhendo-vos hum pouco mais cedo , para
vos poderdes levantar mais de madrugada : e
fe acordardes de noite , enchei logo voíTo co-
ração e boca de algumas palavras odoriricas ,
com que volTa alma fique perfumada para re-
ceber o Efpofo : o qual velando em quanto
vós dormis , fe prepara a trazer-vos mil gra-
ças e favores , fe da volTa pane eftiverdes dif-
pofta a recebe los : De manha levantai-vos
com muita alegria , pela felicidade que efpe-
rais : e tendo-vos confeífado , ide com gran-
de confiança , mas também com grande hu-
mildade, a receber efta iguaria celeftial , que
vos fuífenta para a immortalidade. E depois
de dirás as íagradas palavras : Senhor nao
fcu digna : nao deis com a cabeça , nem mo-
vais os lábios , ainda que leja para rezar ou
refpirar , fenaô abrindo fuave e medianamen-
te a boca , e levantando a cabeça o que for
precifo , para que o Sacerdote veja o que
faz: recebei, cheia de fé, efperança , e ca-
ridade aquelle , o qual , pelo qual , e para
o qual, credes efperais e amais. Confiderai ,
Philotea . que aíhm como a abelha tendo co-
lhido das flores o orvalho do Ceo , e o fuco
mais
122 Introducçaõ
mais exquiíuo da terra , e tendo-o reduzido a
mel , o leva á íua colmea : aílim o Sacerdo-
te tendo tomado do Altar o Salvador do mun-
do , verdadeiro Filho de Deos , que como or-
valho baixou do Ceo , e verdadeiro Filho da
Virgem , que como flor brotou da terra da
nolía humanidade , como fuave iguaria o me-
te em volTa boca e em voíTo corpo. Depois de
o receberdes , excitai voíTo coração , para
que venha render vafíalagem a efte Rei da
falvaçaõ , tratai com eile voííos negócios in-
teriores , conílderai-o dentro em vós , onde
entrou para vos fazer ditofa. Em fim razei-
lhe todo o acolhimento que vos for poílivel ,
e portai-vos de modo , que fe conheça em to-
das voíTas acções , que Deos eftá comvofco.
Mas quando naõ puderdes confeguir eíte
bem de commungar realmente na Mi íTa , co-
mungai ao menos com o coração e efpirito ,
unindo-vos com hum defejo ardente áquella
carne vivificante do Salvador.
A voíTa principal intenção na Comunhão
deve fer adiantar-vos fortalecer-vos e confo-
Jar-vos no amor de Deos: porque deveis re-
ceber por amor, o que fò por amor fe vos
dá. Por certo , que fe naõ pôde confiderar ac-
ção nem mais terna , nem mais amorofa , que
aquella , em que o Salvador , digamo-lo af-
fim , fe aniquila , e fe torna om comida , pa-
ra penetrar ncíías almas , e fe unir intimamen-
te ao coração e corpo de feus fieis.
Se os mundanos vos perguntarem , por-
que comungais taõ frequentemente ? Dizei-
lhe , que he para aprenderdes a amar a Deos ,
a5 Vida devota. 123
para vos purificardes de voífas imperfeições ,
para vos livrardes de vollas mi ferias , para vos
confolardes em voiTas arlicçoes 3 para vos for-
talecerdes em voiTas fraquezas. Dizei-lhe ,
que duas fortes de peíloas devem comungar a
miúdo : os perfeitos , porque eílaó bem dif-
poftos , e fariaó mal fe naó chegalíem á ori-
gem e fonte da perfeição : e os imperfeitos ,
para poder juftamente pretender a perfeição :
os fortes , para que fe naó tornem fracos , e
os fracos para que fejaó fortes : os enfermos
para confeguirem faude , e os sãos , para que
naó caiam em enfermidade : e que quanto
a vós como imperfeita débil e enferma , tendes
neceííidade de comunicar a miúdo com a vof-
fa Perfeição , com a voíla Fortaleza , e com o
voíTo Medico. Dizei-lhe , que os que naó tem
muitos negócios mundanos , devem commun-
gar a miúdo , porque tem commodidade : e
os que tem muitos negócios do mundo , por-
que tem neceííidade : e os que trabalhão mui-
to , e eftaó carregados de penalidades , devem
comer mantimentos folidos e amiudadamen-
te. Dizei-lhe , que recebeis o Santillimo .Sa-
cramento para aprender a recebelo bem ; por-
que fe naó faz bem feita huma acçaó , fem fe
praticar muitas vezes.
Commungai a miúdo , Philotea , e as
mais vezes que poderdes com confentimento
do voíTo Padre efpirituai : e crede-me , que
aíTim como as lebres fe tornaó brancas entre
as noíTas montanhas no Inverno ; porque naó
vem nem comem fenaó neve : aílim á forca
de
124 IntroducçAo
de adorar e comer a Fermofura , a Bondade ,
a Pureza mefma , nefte Divino Sacramento ,
vos tornareis toda fermofa , toda boa , toda
pura.
TER^
«y
TERCEIRA PARTE,
QUE CONTEM MUITOS DOCUMENTOS ,
pertencentes ao exercicio das virtudes.
CAPITULO I.
Da ef colha que fe deve fazçr , no tocante ao
exercido das 'virtudes.
A Abelha meftra nunca faheacampo,
que naó vá rodeada de todo o feu po-
voílnho : e a caridade naó entra já
mais em coração algum ,que naó aloje comíigo
todo o trem das outras virtudes : exercitan-
do-as e pondo-as em feus poílos , como hum
Capitão faz a feus Soldados : ainda que as
naó pratica todas de huma vez , nem de hum
ja&o , nem igualmente em rodo o tempo e lu-
gar. O Juíto he ccmo a arvore que eítà plan-
tada junto à corrente das aguas , que dá o feu
fruto a feu tempo ; porque a caridade re-
gando huma alma , produ2 nella as obras
virtuofas , cada huma em fua fezaó ( i ) . A
jnuftca , fendo de fi tao agradável , be impor-
tuna
(0 Ecclif. 22. v. 6. Ncijica in luftu importuna rmr«
latio.
I2Ó Introducçaó
tuna no pranto , diz o Provérbio. Efte lie hum
grande defeito ác muitos , que emprenden-
do o exercício de alguma virtude particular,
porfiaó em a querer praticar em todo o
género de ocurrencias : e querem como
aquelles dois antigos Filofofos , ou fem-
pre chorar , ou fempre rir : e ainda fazem
peior , quando viruperaó e cenfuraó os
que como eiles naó exercitai fempre eftas
mefmas virtudes. Convém alegrar com os ale-
gres , e chorar com os que choraó , como diz
o Apoílolo : e a caridade he fofredora benigna
liberal prudente condescendente.
Com tudo , ha virtudes , cujo ufo he qua-
íi univerfal , e que naó fó naó devem execu-
tar íeus a&os feparadamente , mas devem di-
fundir fuás qualidades e operações em todas
as outras virtudes. Nem fempre fe oíTerecem
ocafiòcs de praticar a fortaleza , a magnani-
midade , a magnificência ; mas a maníldaô ,
a temperança , a honeílidade , a humildade ,
faó cerras virtudes , de que todas as acções da
noíTa vida fe devem tingir. Virtudes ha mais
excelentes que elJas , mas o ufo deitas he mais
necellario. O aíTucar he mais excelente que o
fal , mas o fal tem ferventia mais geral e mais
frequente. Efta he a razaõ , porque fempre
deve haver boa e prompta provi faó deíias vir-
tudes geraes , pois delias nos 4evemos fervir
quafi ordinariamente.
No exercício das virtudes devemos pre-
ferir a que he mais conforme a nofTa obriga-
ção , e naó a que fe conforma melhor com o
nolTo goíto. O gofto de Sanca Paula era exer-
citar
a5 Vida devota. 127
citar a afpereza das mortificações corporaes ,
para gozar mais facilmente das fuavidades ef-
pirituaes ; mas maior era a obrigação que ti-
nha â obediência de feus fuperiores. Por cuja
caufa confeiTa S. Jeronymo , ter fido repre-
henfivel , no que contra o parecer do Teu Bif-
po praticava de abftinencias immodicas. Os
Apoftolos pelo contrario , encarregados de
pregar o Evangelho , e diftribuir ás almas o
paó celeftial , julgarão íummamente acerta-
do , que naõ convinha divertirem-fe defte Tan-
to exercício , por praticar a virtude do cuida-
do dos pobres , pofto que taó excelente. Cada
vocação neceíTna de praticar alguma eípecial
virtude : humas faó as virtudes do Prelado, ou-
tras as do Príncipe : humas as do Toldado ,
outras as da mulher cafada , e outras as da
viuva : e pofto que todos devem ter todas as
virtudes , nem todos as devem igualmente
praticar , mas cada hum fe deve dar com par-
ticularidade áquellas , que faó próprias do gé-
nero de vida a que he chamado.
Entre as virtudes , que naó pertencem â
noíTa particular obrigação , devemos preferir
as mais excellentes , e naó as que mais apa-
recem. Os Cometas de ordinário parecem
maiores que as eftrelas , e ocupaó mais lu-
gar nos noííos olhos , e com tudo naó (210
comparáveis com as eftrelas 5 nem em gran-
deza nem em qualidades , e naó parecem
grandes , fenaó por eftarem mais perto de nos,
e em hum meio mais groíTeiro que o das ef-
trelas. Por femelhante modo , ha certas vir-
tudes , que por eftarern peno de nó? > feafe-
veis
128 Introdugçao
veis e ( fe aflím fe pode dizer) materiaes , fem-
pre faó eftimadas e preferidas pelo vulgo :
aííim fe prefere a efmoia temporal , á efpiri-
rual : o cilicio , o jejum , a defnudeza , difci-
plina , as mortificações do corpo , á íuavida-
de , benignidade, modeília , e outras morti-
ficações do coração , que fem duvida faó mais
excelentes. Efcolhei pois , Philotea , as vir-
tudes melhores, e naó as mais eíhmadas : as
mais excelentes , e naó as mais apparentes : as
melhores , e naó as mais aparatofas.
He de utilidade , que cada hum efcolha o
exercício particular de alguma virtude , naó
por abandonar as outras , mas para ter melhor
ocupado e ordenado o feu efpiriro.
Huma fermofa donzela , veftida e ornada
como Rainha , e coroada com huma grinalda
de oliveira , apareceo a S. Joaó Bífpo de Ale-
xandria , dizendo-lhe : Eu fou a filha primogé-
nita do Rei , fe queres grangear o meu amor ,
te conduzirei á fua prefença. Conheceo elle ,
fer eíla a Mifericordia com os pobres , que
Deos lhe recomendava : pelo que fe entre-
gou depois de tal forte ao exercido defta vir-
tude , que por cila foi chamado S. Joaó cf-
moler.
Eulogio Alexandrino defejando fazer al-
gum ferviço particular a Deos , e naó fe
achando com forças baftantes ,(nem para abra-
çar a vida folitaria , nem para fe fujeitar á
obediência de outrem , recolheo em fua cafa
hum miferavel eftropeado e confumido de le-
pra , para exercitar com elle a caridade e
mortificação: e para o fazer com mais mere-
ci-
a' Vida devota. 129
cimento , fez voto de o honrar , tratar , e fer*
vir , como hum criado a íeu amo e fenhor*
Sobre certa tentação , que fobreveio aííim ao
leprofo como a Eulogio , de fe apartarem
hum do outro , buícáraó ao grande Santo An-
tónio , o qual lhes diífe : Guardai-vos filhos
meus de vos feparar hum do outro , porque
eítanJo ambos chegados ao voiTo fim , fe o
Anjo vos naó achar juntos , correis grande pe-
rigo de perderdes as volTas coroas.
EIRei S. Luiz viíltava , como fe íolTc
aíTalariado para iíío , os Hofpitaes , e fervia
os doentes com fuás próprias máos. S. Fran-
cifeo amou principalmente a pobreza , a que
chamava a fua Senhora. S. Domingos a pre-
cação , de que a fua Ordem tomou o nome,
S. Gregório Magno folgava de acariciar os pe-
regrinos , a exemplo do grande Abraham , e
como elle recebeo o Rei da gloria em forma
de peregrino. Tobias exercitava-fe na carida-
de de fepultar os defunto:. S. lfabel , com
fer taó grande Princeza , eítimava fobre tudo
o abatimento de íi mefma. Sanca Carharina de
Génova , logo que enviuvou , fe entregou ao
ferviço de hum Hofpital. Conta Cailiano ,
que huma devota donzela , defejando exerci-
tar-fe na virtude da paciência , recorreo a
S. Arhanaíio , o qual a rogo feu , lhe deu
por companheira huma pobre viuva , melan-
cólica colérica enfadonha e infofrivei , a qual
renhindo continuamente com a devota donze-
la , lhe dava alTas ocailaó de praticar digna-
mente a fuavidade e condefeendencía.
Aííim entre os fervos de Deps, huns fe cn-
I ue-
130 Introdvcçaó
tregaõ a fervir os enfermos , outros a focorrer
os pobres , outros a procurar o adiantamento
da doutrina Chriftá entre os meninos , outros
a encaminhar as almas perdidas e extravia-
das , outros a adornai as Igrejas e compor os
Altares , e outros a introduzir a paz e concór-
dia entre os homens : no que imitaõ os borda-
dores , que (obre diverfos chãos aíTentaó com
fermoía variedade as fedas , o oiro , a prata,
para formar toda a cafta de flores ; porque de
íemelhante modo eftas almas piedofas , que
emprendem algum particular exercício de
devoção , fe fervem deile como de hum fun-
do , para a íua bordadura efpiritual ; fobre o
qual exercitaõ a variedade de todas as outras
virtudes, tendo deita forre todas Tuas acções
e afFetlos melhor unidos e ordenados , pela
relação que fazem ao feu exercício principal :
fazendo defte modo que feu efpirito pareça
que,
Em feu veílido de oiro recamado,,
A agulha varias flores tem planeado (1).
Quando formos combatidos de algum vicio,
devemos , quanto nos for poírivel , empren-
der a pratica do exercício contrario , encami-
nhando as demais a eila ; porque defte modo
venceremos o noflTo inimigo , e naó deixare-
mos de nos adiantar em todas as virtudes. Se
me finto combatido de foberfca ou de cólera ,
devo em tudo inclinar-me , e por-me da par-
te
(1) Pfalm. 44. v. 10. In vefihu deaurato eireuin»
daia varie tatc.
A5 V I D A U E V O T A, IJI
te da humildade e manfidaõ , e fazer que íir-
vaó para iíto os exercícios da oração , dog
Sacramentos , da prudência , da conítancia e
da fobrieJade ; porque aíiím como os javalis
para aguçarem as prezas as roçaó e apertão
com os demais dentes , os quaes reciproca-
mente ficaó todos mui afilados e rompentes :
aííim o homem virtuofo , tendo emprendi-
do aperfeiçoar-fe na virtude , de que tem mais
neceflídade para fua defefa , a deve limar e
afiar pelo exercício das outras virtudes ; as
quaes afiando aquella , fe tornaõ todas mais
excelentes e polidas. Aííim fuccedeo a Job ,
que exercitando-fe particularmente na paciên-
cia contra tantas tentações , com que foi com-
batido , ficou perfeitamente fanto e virtuofo
em todo o género de virtudes. E ainda fucce-
de , como diz S. Gregório Nazianzeno , que
por huma fó acçaó de alguma virtude bem e
perfeitamente exercitada , chega huma peíToa.
ao ápice das mais virtudes: alegando a Ra-
hab , a qual praticando exactamente a hofpi-
talidade , chegou a huma gloria fuprema ;
mas iíto fe entende , quando a tal acçaó fe
exercita excelentemente > com grande fervor
e caridade.
I ii CA-
132 Introducçao
CAPITULO II.
Trofegue-fe o mefmo difcurfo da eleição das
'virtudes.
SAnto Agoftinho diz excelentemente , que
os que começaó a devoção , cometem cer-
tas faltas , que faó reprehenfiveis , atendendo
ás leis da perfeição ; e naó obftante faó lou-
váveis , pelo bom prefagio que daõ de huma
excelente piedade futura , para a qual ellas
mefmas fervem de difpoíiçaó. Aquelle baixo
e groiTeiro temor , que gera efcrupulos ex-
ceihvos nas almas dos que novamente fe apar-
taó do caminho do pecado , he huma virtude
recomendável nefte principio , e prefagio cer-
to de huma futura pureza de conciencia ; mas
efte mefmo temor feria reprovável nos que
eftaó mui adiantados, em cujo coração deve
reinar o amor , que pouco a pouco lança fo-
ra efta forte de temor fervil
S. Bernardo nos princípios era mui rigoro-
ío e afperc , para com os que queriaó íeguir
a fua condu&a : aos quaes logo ao principio
intimava , que para ir a elle , deviaó deixar
o corpo , e ir fó com o efpirito. Quando ou-
via as fuás confifsões , abominava com extra-
ordinária feveridade toda a fone de faltas , por
pequenas que foffem : e de tal modo procu-
rava conduzir os pobres diícipulos á perfei-
ção , que pela força que lhes fazia , muitos
fe retiravaó : perdendo o animo e fôlego , por
fe
A' V I D A DEVOTA. I33
fe verem obrigados a íubir a huma montanha
taó alcantilada e alta. Aqui vedes , Phiiotea,
que efte ardentilhmo zelo de huma perfeita
pureza , excitava aquelle Santo a eíle metho-
do de governo : e efte zelo era huma grande
virtude , mas com tudo virtude que naó dei-
xava de fer reprehenfivel. Mas o mefmo Deos
com huma fagrada appariçaó o reprehendeo ,
infundindo em fua alma hum efpirito doce
fuave benévolo e terno , por meio do qual tro-
cado em outro , fe acufava excellivamente de
ter fido taó exa&o e íevero ; e veio a fer de
tal modo aprafivel e maneiro para cada hum ,
que fe fez tudo para todos , para os ganhar a
todos.
S. Jeronymo tendo contado , que fua ama-
da filha Santa Paula era naó fó exceííiva mas
teimofa no exercício das mortificações cor-
poraes , chegando a naó querer ceder ao pa-
recer contrario que S. Epifânio feu Bifpo lhe
tinha dado nefta matéria ; e que por outra
parte , íe deixava levar tanto do íentimemo
da morte dos feus , que fempre eftava em pe-
rigo de morrer: em fim conclue d efte modo:
Dirfe-ha , que em vez de eferever louvores
defta Santa , eferevo reprehensces e vitupé-
rios : a Jefus tomo por teftemunha , a quem
ella fervio , e a quem defejo fervir , que naó
minto por huma nem por outra parte , mas
refiro íincéramente , como Chriftaó, de huma
Chriftá , o que delia confta * ifto he , que ef-
erevo huma hiftoria , e naó pànegyrico , e
que os feus vicios faó as virtudes de outros.
Vem a dizer, que os defeitos e faltas de San-
ti
134 Introducçaó
ta Paula , teriaô lugar em huma alma menoí
perfeita : como na verdade fuccede , haver ac-
ções que fe reputaó por imperfeições , nos que
faó perfeitos , as quaes naó obftante , feriaõ
tidas por grandes perfeições , nos que faõ im-
perfeitos. Bom final he no doente , quando ao
levantai-fe da moleftia lhe inthaõ as pernas i
porque denota ifto , que reforçada jà a natu-
reza defpede os humores fuperrluos : mas ifto
mefmo feria muito máo final , no que naõ ef-
tiveffe enfermo ; porque daria a entender, que
a natureza naó tinha vigor baftante para diíri-
par e refolver os humores. Devemos porem ,
Philotea , fazer bom conceito daquelles , que
vemos praticar as virtudes , pofto que com
imperfeição , porque até os mefmos Santos as
praticarão muitas vezes deite modo. Quanto
a vós , he conveniente exercitar-vos , naõ fó
com fidelidade mas também com prudência :
e a eíle fim obfervai direitamente o confelho
do Sábio : de vos naó eítribar na voíía pru-
dência ; mas na dos que Deos nos tem dado
por guias.
Ha certas coifas , que muitos tem por vir-
tudes , e o naó faó em modo algum ; das
quaes convém dizer-vos alguma coifa. Saó ef-
tas os exuafis ou raptos , as infenílbilidades ,
impaílibilidades , uniões deificas , elevações ,
transformações , e outras taes, perfeições , de
que trataó cerros livios , que prometem ele-
var a alma á contemplação meramente inrele-
clual , a aplicação eílencial do efpirito , e vi-
da fjpereminente. Atendei , Philotea , que
tilas perfeições naõ faó virtudes , mas fim re«
com-
r
a? Vida devota. ijj
compenfas que Deos dá pelas virtudes ; ou
para melhor dizer , humas amoftras das feli-
cidades da vida futura , que ás vezes fe con-
cedem aos hom :ns , para os fazer defejar as
peças todas inteiras , que ett-aõ no alto do
Ceo. Com tudo ifto porem , naó fe devem
pretender eftes favores , porque de nenhum
modo faó neceífarios para bem fervireamar
a Deos , que deve fer a noíía única preten-
çaó : Também porque naó faó graças eiras ,
que fe polTaó adquirir com trabalho e induf-
tria ; porque mais faó paixões , do que ac-
ções , as quaes podemos receber , mas naõ
obrar em nós. Acrecento , que o noíTo inten-
to he fomente fermos peíTòas de virtude , fu-
jeitos devotos , homens piedofos e mulheres
piedofas : nifto he que nos devemos empregar :
e fe Deos for fervido levantar-nos àquellas
perfeições Angélicas , também feremos bons
Anjos : mas entre tanto exercitemo-nos íim-
plez humilde e devotamente , n2s virtudes
pequenas, cuja conquiíta cometeo NoíTo Se-
nhor ao nollo cuidado e trabalho : como a
paciência , a maníidaó , a mortificação de co-
ração , a humildade , a obediência , a pobre-
za , a caftidade , a ternura com o próximo ,
o fofrimento das imperfeições , a diligencia e
fanto fervor. Deixemos de boa vontade as
eminências para as almas remontadas , naó
merecemos gráo taó alto no ferviço de Deos :
mui ditofos feremos em fervi-lo na cofinha e
na diípenfa , e em lermos íeus lacaios , car-
reteiros , e moços de camera : depois a elle
toca , fe bem lhe parecer, chamar-nos ao feu
136 Introducçao
gabinete e confelho privado. Sim , Philotea,
porque o Rei da gloria naó premeia os feus
íervos > fegundo a graduação dos officios que
exercitaó 5 mas fegundo o amor e humildade
com que os exercitaó. Saul bufcando as ju-
mentas de feu pai , achou o Reino de Ifrael :
Rebeca dando de beber aos camelos de Abra-
ham , confeguio Ter efpofa de Teu filho : Ruth
apanhando as efpigas , após os fegadores de
Booz , e deitando- fe a feus pés , foi levanta-
da ao feu lado e feita fua efpofa. Verdadei-
ramente as pretençóes taõ altas e elevadas de
coifas extraordinárias , faó fummamente fu-
jeitas a ilusões enganos e falildades : e fuc-
cede ás vezes , que os que cuidaó fer Anjos ,
nem ainda bons homens faó: e que nas fuás
obras ha mais grandeza de palavras e termos
de que ufâõ , que no fentimento e obra :
mas nem por iíTo fe ha de defprezar a nin-
guém temerariamente , fenaõ dar graças a
Deos , pelo eminente eílado dos outros , fi-
cando nós humildemente em noílo caminho
mais baixo , mas mais feguro : menos exce-
lente , mas mais acomodado á noffa infuficien-
cia e pequenhez ; na qual fe nos portarmos
humilde e fielmente, nos levantará Deos a
maiores grandezas.
CÀ<
A5 Vida devota. 137
■ III !■■■■■■ Ill ■!■■■! I — — — — — »
CAPITULO III.
Dó Paciência.
A Paciência vos he neceflaria , />*/•* <7we ta-
:ve/iJo ^ vontade de JDeos alcanceis o pro-
metido : diz o Apoftolo (1). Sim, peque como
tinha dito Noííò Salvador: Àra <vo[J a paciên-
cia poluireis as voffas almas (2). Grande fe-
licidade he do homem , Philotea , poiTuir a
íua alma : e á medida que a paciência for mais
perfeita , poíTuiremos mais perfeitamente nof-
fas almas. Lembrai-vos a miúdo , que NoíTò
Senhor nos falvou padecendo e fofrendo : e
que de femelhante modo devemos nós obrar
nolía falvaçaó , por meio de penalidades e
aflicçóes , levando as injurias contradições e
defgoítos , com a maior maníidaó 3 que nos
for poílivel.
Naó limiteis a volTa paciência a tal ou tal
género de injurias e aflicçóes , mas eítendei-a
univerfalmente a todas as que Deos vos en-
viar , e permitir que vos venhaó. Alguns ha
que naó querem fofrer fenaó as tribulações
honrofas , como por exemplo , fer ferido na
batalha , fer prifioneiro de guerra , fer mai-
tra-
- 1 1 1
(O Ad Hebr. IO. V. }6. Pat!cnt':a vebh r.eccffav-a
ejl , ut voluntatem Deljaclcntes , reportctls pronr.fp.o-
nem.
(2) Luc. 21, v. 19. In potitntia vejlra pcjjiàebhis ani-
mai ve/lras,,
138 Introducçaõ.
tratado pela religião , empobrecer por cali-
fa de alguma contenda em que ficarão vence-
dores : efies naó amaõ a tribulação , mas a
honra que lhes grangea. O verdadeiro pacien-
te e fervo de Deos , fofre igualmente as tri-
bulações annexas á ignominia , e as que faó
honrofas : o fer defprezado reprehendido e
acufado dos máos , naó he diíicuhofo de fo-
frer a hum homem animofo ; mas fer defpre-
zado reprehendido acufado e maltratado por
fu jeitos virtuofos , pelos amigos , pelos paren-
tes , aqui he que fe conhece quem tem bonda-
de. Mais efeimo eu a manfidaõ , com que o
grande S. Carlos Borromeo fofreo por mui-
to tempo as reprehensóes publicas , que hum
grande pregador de huma Ordem fummamen-
te reformada , contra elle lhe dava na cara ,
que todos os infulto? que recebeo dos outros.
Porque airim como as picaduras das abelhas ,
faó mais penetrantes que as das mofeas , aííim
o mal que fe recebe das pelloas de virtude ? e
as contradições que ellas fazem , faó mais in-
fuportaveis que as dos outros. Coifa he que
fuecede muitas vezes , que tendo dois lujei-
tos de boa vida ambos de dois boa intenção ,
por caufa de ferem diverfas as fuás opiniões ,
fe perfeguem e contradizem fummamente hum
ao outro.
Sede fofrida , naó fó no graye e principal
das aflições que vos fobrevierem , mas tam-
bém no acceilorio, e accidentes que delias de-
penderem. Muitos quizeraó ter trabalhos ,
com tanto que lhes naó caufaíTem incommodo.
Níq fotto ? diz hum deíles 3 ter empobrecido,
fe
a' Vida devota, 139
fe ifío me naõ embaraçara fervir a meus ami-
gos, adiantar meus filhos, e viver honrada-
mente como deiejo. Outro dirá, nada fe me
dera , íe o mundo naó julgara ter fucedido
iífo por minha culpa. Outro levaria com re-
íignaçaó e paciência a detracçaó do maldizen-
te , com tanto que ninguém lhe délTe credito.
Outros ha. , que querem padecer alguma in-
commodidade do mal , fegundo o feu paiccer,
mas naó toda : naó íe impacicntaó , dizem el-
Jes , de eftar doentes, mas por naó terem di-
nheiro para curar-fe , ou pela importunida-
de dos que os fervem. Digo pois , Phiiotea ,
que convém ter paciência naó fomente em ef-
tar enfermo , mas em ter a moleifia que Deos
quizer, no lugar que quizer , entre as peíTòas
que quizer , com as incómodidades que qui-
zer , e alíim das outras tribulações. Quando
vos vier a moleítia , oppondo-lhe os remé-
dios que forem poiliveis , fegundo Deos ; por-
que obrar o contrario feria tentar fua Divina
Mageftade : mas feito ifto , efperai com intei-
ra reílgnaçaõ o efeito que for do agrado de
Deos : fe for fervido , que os remédios ven-
çaó o mal , dai-lhe as graças com humildade :
mas fe for do feu beneplácito , que o mal
prevaleça aos remédios , bemdizei-o com pa-
ciência.
Sou do parecer de S. Gregório. Quando
juílamcnte fordes acufada por alguma falta ,
que tiverdes cometido , humilhaí-vos quanto
puderdes , confeíTando que mereceis mais que
a acufaçaó que fe faz contra vós : e fe efta
for falfa , eícufai-vos brandamente , negando
ef-
140 IntroducçàÕ
/'Htar culpada : porque eíla reverencia deveis
á. verdade , e á edificação do próximo : mas
também fe depois da voiía verdadeira e legi-
tima efcufa continuarem em vos acufar , de
nenhum modo vos perturbeis, nem vos can-
ceis em procurar que feja aceita a voffa efcu-
fa : porque depois de pagardes o voíío dever
á verdade, o deveis cambem pagará humil-
dade : e deite modo naõ ofendereis , nem o
cuidado que deveis ter do voiTo credito , nem
o afTeclro que deveis à tranquilidade , á bran-
dura de coração , eá humildade.
Qpeixai-vos o menos que puderdes dos ag-
gravos que vos fizerem : pois he coifa certa ,
que de ordinário quem fe queixa peca , por-
que o amor próprio nos faz fempre parecer as
injurias maiores do que faõ : e principalmente
naõ façais voíTas queixas a peíToas fáceis em
fe indignar e cuidar mal. E íe for convenien-
re queixar-vos a alguém , ou por remediar a
oíenfa , ou por focegar o animo , deve Ter ifto
a almas tranquilas e mui amantes de Deos :
porque de outra forte , em lugar de aliviar-
des voílo coração , o provocarão ellas a maio-
res defaíTocegos : e em vez de vos tirarem o
efpinho , vo-lo cravarão mais no pé.
Muitos quando eílaó doentes afligidos e
ofFendidos de alguém , naõ fe cançaó em la-
mentar-fe , e moílrar delicadeza : porque,
como entendem ( e he cerro ) moftrai iaó evi-
dentemente grande fraqueza e falta de genero-
íidade : mas defejaõ fummamente , e com mil
artifícios procuraó , que todos fe doaõ delles
e lhes tenhaõ compaixão , e os julguem naõ fó
a' Vida devota. 141
afli&os , mas fofredores e animofos. Na ver-
dade que ifto he paciência , mas huma paci-
ência , que com eíFeito naó he ourra coifa
mais , que huma delicadifíima e finiilima am-
bição e vaidade : Tem ejíes gloria ( diz o A-
poítolo ) mas nao para com Deos (1). O ver-
dadeiro fofrido , naó chora o feu mal , nem
defejà que outrem o chore : fala delle clara
verdadeira e fincéramente , fem fe lamentar ,
nem prantear , nem o encarecer : e fe outros
por elle fe lamentaó , fofre com paciência
que chorem : falvo fe he por algum mal , que
elle naó tem : porque nefte caio modeítamen-
te declara, que o naó padece : ficando por
eíte modo foce^ado , entre a verdade e a pa-
ciência , confeíTando o feu mal 3 e naó fe quei-
xando delle.
Nas contradições que vos ocorrerem no
caminho da devoção ( que deftas vos naó fal-
tarão ) lembrai-vos das palavras de NolTo Sal-
vador : A mulher em quanto eftá de parto , pa-
dece grandes anciãs , mas vendo feu filho naf-
cido fe ejquece delias , porque nafceo bum ho-
mem no mundo (2) . Porque vós concebeftes
em volía alma o filho mais digno do mundo ,
que he Jefu Chriíto ; antes que eíleja intei-
ramente formado e gerado , naó podeis dei-
xar de fentir o trabalho : mas tende bom ani-
mo ,
(O A d Rom. 4. v. 2. Habent gloriam , fed rton
fipud Deum.
(2) Joan. 16. v. 21. Mulier cum parit , tri/litiatti
habet ; cum atilem pcpercrlt pzientm , jam nen memiuii
frcjjurje , ijuia natus ejl homo in muncium.
t^i Intkoducçaõ
mo , porque paíTadas as dores , vos ficara a
perpetua alegria de ter parido hum tal ho-
mem ao mundo. Nafcerá elle pois inteira-
mente para vós , aíTtm que o tiverdes forma-
do de todo em volío coração , e em voíTas
obras por imitação de íua vida.
Quando eftiverdes enferma oferecei todas
voíTas dores penas e moleftias ao fervfço de
NolTo Senhor , e pedi-lhe os ajunte aos tor-
mentos que padeceo por vós. Obedecei ao
Medico, tomai os medicamentos , manjares,
e mais remédios por amor de Deos , lembran-
do-vos do fel que tomou por amor de nós.
Defejai farar para o fervir , naõ recufeis en-
fermar por lhe obedecer : e difponde-vos a
morrer , fe for do feu agrado , para o louvar
c gozar deile. Lembrai-vos de que as abelhas,
quando fazem o mel , comem e vivem de
hum mantimento mui amargofo : e que tam-
bém nós naõ podemos já mais fazer a&os de
maior manfidaó e paciência , nem fabricar me-
lhor o mel de excelentes virtudes , do que
quando comemos o paõ da amargura, e vi-
vemos no meio das anguftias E aííim como
o mel que fe faz da flor do tomilho , herva
pequena e amargo fa , he o melhor de todos ;
aííim a virtude que fe pratica na amargura das
mais vis abatidas , e deíprefiveis tribulações ,
he a mais excelente de rodas. ,
Olhai a miúdo com os olhos interiores pa-
ra Jefu Chrifto crucificado , nu , blasfema-
do , calumniado , defamparado , e em fim
oprimido de toda a forte de injurias trifteza c
trabalhos: e ponderai, que todas as vofias pe-
nali-
A5 V I D A D E V O T A. I43
nalidades , nem em qualidade nem em quan-
tidade fe podem em modo algum comparar
com as íuas : e que já mais podereis padecer
por elle coifa alguma , que valha o que elle
padeceo por vós.
Confiderai as penas que os Martyres fofre-
raó , e as que muitas pelToas padecem , mais
graves que as voflas fem comparação , e di-
reis : Oh quanto faó confolaçóes os meus tra-
balhos , e as minhas penas roías ; em compa-
ração dos que fem íocorro , fem aííiítencia ,
fem alivio , vivem huma morte continua ,
oprimidos de aflições infinitamente maiores!
CAPITULO IV.
Da humildade no exterior.
PEdi empre fiados ( difie Elifeo a huma po-
bre viuva) e tomai muitos <vafos fem na-
da , e lançai nelles o a\eite (1). Para receber
a çraça de Deos em noiTos corações , he ne-
ce/Tario tèlos vazios da noíía própria gloria.
O tataranho gritando e vigiando as aves de
rapina as efpanra , por huma propriedade e
virtude fecreta : e cila he a caufa , porque as
pombas os amaó mais que todas as outras
aves 5 e vivem feguras em fuá companhia.
Deite modo , a humildade rebate a Satanás ,
c conlerva em nós as graças e dons do Efpiriro
San-
CO Reg. 4. v. j.
144 Introducçao
Santo : e por iíTo os Santos , e mais particu-
larmente o Rei dos Santos e fua Mái Santiííi-
ma , honrarão fempre e amáraó eíta virtude ,
mais que nenhuma outra , entte todas as mo-
raes.
Chamamos vá a gloria que nos atribuí-
mos ou pelo que naõ eftá em nós , ou pelo
que eítâ em nós e naõ lie noffo : ou pelo que
eftá em nós , e he nollo , mas naó merece
que dilíò nos gloriemos. A nobreza de gera-
ção , o favor dos grandes , a honra popular ,
faó coifas que naó eftaó em nós , mas em
noíTos antepaílados , ou na eftimaçaõ de ou-
trem. Alguns ha que fe moftraõ altivos e ar-
rogantes, por fe verem fobre hum bom cavalo,
por terem hum penacho no chapeo , por efta-
rem veílidos ricamente : mas quem deixa de ver
eira loucura ? porque fe nifío ha alguma glo-
ria , he para o cavalo 3 para o paíTaro , e pa-
ra o alfaiate : e que maior baixeza de ani-
mo , que fundar a própria eftimaçaõ em hum
cavalo 3 em humas plumas , ou em hum vef-
tido í Outros fe prezaó e remirão por trazerem
os bigodes mui levantados , a barba bem pen-
teada , o cabelo encrefpado ; por trazerem as
mãos macias , por faberem dançar , jogar , e
cantar: e naó he ifto leveza de animo , que-
rer inculcar valor , e ganhar reputação em
coifas ta-õ frívolas e ridículas? Qutros por hu-
ma pouca de ciência , querem fer refpeitados
do mundo ; como fe todos houvelTem de
ir á fua efcola , e tèlos por meftres : merecen-
do com ifto , que lhes chamem pedantes.
Outros fe pavoneaô na confideraçaó d;i fua
fer-
A* V I D A DEVOTA. 145*
fermofura , crendo que levaó os olhos a rodo
o mundo : Tudo iíto he vanilíimo , ítolido ,
e impertinenre : e a gloria que íe toma de taõ
fracos fundamentos 3 chama-fe vá louca e frí-
vola.
O bem verdadeiro fe conhece como o ver-
dadeiro balfamo : faz-íe prova do balfamo
diítilando-o em agoa : porque fe vai ao fun-
do e aiTenta em baixo , fe avalia pelo mais fi-
no e preciofo : aílim para conhecer fe hum
fujeito he verdadeiramente fabio , entendido,
generofo , e nobre , fe ha de ver , fe os feus
bens fe encaminhaô á humildade modeftia e
fubmilíaó ; porque entaõ feraó verdadeiros
bens : mas fe nadaó ao de cima , e querem fer
viítos , feraó bens tanto menos verdadeiros ,
quanro forem mais apparentes. As pérolas
que fe formaó e criaó ao vento , e ao rumor
dos rrovões , ainda naõ «tejn de pérolas mais
que a cafea , e eítaó vazias de fubítancia :
aílim as virtudes e boas qualidades dos ho-
mens , que fe geraó e nutrem em foberba of-
tenraçaô e vaidade, naõ tem mais que huma
íimples apparencia de bem , fem fuco , fem
miolo , e fem folidez.
As honras as graduações as dignidades fao
como o açafrão , que fe torna melhor e mais
abundante , quando o pifaó aos pés. Naõ he
honra fer gentil , quando ha jactância de o
fer : a fermofura para ter graça , deve-fe dei-
prezar : a ciência deshonra-nos , quando nos
incha , e degenera em pedantaria.
Se formos caprichofos pelos lugares aflert-
ics e títulos } além de expormos os noílos pre-
K dica*
146 Introducçaó
dicados ao exame indagação e contradição ,
nos fazemos vis e defprcíiveis ; porque a hon-
ra que he fermola fendo recebida como dadi-
va , he vileza quando he bufeada , requeri-
da , e demandada. Quando o pavaó para fe
ver , faz a fua roda , em levantando fuás fer-
mofas plumas , fe arripia em todo o reílan-
te do corpo , molhando por toda a parte
o que rem de disforme. As flores que faó
fermofas plantadas na terra , murchaó-fe fen-
do manuíeadas. E aííim como os que cheiraõ
a mandragora de longe e de paílagem , rece-
bem muita fuavidade , mas os que a fentem
de perto e de efpaço , lhes caufa modorra e
enfermidade : aííim as honras caufaó huma
fuave confolaçaó aos que as cheiraõ de longe
e levemente , fem fe encanarem , nem embe-
berem nellas : mas aos que fe lhe aíFeiçoaó e
apafeenraó nellas, faó por extremo reprehen-
fiveis e vituperáveis.
O ferimento , e amor da virtude prin-
cipia a fazer-nos virtuofos ; mas o fegui men-
to e amor das honras começa a fazer-nos def-
prefiveis e vituperáveis. Os ânimos nobres
naó fe embaraçaõ com eíías ninherias de pof-
tos honras e faudaçóes : ocupaô-fe em outras
coufas : iíTb lá he próprio de ânimos afemina-
dos. Quem pôde haver pérolas naó fe carrega
de conchinhas: e quem afpiraá virtude , naó
fe d i (Vela por honras. Na verdade pôde qual-
quer ocupar o feu pofto , e confervar fe nel-
le , fem ofender a humildade , com tanto que
ifto fe foçi modeftameme , e fem contenda :
porque aííim como os que vem do Peru , alénj
do
a5 Vida devota. 147
âo ouro e prata que tiraó , trazem também bu*
gios e papagaios; porque lhe cuílaó pouco ,
e também carregaõ pouco os navios : aííim 03
que bufcaó a virtude naó deix::ó de tomar os
feus poítos e honras , que lhes fa ó devida^ ,
com tanto que illo lhes naó cufte demafiado
cuidado e atenção , e fe naó carreguem de
içaó delaficcego difputas e contendas.
Naó ralo porém daquelles , cuja dignidade
dís refpeito ao publico , nem de cenas oca-
fióes particulares , que trazem grandes coníe-
quencia^ ; porque nifto deve cada hum con«
fervar o que lhe pertence , com tal prudência
e diferiçaó 3 que vá acompanhada de caridade
e correzia.
CAPITULO V.
Ba Humildade mais interior.
DEfejareis porem , Philotea , que vos con-
duza mais adiante na humildade ; por»
que praricando-a como tenho dito ate agora ,
mais parece prudência que humildade : paíío
pois adiante. Muitos ha que naó querem nem
fe atrevem a penfar e confiderar as roercês-
que Deos lhes tem feito em particular ? teme-
rofos de cahir em vágloria e corrpbcencia :
no que certamente fe enganaó. Porque como
diz o Doutor Angélico , o verdadeiro meio
de checar ao amor de Deos , he a ccníidera-
çaõ dos feus benefícios ; porque quanto rruis
os conhecermos , mais o amaremos ; e como
K ii H
148 Introducçao
os benefícios particulares movem mais pode-
rofamente que os comuns , por iíío mefmo
elevem fer confiderados mais atentamente. Por
certo que nada nos pôde humilhar tan;o dian-
te da mifericordia de Deos , como a multidão
de feus benefícios: e nada humilhar ranto di-
ante da fua juftiça , como a multidão de nof-
ías maldades. Coníideremos o que obrou por
nós ,*e o que temos obrado contra elle : e
aííim como confideramos por miúdo os noíTos
pecados , coníideremos também por miúdo os
feus favores. Naó ha que temer, que o co-
nhecimento do que pos em nós nos inche , com
tanto que acendamos a efta verdade , que
quanto em nós ha de bom naó he noíTo. Por
ventura as mulas deixaõ de fer brutos grolTei-
ros e hediondos , por eftarem carregadas de
traftes preciofos e aromas do Príncipe í Qiie
ternos nós de bom , que nzo tenhamos recebido ?
e fe o temos recebido , porque nos queremos en-
soberbecer (i)í Ao contrario, a viva confide-
raçaó das graças recebidas } nos fas humil-
des : porque o conhecimento gera reconheci-
mento. Mas fe vendo os benefícios que Deos
nos tem feito , algum género de vaidade nos
vier inquietar , fera remédio infalível recor-
rer á confideraçaõ das noiTas ingratidões , e
das nollas imperfeições e miferias : fe confide-
xarmos o que obrávamos quando Deos naó
eftava comnofeo , conheceremos bem , que o
que
(O Corinth. 4. v. 7. Quld babes , quod non acce-
a> Vida devota. 149
que obramos quando nos aííifte , naó provem
da noila induítria e diligencia : alegrarnoshe-
mos verdadeiramente e nos regozijaremos pe-
lo que temos; mas glorificaremos unicamen-
a Deos , pois elle he o author.
AÍIim confeíTou a Virgem Santiflima que
Deos obrou nella coufas grandes : mas naó
foi fenaó para fe humilhar e magnificar a
Deos: Minha alma , dizia) magnifica ao Se-
nhor , porque me tem feito grandes coifas (1).
Muitas vezes dizemos , que fomos a mef-
ma miferia e lixo do mundo : más naó fenti-
riamos pouco , fe nos executaííem pela pala-
vra , e nos publicatlem por taes , quaes dize-
mos fer. Pelo contrario outras vezes , tingi-
mos que fugimos e nos efcondemos , para que
vaó cm nolTo feguimento e nos bufquem : da-
mos moftras de querer fer os últimos e fentar-
nos no fim da mela , mas com o intento de
paíTar mais ventajofamente á cabeceira. A ver-
dadeira humildade naó moilra que o he, e
gaita poucas palavras de humildade : porque
naó fó deíeja encobrir as outras virtudes , mas
também e principalmente a íi mefma : e fe
lhe fora licito mentir fingir ou efcandalizar o
próximo , romperia em acções de arrogância
e ferocidade , para com ifto fe encobrir 5 e vi-
ver totalmente defconhecida e encoberta. O
meu parecer , Philotea , he , que ou naó di-
gamos palavras de humildade , ou as diga-
mos
(1 ) Luc. 1. v. 46. Magnificat anima mca Vcmi-
tmm , Z?c. v. 46. Qula Jzcit mihl magna qui pciens
eji , fjrc.
T^o Introducçao
tnos com verdadeiro affe&o interior , confor-
me ao que pronunciamos exteriormente : naó
abaixemos nunca os olhos fenaó humilhando
noífos corações , nem façamos femblante de
querer fer últimos , fenaó querendo-o fer de
boa vontade. Tenho efta regra por raó geral ,
que lhe naó admito exceiçaó alguma. Unica-
mente acrecenro , que a civilidade requer ,
que algumas vezes ofereçamos o melhor lu-
gar aos que certamente o naó haó de aceitar:
ifto naó he dobrez , nem humildade falfa ;
porque nefte cafo , o oferecimento per fi fó ,
fie hum principio de honra ; c jà que fe naó
pode dar toda inteira , naó fera defacerrado
dar-lhe o principio. O mefmo digo de algu-
mas palavras de honra e refpeito , que em ri-
gor naõ parecem verdadeiras : ainda que baf-
tantemente o faó , com tanto que o coração
de quem as pronuncia , tenha verdadeira in-
tenção de honrar e refpeitar aquelle por quem
as diz : porque air\da que as palavras fígnifi-
quem com algum exceíTo o que dizemos 5 naõ
fazemos mal em ufar delias , quando o eílilo
comum o requer. Verdade he , que rambem
quizera 3 que as noíías exprefsóes fe confor-
marem com os noíTos affedios quanto foffe
poííivcl , para feguirmos em tudo e por tudo
a ílngeleza e candidez cordial.
O homem verdadeiramente humilde mais
eftimara , que outro diga delle que he mife-
ravel , que he hum ninguém ? que nada vai ,
do que dizelo elle mefmo : ao menos fe fabe
que o dizem , naó o contradiz , ames de boa-
mente fe Jkcomoda ; porque entendendo-o
aílim
Ay Vida devota. i^i
a/fim firmemente , folga de que figaó a fua
opinião. Dizem muitos , que deixaó a Oração
mental para os perfeitos , e que elles naô fa5
dignos de a ter : outros proreftaó , que fe naó
at;evem a comungar a miúdo , por fe naó
acharem baftantemente puros : outros , que
temem afrontar a devoção dando-fe a ella ,
por caufa de fua grande miferia e fragilidade :
e outros recufaó empregar o feu talento no fer-
viço de Deos e do próximo , porque ( dizem
eiies ) conhecem a fua fraqueza , e tem medo
de fe enfoberbecer , e de que alumiando a
outros venhaó dles a perder-íe. Tudo ifto naó
he fenaõ fingimento , e hum género de hu-
mildade naó fó falfa , mas maligna , com a
qual querem tacita e futilmente infamar as
coifas de Deos , ou ao menos cubrir com o
precexto de humildade , o amor próprio da
fua opinião , do feu génio , e da fua pregui-
ça.
Pedi a Deos hum fin.tl la do alto do Ceo ,
on em baixo do profundo do mar (i) , ( diíTe
o Profeta ao infeliz Achab ) a que elle ref-
pondeo : Na o por certo , nao pedirei tal , nem
tentarei ao Senhor (2): Oh protervia ! finge
grande reverencia para com Deos , e íob ca-
pa de humildade fe efcuía de afpirar á graça ,
a que a Divina bondade o chama : fem aten-
der , que quando Deos nos quer fazer mercês,
he íoberba engeitalas : que os dons de Deos
nos
(1) Ifaiae7. v. 11. Petc tibifígnum a Domino Vco
tuo , ui profundam tnfgrnu
(2) v. 12. Non petam , IS" non tentabo Dominam,
tjfi Intboducçaõ
nos obrígaõ a que os recebamos , e que he
humildade obedecer com a maior prefteza pof-
íivel os Teus defejos. O defejo de Deos he ,
que fejamos perfeitos , unindo-nos a elle , e
que o imiremos o melhor que pudermos. O
loberbo que fé fia em íl próprio , muita razaó
tem para fe naó atrevera intentar coifa algu-
ma; mas o humilde he tanro mais animoío ,
quanto fe conhece mais inhabil : e á medida
que fe tem por cobarde , fe fas mais refolu-
to : porque tem toda a fua confiança em Deos,
que fe ferve de magnificar fua omnipotência
na noífa fraqueza , e elevar a fua mifencor-
dia fobre a noífa miferia. Devemos pois hu-
milde e fantamenre acometer tudo aquillo ,
que julgarem conducente ao noíTo adiantamen-
to , aquelles que guiaó noíTas almas.
Julgar que fabemos o que naó fabemos ,
he loucura manifefta : queremos moítrar fa-
bios no que bem conhecemos , que ignora-
mos , he vaidade intolerável : eu pelo menos
tanro naó quizera oítentar-me ciente daquilo
que fei , como pelo contrario affectarme igno-
rante. Quando a caridade o pede , devemos
comunicar com o próximo rendida e fuave-
mente , naó fó o que he neceífario para a fua
inítrucçaõ , mas também o que he útil para
fua confolaçaó: porque a humildade que ef-
conde e encobre todas as virtudes para as con-
fervaf , naó obítanre as faz apparecer , quan-
do o ordena a caridade , para aumenta-las en-
grandece-las e aperfeiçoa-lac. No que íe alTe-
Hielha à^uella arvore das ilhas de Tylos , a
qual de noite aperta e tem fechadas fuás be-
las
Ay Vida devota. 15*3
las flores encarnadas , e fó as abre ao nafcer
do Sol : de forte que os moradores do paiz ,
dizem que enras rlores dormem de noite ; por-
que alfim encobre a humildade e efconde to-
das noffas virtudes e perfeições humanas , que
nunca já mais as deixa aparecer fenaó pela ca-
ridade ; que por ler virtude naó humana mas
celeítial , naó moral mas divina , he o verda-
deiro Sol das virtudes, fobre as quaes deve
fempre dominar : de forte que as humildades
que prejudicaó á caridade , faô indubitavel-
mente falfas.
Quanto a mim , naó quizera fingir-me lou-
co nem fabio : porque fe a humildade me im-
pede moítrarme fabio , a íincerídade e lhane-
za me impede o moftrarme louco : e f e a vaida-
de he contraria á humildade , os eít:atn?em2s
o fingimento e affeclaçaó faô conrrarios á lha-
neza e finceridade. E fe alguns grandes fervos
de Deos fizeraó papel de loucos , para fe fa-
zerem mais defpreílveis para com o mundo ,
devemo-los admirar e naó Imitar; porque ti-
veraó motivos para romper neítes excéíTos
taó particulares e extraordinários , de que
ninguém deve tirar confequencia para íi. E
fe David dançou e bailou hum pouco mais
que a ordinária decência pedia , dianre da Ar-
ca do Teftamento , naó foi por fe fingir lou-
co , mas fincéramente e fem fingemento fez
aquelles movimentos exteriores , conforme a
extraordinária e defmedida alegria , que fen-
tia em feu coração. Verdade he que quando
Miccl fua mulher , o reprehcndeo diílo , como
de loucura , naó moít,rou ferui mento de íe ver
1^4 Introducçaó
defprezado , mas perfeverando na fubílancia
e reprefenraçaó da fua alegria , teftemunhou
que Te alegrava de padecer hum pouco de
opróbrio por amor de Deos. Por concíufaó
vos venho a dizer ; que íe pelas acções de hu-
ma verdadeira e natural devoção , vos tive-
rem por vil , defpreílvel ou louca , a humil-
dade vos fará alegrar deite feliz opróbrio , a
caufa do qual naõ eílà em vós , mas nos que o
fazem.
CAPITULO VI.
Qtie a Humildade nos fa\amar o noffo próprio
defprefo.
P Afiando pois mais adiante , di>o-vos Phi-
lotea, que em tudo e por tudo ameis a vof-
fa própria abjecção : dirme-heis porém , que
quer dizer amai a voífa própria abjecção í No
Latim abjecção quer dizer humildade , e hu-
mildade quer dizer abjecção : de forte que
quando NoíTa Senhora em fen fa^rado Cânti-
co diz: que por que NolTo Senhor vio a hu-
mildade de fua ferva todas as gerações a cha-
mariaó bemaventurada , quer dizer , que N.
Senhor olhou com agrado para a fua abjecção
abatimento e vileza , para a encher de graças
e favores.
Ha com tudo diferença entre a virtude da
humildade , e a abjecção : porque a abjecção
he a pequenhez , abatimento , e vileza , que
eítá em nós , fem que nós o cuidemos : mas
quan*
a5 Vida devota. 157
quanto á humildade , he o verdadeiro conhe-
cimento e voluntário reconhecimento da noífa
abjecção. O ápice pois defia humildade naõ
confiit-e fomente em reconhecer de boamente
a própria abjecção , mas em amala e compra-
zer-nos neila : e iito naó por falta de animo
e generofidade , mas para mais exaltar a Di-
vina Mageítade , e eínmar mais o próximo
em comparação de nós mefmoí. A iíto he que
vos exhorto , e para melhor o entenderdes ,
fabei : que entre os males que fofremos , huns
faõ abatidos e outros honroios : muitos fe acõ-
modaó com os honroios , mas quafi ninguém
fe quer acomodar com os abatidos. Olhai pa-
ra hum devoto Ermitão todo roto e frioren-
to , todos honraó feu habiro confumido com
compaixão do feu incomodo : mas fe hum
pobre orHcial huma pobre donzela padecerem
o mefmo , os defprezaó e remoqueaó : e eif-
aqui como a fua pobreza he abatida. Hum
Religiofo recebe devotamente huma afpera
correcção de feu Superior , ou hum filho de
feu pai : ninguém deixará de chamar a eíta
mortificação , obediência e fabedoria : hum
Cavalheiro ou huma Senhora fofrerá que qual-
quer lhe faça o mefmo , e pofto que feja pelo
amor de Deos , todos lhe chamarão cobardia e
pufilanimidade. Eifaqui ourro mal abatido. Hu-
ma pelTòa tem hum cancro em hum braço ,
ourra no roíto : aquella naó tem mais que o
mal , mas efta com o mal tem o defprezo a
ignominia a abjecção. Por canto digo , q^e
convém naó fò amar o mal ; o que fe pratica
pela virtude da paciência ; mas também ha-
iç6> Introducçaô
vemos de eftimar o abatimento , o que fe exe-
cuta pela virtude da humildade.
Além de que , ha virtudes abatidas e vir-
tudes honrofas : a paciência a manfidaó a fin-
geleza a mefma humildade, faó virtudes que
os mundanos tem por vis e abje&as : pelo
contrario prezaõ muiro a prudência a valen-
tia e a liberalidade. Acções ha ainda de hu-
ma mefma virtude , das quaes humas faó def-
prefiveis , outras honrofas : dar efmola e per-
doar ofenfas , faó dois a&os de caridade , o
primeiro todos o honraõ , o fegundo he def-
preíível aos olhos do mundo. Hum moço no-
bre ou huma donzela principal , que naó fe
meterem na aífemblea diítrahida , em falar
jogar danfar beber veítir , feraó murmurados
e cenfurados dos outros , e chamarão á fua,
moceftia hypocrifia ou afTe&açaó : amar ifto
he amar a fua abjecção. Eifaqui outro géne-
ro. Vamos vifirar os doentes , fe me envia-
rem ao mais miferavel , fera para mim de
abarimento , fegundo o mundo , e por iiTo o
eftimarei : fe me mandaó aos de maior quali-
dade , ferme-ha de abatimento fegundo o ef-
piriro , porque aqui naó ha tanta virtude e
merecimento : amarei por tanto efta abjecção.
Se cahir no meio da rua , além do prejuízo ,
padeço a vergonha : devo amar efte abatimen-
to. Também ha faltas, nas quaes naó ha ou-
tro damno fenaó o abatimento : a humildade
naó pede , que fe cometaó determinadamen-
te , pede fim que nos naó perturbemos, quan-
do as tivermos cometido : taes faó cenos gra-
cejos incivilidades e inadvertências , as qunes
aííira
a5 Vida devota. 157
aííim como fe devem evirar antes de cometi-
das , por fatisfazer á cortezia e prudência ;
alíim também cahindo nellas , nos devemos
acommcdar com o abatimento que nos ren-
dem , e aceitalas de boamente parafegmra
fanta humildade. Ainda digo mais : le me
defmandei , por caufa de cólera ou diiTolucaó,
em proferir palavras indecentes , com que
ofendi a Deos e o próximo ; me arrepende-
rei vivamente , e fencirei fummamente a ofen-
fa , a qual procurarei remediar o meihor que
me for poílivel : mas nem por iíío deixarei de
abraçar a abjecção e defpiezo que me reful-
tar : e íe huma coifa fe pudeíTe feparar da ou-
tra , lançaria de mim o peccado vigorofamen-
te 3 e aceitaria de boamente o abatimento.
Mas ainda que naó amemos o abatimento
que fe fegue do mal , nem por illo fe ha de
deixar de remediar o mal que fe tiver caufado,
pelos meios próprios e legitimos , principal-
mente quando o mal he de conlequencia. Se
tiver no roílo alguma mokftia , que me fir-
va de defprezo , procurarei curai a , mas naó
me efquecerei do abatimento que tiver rece-
bido. Se obrei alguma coifa que naó ofendeo
a ninguém , naó me efcufarei , porque ainda
que feja falta , naó fendo permanente , feria
efcufar-me unicamente do abatimento que me
refultou : ifto he o que a humildade naó per-
mite. Mas fe por negligencia ou loucura ofen-
di ou efcandalizei a alguém , remediarei a
ofenfa com aleuma efcufa verdadeira , por-
que o damno permanece , e a caridade me
çbriga a desfazè-lo. Algumas vezes fuccede ,
153 Intp. oducçao
pedir a caridade, que remediemos a abjecção
por caufa do bem do próximo , a quem a
noíja reputação he necelíaria : mas nelte ca-
ío tanto que tirarmos o nolTo abatimento dos
olhos do próximo, para evitar o feu eicanda-
lo , devemos cerrais , e encubri-lo em noílo
coração, para que fe edifique.
Mas querereis talvez faber , Philotea ,
quaes faõ. as melhores abjecções. Digo-vos
abertamente , que as mais proveitofas á alma
e agradáveis a Deos , faó as que nos vem por
ácaro , ou pela condição da noíTa vida : poF*
que as naó elegemos , mas as recebemos taes,
quaes Deos no-las quer mandar , cuja elei-
ção he fempre melhor que a noíTa. Se hou^
veíTemos de efcolher , as maiores faó as me«
lhores : e aquellas fe julgaó maiores , que faó
mais contrarias ás noíTas inclinações , com
tanto que fejnó conformes á noíTa vocação ,
porque ( por dizer tudo de huma vez) a noíTa
efcofha e eleição desfalca e diminue quaíl to-
das as virtudes. Oh quem nos dera , poder
dizer com aquelloutro. grande Rei : Efcolhi
fer def prendo na cif a, de Deos , antes que ha-
bitar nos tabernáculos dos peccadores (1). Nin-
guém o pode , cariflima Philotea , fenaó a-
quelle que por nos exaltar , viveo e morreo
de forte , que foi o opróbrio dos homens , e
a abjecção do povo.. Muitas coifas vos tenho
dito . que vos parecerão duras quando as con-
fide-
( l ) Pfalm. 8j. *r. 11. Elegi abje&us efje In doim
T>ci má magis quami habitare m tabernacutis peccato*
rum.
a5 Vida devota. 15-9
fiderardes , mas crede-me , que vos íeraó mais
doces que o alíucar e o mel , quando as prati-
cardes.
CAPITULO VII.
Como fe ha de cortfervar o bom nome , f rati~
cando a humildade.
O Louvor a honra e a gloria , naõ fe daõ
aos homens por huma fimples virtude ,
ipas por huma virtude excelente. Porque com
o louvor, queremos perfuadir aos outros, a
que eftimem a excelência de alguns : com a
honra , protejamos , que nós mefmos os efrj-
mamos : e a gloria ( a meu ver ) naó he ou-
tra coifa , mais que hum cerro refplandor da
reputação, procedido do cumulo de muitos
louvores e honras. De forte que os louvores e
honras faõ como pedras precio^ , de cuja
uniaõ procede a gloria , como hum efmake.
Naõ podendo pois a humildade fofrer, que
tenhamos alguma opinião de exceder e fer pre-
feridos aos outros , também naõ pode confen-
tir que bufquemos a honra o louvor e a glo-
ria , que fó á excelência faõ devidos : naõ
obílante, confente com a advertência do Sábio,
(1) que nos admoefta ; que tenhamos cuidado
áo nolío bom nome ; porque o bom nome he
huma eftimaçaõ , naõ de alguma excelência ,
mas de huma fimples e geral bondade e intei-
reza
— j
.CO Ecclif. 41. v. 25, Curam habt dt hono nomlne.
i6o Intkoducçao
reza de vida , que a humildade naõ embara*
ça reconheçamos em nós mefmos , nem por
coníegmn e que defejemos a reputação. Ver-
dade he que a humildade defprezaria a fama ,
fe a caridade a naõ houveffe mifter : mas por-
que ella he hum dos fundamentos da focieda-
de humana , e fem ella fomos naõ fó inúteis,
mas prejudiciaes ao publico , por caufa do ef-
candalo , que recebe j pede a caridade e a-
prova a humildade , que a defejemos e con-
servemos pieciofamente. Além de que , aílim
como as folhas das arvores , que em fi naõ f ao
de muita eftima , fervem com tudo de mui-
to , naõ fó para as adornar , mas também pa-
ra confe var os frutos em quanto eftaô ver-
des : sffim a boa fama que de fi mefma naõ
he coifa para muito defejar , naõ deixa de fer
tltil , naõ fomente para adorno da noffa vida ,
fenaó também para confervaçaó das noíTas vir-
tudes , principalmente das virtudes tenras e
fracas. A obii^açaó de confervar a nolTa re-
putação , e de fermos tacs quaes nos julgaó ,
obriga hum coração generofo com poderofa e
íuave violência. Confervemos as noíTas virtu-
des , minha cariílima Philotea , porque faó
agradáveis a Deos , grande e foberano objecto
de rodas noíTas acções. Mas aííim como os
que querem guardar a fruta , naõ íe contén-
taó fó com a confeirar , mas a põem em va-
los próprios á fua confervaçaó ; na mefma
forma , pofto que o amor Divino feja o prin-
cipal confervador de noíTas virtudes , pode-
mos também valer-nos da boa fama, como
inui própria e útil para iilo.
Naõ
a' Vidadevota; i6r
Naó devemos porém fer muito ardentes
exa&os e caprichoíos por eíla confervaçaõ ;
porque os que íaó raó delicados e fencidos pe-
la reputação própria , parecem-fe com aquel-
les que por qualquer achaque , por pequeno
que feja , tomaó remédios , e cuidando que
confervaó a faude a eítragaõ d? tcdo : aííim
eftes querendo manter raó delicadamente a fua
reputação , a perdem inteiramente ; porque
por efta delicadeza , fe fazem odioíos aborre-
civeis , e infuportaveis , e pr^vocaõ a malícia
dos maldizentes.
A diífímulaçaõ e defprezo da injuria e ca*
lumnia , he de ordinário hum remédio mais
íaudavel , que o refemimento a porfia e vin»
gança : o defprezo as faz defvanecer , agaftar»
nos por cauía delas he publica-la^. Os croco-
dilhos naó prejudicaó íenaó a quem es teme ,
nem taô pouco a murmuração , fenaó a quem
faz caio delia.
O temor exceíTivo de per'er a honra . he
final de grande defeonfiança do fundamento
delia , que he a verdade de huma boa vida,
As cidades que tem pontes de madeira fobre
grandes rios, temem que qualquer cheia lhas
derrube ; mas as que as tem de pedraria , fó
lhes daó cuidado as inundações extraordiná-
rias. Aííim os que tem huma alma fclidamen-
te Chridá , de ordinário dcfprezaó 3S enchen-
tes das linguas injuriofas; mas os que fe fen»
tem - fracos , fe defalíocegâó por qualquer coi-
fa. Na verdade , Philotea , quem quer ter re-
jptyaçaõ para com todos, para com todos a
"pȒde : e aquelle merece perder a honra , que
L *
161 Introducçaõ
a quer receber daquelles , a quem os vícios
fazem verdadeiramente infames e deshonra-
dos.
A reputação he como hum final , que dá
a conhecer onde mora a vhtude: portanto
eíta deve fer em tudo e por tudo preferida.
Donde he , que fe alguém diíTer , que fois
hum hypocrita , porque vos dais â devoção :
fe vos tiverem por homem de baixos elpiri-
tos , porque perdoares a injuria , zombai de
tudo illo ; porque além de que femelhantes
juízos , faó de gente nefcia e louca ; quando
fe houveíTe de perder a honra, nunca fe devia
deixar a virtude , nem defviar do caminho
delia ; porque o fruto fempre fe deve antepor
ás folhas : ifto he , o bem interior e efpiri-
tual , a todos os bens externos. Bem he que
fejamos zeloíos , mas naó idolatras da nolTa
honra : e aílim como fe naó devem ofender
os olhos dos bons , rambem fe naó deve que-
rer agradar aos dos perverfos. A barba he or-
nato do rofto do homem , e o cabelo da cabe-
ça da mulher : fe fe arrancar totalmente o
cabelo da barba e da cabeça , dificulto la men-
te tornará a nafcer ; mas fe fomente o corta-
rem , virá depois mais rijo e bafto : Por feme-
lhante modo , ainda que a fama feja cortada ,
ou totalmente rafpada pela lingua dos maldi-
zentes , que he , como diz David (i) , como
huma navalha afiada : naó nós devemos âcf"
alíocegar ; porque brevemente renafcerap naó
'fó
(O Plahxi. $1. v. 4. Sieut novasula acuta , ©V. I
\
a5 Vida devota. 16$
fó raó fermofa como era dantes , mas ainda
mais foiida. Porém fe os nolTos vícios , a noN
fa frouxidão , e a nolTa má vida nos lira a re-
putação , dificultofo fera que a tornemos a re°
cobrar , porque a raiz íicou arrancada, A raiz
da honra he a bondade e probidade , a q-jaí
em quanto efíiver cm nós , fempre pôde pro*
duzir a honra que lhe he devida.
Devemos deixar a converfaçaó vã , a pra*
tica inútil , a amizade frívola , o coftume fá-
tuo , íe ifto prejudicar á boa fama ; porque o
credito vai mais, que todo o género de vaõ
contentamento : mas fe por cauia dos exercí-
cios de piedade , do adiantamento na devo-
ção , e do caminhar para os bens eternos,
murmuraó , rofnaó e calumniaõ , deixemos
ladrar os cáes contra a Lua ; porque íe pode»
rem excitar alguma má opinião contra a noíTa
honra , e por eít.e meio cortar e rafpar os ca»
belos á barba da noíTa reputação , brevemeiv
te renafcerá efta , e a navalha da murmura*
çaõ fervirá á nolía honra, como o podaõ %
vinha , que a faz abundar e multiplicar em fru-
tos.
Tenhamos fempre os olhos em Jefu Chrif-
to crucificado , caminhemos em feu ferviço
com confiança e fingeleza , mas fâbia e dif-
cretamente : elle fera o protector do nolTo bom
nome : e fe permitir que nos feja tirado 3 tei&
para nos dar outro melhor , ou para que a-
proveitemos na fanta humildade , da qual hu-
xna íó onça vai mais que mil libras de hon-
xas. Se nos infamarem injuftamente , oppo-
uhamos com focego a verdade á calumnia : fe
L N cite
TÓ4 Introducçao
cita perfeverar , perfeveremos nós em nos hu-
milhar : pondo alKm a noíía reputação com a
noíTa alma nas mãos de Deos , naó podere-
mos íegurala melhor. Sirvamos a Deos pela
boa e mâ fama , a exemplo de S. Paulo (i) ,
para que políamos dizer com David : Deos
meu , por iw'í he queeufofri o opróbrio , e meu
rofio fe cobrio de confufao (2) .
Ifto naó obftante , exceptuo certos crimes
taõ atrozes e infames , que ninguém deve fo-
frer a calumnia , quando j«ftamente a pôde
rechaçar : e certas peílòas , de cuja reputação
depende a edificação de muitos ; porque neí-
te cafo , convém tranquilamente procurar a
fatisfaçaõ do agravo 3 fegundo o parecer dos
Theologos.
CAPITULO VIII.
Da ManfidaÕ para com o próximo 9 e reme-
aios contra a Ira.
O Santo Chrifma , do qual por tradição A-
poftotica fe ufa na Igreja de Deos , nas
Confirmações e Bênçãos, he comporto de azei-
te de oliveira mifturado com balíamo : que
reprefenta entre outras coifas, as duas ama-
das e bem queridas virtudes y que reluzem
na
(O Corinth. 2. 6. v. 8. Per infamiam , er bonam
famam.
(2) Pfalm. 68. v. 8. Proptcr te fujlinui obrohrium ,
tptruit eonjujio fatiem meam*
a5 Vida devota. irjj
na facrofanta peííoa de NoíTo Senhor : que
elle nomeadamente nos recomendou , como
fe por ellas houveíTe de fer o noffo coração
efpecialmene dedicado ao feu ferviço , e ap-
plicado â fua imitação, aprendei de mim ,
( diz elle ) que fott manfo e humilde de cora-
ção (i). A humildade nos faz perfeitos para
com Deos , e a maníldaó para com o próxi-
mo. O balíamo que ( fegundo já diííe ) toma
fempre o lugar infimo em todos os licores,
leprefenta a humildade : o óleo de oliveira ,
que fempre bufca o íuperior , reprefenta a
manfidaó e fuavidade , a qual fobrepuja a to-
das as coifas, e excede a todas as virtudes ,
como flor que he da caridade ; a qual fegun-
do S. Bernardo eftá na fua perfeição , quando
naó' fomente he fofrida , mas além difto he
íuave e benigna. Adverti porém , Philotea ,
que efte Chrifma myftico compofto de manfi-
daó e humildade , efteja dentro do voíTo co-
ração ; porque efte he hum dos eftratagemas
do inimigo , fazer que muitos fe enganem
com as palavras e geftos exteriores deitas duas
virtudes, e fem examinarem bem feus affe-
ôos interiores , cuídaó que faó humildes e
manfos , e o naó faó na realidade: o que fe
conhece , porque naó obílante a fua ceremo-
nial brandura e humildade , á menor palavra
que fe diz contra elles , e á menor injuria
que fe lhes faz , faltaó com arrogância incom-
pa-
(i) Math. li. v.29. Difcite a me , <jula mitisfum ,
«* humtlis cor de.
t66 Intkodvcçaõ
paravel. Dizem , que os que tem tomado o
prefervarivo , chamado vulgarmente a Graça
de S. Paulo , naó inchaó fendo mordidos da
vibora ; com tanto que a graça feja da fina.
De femelhanre modo , quando a humildade
e manfidaó faó boas , e verdadeiras nos faraó
da inchação e ardor, que as injurias coftu-
maó caufar em nofíos corações. E fe fendo
picados pelos maldizentes e inimigos , nos em-
bravecemos inchamos e enfadamos , final he
que a noífa humildade e manfidaó naó faó ver-
dadeiras e ímcéras , mas contrafeitas e ap-
parentes.
O Santo e illuftre Patriarca Jofeph , quan-
do remereo a feus irmãos do Egypto para ca-
fa de feu pai , lhe deo efte único documento :
Nio ijos enfadeis no caminho (i) . O mefmo
vos digo eu , Philotea ; efta miferavel vida naó
he fenaó hum caminho para a bemaventnran-
ça : naó nos agaftemos pois huns com outros ,
caminhemos em companhia de noíTos irmãos
e companheiros fuave aprafivel e íbcegada-
rneme. Ainda vos digo mais claramente e fem
exceiçaó : quanto vos for poíhvel nunca ja-
mais vos ireis , nem admitais pretexto algum
para abrir a porta á ira : pois Santiago diz
abfolutamente e fem exceiçaó : Que a ira do
homem nao obra a juftiçi de Deos (2) . Ver-
dadeiramente devemos refiítir aó mal , e repri-
mir os vicios dos que eít,aó a nolfo cargo ,
conf-
(0 Genef. 45. v. 19. Ne irafcamim in via.
(2) Jacob. 2, v. 20. Ira virljujlitiam Del iwn cpe>
ratitr,
á' Vida devota* 167
confiante e valerofamente , mas com brandu-
ra e focego. Nada aplaca tanto o elefanre ira-
do como a viita de hum cordeirinho , e nada
quebra taó facilmente a força da artelharia ,
como a lá. Naó fe eítima tanto a correcção
que procede de paixaó , poíto que acompa-
nhada de razaó , como a que naó tem outra
origem mais do que a razaó unicamente. Por-
que a alma racional eftando naturalmente fu-
jeita â razaó , naó eftâ fujeita á paixaó fenaó
por tyrania : e por illb quando a razaó eftá
acompanhada da paixaó , fe faz odiofa , en-
velicendo o feu jufto domínio pelo conforcio
da tyrania. Os Príncipes honraó e confolaó
infinito os povos , quando os vifitaô com apa-
rato de paz ; mas quando conduzem exérci-
tos , ainda que feja pelo bem publico , fem-
pre a fua vinda he defagradavel e damnofa 5
porque ainda que façaó obfervar exactamen-
te a difciplina militar entre os Soldados , naó
podem fazer que naó fucceda alguma defor-
dem , com que as peííoas de bem fejaó opri-
midas. Aílim também em quanto reina a razaó,
e focegadamente executa os caftigos correcções
e reprehensóes , ainda que feja com rigor e ex«
açaó , todos a amaó e aprovaó : mas quando
rraz comfigo a ira a raiva e enfado , que faó
( diz Santo Agoftinho) os feus foldados , fe faz
mais terrivel que amável , e feu próprio co-
ração fica fempre oprimido e maltratado. Me-
lhor he , diz o mefmo Santo Agoftinho efcre-
vendo a Profuturo , efcufar a entrada á ira
ainda que jufta e racionavel , que adminla
por pequena que feja ; porque admitida ella ,
he
i68 Introducçao
lie dificultofo defpedila; pois entrando como
hurra renue vergontea , em hum inftante en-
groíTa , e fe faz hum rronco. E fe huma vez
pode ganhar a noite , e o Sol fe põem fobre
a riofla ira (coifa que o Apoítalo prohibe )
fe converterá em ódio , nem haverá remédio
para defpedila ; porque fe nurre de mil per-
íuasces falias; pois nenhum fujeito agaftado
já mais entende que o feu enfado he injufto.
Melhor he pois procurar faber viver fem
cólera , do que querer u<ar delia moderada e
prudentemente : e quando por imperfeição e
Fraqueza nos acharmos furprendidos delia ,
melhor he facudila com prefteza , que que-
rer capitular com ella ; porque por pouco lu-
gar que lhe demos , fe faz fenhora de toda a
praça : havendo-fe como a cobra que intro-
duz facilmente todo o corpo , por onde pode
meter a cabeça. Mas de que modo a rebate-
rei eu? me direis vós. Deveis, minha Philo-
tea , logo que a fentirdes , convocar promp-
tamente voífas forças; naó afpera nem impe-
tuofamerfte , nias fuave e ainda aílim féria-
mente ; porque vemos nas audiências de mui-
tos Senados e Parlamentos, que os Porteiros
gritindo por íilencio , fazem mais rumor , do
que aquelles que querem fazer calar : aííím fuc-
cede muitas vezes, que querendo com ímpe-
to reprmir a noíTa cólera , levantamos maior
motim em noílo coração , do qne ella poderá
ter feito : e o coração eíhndo aífim perturba-
do , naó pode fer fenhor de fi mefmo.
Depois defte fuave esforço , praticai o dl-
âame que Santo AgofHnho fendo já velho da-
va
a3 Vida devota. 169
▼a ao moço Bifpo Auxilio : Fazçi ( lhe dizia)
o que hum homem dei e fazer : e fe<vosfucce-
der o que o varaÕ de Deos di\no Pfalmo (1) :
Meus olhos eftaó perturbados com grande có-
lera : recorrei a Deos clamando : Tende mi fe-
ricordia de mim, Senhor: para que elle eílen-
da fua dexrra , e reprima o vollo enfado. E.u
vos direi, que devemos invocar o auxilio de
Deos , quando nos vemos aditados da cólera ,
á imitação dos Apoitolos , combatidos do ven-
to e tempeftade no meio do mar ; porque cl-
le mandará ás noíTas paixões , que foceguem ,
e fobrevirá grande tranquilidade. Mas fempre
vos advirto # que a oraçaó que fe faz contra a
cólera prefente e violenta y fe deve praticar
fuave e tranquilamente , e naó com violên-
cia : o que fe deve obfervar em todos os re-
médios , que fe praticaó contra eiie mal.
Suppofto ifto j tanto que advertirdes rer
feito algum a&o de cólera , remediai a falra
com hum aâ:o de íuavidade prompramente
exercitado com a mefma peííoa com quem
vos irritaftes ; porque aflim como he hum
grande remédio contra a mentira , defdizer-
nos para logo , tanto que reconhecemos tela
dito ; aííim he bom remédio contra a cólera ,
reparala quanto antes com hum a£lo contra-
rio de brandura ; porque ( como dizem lá )
as feridas frefcas faó mais fáceis de curar.
Além difto , quando vos achai? em tran-
quilidade , e fem ocafiaõ alguma de enfado ,
fa-
(0 Pialm. 30. v. 10.
17o Introducçao
fazei grande provimento de brandura e benig-
nidade , proferindo todas voíTas palavras , e
fazendo todas voífas acções , pequenas ou
grandes , pelo modo mais focegado que vos
for pollivel ; lembrando-vos que a Efpofa no
Cântico dos Cânticos , naó tem fomente o
mel nos lábios e na ponta da lingua . mas de
baixo da lingua: a faber dentro do peito : ê
naó fó tem mel , mas também leite ; porque
naó fó deve haver a palavra branda para com
o próximo, mas todo o peito , iíto he , todo
o interior da noíTa alma : e naó ha de haver
fó a doçura do mel , que he aromático e chei-
ro fo : iíto he a fuavidade da converfaçaó ci-
vil com os eitranhos ; mas também a fuavi-
dade do leite entre os domefticos e vifinhos :
no que erraó enormemente os que na rua pa-
recem Anjos , e em fua cafa diabos.
CAPITULO IX.
Da ManfidaÕ para comnofco.
HUm dos bons exercícios , que podemos
fazer da maníidaó , he aquelle que tem
por objeito a nós mefmos ; naó nos agaftan-
do ja mais contra nós , nem contra nolTas im-
perfeições ; porque ainda que > a razaó pede ,
que quando cometemos faltas nos moftremos
pezarofos e triftes ; naó devemos com tudo
admitir hum defagrado afpero triíte agaftado
e colérico. No que cometem huma grande
falta muitos , que depois de fe agaftarem , fe
en-
A3 V I D A DEVOTA. I7I
enfadac de fe ter enfadado , fe amofinaô de fe
ter amofinado, e fe encolerizaó de fe ter en-
colerizado ; porque par efte modo vem a tec
feu coração embebido e enhafeado em cóle-
ra : e ain^a que a fegunda cólera parece fer
ruina da primeira , com tudo he certo , que
ferre Je porra e palio para outra nova cólera ,
na primeira ocaílaó que fe oíFerecer. Além de
que eíres enfados amofinações e amarguras ,
que temos comnofeo , encaminhaó á íoberba ,
e naó tem ourra origem fenaó o amor pró-
prio , que fe perturba e inquieta de nos ver
impei feitos. Devemos pois ter hum deíprazer
de nnlTas faltas, que feja focegado repoufado
e frme ; porque aííim como o Juiz caiuga
melhor os delinquentes , dando Tua? fentenças
levado da razaõ e efpirito de tranquilidade 5
do que quando as dá com impero e paixaó ;
porque quando caítiga com ella , naó caftis;a
as faltas fegundo ellas faó em fi , fenaó fe-
gundo elie he : aííim também nós , melhor
nos caftigamos a nós mefmos com arrependi-
mentos tranquilos e confiantes , do que com
arrependimentos afperos imperuofos e coléri-
cos ; porque taes arrependimentos executados
com impeto , naó fe executaó fegundo a gra-
veza das noífas faltas , mas conforme as nof-
ías inclinações. Por exemplo : o que fe affeiçoa
á caftidadè , fentirá fummamente qualquer
falta que cometer contra ella , e riríe-ha fo-
mente de huma murmuração em que tiver ca-
hido : pelo contrario , aqnelle que rem ódio
à. murmuração , fe afligirá de ter cometido hu-
ma leve murmuração 3 e naó fará cafo de hu-
ma
172 Introducçaõ
ma falta avultada contra a caítidade : e aflírrt
dos mais. O que naó procede de outra caufa ,
fenaó de que os taes naó formaô juizo da fua
confciencia por mocivo de razaó 3 fenaó leva-
dos da paixaó.
Crede me , Philotea, que aflim como as
admoelfaçóes de hum pai feitas branda e cor-
dialmente , tem muito maior elficacia fobre
hum filho para o emendar , do que os enfa-
dos e agaftamentos : aííim também , quando
o no 'To coração houver cometido alguma fal-
ta , fe o reprehendermos com admoeftaçóes
brandas e tranquilas , tendo mais compaixão
deUe do que paixaó contra elle , animando-o
á emenda : o arrependimento que conceber
pairará mui-o avante , e o penetrará muito
mais , do que o arrependimento agaftado ira-
do e tempertuofo.
Quanto a mim , fe por exemplo tiveíTe
grande affe&o a naó cahir no vicio da vaida-
de , e naó obftante délTe nelle huma grande
queda , naó quizera reprehender o meu cora-
ção deite modo : Naó es tu , miferavel e abo-
minável , o que depois de tantas refoluçóes
te deixaííe arraítar da vaidade? Morre )á de
vergonha , naó levnmes mais os olhos 3o Ceo,
cego impudente traidor e desleal a teu Deos :
e outras coifas femelhantes. Mas antes o que-
reria reprehender anezoadameite por via de
compaixão. Eia pobre coração meu , vês co-
mo cahimos no fofTo , de que tínhamos affen-
tado efeapar ? levantemo-nos e deixemo-lo da-
qui em diante : clamemos á mifericordia de
Deos , e efperemos nella , que nos afliílirâ
pa-
a' Vida devota. 173
para fermos fempre firmes , e comemos pelo
caminho da humildade. Animo , velemos
defde hoje mais fobie nós. Deos nos ajudará ,
e aílim aproveitaremos. Sobre efta reprehen-
faó , quizera fundar huma fólida e firme refo-
luçaó de nunca mais cahir na falta , bufean-
do os meios convenientes p^ra ilío , e do meí-
mo modo o confelho de meu Diredor.
E fe com tudo ifto , alguém achar que o
feu coração fe naô move com efta fuave cor-
recção , poderá valer-íe da injuria , e de hu-
ma reprehenfaó dura e forte , para o excirar
a huma confufaó profunda : com tanto que
depois de o ter aíperamente maltratado e re-
prehendido , rema:e com hum alivio , finali-
zando todo o feu pezar e enfado com huma
fuave e fanta confiança em Deos : á imitação
daquelle grande penitente, que vendo a íua
alma afflida , a confolava deita forte : Por-
que ejias trijie alma minha , e porque me per-
turbas tu ? Éfpera em Deos , porque ainda o
bemdirei , como faude de meu rojio , e meu ver-
dadeiro Deos (1) .
Levantai pois fuavemente o voíTo coração
quando cahir, humilhando-vos muito diante
de Deos , pelo conhecimento da voíTa mife-
ria , fem vos efpanrardes nada da voíTa queda j
porque naô he de admirar , que a enfermida-
de íeja enferma , e a fraqueza fraca , e a mi-
feria
(l) Píalm. 42. v. 5. Quare trijlis es anima mea ,
X? qaare conturbas me ? Spera in Den quoniam adhuç con-
fitskprillifalutari vultas mà , ©• Devi mau,
174 Introducçao
feria mefquinha. Deteftai ainda afíira com to-
das voltes torças a ofenia , que Deos recebeo
de vos; e com hum grande valor c confiança
na lua mifencordia voírai para o caminho da
virtude , que tínheis defamparado.
CAPITULO X.
Que fe hto de fretar os negocior com era dado :
e fem anxíedade nem defaffocego.
O Cuidado e diligencia que devemos ror
em noííos negócios, faó coifas mui di-
verfas da anxíedade defalTòcego e faiiga. Os
Anjos cuidai na noffa falvaçaó , e a procuraõ
com diligencia:, mas nem por iiTo fe anceaõ
delafTocegao e afadigaõ ; porque o cuidado e
diligencia pertencem á caridade , mas a anxíe-
dade fadiga e defaflbcego , ferido contrários
a lua Felicidade ; porque o cuidado e diligen-
cia podem acompanhar-fe de tranquilidade e
paz de animo , mas naó a anxíedade e fadiga ,
e menos o defalTòcego.
Sede pois, minha Philotea , cuidadofa e
diligenre em todos os negócios que tiverdes a
voilo ca~go ; porque ren Jovo-los Deos confia-
do , quer que tenhais delles grande cuidado •
mas fe he poflivel , naó vos entregueis á an-
xíedade e fadiga : qnero dizer , naó os em-
prendais com defalTòcego ansiedade e ar-
dor, nem vos afflijais em lhe dar expediente;
porque todo o género de prelTa perturba a ra-
zão
a3 Vida devota. 17c/
7aõ e o juizo , e nos impede fazer bem aqui-
lo meímo , porque nos afadigamos.
Quando Noííb Senhor reprehendeo a San-
ta Manha , lhe diíTe ; Manha Martha tu te
defajfocegas , e perturbas com muita coifa (1) .
Vede vós como fe ella eftiveíle iimplesmenre
cuidadofa , fe naô perturbaria ; mas porque
eftava com anciã e delaíTocego , fe afrligia e
perturbava. £ diílo he que NolTo Senhor a re-
prehendeo. Os rios , que correm focegada-
mente pelas planícies, levaó grandes baixeis
c ricas mercadorias : e a chuva que cahe bran-
damente no campo , o fecunda de ervas e de
graõ ; mas os torrentes e ribeiras que com
borbolhóes correm precipitadas , arruinaõ as
fuás vifinhanças , e faõ inúteis ao commercio ,
aílim como as chuvas vehementes e tempef-
tuofas afTblaó os campos e os prados. Obra que
fe faz impetuofa e arrebatadamente nunca foi
bem feira. Convém defpachar tudo belamente
( como diz o antigo Provérbio ) . Aquelle que
fe apreJTa ( diz Salamaõ ) corre rifco de trope-
çar , e de lhe refvalarem os pés (2): fempre
Fazemos muito , quando o fazemos bem feito.
Os zangãos fazem muito eftrondo , e faó mui-
to mais apreíTados que as abelhas , maselles
fó fazem a cera , e naó o mel : aííim os que
fe affligem com demafiado cuidado , e an-
xie-
(1) Luc. 10. v. 41. Martha Marthd felicita es , V
turbaris erga pturima.
(2) Proverb. 19. v. 2. Qpi fc/linus ejl pedibus >
pjfcndet.
iy6 Introducça6
xiedade ruidofa , nem trabalhão muito nem'
bem.
As mofcas naõ nos inquietaõ com a íua
violência , fenaó com a fua multidão : aílim
os grandes negócios naó nos perturbaõ tanto
como os pequenos , quando eit.es faó em gran-
de numero. Recebei pois os negócios que fe
vos oíferecerem com focego , e aílentat expe-
dilos por fua ordem a hum e hum j porque
fe quizerdes fazer tudo de hum jaclo , ou com
defordem , atiopelarvos-heis com eííe Ímpeto ,
desfalecereis de animo , e de ordinário ficareis
opprimida pela prena , e íem confeguiro ef-
feito.
Em qualquer negocio vos eítribai unica-
mente na providencia de Deos , pela qual fó
todos volTos defignios fe devem efFeituar : tra-
balhai com tudo por cooperar com ella 9 e
depois crede , que fe eftiverdes bem confiada
em Deos , o fucceíTo que vos acontecer , fera
o mais proveitofo para vós , ou vos pareça
bom ou máo 3 fegundo o volTo juízo particu-
lar.
F;zei como os meninos pequenos , que
com huma maó tomaó a de feus pais , e com
a outra colhem morangáos ou amoras pelos
valados; porque de femelhante modo , ajun-
tando e manejando os bens deite mundo , com
huma de voíías mãos vos apegareis á outra
do Pai celeftiai , voltando-voá de quando em
quando para elle , para ver fe lhe he agradá-
vel o voffo cabedal , ou as voíías ocupações.
E íobre tudo, guardai-vos muito de largar a
fua maó e a fua protecção , cuidando ajun-
ta*
a5 Vida devota. 177
tar e colher mais ; porque fe elle vos defem-
parar , naó dareis paíTo em que naó venhais
de naris a terra. Venho a dizer , minha Phi-
lotea , que quando eítiverdes no meio dos ne-
gócios e ocupações commuas , que naó re-
querem atenção taó forte e vehemente , olheis
mais para Deos que para os negócios. E quan-
do os negócios forem de taó grande impor-
tância , que peçaó toda a voiTa attençaó para
ferem bem feitos ; de tempos em tempos olhai
para Deos : como fazem os que navegaó pe-
lo mar , que para chegar á terra que deíejaó ,
olhaó mais para o Ceo , do que para o mar
onde navegaó : deíle modo trabalhará Deos
comvofco , em vós e por vós , e lerá o voíío
trabalho acompanhado de conColaçaó.
CAPITULO XI.
Da Obediência.
SOmente a caridade nos faz perfeitos , mas
a obediência a caftidade a pobreza faõ
três grandes meios de a adquirir s a obediên-
cia dedica o noíTo coração , a caftidade o
noílb corpo , e a pobreza o< noilb? meios, ao
amor e ferviço de Deos. Files Càó os três ra-
mos da Cruz efpiritual , fundados todo? três
fobre a humildade , que he o quarto Naó
direi nada deitas três virtudes , em quanto vo-
tadas folemnemenre , porque ifto fó pertence
aos Religiofos : nem taó pouco quando fim*
plesraeruc votadas ; porque a,i»da que o voto
M leinr
178 IntroducçaS
fcmpre da muita graça e merecimento a todas
as virtudes , para nos fazerem perfeitos , naõ
he neceííario que fejaó voradas , com tanto
que fejaó obfervadas. Porque fe bem que fen-
do votadas , principalmente com folemnida-
de , põem o homem em eftado de perfeição ,
também he certo que para o chegar á perfei-
ção , bafta que fejaó obfervadas : fendo aflim
que ha grande diferença entre o citado de
perfeição , e a perfeição j porque todos os
Biípos e Religioíos eítaó em eftado de perfei-
ção , e com tudo ilTo nem todos eftaò na per-
feição , como atlas fe vè. Refolvamo-nos pois,
Philotea , a praticar bem eftas três virtudes ,
cada hum fegundo a fua vocação ; porque
ainda que nos naó põem em eftado de per-
feição , nos daraó com tudo a mefma perfei-
ção. Por iíTo eftamos todos obrigados a prati-
car eftas três virtudes , ainda que nem todos do
mefmo modo.
Duas efpecies ha de obediência , huma
neceííaria outra voluntária. Pela neceíTaria de-
ve;s obedecer humildemente a vofTos Superio-
res Eclefiafticos , como ao Papa ao Bifpo ao
Cura , e aos que tiverem fuás vezes. Deveis
obedecer a voííbs Superiores políticos , ifto
he , ao voífo Príncipe , e aos Magiftrados ,
que elle eftabeleceo no volTo paiz : deveis
obedecer a voííbs Superiores ,domefticos , a
faber a voííò pai, mái , fenhor , e fenhora.
Eira obediência pois fe chama neceTaria , por-
que ninguém fe pôde eximir da obrigação de
obedecer a eíbs Superiores, tendo-lhe Deos da-
do authorid^de de mandar e governar , a cad^
hum
A' VlDADEVOTA, 2 79
hum no que lhe toca , fbbre nós. Cumprireis
pois os ieus preceitos , que iíto he de necdíi-
d a de : mas para íerdes per feira , fegúi tam-
bém feus confeihos , e ainda os feus defejos e
inclinações , quanto a caridade e prudência
vo-lo permitir. Obedecei quando vos manda-
rem coila agradável , como comer ou tomar
alguma recreação ;' porque ainda que parece
eme naõ he grande virtude obedecer nefte ca-
io , feria com tudo grande vicio defobedecer,
Obedecei nas coifas indiferentes , como tra-
zer tal ou ral vcítido , ir por hum caminho
ou por outro , cantar ou calar , e praticareis
farina mui louvável obediência. Obedecei em
coifas dirkultofas afperas e duras , e pratica-*
reis huma obediência perfeita. Obedecei em fim
fuavemente fem replica , promptamente fem
demora , alegremente fem enfado : e fobre-
tudo obedecei amorofamente , por amor da-
quelíe , que por amor de nós fe fez obediente
até á inortC de Cruz : o qual , como diz S,
Bei nardo , quiz antes perder a vida que a obe-
diência.
Para aprender facilmente a obedecer a vof-
fos Superiores , condefeendei facilmente com
a vontade de voiTos femelbames , cedendo ás
fuás opiniões , no que naõ for máo , naó fen-
do contenciofa nem aporfiada. Acómodãi-voi
de boamente aos defejos de voíTbs inferiores 3
quanto a razaó o permitir, fem exercer au-
tnôfidade alguma imperiofa lobre elles 5 enj
<jua»vo forem bons.
He hum engano crer 3 que fe foliemos Re*
ligiofos ou Religíofas obedeceríamos facii-
[ ii xnenr
1S0 Intkodvcçaó.
mente , achando agora dificuldade e renitên-
cia em obedecer aos que Deos conftituio fobre
nós.
Chamamos obediência voluntária aquella ,
a que nos obrigamos por noíía própria elei-
ção , fem que nos feja impoíta por outrem.
iSÍdó fe efeolhe de ordinário o Príncipe o Bif-
po o pai a mái , nem ainda commummenre o
marido : mas efcolhe-fe o ConfeíTor e Dire-
ttor. Demos cafo , que tendo o efcolhido , fa-
zemos voto de lhe obedecer ( como fe diz
que a Madre Santa Tereza , além da obedi-
ência folemne votada ao Superior da fua Or-
dem , fe obrigou por hum voto fimples a obe-
decer ao P. Graciano ) ou que fem voto nos
obrigamos a obediência de alguém : fempre
efta obediência fe chama voluntária , em ra-
zão do feu fundamento , que depende da nof-
fa vontade e eleição.
Devemos obedecer a todos os Superiores ,
a cada hum porém no que tem a feu cargo
fobre nr>s : como no que refpeita á policia e
coifas publicas , deve-fe obedecer aos Prínci-
pes : aos Prelados, no que refpeita á policia
Ecíefiaftica : nas coifas domefticas ao pai , ao
fenhor , ao marido : quanto á conduta parti-
cular da alma , ao Director e ConfeíTor par-
ticular.
As acções de piedade que haveis de obíer-
var , procurai que vo-las defigne o voíTo Pa-
dre elpiritual ; porque frraó melhores, e te-
rão dobrada j;raça e bondade. Huma de íi
mefmàs , pois iaõ piedofas : a outra da obedi-
ência que as tiver ordenado , eem virtude da
qual
a* Vida devota. i8r
qual feraó feiras. Dlrofos os obedientes , por-
que nunca já mais permitira Deos que errem
o caminho.
CAPITULO XII.
Da nccejjidade da Cajiidade.
ACaftidade he a açucena das virtudes : eí-
la he a que faz os homens quafi iguaes
aos Anjos : nada he fermofo fem a pureza , e
a pureza dos homens he a caftidade. Chama-
fe a caítidade , honeftidade : e a fua profiíTaó,
honra. Apelida5-na também inreireza ; e o feu
contrario , corrupção. Em fumma , ella tem
fua floria á parte , em fer a fermofa e cândi-
da virrude da alma e corpo.
Nunca he permitido tomar prazer algum
deshonefto do nofTo corpo , em qualquer mo-
do que feja , fenaõ em hum legitimo Matri-
monio , cuja fantidade poíía com huma juita
compenfaçaó reparar o dano que caufa o de-
leite. E ainda no Matrimonio íe ha de guar-
dar a honeítidade da intenção , porque íe ha
alguma indecencia no deleire que fe exercita ,
naó ha fenaó haneítidade na vontade que o
pratica.
O coração caílo he como a madre pérola ,
que naó pode receber gota de agua , que naó
venha do Ceo ; porque naó pode receber pra-
zer algum , fenaó o do Matrimonio que he
ordenado pelo Ceo : fora diíto lhe naó he li-
cito ,
lo*2 ÍNTRODVCÇAO
cito 5 confidera-lo com hum ío penfamento de*
leito íb voluntário e moroío.
Qiiar.ro ao primeiro gráo deita virr
guardai-vos , Philotea , de admitir género al-
gum de goíto , que íeja prohibido e vedado :
como faõ todos os que fe tomaó fora do Ma-
trimonio 5 ou ainda no Matrimonio , quando
fe admitem contra a regra do mefmo Matri-
monio.
Quanto ao fegundo , apartai-vos todo o
poííivei de deleitações inúteis e íuperfluas ,
poílro que licitas e permitidas.
Quanto ao terceiro , naó apegueis o voíTo
aíTe&o aos goftas e prazeres , que faó orde-
nados e mandados ; porque ainda que fe hajaõ
de praticar as delicias neceííarias , a faber as
que dizem refpeito ao fim e inftituiçaõ do fan-
to Matrimonio , nem por iiTo fe lhes ha de af-
ferrar o coração e animo.
Quanto aos demais , todos tem neceííida-
de defta virtude : os que eíiaõ em viuvez , de-
vem ter huma caftidade animofa , que naó fô
defpreze os objectos preientes e futuros , fe-
n-aõ que refifta às imaginações que os praze-
res licitamente havidos no Matrimonio podem
produzir em feu animo , que por ifto faõ
mais fogeitos aos incentivos menos honeftos.
ffor eiU caufa admirava Santo AgofUnho a
pureza do feu amado Ali pio , o qual total-
mente fe tinha efquecido e dei o rezado os. de-
leites carnaes , tendo-os experimentado algu-
ma vez em fua mocidade E he certo , que
em quanto os frutos eílaõ inteiros , podem fer
fcrifcrvados 5 nuns fobre palha , outros na
A? Vida devota.* 183
área , e outros em fuás próprias folhas : mas
huma vez incecados , he quaii impoiíivel guar-
da-los , fenaó por meio do mel e do aíTucar ,
confeitando-os. Aííim a caftidade que ainda
naó eftâ tocada nem violada , pôde fer guar-
dada de muitos modos, mas huma vez ence-
tada , nada a pode confervar , lenaó huma
excelente devoção , a qual como tenho dito
muitas vezes , he o verdadeiro mel e aíTucar
das almas.
As virgens haõ mifter huma caftidade fum-
mamente fingela e delicada , para defterrar
de íi todo o género de curiofos penfamentos :
e defprezar com total defprezo toda a forte de
prazeres immundos , os quaes verdadeiramen-
te naó merecem fer defejados dos homens ,
pois mais convém aos brutos do que a elles.
Guardem-fe pois eftas almas puras de duvi-
dar y que a caftidade he incomparavelmente
melhor que tudo o que he incompatível com
eila i porque como diz o grande S. Jerony-
mo , o inimigo incita fortemente as virgens ao
defejo de experimentarem os deleites , repre-
íentando-lhos infinitamenre mais goftofos e di-
liciofos do que faó : o que as defaíTocega mui-
to ( diz efte Santo Padre ) por julgarem mais
fuave o que ignoraõ. Porque aílim como a
borboleta , vendo a chama , dà muitas voltas
á roda delia curiofamente , por provar le he
taô doce como fer mofa : e apertada defta fan-
teíia , naó delcanfa até fe perder na primeira
experiência : aííim a gente moça fe deixa de
tal modo poffuir da falfa e louca eftimaçaõ ,
que tem do prazer das chamas lafeivas , que
de-
184 Introducçaõ
depois de muitos penfamentos curiofos J' fe
deitaó em fim a perder nellas : mais loucos
nifto que a borboleta, pois efta alguma cau-
ía. tem para cuidar que o fogo he diliciofo ,
pois he taõ bello : mas eíles fabendo que aqui-
lo que bufcaõ he íummamente torpe , nem
por ilfo deixaó de eítimar em muito a louca e
brutal deleitação.
Mas quanto aos caiados he coifa verdadei-
ra ( ainda que o vulgo o naó entende aííim )
que a caftidade lhes he muito neceffaria ; por-
que nelles naó confiíle em fe abfterem abío-
lutamente dos prazeres carnaes , mas em fe
concer entre os prazeres. Aííim como eíle
mandamento : Irai-nuos , e nao queirais pecara
(1) he a meu ver mais dificultofo que efte :
Nati nyos ireis ; porque he mais fácil evitar a
cólera , que regrala. Alíim he também mais
fácil livrar totalmente dos goftos fenfuaes ,
do que guardar nelles moderação. Verdade
he que a fanta licença do Matrimonio tem hu-
rna força particular , para extinguir o fogo
da concupifcencia : mas a fraqueza dos que a
gozaõ , palia facilmente da permiíTaõ á diíTo-
luçaó , e do ufo ao abufo : e aííim como ve-
mos que muitos ricos furtaó , naó por neceíK-
dade mas por avareza ; aííim também fe vè
muita genre cafada defmandar-fe fó por in-
temperança e fragilidade, naó obftante o le-
gitimo objecto com que fe deveriaó e poderiaó
contentar : fendo a fua concupifcencia , como
hum
(1) Píalm. 4. v. 5. Ivaiciminl , W nolitc peccarc.
a3 Vida devota. 185:
hum fogo volante 3 que vai queimando aqui
e acolá , fem parar em parte alguma. Sem-
pre he coifa perigofa tomar medicamentos
violentos ; porque ie fe tomaó mais do necef-
fario , ou naó eilaó bem preparados 3 fazem
grande damno. O Matrimonio foi abençoa-
do , e em parte ordenado para remédio da
concupifcencia , e fem duvida que he boniííi-
mo remédio : mas naó obftante iflb violento ,
e por confeguinte perigofo 3 fe fenaó ufa del-
le com difcriçaó.
Acrecento , que a varidade dos negócios
humanos, além das longas moleítias , aparta
muitas vezes os maridos de fuás mulheres : por
cuja caufa necefíitaó os cafados de duas for-
tes de caftidade : huma para a abftinencia ab-
foluta , quando eílaó apartados das ocaíióes
que acabo de dizer: a outra , para a mode-
ração , quando eítaó juntos em feu trato ordi-
nário. He certo que Santa Catharina de Sena
vio entre os condemnados muitas almas gran-
demente atormentadas , por ter violado a fan-
tidade do Matrimonio : o que lhe aconteceo
( dizia a Santa ) naó pela graveza do pecado ,
porque os homicídios e blasfémias ia 5 mais
enormes , mas porque os que o cometem naó
fazem cafo delle , e por confeguinte o conti-
nuaó por muito tempo.
Bem vedes pois , que a caílidade he ne-
ceflTaria a toda a forte de peiToas. Procurai ter
pa\ com todos ( diz o Apoftolo ) e a fatuida-
de ,fem a qual ninguém <verâ a Deos(i). Onde
pe-
(1) Ad Hebr. 12.V. 14. Pacem feyui mini cum çmnttui»
iS6 Introduccao
s
pela fantidade entende a caftidade 3 como no-
tarão S. Jeronymo e S. Chryfoftomo. Naó ,
Philotea , ninguém verá a EÍeos fem caftida-
de : ninguém habitará em feu fanto Taberná-
culo , que naó feja de coração limpo. E fe-
gundo diz o mefmo Salvador ; os cáes e des-
honeftos feraõ dali defterrados: E bemaventu-
rados o limpos de coração , porque elles <verao
A Deos (i) .
CAPITULO XIII.
Confelho para confervar a Cxftidade.
SEde promptiílima em apartar-vos de todos
os caminhos , e de tudo em que fe ceva a
fenfualidade ; porque eíte mal lavra infenlivel-
mente , e de pequenos princípios faz progref-
íbs de grande monta. Sempre he mais fácil fu-
gir-lhe , que curalo.
Os corpos humanos parecem-fe com os vi-
dros , que naõ podem trazer-fe huns com ou-
tros de modo que fe toquem , fem perigo de
quebrar fe : e com os frutos, os quaes poílo
que eftejaó inteiros e bem fazonados , fe dam-
nificaõ , fe fe tocaó huns a outros. A mefma
agoa por frefca que efteja em hum vafo , fen-
do tocada de algum animal da terra , naó po-
de por muito tempo confervar a fua frefcura.
Naó
(O Matth. ç. v. 8. Veati mundo coràe , qnon-am
ipji De uni vlííebunt.
A5 V I D A DEVOTA, 187
"Xaõ confíntais nunca , Philotea , que nin-
guém vos toque incivilmente , nem por zom-
baria nem por modo de favor ; porque ainda
que talvez fe polía confervar:a caftidade entre
ellas acções , de mais líviandade que malícia :
com tudo a frefcura e flor da caitidade , fem-
pre recebe detrimento e perda : mas deixar-
ie tocar deshoneítamente 3 he a ruina total da
caílidade.
A caitidade depende do ccraçac como fua
origem , mas refpeita o corpo como lua ma-
téria : e por iiTo fe perde por todos os íentidos
exteriores do corpo , e pelos penfamemos e
defejos do coração. Deshoneítidade he ver
onvir falar cheirar tocar coifas deshoneítas ,
quando o coração fe detém , e recebe niíTo
goito. S. Paulo breviííimamente diz : A forni*
to nem fe qtterfe nomee enire -vós. As abe-
lhas naõ fó naó querem tocar os cadáveres,
mas fogem e aborrecem por extremo toda a
forte de máo cheiro , que delles procede. A
efpofa Santa no Cântico dos Cânticos , tem as
fuás máos diftilando mirra , licor preíervati-
vo da corrupção : feus lábios faó fitas de ru-
bim purpúreo , final do pejo das palavras :
feus olhos íaõ de pomba , em razaõ da fua
brancura : fuás orelhas tem brincos de oiro ,
íimbolo da pureza : feu nariz eftá entre os ce-
dros do Libano , madeira incorruptível. Tal
deve fer a alma devota , caíta limpa e honef-
ta , de máos lábios ouvidos olhos , e de todo
o feu corpo.
Quero-vos referir a eíte propoílto , o que
o amigo Padre João CaíHano refere , como
pro-
i88 Introducçao
proferido pela boca do grande S. Baíílio , que
falando de fi mefmo diííe cerro dia : Nao fei
que coifa fejao mulheres , e com tudo nao fou
virgem. Verdadeiramente a caftidade fe pôde
perder de tantos modos , quantos ha de desho-
neftidade e lafcivia : os quaes fegundo faõ
grandes ou pequenos , huns a debilitaó ou-
tros a ferem , e outros a mataô de todo. Ha
certas familiaridades e paixões índifcretas lou-
cas e fenfuaes, que propriamente falando naó
ofendem a caftidade , e com tudo a debilitaó ,
a tornaó enferma , e ofufcaó fua fermofa can-
didez. Ha outras familiaridades e paixões ,
naó fó indifcretas mas viciofas , naó fó lou-
cas , mas deshoneftas , naó fó fenfuaes mas
carnaes : e por eftas he a caftidade pelo menos
multo ofendida e damnificada. Digo pelo me-
nos , porque cila morre e perece de todo ,
quando as loucuras e lafcivias , daó á carne
o ultimo eíFeito do prazer voluptuofo : e ain-
da entaó perece a caftidade mais indigna de-
pravada e infelizmente , que quando fe per-
de pela fornicação adultério e incefto ; porque
eftas ultimas elpecies de torpeza , faó fó peca-
dos : mas as outras, como diz Tertuliano , no
livro da Pudicícia , faó monftros de iniquida-
de e de pecado. Caííiano pois naó crè , nem
eu taó pouco , que S. Baíllio falalTe defta
defordem , quando fe acufou de naó ler vir-
gem ; porque entendo que naó âizia ifto , fenaó
pelos màos e feníuaes penfamentos , os quaes
pofto que naó tivelTem manchado feu corpo,
tinhaó com tudo contaminado feu coração , cu-
ja caftidade zelaó fumrnamente as almas gene«
rofas. De
a7 Vida devota. 189
De nenhum modo trateis com pelToas im-
pudicas , principalmente fe forem impruden-
tes , como quaíi fempre o faõ ; porque aílím
como os bodes tocando com a lingua as amen-
doeiras doces , as convertem em amargofas
aífím eftas almas hediondas e corações infe-
ctos , naó dizem coifa alguma a pelíoa do
mcfmo ou diferente fexo , que a naó façaó
defcahir algum tanto da honeftidade. Tem ef-
tas o veneno nos olhos e no hálito como os ba-
fai fcos.
Pelo contrario, tratai com pefíbas caílas e
virtuofas : meditai e lêdc a miúdo coifas fa-
gradas ; porque a palavra de Deos he caíla ,
e faz caftos os que nella fe deleitaó : donde
vem que David (1) a compara ao topázio,
pedra preciofa , a qual tem propriedade de
mitigar o ardor -da concupifcencia.
Chegai-vos fempre a Jefu Chrifto crucifi-
cado , efpiritualmente pela meditação , e real-
menre pela fagrada Comunhão ; porque aííim
como os que dormem fobre a erva chamada
agnus caftus , fe fazem cairos e honeílos ; do
mefmo modo , repoifando o voiíb coração em
Noílo Senhor , que he o verdadeiro Cordeiro
cafto e immaculado , vereis quaô brevemente
a voíTa alma e o volTò coração fe acha purifi-
cado de toda a mancha e liviandade.
CA-
CO Pfalm. 118. v.
190 IntroducçAo
CAPITULO XIV.
Da pobreza, de Efpirito obfer-vada entre as
riquezas.
BEmaventurados os pobres de efpirito , por-
que delles he o Reino dos Ceos (1) . Mal-
ditos pois, faó os ricos de efpirito , porque
delles he a mileria do Inferno. Aquelle he ri-
co de efpirito , que tem as riquezas no efpi-
rito, ou o efpirito nas riquezas: aquelle he
pobre de efpirito , que naó tem riquezas algu-
mas em feu efpirito , ou o feu efpirito nas ri-
quezas. Os maçaricos fazem os feus ninhos
como huma palma , e naó deixando nelles
mais que huma abertura da pane de fima , os
põem á borda do mar : e ficaõ taó forres e im-
penetráveis , que combatidos das ondas , )k
mais lhes pode entrar agua , mas nadando fo-
bre ella , permanecem no meio do mar , fo-
bre o mar , e fenhores do mar. O voíTo co-
ração , cariilíma Philotea , deve fer do mef-
mo modo , fempre aberto fó para o Ceo , e
impenetrável ás riquezas e coifas caducas : Se
deitas tiverdes abundância , tende fempre o
coração ifento do affe&o delias : de forte que
ande fempre ao decima , e no meio das ri-
quezas eíreja fem riquezas, é fenhor das ri-
quezas. Naó ponhais o efpirito celeftial nos
bens
(O Matth. 5. v. 3. Beati pauperes fplritu s (juoniam
rpfvrum g/i Kegnum Ceehruin-.
A* Vida devota. 191
bens terrenos, fazei que feja fempre fuperior
a elles , e naó peio contrario elles lhe eíiejaõ
íuperiores.
Ha diferença entre ter veneno e eftar in-
venenado : quafi todos os boticários tem ve-
neno para fe fervi r cm delie em certas ocur-
rencias , mas nem por ido eítaõ invenenados ;
porque naó tem o veneno no corpo , mas nas
fuás boticas. A Rim podeis vós também ter ri-
quezas , fem eftar invenenada delias : o que
fuecederá , íe as tiverdes em voíTa cafa 01/na
votía bolfa , mas naó em o voiío coração. Ser
rico em efeito e pobre no affe&o , he a ma-
ior dita do Chriítáó , porque defte modo tem
a commodidade das riquezas para efte mundo,
c o mérito da pobreza para o outro.
Ninguém ha , Philotea , que já mais con-
fefíe que he avarento : todos aborrecem efta
baixeza e vileza de coração : efeufaó-fe com
a obrigação do encargo dos filhos : com que
a prudência pede fundar-fe em meios : que
nunca poiTuem demafiado ; e que fempre he
necefiario ter alguma coifa de mais , para cer-
ras precisões : ainda os mais avarentos , naó
fó naó confeííaó íèlo , mas nem ainda em fua
conciencia cuidaó que o Caò : e naó cuidaõ ,
porque a avareza he huma febre prodigiofa ,
que fe faz tanto mais infenfivel , quanto he
mais forte e ardente. Moyfés vio o fogo fa-
grado que abrafando huma carça naó l cen-
íummia : mas pelo contrario o fogo profano
da avareza coníome e devora os avarentos , e
de nenhum modo os queima : pelo ntoefios ]
no meio de íeus ardores e chamas mais tx*
cclli-
192 IntroducçaS
ceííivas , fe prezaó da mais fuave frefcura do
mundo , e lhes parece que a fua alteração in-
íaciavel he huma íêde inteiramente natural ò
iuave.
Se defejardes muito tempo , ardentemen-
te , e com defafTocego os bens que naõ ten-
des , ainda que digais que os naó quereis ha-
ver injustamente , naó deixais de fer verdadei-
ramente avarenta, Aquelle que defeja arden-
temente , por muito tempo , e com defafíoce-
go beber , ainda que naó feja fenaó agua , tef-
temunha eítar com febre.
Naó fá , Philotea , fe he defejo juílo de-
fejar ter juítamente o que outro juítamente
pofiue; porque parece, que por efte defejo
queremos ter comodidade com incomodida-
de de outrem. Aquelle que poííue hum bem
juíbmente naó tem mais razaó de o guardar
juítamente , que nos dê juílamente o querer
ter? E para que eftendemos nós o noiTo defe-
jo fobre a fua commodidadé , para o privar
delia ? Pelo menos fe cite defejo he jufto , naó
he caritativo ; porque de nenhum modo que-
reriamos nós , que alguém defejaflfe , poílo
que juítamente , o que nós juítamente quere-
mos confervar. Efte foi o pecado de Achab ,
que quiz ter juílamente a vinha de Nabot ,
que a queria guardar ainda mais juílamente :
defejou-a ardentemente , por muito tempo ,
e com defaíTocego , e por 'iílb ofendeo a
Deos.
Procurai , carifííma Philotea , defejar os
bens do próximo , quando elle começar 3
desfazer- fe delles ', porque entaó o feu defejo
fa«
a3 Vida devota, iy%
fará o vofib naõ fó jufto mas caritativo : fim ,
porque também eu quero , que vós cuideis
em aumenrar volTos bens e polTes , com tanto
que iíto feja naõ íó juítamente , mas com fua-
vidade e caridade.
Se vos aífeiçoais demafiado aos bens que
poíTuis , e nelles andais muito embebida ,
aferrando-lhes o coração e cuidados , e temen-
do perdelos com hum temor vehemente e afli-
tivo , crede-me que ainda tendes alguma for-
te de febre ; porque os que a padecem 9 bebem
a agua que lhe daó , com huma certa anciã ,
com tal atenção e contentamento , qual naõ
coítumaó ter os sãos. Naõ he poílivel agradar-
mo-nos muito de huma coifa, e naõ lhe ter
muito afFeclo. Se quando vos fucede perder
os cabedaes , fentis o voilo coração mui afli-
cl:o e defconfolado , crede Philotea , que lhes
tínheis muito affeclo ; porque nada teítifica
tanto o affe&o á coifa perdida , como a afli-
ção da fua perda.
Naõ defejeis pois com defejo inteiro e com-
pleto os bens que naó tendes : nem afferreis
demafiado o coração aos que tendes : nem vos
dcfconfoleis pelas perdas que vos fucederem ,
e tereis algum fundamento para crer , que fen~
do rica em eíreiro naó o fois no afFeclo , mas
antes pobre de efpirito , e por confeguinte
bemaventurada j porque vos pertence o Rei=
no do Ceo.
N CA-
194 Introducçaõ
CAPITULO XV.
Como fe deve praticar a pobreza real , ficando
nao obflante realmente ricos.
OPinror Parrafio pintou o povo x4.theníenfe
por huma invenção muito engenhofa , re-
prefentando-o de hum génio vario inconftan-
te colérico injufto cortez clemente mifericor-
diofo altivo vágloriofo humilde arrogante e
fero , e tudo ifto juntamente ; e eu , cariífima
Philorea , quizera meter no voffo coração a
riqueza e a pobreza ambas juntas : hum gran-
de cuidado , e hum grande defprezo das coi-
fas temporaes.
Tende muito mais cuidado, de fazer vof-
fos bens úteis e frutuofos , do que os munda-
nos tem. Dizei-me , os jardineiros dos glan-
des Príncipes naó faó mais curiofos e dili-
gentes em cultivar e afermofear os jardins
que tem a feu cargo , do que fe foílem feus
próprios ? E qual he a razaó de o fazerem af-
íim i Sem duvida naó he outra , que confide-
rarem os jardins , como jardins de Príncipes
e Reis , a quem defejaó agradar com eftes
ferviços. Minha Philotea , os cabedaes que
po Tu imos naó faó noíTos , Deos no-los deo
para os cultivar , e quer que os façamos fru-
tuofos e úteis : por cuja caufa lhe fazemos
agradável ferviço em ter delles cuidado.
Mas he precifo , que efte cuidado feja ma-
ior e mais folido, que o que os mundanos
tem
a> Vida devota. 195*
rem dos feus ; parque elles naó fe empenhaó
lenaó por amor de ti mefmos , e nós devemos
trabalhar por amor de Deos : e como o amor
de nós mefmos he hum amor violento turbu-
lento e defaiTocegado ; também o cuidado que
delle procede , he cheio de turbação triíleza
e deíaflocego : e aííim como o amor de Deos
he doce focegado e tranquilo , também o cui-
dado que delle procede , ainda que íeja acer-
ca dos bens do mundo , he benévolo doce e
engraçado. Tenhamos pois efte cuidado apra-
Cvel da confervaçaõ , ifto he do aumento dos
nofíos bens temporaes , quando fe oíFerecer
alguma jufta ocafiaó , e quanto o noíío efíado
o pedir ; porque Deos aííim quer que o faça-
mos por feu amor.
Mas atendei a que o amor próprio vos naõ
engane ; porque algumas vezes imita de mo-
do ao amor de Deos , que diraó que he o mef-
mo. Para impedir pois que vos naó engane s
e efte cuidado fe naó converta em avareza ,
além do que di (Te no Capitulo precedente 5
devemos praticar com frequência a pobreza
real e affe&iva no meio de todos os cabedaes
e riquezas , que Deos nos tem dado.
Refervai fempre alguma parte do voíTo ca*
bedal para o dar de boa vontade aos pobres %
porque dar o que poííuimos he empobrecer
outro tanto : e quanto mais derdes , tanto
mais empobrecereis. Verdade he que Deos vo-
lo tornará , naó fó no outro mundo , maí
nefte ainda ; porque naõ ha coifa que tanta
pxofperidade caufe como a efmola ; mas em
quanto efperais que Deos vo-lo dè , fereis
N ii fera-
196 Intkoducçaó
fempre pobre ditío. Oh fanta e rica pobreza
aquella que fe grangea com a efmola !
Amai os pobres e a pobieza , porque por
efte amor vos tornareis verdadeiramente po-
bre ; porque como diz a Efciitura : Taes fo-
mos, quaes as coifas que amamos. O amor
iguala os amantes : Qttem adoece , com quem
en nxo enferme (1) í diz S. Paulo. Podia di-
zer , quem he pobre com quem eu naó feja
pobre i -porque o amor o fazia tal , quaes eraó
os que amava : por tanro , fe amardes os po-
bres fereis verdadeiramente participante cia lua
pobreza , e pobre como elles.
Se amais pois os pobres , metei-vos a miú-
do entre elles , alegrai-vos de os ver comvof-
co e os vi fitar , converfai-os de boamente ,
goftai que nas Igrejas nas ruas e em outros
lugares fe cheguem a vós. Sede pobre de lín-
gua com elle- , trarando-os como volTos com-
panheiros , mas rico de máos 3 repartindo com
elies de voííos bens , como mais abundante
deiles.
Quereis , minha Philotea , dar hum paíTò
mais adiante ? naó vos contenteis com fer po-
bre com 05 pobres , mas fede maU pobre que
os pobres : e como fera ifro i O criado he
menos que feu amo : fazei-vos pois criada dos
pobres , ide-os fervir em fuás camas quando
eftaõ doentes : venho a dizer com voífas pró-
prias má^s : fede fua coílnheira á voíía pró-
pria cuila : íede fua coltureira e lavandeira.
Efte
(0 Corinth. 2. 29. Quis infirmctur , 1? ego wn
njirmor ?
A5 V I D A D E V O T A. I97
Efte fervir , minha Philotea , he mais honrofo
que o reinar. Naó poíTo br; ttante mente admi-
rar o fervor , com que praticou eíte documen-
to o grande S Luiz , hum dos maiores Reis
que vio o Sol : e digo grande Rei em odo o
género de granJeza. Servia mui de ordinário
á mefa os pobres , que fuftentava : e qnaíl
todos os dias mandava vir três á íua : e mui-
tas vezes tomava o caldo que lhes fobejava ,
com incomparável amor. Quando viíitava os
hofpiraes dos enfermos ( o que praticava fre-
quentemente ) de ordinário fe punha a fervir
aos que tinhaó achaques mais horriveis , como
leprofos encancerados e outro? taes : fervia-os
defcuberto e de joelhos , refpeirando em fuás
pelToas a do Salvador do mundo , e acarici-
ando-os com hum amor taó terno , como po-
derá huma carinhofa mái com feu filho. San-
ta Ifabel filha dell\ei de Hungria tratava or-
dinariamente com os pobres , e por recrêo fe
veitia algumas vezes de pobre entre fuás da-
mas , dizendo-lhes : Se eu folTe pob;e me vef-
tiria defte modo. Meu Deos ! cariííima Phi-
lotea , que pobres em fuás riquezas , e ricos
em fuás pobrezas , eraõ efte Príncipe e efta
Princeza !
Bemaventurados aquelles que aííim faõ
pobres , porque a eíles pertence o Reino dos
Ceos (1). Tive fome e me alimentaftes : tive
frio e me veftiftes : tomai poffe do Reino q^ie
vos eílá aparelhado defde a conítituiçaõ do
mun-
(1) Matth. 2j. v. y>
xo8 Introducçao
mundo : dirá o Rei dos pobres e dos Reis no
dia do Juízo univerfal.
Ninguém ha que em alguma ocafiaó naõ
tenha alguma neceííidade e talra de commodi-
d2de. Succede ás vezes vir-nos hum hofpede
que deveríamos e quereríamos regalar , e naõ
ha por encaó meios para ilTo : ou temos as
galas em hum lugar , e neceííitamos delias em
outro , onde era precifo luzir com ellas.
Succede danar-fe e tranftornar-fe todo o
vinho da adega , e naó ficar mais que o máo
e verde. Achamo-nos no campo em alguma
eíralagem onde tudo falta : naó ha cama , nem
apozento , nem meía , nem preparos para ella.
Em fim he fácil ter muitas vezes neceííidade
de alguma coifa , ainda que huma peílba fe-
ja rica: ifto pois he fer na realidade pobre,
do que nos falta. Naó vos peze , Philotea ,
deites acontecimentos , aceitai-os com bom
animo , fofrei-os com alegria.
Quando vos fobrevierem infortúnios que
vos empobreçaó pouco ou muito , como tem-
peítades incêndios inundações efterilidades la-
trocínios pleitos, entaó he o tempo próprio
de praticar a pobreza , recebendo com doçu-
ra eílas diminuições da fazenda , e acommo-
dando fofrida e confiantemente a efta pobre-
za. Efaíi fe aprefentou a feu pai com fuás máos
cuberras de pêlo , e o mefmo fez Jacob : (r)
mas como o peio das máos de Jacob , naó ef-
tava pegado a elias mas ás luvas , facilmente
fe
(i) Gen. 27. r. 11.
a5 Vida devota» 197
fe lhe podia tirar, fem o ofender nem esfo-
lar : ao contrario como o pêlo das mãos de
Efaú eftava aferrado â pele , que naturalmen-
te tinha toda cabeluda , quem lho quizefíe
arrancar lhe caufaria naó pequena dor , gri-
taria forremente , e fe efquentaria naó pouco
em fe defender. Quando os nolíos cabedaes
eftaó apegados ao coração , fe a tempeftade o
ladraó o demandifta nos arranca alguma par-
te delles , que pranros que aflições que impa-
ciências naó temos? Mas quando naó eítaõ
pegados lenaó unicamente ao cuidado que
Deos quer que delles tenhamos , e naó ao
nolTo coração , fe no-los arrancarem nem por
iflb perdemos o juizo , nem a tranquilidade.
Efta he a diferença de veftido que ha entre
os brutos e os homens ; porque os dos brutos
eftaó afferrados á carne , e os dos homens fo-
mente juntos , de forte que os podem veftir e
defpir quando quizerem.
CAPITULO XVI.
Como fe ha de praticar a riqueza de efpirito
no meio da pobre\a real.
MAs fe fois realmente pobre , cariflíma
Philotea , bom Deos ! fede-o também
de efpirito : fazei da neceííidade virtude : ufai
defta pedra preciofa da pobreza , porque vai
muito. O feu luftre naó he conhecido nefte
mundo , e nem por iíTo deixa de fer fumma-
mente fermofa e rica. Tende paciência , bons
com-
2C0 Intkoducçào
companheiros tendes : Noíío Senhor , NofTa
Senhora , os Apoftolos , tanros Santos e San-
tas foraó pobres , e podendo ler ricos defpre-
zaraõ íe-lo. Quantos homens grandes do mun-
do tem havido , que com fummas contradi-
ções foraó bufear com incomparável diligen-
cia a fanta pobreza dentro dos Clauftros e
Hofpitaes , trabalhando com todas as veras pe-
la achar ? Diga-o Santo Aleixo , S. Paulo , S.
Paulino , Santa Angela e outros muitos. Éií-
aqui , Philotea , quanto mais afável para com-
vofco , ella mefma vos vem bufear : encon-
trafte-la fem a procurardes , e fem trabalho ,
abraçai-a pois como amante mui querida de
Jefu Chriíto s que nafceo viveo e morreo com
a pobreza , e foi a ama que o alimentou por
toda a fua vida.
A voíTa pobreza , Philotea , tem dois
grandes privilégios 3 por cujo meio pode fer-
vos de grande merecimento. O primeiro he ,
que naó vos íobreveio por voíTa eleição , mas
■unicamente pela vontade de Deos , que vos
fez pobre , fem que houveííe concurfo da voí-
ía própria vontade : aquillo pois que recebe-
mos puramente por vontade de Deos , fempre
lhe he fummamenre agradável : com tanto
que o recebamos de boamente , e por amor
do feu fanto beneplácito : onde ha menos da
fioíía vontade, ha mais da de Deos : a íim-
ples e pura aceitação da vontade de Deos,
faz fummamente puro o fofrimento.
O fegundo privilegio deita pobreza he ,
fer huma pobreza verdadeiramente pobre. Hu-
ma pobreza louvada acariciada eftimada fo-
co rr i-
a5 Vida devota. 201
corrida e aílíflida , he rica ; ou pelo menos ,
naó he de todo pobre : mas huma pobreza
defprezada rechaçada reprehendida e abando-
nada , efta he verdadeiramente pobre. Tal
he pois ordinariamente a pobreza dos fecula-
res ; porque como elles naó faó pobres por
eleição , mas por neceíhdade , naó fe faz mui-
to cafo diffo : e por ilTo mefmo que fe naó
faz cafo , he mais pobre a fua pobreza do que
a dos Relígiofos : ainda que eífa aliás tenha
huma excelência mui grande , e muno mais
plauíivel , em razaó do voro e d? intenção
com que foi por elles efcolhida.
N-aó vos pranteeis pois, cariííima Phiio-
tea , da volTa pobreza : porque ninguém fe
queixa fenaó do que lhe defagrada ; e fe vos
defagrada a pobreza , naó íois pobre de efpi-
rito , mas rica no aíFecbo.
Naó vos defconfoleis de naó Ter também
focorrida , como neceíltais , porque niífo con-
íifte a excelência da pobreza. Querer fer po-
bre e naó fofrer incommodidade alguma , he
huma grande ambição ; porque he querer a
honra da pobreza e a commodidade das rique-
zas.
Naõ vos envergonheis de Ter pobre , nem
de pedir eímola por caridade : recebei a que
vos derem com humildade, e a efcufacom
brandura. Lembrai-vos com frequência da jor-
nada que NolTa Senhora fez ao Egypto , le-
vando para lá o feu amado filho : e qwanro
defprezo pobreza e miferia lhe foi precifo fu-
portar. Se affim viverdes como ella , fereis
nquiílima na voiTa pobreza,
CA-
102 Introditcçao
CAPITULO XVII.
Da amiúde : e primeiramente da mã e frí-
vola.
O Amor tem o primeiro lugar entre as pai-
xões da alma : efte he o Rei de todos os
movimentos do coração : elle he quem con-
verte tudo o mais a fi , e nos faz taes qual he
o que elle ama. Tende grande cuidado , mi-
nha Philotea , em naó admitir algum que feja
máo ; porque brevemente fereis toda má. A
amizade pois he o mais perigoíb amor de to-
dos , porque os outros amores podem ler fem
communicaçaõ , mas como a amizade he to-
talmente fundada nella , naó fe pode ter com
huma peiToa fem participar das fuás qualida-
des.
Nem todo o amor he amizade , porque fe
pode amar fem fer amado , e nefte cafo ha
amor mas naó amizade ; porque efta he hum
amor mutuo , e fe naó he mutuo naó he ami-
zade. E naó bafta que feja mutuo , mas he
precifo que as pefTbas que fe amaó , faibam o
leu reciproco affe&o ; porque tgnorando-o ,
haveria amor , e naó amizade. Além difto de-
ve haver entre ellas alguma forte de commu-
nicaçaõ , que feja o fundamento da amiza-
de.
Segundo a diverfidade das communicações,
a amizade he também diverfa : e as commu-
nicações faó diferentes , fegundo a diferença
dos
a5 Vida devota. 203
dos bens que fe ccmunicaó : fe eftes faó bens
falios e váos , a amizade he falfa e vá : fe faó
bens verdadeiros , a amizade he verdadeira :
e quanto mais excelentes forem os bens , mais
excelente fera a amizade : porque aílim co-
mo o mel he mais excelente , quando fe co-
lhe das flores mais exquiíitas , aíílm o amor
fundado fobre huma mais exquiíka commu-
nicaçaõ, he o mais excelente: e aílim como
em Heraclea do Ponto ha mel que he veneno-
fo , e torna infenfatos os que o comem , por-
que fe colhe do aconito , de que abunda a-
quella regiaó , alKm a amizade fundada na
communicaçaõ dos falfos e viciofos bens , he
inteiramente falfa e má.
A communicaçaõ dos deleites carnaes he
huma mutua propenfaó e ifca brutal , o qual
naó merece entre os homens mais que fe lhe
dê o nome de amizade , do que a dos jumen-
tos e cavalos , por ferem os efeitos femelhan-
tes : e fe no Matrimonio naó houveife nenhu-
ma outra communicaçaõ alem deíla , também
nelle naó haveria amizade alguma : mas por-
que além defta , ha nelle a communicaçaõ da
vida , da induftria , dos bens , dos afTeclos ,
e de huma índiííoluvel fidelidade , efta he a
caufa por que a amizade do Matrimonio he
huma amizade fanta e verdadeira.
A amizade fundada fobre a communica-
çaõ dos prazeres íenfuaes , he inteiramente
grolTeira e indigna do nome de amizade : co-
mo também a que fe funda em virtudes frí-
volas e vás ; porque eílas virtudes dependem
também dos femidos. Chamo prazeres fen-
fuaes ,
204 Introducçao
fuaes , os que fe apegaó immedíata e prin-
cipalmente aos íentidos exteriores , como o
prazer de ver huma fermofura , de ouvir hu-
ma íuave voz , de tocar , e outros femelhan-
tes. Chamo virtudes frivolas , certas habilida-
des e qualidades vás, que os ânimos apouca-
dos intitulaó virtudes e perfeições. Se ouvir-
des falar a maior parte das mulheres e gente
moça , naó fe pejaó de dizer , fulano he mui
virtuofo , tem muitas perfeições *, porque dan-
ça bem , joga bem toda a forte de jogos , vef-
te-fe bem , canta bem , he divertido , tem
boa prefença : e os charlatões , tem por me-
lhores encre elies aos que faó maiores bobos.
Como tudo ifto pois refpeita os fentidos , por
iílo as amizades que daqui procedem , fe cha-
maó fenfuaes vás e frivo-las , e mais mere-
cem o nome de chocarrices , que o de amiza-
des. Taes faõ de ordinário as amizades da
gente moça , que fe fundaõ nos bigodes , e
no cabello em huma vifta de olhos , nos tra-
ges , na prefumçaó , na bacharelice : amiza-
des dignas da idade de amigos , que naó tem
virtude alguma fenaó no pêlo , nem juizo fe-
naó nos botões : e aííim como femelhantes
amizades faõ de paíTagem , allim fe desfazem
como neve ao Sol.
CA-
a3 Vida devota. w$
i
CAPITULO XVIII.
Dos galanteios.
QUando eftas amizades loucas fe praticaõ
encre pcíToas de diverfo fexo , e fem pre-
tençaó de Matrimonio , chamaó-fe ga-
lanteios ; porque naó fendo mais que cer-
tos abortos , ou por melhor dizer fantafmas
de amizade , naó podem ter o nome , nem
de amizade nem de amor , pela fua incrível
vaidade e imperfeição. Por eftas pois , os co-
rações dos homens e mulheres ficaó prefos e
enlaçados huns com outros , em vás e frivo-
las affeiçóes , fundadas fobre as frívolas com-
municaçóes e miferaveis agrados , de que aca-
bo de falar. E poíto que ordinariamente ef-
res amores vem a parar em carnalidades e laf-
civias viliílimas , com tudo naó he efte o pri-
meiro deílgnio dos que as praticaó , de outro
modo naó feriaó namoramentos , mas desho-
neílidades e amancebamentos manifeftos. Suc-
cede ás vezes aos que eftaó ifcados deita lou-
cura , paíTarem muros annos , fem que lhe
fucceda coifa alguma contra a caítidade dos
corpos , eftendendo-fe unicamente a enganar
feus corações com anciãs defejos fufpiros ter-
nuras , e outras femelhantes bobices e vaida-
des , e ifto por diverfas pretençóes.
Huns naó rem outro intento , que faciar
feus corações em dar e receber amor , feguin-
<lo nifto a fua inclinação amorofa : e eíles naó
ateu-
2c6 IntroducçaÕ
atendem outra coifa na eleição de feus amo-»
res , fenaó o fen gofto e inftinfbo ; porque
logo que fe lhe offerece algum objeflo agra-
dável , fem lhe examinar o interior nem qua-
lidades , entraó nefta communicaçaó amoro-
fa , metendo-fe nefta infeliz rede , da qual
com trabalho fe poderão depois livrar.
Outros fe deixaó levar ciiíto , por vaida-
de i parecendo-lhe , que naõ he pequena glo-
ria prender e atar os corações por amor: e
eltes como fazem íua eleição por gloria , lan-
çaó feus anzoes c eftendem fuás redes , em
lugares efpecioíos elevados raros e illuftres.
Outros fe deixaó levar tanto da fua inclina-
ção amorofa, cómoda fua vaidade tudo jun-
to ; porque ainda que eit.es tenhaó o coração
inclinado ao amor , naó o querem empren-
der , fem alguma ventagem de gloria. Todas
eftas amizades faó más loucas e vás : más ,
porque vem a dar e termin.ir-fe no peccado
da carne , e roubaó o amor , e por confeguin-
re o coração a Deos , á mulher , e ao mari-
do , a quem era devido : loucas , porque naõ
tem fundamento nem razaó : vás , porque
naó rendem proveito algum , nem honra ,
nem contentamento. Pelo contrario perdem o
tempo , embaraçaó a honra , fem darem ou-
tro prazer , que hum empenho de pretender
e eíperar , fem faberem o que querem nem
pretendem ; porque fempre lhes parece a eftes
ânimos cobardes e apoucados , que ha hum
naó fei que digno de defejar-fe , nas moítras
que fe lhe daó de amor reciproco : e como o
naó fabem , daqui nafce > que nunca tem ter-
a3 Vida devota. 207
mo o feu defejo , mas fempre vai apertan-
do-lhe o coração com perpetuas defconfian-
ças ciúmes e defaiTocego^.
S. Gregório Nazianzeno efcrevendo con-
tra as mulheres vás , diz maravilhas acerca
deita matéria. Eifaqui huma pequena parre ,
que elle verdadeiramente dirigio ás mulhe-
res, ainda que também he boa para homens.
» A tua natural fermofura bafta para teu nja-
» rido , que fe eíta for para muitos homens ,
)) como rede eftendida para hum bando de
» paíTaros , que virá a fucceder? algum te
» agradará a quem também agrade tua fer-
n mofura : pagarás hum dar de olhos com ou-
» tro , huma vifta com outra vifta : logo le
2 feguiráó os rifos e palavrinhas de amor ,
» deixando-as cahir ao principio : mas fami-
» liarifando fe logo Te paíTará a manifefta de-
» fenvohura. Guarda-te ò lingua minha pai-
» reira , de dizer o que fuccederá depois :
1 com tudo naó deixarei de dizer efta verda-
y) de. Nada de quanto os moços e mulheres
J dizem ou fazem neftas loucas complacen-
» cias , eítá livre de grandes eftimulos. )) To-
1 das as exprçfsóes amorofas fe prendem hu-
» mas a outras e atrahem naó menos que o
» ferro he atrahido pelo iman , puxando por
» confeguinte por outras muitas. *
Oh e que bem diz çfte grande Bifpo ! Quq
he o que cuidais fazer? Quereis amare nada
mais ? Ninguém dá voluntariamente , que ne-
ceíTariamente naó receba. Quem prende , he
o prefo nefte jogo. A herva Aproxís recebe g
«oncebc fogo tanto que o vê : 0$ noííbs cora-
ções
2o£ Intboducçao
çóes tem femelhante condição : allim que vem
huma alma inflamada de amor por elles , em
conrinenrc fe abrazaó por ella. Eu fim quero
prender , dirá alguém , mas naó canto. Oh
quanto vos enganais ! eite fogo de amor he
mais a&ivo e penetrante do que vos parece :
entendereis vos que naó recibeis fenaó huma
faifca , e ficareis efpantada quando virdes que
em hum momento fe apodera de todo o volTo
coração , reduzindo a cinza todas as voffas re-
foluçóes , e em fumo a volTa reputação. O
Sábio exclama: Quem terá compaixão de hum
encantador mordido da ferpente ( i ) ? E eu
rambem exclamo depois deile : Oh loucos e
infenfatos ! cuidais de encantar o amor , pa-
ra o manejar á voíía vontade ? Quereis zom-
bar com elle i pois elle vos picará e morderá
cruelmente. E fabeis o que fe dirá \ todos
zombarão de vós , e fe riráõ de que quizeftes
encantar o amor*, e que fundada em huma
falfa fegurança , meteftes em volfo peito hu-
ma ferpente , que vos tem eftragado a alma e
a honra.
Bom Deos ! que cegueira efta ! fiar fobre
taó frívolas utilidades , a prenda principal da
noíTa alma! Sim Philorea : porque Deos naó
quer o homem fenaó pela alma , nem a alma
fenaó pela vontade , nem a vontade fenaó
pelo amor. Ah que naó temos todo o amor
que nos era necelTario : quero dizer , que nos
falta infinito amor daquelle , que devíamos
ter
1 " '
(1) Ecclef. 12. v. ij. Quis mifcrebitur incentetori
a ferpente percuj/o l
a3 Vida devota. zcy
ter para amar a Deos : e em cima fendo ta 5
miferaveis , o defpetdiçamos e eítragamos em
coifas loucas vás e frívolas , como fe nos fo*
bejára. Ah , que aquelie grande Deos , que
re fervo u para íl unicamente o amor da noíTa
alma , em reconhecimento da fua creaçaó con-
fervaçaó e redemçaó , nos pedirá conta eítrei-
ta deites loucos roubos que lhe fazemos. E fe
elie ha de fazer exame taô exa&o das pala-
vras ociofas , qual nac fará das amizades ócio-
fas impertinentes loucas e perniciofas.
A nogueira he mui nociva ás vinhas e aos
campos , em que eftá plantada ; porque como
he taó grande , atrahe a li todo o fuco da rer^
ra , naô deixando o necellario para a nutrição"
das demais plantas : as fuás folhas faô taó ef-
peíTas , que fazem huma fombra grande e fe-
chada : em fim ella convida os p altaneiros , os
qaaes para colherem o feu fruto . deftroem e
pizaõ o feu redor. Eftes galanteios fazem os
mefmos prejuízos á alma ; porque elles a
ocupaó de tal forte , e atrahem taó poderofa-
mente os feus movimentos , que fica depois
impoílibilitada para toda a obra boa : as fo-
lhas , ifto he os entretenimentos divertimen-
tos e gracejos faó taó rrequerres , que lhe
confomem todo o tempo. Em huma palavra f
eftes galanteios defterraó naô ió o amor ce-
leftial , mas também o temor de Deos , de-
btlitaó o efpiriro , enfraquecem a reputação ;
e para o dizer em huma palavra , faó o brin-
co das Cortes , mas a pefte dos corações.
O CA-
2io Introducçaó
CAPITULO XIX.
Das verdadeiras amizades.
PHilotea , amai a todos com amor grande
e caritativo , mas naó tenhais amizade fe-
naõ com aquelies , que poderem communicar
comvofco coifas virtuofas : e quanto mais ex-
quiíitas forem as virtudes que communicar-
des , tanto mais perfeita fera a volTa amizade.
Se communicardes as (ciências , fera mui lou-
vável a voíTa amizade : e ainda mais louvá-
vel , fe communicardes as virtudes , a pru-
dência diferiçaó fortaleza e juftiça ; mas fe a
voíTa mutua e reciproca comrnunicaçaõ for de
caridade , de devoção , e perfeição Chriíti :
oh Deos , quaó preciofa fera a voíTa amizade í
Será efta excelente , porque vem de Deos ,
excelente por que fe encaminha a Deos , ex-
celente por que o few viculo he Deos , exce-
lente por que durará eternamente em Deos.
Oh e quaó bom he amar na terra , como fe
ama no Ceo : e aprender a querer neíle mun-
do , como o praticaremos eternamente no ou-
tro. Naó falo agora do fimplesamor de carida-
de , porque efte fe deve eftender a todos os
homens: falo fim da amizade >efpiritual , por
meio da qual duas ou três ou muitas almas
communicaó a fua devoção , e os feus affe&os
efpiriíuaes , e fe fazem hum fó efpirito entre
íj. Com quanta razaó poderão cantar eftas di-
tofas almas : Oh quão bom e agradável he ,
babi-
a5 Vida devota, 2ti
habitarem juntos os irmios (i). Sim, porque
o balfamo deliciofo da devoção , diftila de
hum dos corações no outro , por huma conti-
nua participação , e fe pode dizer , que Deos
tem derramado fobre eíta amizade a fua ben-
ção , e a vida até os feculos dos íeculos.
Todas as outras amizades comparadas com
efta , naó me parecem mais que fombras , e
os feus laços , cadeas de vidro e azeviche ;
em comparação deite grande vinculo da fanta
devoção , que todo he de oiro.
Naó tomeis pois amizades de outro géne-
ro : quero dizer , das amizades que contrahir-
des ; porque nem por iíTo fe devem deixar
nem defprezar as amizades , que a natureza ,
e as obrigações precedentes vos obrigaó a
manter : dos parentes , dos aliados , dos bem-
feitores , dos viíinhos , e outros : falo daquel-
las , que por eleição volTa efcolheis.
Poderá fucceder , que muitos vos digaó :
que naó convém ter género algum de arFe&o
particular e amizade ; porque efta ocupa o
coração , diíhahe o efpirito , gera invejas ;
mas enganaó-fe em feus confeíhos ; porque
tendo vifto nos efcritos de muitos Santos e de-
votos Authores , que as amizades particulares
e afFe&os extraordinários , faó fummamente
nocivos aos Religiofos , cuidaó elies que o
mefmo fe ha de entender do reítante do mun-
do ; mas ha grande diferença j porque fe aten-
O ii der-
(i) PTalin. i]2. v. i. Ecce quam boTwm V q*<i**
jutundum haltitarcjratrçt m unum,
212 INTRODUCÇAÓ
dermos a hum Convento bem regulado , o
intento commum de todos fe encaminhará de-
voção , e aífim naó he nelle neceííario ter ef-
tas particulares communicaçóes : para que
naó fucceda , que bufcando em particular o
que he commum , fe palie das particularida-
res ás parcialidades ; mas quanto aos que ef-
taõ entre os mundanos , e abraçaó a verdadei-
ra virtude , lhes he neceííario fazerem aliança
huns com outros com huma fanta e fagrada
amizade; porque por meio delia, fe animaó aju-
daó e conduzem ao bem ; e aííim como os que
caminhão por planície , naó neceíiitaó de que
lhes dem a maó , e os que vaó por caminhos
efcabrofos fe prendem huns a outros , para
caminharem mais feguros aííim os que eítaõ
nas Religiões , naó neceíiitaó de amizades par-
ticulares , mas os que eítaõ no mundo as haó
mifter , para fe íegurarem e focorrerem huns a
outros, entre tantos máos paíTos que he for-
çofo defembaraçar. No mundo nem todos
afpiraó ao mefmo fim , nem todos tem o
mefmo efpirito. Devemos pois fem duvida
por-nos á parte , e fomentar amizades con-
forme a nofTa pretençaó : e efta particulari-
dade faz verdadeiramente huma parcialidade ,
mas huma parcialidade fanta , que naó caufa
outra divifaó que a do bem e do mal , das
ovelhas e das cabras , das abelhas e dos zan-
gãos : feparaçaó neceífaria.
Na verdade naó fe pôde negar , que NoíTo
Senhor amou com mais fuave e efpecial ami-
zade a S. Joaó , a Lazaro , a Martha , e a Mag-
dalena j porque a Efcritura o teftifica. Sabe-
fe4
a3 Vida devota. 213
fe , que S. Pedro amou ternamente a S. Mar-
cos e a Santa Petronilha , affim como S. Pau-
lo ao íeu Timotheo e a Santa Tecla , S. Gre-
gório Nazianzeno fe preza hum cento de ve-
zes da incomparável amizade , que teve com
o grande S. Baíilio , e a defcreve deíle mo-
do. )) Naó parece fenaó que em nós ambos
)) naõ havia mais que huma alma em dois cor-
» pos : e fe naó fe deve dar credito aos que
» dizem , que todas as coifas eitaó em todas
h as coifas, nem por iíTo fe deve negar , que
» ambos de dois eftavamos em cada hum de
* nós , e hum no oucro : Huma fó pretençaó
» tínhamos ambos , que era cultivar a virtu-
» de , e acommodar os deíignios da noíTa vi-
)) da ás efperanças futuras ; fahindo aííim da
T) terra morta, antes de morrer, n Santo Agoí-
tinho teftemunha , que Santo Ambrofio amou
unicamente a Santa Mónica , peias raras vir-
tudes que neila via , e que ella reciprocamen-
te o amava como a hum Anjo de Deos.
Mas para que he mortificar-vos com coifa
taó clara ? S. Jeronymo Santo Agoílinho S.
Gregório S. Bernardo , e todos os maiores fer-
vos de Deos , tiveraó particularillimas ami-
zades , fem detrimento da fua perfeição. S.
Paulo reprehendendo o engano dos Gentios ,
os acufa de terem fido gente fem afTeiçaó ,
ifto he que naó tinhaõ amizade alguma. E
Santo Thomás com todos os bons Filofofos ,
confelTa fer a amizade huma virtude. Fala
da amizade particular , porque como elle
diz , a perfeita amizade naó fe pode eften-
der a muitas peííoas. A perfeição pois naó
co a-
214 Introducçao
confííle em naó ter amizade , mas em a naõ
ter fenaò boa , Canta 3 e fantificada.
CAPITULO XX.
Da diferença das verdadeiras e vãs amizades.
AQui vos dou , minha Philotea , hum gran-
de documento. O mel de Heraclea que
he venenofo , fe parece a outro que he fauda-
vel : e aílim ha grande perigo de tomar hum
pelo outro , ou de toma-los miíturados, por-
que a bondade de hum naõ impede a maligni-
dade do outro. Devemos ellar {obre avifo ,
para naó fer enganados neílas falias amizades,
principalmente quando fe contrataó entre peí-
íoas de diverfo fexo , debaixo de qualquer
pretexto que feja ; porque muitas vezes Sata-
nás torce o amor aos que amaõ. Começa-fe
pelo amor vinuofo , mas fe naó ha muita pru-
dência , fe intrometerá o amor frívolo , logo
o amor fenfual , e depois o amor carnal. De
femelhante modo ha perigo no amor efpi ri-
tual , fe naõ fe eftá com muito cuidado , pofto
que nefte naó he taó fácil a mudança ; por-
que fua pureza e candidez , faz mais conhe-
cidas as manchas, que Satanás lhe quer lan-
çar : e eíta he a caufa , porque quando o em-
prende , o executa com mais delicadeza , pro-
curando que as impurezas efcorreguem infeníi-
velmente.
Conhecereis a amizade mundana e a fama
ç vircuofa , como fe conhece o mel de Hera-
clea
a* Vida devota. 215*
elea a reípeito do outro : o mel de Heraclea
he mais doce á lingua , que o ordinário , por
caufa do aconito que lhe dá mais doçura : e
a amizade mundana produz ordinariamente
huma multidão de palavras aíTucaradas , huns
requebros de ditinhos arTecluofos , e de lou-
vores tomados da fermofura , da graça , e das
qualidades fenfuaes : mas a amizade íanra tem
huma linguagem fingela e franca , e naó fabe
louvar íenaó a virtude e graça de Deos , úni-
co fundamento em que ella fubílfte.
O mel de Heraclea tanto que he engoli-
do , caufa hum efvaecimento de cabeça: e
a falia amizade excita ao defvanecimento de
animo , que faz vacilar huma pelToa na cafti-
dade e devoção , conduzindo-a a vidas aíFe-
ftuofas ternas e immoderadas , a caricias fen-
fuaes , a fufpiros defordenados , queixumes
de naó fer amado ; a pequenos mais exquifi-
tos e atractivos geftos ceremonias galantarias, e
a outras confequencias de favores defcortezes,
certos e indubitáveis prefagios de huma pró-
xima ruina da honeftidade : mas a amizade
fanta naó tem olhos fenaó íinceros e honeftos :
nem caricias fenaó puras e francas: nem fuf-
piros fenaó pelo Ceo : nem particularidades ,
fenaó do efpirito : nem queixas fenaó quan-
do Deos naó he amado : finaes infalíveis da
honeílidade. O mel de Heraclea perturba a
vifta : e efta amizade mundana perturba o
juizo , de tal forte , que os que eftaó poiTui-
dos delia , cuidaó que obraó bem obrando
mal , e entendem que as fuás efcufas pretex-
tos e palavras , faõ verdadeiras razões : te-
mem
zi6 Iktroducçaõ
mem a luz , e amaó as trevas. Mas a amizade
fanta tem os olhes claros , e naó fe efeonde ,
antes aparece de boamente diante das peffoas
de bem. Em rim o mel de Heraclea cauía na
boca grande amargor ; e as falfas amizades fe
convertem e terminaô em palavras e em per»
tenções carnaes e hediondas : e no caio de
naó ferem admitidas , em injurias , calum-
mas , importaras , trifíczas , confusões, e ze-
los , que ordinariamente vem a dar em bruta-
lidades e defvarios: mas a amizade caíta fem-
pre he igualmente honeíta civil benévola , e
já mais le converte fenaó em huma mais per-
feita e pura uniaó de efpiritos , imagem viva
da amizade bemaventurada que fe pratica no
Ceo.
S. Gregório Nazianzeno diz , que o pavaó
quando dá o feu grito , e forma a fua roda e
pavonada , excita grandemente as pavoas que
o ouvem à fenfualidade. Quando fe vê a hum
homem ataviar-fe , enfeitar-fe , e vir aílim
requebrar , falar baixo , e fufurrar aos ouvi-
dos de huma matrona ou donzela , fem pre-
tençaó de hum juíto matrimonio , ah que ifto
fem duvida naó he fenaó para a provocar a
alguma impudicicia : e a mulher de honra ta-
pará os ouvidos , por naó ouvir o grito defte
pavaó , e a voz do encantador , que com fi-
nezas a quer encantar: e fe ella o efeutar ,
oh bom Deos ! que máo agoinyda lutura per-
da do feii coração !
A gente moça que faz geftos vifagens e ca-
ricias , ou dizem palavras que naó querem
que lhes oicaó teus pais mais paridos mulhe-
res
a3 Vida devota. 217
res ou ConfeiTores , teftemunhaó niilo trata-
rem de outra coifa , que naó da honra e conci-
encia. \Toí)a Senhora ie turbou vendo hum
Anjo em rórma humana , porque eftava íó ,
e Jhe dava exrremoíos poífo que celcíliaes
louvores. Oh Salvador do mundo ! a pureza
teme a hum Anjo em forma humana ; e por-
que naó temerá a impureza a hum homem,
ainda que folie em figura de Anjo , quando
elle a louva com louvores fenfuaes e humanos ?
CAPITULO XXI.
A~vifos e remédios contra as mas amizades*
MAs que remédio , contra eíta ninhada e
formigueiro de loucos amores eftulti-
cias e impurezas i Tanto que fentirdes os pri-
meiros movimentos voltai-lhe as coifas , e com
huma deteífaçaó abfoluta deita vaidade , cor-
rei á Cruz de NoíTo Salvador , e tomai a lua
Coioa de efpinhos , para cercardes voiío co-
ração com eiles , a fim de que èftas rapoíi-
nhas naó le chegem a elle. Guardai-vos mui-
to de vir a algum género de compoíiçaó com
efte inimigo ; e naó digais ouvilo-hei , mas
naó farei nada do que me diíTer : darlhe-hei
ouvidos , mas negarlhe-hei o coração. Philo-
rea minha , por Deos vos peço , que íejais
rigorofa em femelhames ocafióes. O coração
e os ouvidos eilaó entre il connexos , e aíTim
como he impoííivel deter huma corrente , que
fe vai defperrçhàndd pela ladeira de hum mon-
te ,
2l8 Introducçao
re , aífim he difícil impedir , que o amor que
cahe no ouvido , fe naó precipite logo- no co-
ração. As cabras , fegundo Alcmeon , refpi-
raó pelos ouvidos , e naó pelos narizes : ver-
dade he que Ariftoteles o nega : e eu naó di-
rei o que he realmente , mas muito bem
fei , que o noíío coração refpira peio ouvido ;
e que allim como refpira e exhala feus penfa-
mentos pela língua , afpira pelos ouvidos ,
pelos quaes recebe os penfamentos dos outros.
Livremos pois com cuidado os noíTos ouvidos
do ar das palavras loucas ; porque de outro
modo fe empeftarà o noíTo coração. Naó ef-
cuteis forte alguma de propofta , qualquer que
feja o pretexto : fó nefte cafo naó ha perigo
em vos moftrardes ruftica e defcortez.
Lembrai-vos de que ofereceftes o voíTo co-
ração a Deos , e o voffo amor lhe eílà facrifi-
cado : facrilegio pois feria , tirar-lhe hum fó
átomo : antes lho facrificai de novo outravez ,
com mil refoluções e mil proteftos : e fegu-
rando-vos entre elles , como hum cervo na
íua toca , clamai a Deos , que elle vos foccor-
rerá , e o feu amor tomará o voffo debaixo da
fua protecção , para que viva por elle unica-
mente.
E fe eftais já prefa na rede deftes loucos
amores , oh Deos , que dificultofo ferâofol-
tar-vos ! Lançai-vos diante da Divina Ma-
geftade , reconhecei na fua ptefença a grande-
za da voíTa miferia , a voífa fraqueza e vai-
dade : depois com o maior esforço de coração
que vos for poílive! , deteílai efíes amores co-
meçados , abjurai a vá profifíaó que delles ten-
des
a5 Vida devota. 219
des feiro , renunciai todas as promeflns rece-
bidas , e coi\ numa grande e abfolutilhma
vontade prendei o voíTo coração , e aíTentai
de nunca mais entrar neíles jogos e entrete-
nimentos amorofos.
Se vos poderdes apartar do obje&o , apro-
valo-hei fummamente ; porque ailim como os
cjue tem fido mordidos das íerpentes , naó po-
dem facilmente íarar , em prefença dos que
outra vez foraó feridos da mefma mordedura ;
aílim a peífoa que eítá picada do amor , difi-
cultofamente farará delia paixão , em quanto
eíliver perto de outra , que tiver ildo tocada
da mefma picadura. A mudança de lugar fer-
ve por extremo , para apafiguar os ardores e
defaíTocegos , tanto de ientimento como de
amor. O moço de que fala Santo Ambroílo
no Livro 2. da Penitencia , tendo feiro huma
larga jornada , voltou inteiramente livre dos
loucos amores que tinha praticado ; e muda-
do de tal forte , que encontrando-o fua louca
namorada e dizendo-lhe : naó me conheces ?
eu fou ainda a mefma : aílim he , refpondeo
elle , mas eu já naó fou o mefmo : a aufen-
cia lhe havia caufado efb feliz mudança. San-
to Agoílinho teítifica , que por aliviar ador
que teve na morte de feu amigo , fe fahira de
Tagafte onde morreo , e fora para Cartago.
Mas quem fe naó pode apartar , que deve
fazer í Deve abfolutamente corrar toda a con-
verfaçaõ particular , todo o entretenimento fe-
creto , todo o requebro de olhos , todo o iuri-
Zo % e geralmente todo o género de ccnvjnica-
çaõ e fomenro 3 que pcíla manter eíle íc^o he-
dion-
220 INTRODUCÇAÓ
diondo e que fumega ; ou pelo menos fe he
forçofo falar ao complice , que feja por hu^
ma atrevida breve e levera proteftaçaõ , do
perpetuo divorcio que tem jurado. Clamo em
alta voz a todos os que tiverem cahido neí-
tes laços de galanteios , que os cortem
defpedacem e rompaó : naõ devemos deter-
nos a defcozer eftas loucas amizades , devem-
fe rafgar ; naõ convém defatar os nós , de-
vem-fe romper ou cortar : pois fuás ligadu-
ras e laços nada valem. Naõ Ha para que fa-
zer cafo de hum amor, que taõ contrario he
ao de Deos.
Mas depois que eu aílim. tiver quebrado
as cadeias deita infame efcravidaó , ainda me
reflarà algum refenrimento , e as marcas e
veítigios dos ferros ficaráõ ainda impreífos em
meus pés , iílo he em meus arFe&os. Naõ íi-
caráó , Philotea , fe vós conceberdes tanta de-
teítaçaó do voíío mal , como elle merece ;
porque fe affim for , naõ fereis agitada de ou-
tro movimento , fenaó de hum fummo horror
daquelle amor infame , e de tudo a que delle
depende: e ficareis livre de toda a mais affei-
çaó ao objeftoque deixaítes , e fó com huma
puriílima caridade para com Deos. Mas fe por
imperfeição do voffo arrependimento , vos fi-
carem ainda algumas mas inclinações , procu-
rai pôr a voffa alma em huma folidaô men-
tal , fegundo vos enílnei acima , e retirai-vos
o mais que puderdes: e com milhares de fo-
lirarias jaculatórias efpiricuaes , renunciai to-
das as volTas inclinações , refifti com todas
voíías forças, lede com mais frequência por
li»
a3 Vida devota. 221
livros devotos, confeíTai-vose comungai mais
a miúdo do que coítumais , conferi com hu-
mildade e clareza todas as fugeftées e tenta-
ções , que vos fobrevierem por efte reípeito ,
com o voíTo Dire£ror fe poderdes , ou ao me-
nos com alguma alma fiel e prudente. E naó
duvideis , que Deos vos livrará de todas as
paixões , com tanto que continueis fielmente
neftes exercícios.
E naó fera huma ingratidão , me direis
vós , quebrar taõ violentamente huma amiza-
de ? Oh que bemaventurada a ingratidão , que
nos faz agradáveis a Deos ! Naó , Philotea ,
em Deos vos digo , que naó fera iílo ingrati-
dão , mas hum grande beneficio , que fareis
ao amante ; porque quebrando os voííos la-
ços , quebrais também os feus , pois eraó
communsa ambos : e ainda que por entaõ naó
conheça a fua ventura , brevemente a conhe-
cerá de pois , e comvofco cantará em acçaó de
graças : O' Senhor I <vos quebraftes os meus la-
ços : eu vos facri ficarei a hojlia de louvores ,
e invocarei *voffo fanto Nome. (1)
CA-
( 1 5 Pfalm. 115. v. 7. Virupijli vincula mea ,
tihl Jacrificabo hoftiam landis , Ç?* nomcn Denimi invo-
cabo.
222 INTRODUCÇA
CAPITULO XXII.
Alguns outros documento* /obre a matéria das
amizades.
A Amizade requer huma grande communi-
caçaó entre os que fe amaó , de outra
force naó pôde nafcer nem fubfiílir. Por iíío
fuecede commummente , que com a commu-
nicaçaó da amizade , muitas outras commu-
nicaçóes paífaó e fe introduzem infenfivelmen-
te de coração em coração , por huma mutua
paíTagem e reciproca transfufaõ de affedlos , in-
clinações 3e iaif refsóes. Mas ifto principalmen-
te acontece , quando eftimamos com exceíTo
o que amamos ; porque entaó abrimos de tal
modo o coração á fua amizade , que com el-
la nos entraó facilmente todas as fuás inclina-
ções , boas ou más. Na verdade que as abelhas
que formão o mel de Heraclea , naó procuraô
mais que o mel , mas com o mel chupaó in-
fenfivelmente as qualidades venenofas do aco-
nito 3 do qual fazem a fua colheita. Convém
pois , Philotea , praticar nefta matéria o que
o Salvador de noíTas almas coftumava dizer
( fegundo nos enfináraó os antigos ) fede bons
cambiadores e moedeiros. Quer dizer : naó
recebais a moeda falfa com a boa , nem o
oiro baixo com o fino , feparai o preciofo do
vil : fim , porque quaíl naó ha nenhum , que
naó tenha alguma imperfeição. E que razaõ
ha para receber de miftura as maculas e imper-
a' Vida devota, 223
feições do amigo com a fua amizade ? He cer-
to que o devemos amar , naó obftantc a fua
imperfeição : mas naó devemos nem amar
nem receber eíTa imperfeição ; porque a ami-
zade requer a communicaçaó do bem , e naó
a do mal. Ailim como os que tiraó área do
rio Tejo , em feparando o oiro que nella
achaó , a deixaó ricar nas margens : por feme-
lhante modo os que tem a communicaçaó de
alguma boa amizade , devem feparar a área
das imperfeições , e naó a deixar entrar na fua
alma.
S. Gregório Nazianzeno afirma , que mui-
tos amigos e admiradores de S. Baíilio , che-
garão a imita-lo , até nas imperfeições exte-
riores : no feu falar vagarofo , e com efpirito
abftrahido e penfativo, no feitio da barba , e
no andar. E nós vemos maridos e mulheres
mancebos amigos , que por eftimarem muito a
feus amigos pais maridos e mulheres , con-
trariem ou por condefcendencia ou por imita-
ção , milhares de imperfeiçóesinhas , no co-
mercio da amizade que frequentaó ífto pois
naó deve fer aííim ; porque cada hum afsás
de más inclinações tem , fem tomar fobre
íi as dos outros. A amizade naó fó naó
pede ifto , mas pelo contrario nos obriga a
ajudar-nos huns a outros , para mutuamente
nos defpirmos de todo o género de imperfei-
ções. Sem duvida que devemos fofrer fuave-
mente o amigo em fuás imperfeições , mas
naó induzilo a ellas , e muito menos rrafpaf-
íalas para nós.
Falo fó das imperfeições ; porque quanto
aos
224 Introducçao
aos pcccados , nem fe haó de transferir , nem
tolerar no amigo. Eíta amizade ou he fraca
ou perverfa : ver perecer o amigo e naó o fo-
co rrer : velo morrer de huma poftema , e
naó nos atrever a por-lhe a navalha da correc-
ção para o falvar. A amizade viva e verda-
deira naó pode durar enrre os peccados. Di-
zem que a íalamandra extingue o fogo em
que fe deita , e o peccado arruina a amizade
em que habita. Se o peccado for paíTageiro ,
o afugentará a amizade por meio da correc-
ção : mas fe he diuturno e morofo , logo fe
acaba a amizade ; porque eira naó pode fub-
íiílir fenaó fobre a verdadeira virtude : e mui-
to menos fe deve pecar por amizade. O ami-
go he inimigo quando nos quer induzir ao
peccado , e merece perder a amizade , quan-
do quer perder e condenar o amigo : efte he
hum dos mais certos íinaes de huma falfa ami-
zade , tê-la com peffoa viciofa , em qualquer
género de peccado que íeja. Se aquelle a
quem amamos he viciofo , fem duvida he vi-
ciofa a noffa amizade ; porque como elle naó
pode atender á virtude verdadeira , forçofo
he que coníidere alguma virtude vá , e pren-
da fenfual.
A fociedade que fe pratica entre os mer-
cadores , pelo lucro temporal , naó he mais
que imagem da verdadeira amizade ; por-
que fe pratica , naó por amor das peíToas ,
mas por amor do ganho. Em fim eftas duas
divinas fentenças , faó duas grandes colum-
nas , para bem fegurar a vida Chriftá : Huma
he do Sábio : O que teme a Deos terá hum/t
boa
a? Vida devota. 2if
boa amizade (i) : a outra de Santiago : A 4nih
%ade defie mundo he inimiga de Deos. (2)
CAPITULO XXIII.
Dos exercícios de mortificação exterior.
OS que trataó de coifas ruílicas e campei-
três , anrmaó que fc em huma amendo-a
inteija fe efcrever alguma palavra , e a mete-
rem na lua cafca , dobrando-a e fechando-a
bem , e aílim a plantarem , em todo o fru&o
que a arvore der fe achará gravada a mefma
palavra. Quanto a mim , Pliilotea , nunca já
mais pude aprovar o methodo dos que para
reformar o homem , começaô pelo exterior ;
pelo femblante , veftidos e cabelos.
Parece-me o contrario , que fe deve prín-
cipiar pelo interior. Conuertei-^vos a mim diz
Deos , de todo o <voffo corarão (3). Filho meu
da-me o teu coração (4) i porque lendo o co-
ração a origem das acções , taes faó eflas ,
qual elle he. O Divino Efpofo convidando a
alma diz (5) : Ponde-me como bum finetefobre
(1) Ecclef. 16. v. 17. Qjtí timçt Deum habcbit ámU
citlam bonam. j»
(2) Jacob. 4. v. 4. Amicttiã hiqus manei hl raie 4
efi Dei.
CO Joel. 2. v. 12. Convertimini ad me In loto corde
vejlro.
(4) Proverb. 2$. v. 26. Prcbc fflimi cor tutítrt mihh'
(0 Cant. 8, v. 6. Pope me ut fignaculam fuptr ser
tuum , ut Jignaculumfuper bvaçhium tUW»,
ii6 Introducçao
o 'vojfo coração , como hum feio Cobre o 'voffò
braço. Sim na verdade ; porque quem tem a
Jefu Chriíto em feu coração brevemente o te-
rá em todas fuás acções exteriores. Por ido
eu , cariilima Philotea , quiz primeiro que tu-
do gravar e efcrever em voíTb coração efte
íanro e divino more : Viva Jefus : tendo por
certo , que a voíTa vida , que do voiío cora-
ção procede , como a amendoeira da fua pe-
vide , produzirá rodas fuás acções que faó os
frutos , efcruos e gravados com o mefmo fa-
lurifero mote. E que affim como efte doce Je-
fus viverá dentro em voíTò coração , aílim
também viverá em todas voíTas acções , e ap-
parecerà em voiTos olhos , em voíTa boca , em
voíTas mãos, e até em voiTos cabelos : e po-
dereis fantamente dizer á imitação de S. Pau-
lo : Vwo eu , mas ja nao eu , antes Jefu Chrif-
to njwe em mim ( i ) . Em huma palavra :
quem ganhar o coração do homem , tem ga-
nhado todo o homem. Mas efte mefmo cora-
ção p^r onde queremos começar, requer fer
inftrtiido , como fe ha de portar no exterior ,
para que naõ fó nelle fe veja a fanta devoção,
mas ramb^m huma grande prudência e difcri-
çaó. Para ifto vos quero dar brevemente vá-
rios avifos.
Se poderdes aturar o jejum , fareis bem
em jejuar alguns dias , além<dos jejuns que a
Igreja nos manda ; porque além do efeito or-
dina-
(i) Ad Galat. 2. v. 20. Vivo autem jam non ego t
Vtvit ver* ia me Çhrljlus»
a5 Vi da devota. tij
dinario do jejum, de levantar o efpirico , re-
primir a carne , praticar a virtude , e adqui-
rir maior paga no Ceo ; he huma grande uti-
lidade coníervar-íe na poíTe de repiehender a
mefmj »o!odice , e ter o apetite fenfual e o
corpo fujeito ás leis do eípirito : e ainda que
naó jejuemos muito, o inimigo com tudo nos
teme muito mais , quando conhece que fabe-
mos jejuar As Quartas Sextas e Sábados , fao
os dias em que os antigos C rir titios fe exerci-
tavaó mais na abftinenci-a. Aprendei pois del-
les a jejuar , quanto a voffa devoção , e a dif-
criçaó do voíío Director vos aconfelharem.
De boamente diria como S. Jeronymo dií-
fe a. virtuofa matrona Leta : Os longos ç immo~
derados jejuns me defagradao muito , princi-
palmente nos que fao de tenra idade. Pela ex-
periência fei , que o jumentinho indo de jor-
nada procura lançar de fi a carga : quero di-
zer , a gente moça cahindo em enfermidades 7
por jejuns exceílivos , Te tornaó facilmente
para o regalo. Os cervos correm mal em dois
tempos ; quando eftaó gordos com a caça , e
quando eftaó magros. Eftamos grandemente
expoftos ás tentações quando remos o corpo
mui nutrido , e quando eftá mui avenuado j
porque huma deftas coifas o faz infolentç no
feu prazer , e a outra o torna dofefpoiado na
fua pena : e aílim como naó podemos com
elie quando eftá mui cheio , aíhm naó pode
elle comnofeo quando eftá mui magro. A fal-
ta deita moderação nos jejuns difcipíinas cili«
cios e afperezas , faz inúteis no ferviço da ca-
lidade os melhores annos de muitos : como
P ii acon»
22o* Intkoducçao
acomeceo a S. Bernardo , que fe arrependia
de rer-fe havido com demaiiada aufteridade :
e quanto eftes fe maltrataõ no principio , tan-
to fe vem obrigados a regalar- íe no fim. Naó
lhe eftivera melhor hum tratamento igual ,
e proporcionado aos orricios e trabalhos , a
que o feu eftado os obrigava í
O jejum e o trabalho abatem e enfraque-
cem a carne. Se o trabalho em que vos ocu-
pais , vos he necelTario , ou mui utii á gloria
de Deos , antes quero que íuporteis o pezo
do trabalho , que o do jejum. Eite he o pare-
cer da Igreja , a qual pelos trabalhos úteis
ao ferviço de Deos e do próximo , defearre-
ga aos que os executaó dos jejuns ainda de
preceito. Huns jejuaó com dificuldade , ou-
tros lhes he moleiro vifitar os enfermos , ir
ver os encarcerados , confeílar , pregar , af-
íiílir aosafrli&os , ter oraçaõ , e outros feme-
lhantes exercícios : eílas penalidades valem
mais que aquella ; porque além de fatigar
igualmente , tem frutos mais dignos de òeie-
jar. E por iíTo geralmente melhor he guardar
mais forças corporaes das que havemos mif-
ter , do que arruinalas mais do que devemos ;
porque toda a vez que quizermos as podemos
abater , e nem fempre que quizermos as po-
demos reparar.
Parece-me que devemos -ter grande reve-
rencia ás palavras que NoíTo Redemptor e
Salvador Jefu Chrifto diffe a feus Difcipulos :
Comei o quz vos poiçrem diante (i). Maior
Vir-
ai ■ ' ii.ii. . i . ■ uu
£1) Luc. io. v. 9, Mandacete ç«* fipponuníur vobht
a* Vida devota. 229
virtude he ( fecundo eu enrendo ) comer fem
efcolha o que fe vos oferece na meíma or-
dem que Te vos oferece , ou elle feja do vof-
fo gofto ou naó , do que efcolher fempre o
peior ; porque ainda que efte ultimo modo de
viver pareça mais auílero , o outro com tudo
tem mais de refignaçaó : pois com ella renun-
ciamos naó fó o notfo goílo , mas a própria
efcolha : e naó he pequena aufteridade volrar
o gofto a qualquer parte , e tê-lo obediente
aos acafos. Além de que , efte género de mor-
tificação naó aparece , nem incommoda nin-
guém , e he unicamente próprio da vida civil.
Apartar huma iguaria por tomar outra , raf-
par e belifcar em todas as coifas, naó achar
nada bem guizado nem aíTeado , fazer myf-
terios a cada bocado , iíTo denota hum cora-
ção mole e entregue a pratos e efcudelas. Mais
eftimo eu , que S. Bernardo bebeíTe azeite em
lugar de agoa ou de vinho , do que fe bebef-
fe de propolito agoa de abfyntio ; porque foi
final de que naó cuidava no que bebia. Nefte
defcuido do que fe ha de comer ou beber ,
confifte a perfeita pratica defta divina fenten-
ça : Comei o que vos pozerem diante. Ex-
ceptuo porém as viandas nocivas á faude , ou
que dèfaíTocegaó o animo , como fucede a
muitos com os manjares quen es , e efpecies
fumofas e rlatulentas : e certas ocafióes em
que a natureza neceííita de fer recreada e aju-
dada para poder fuportar algum trabalho da
gloria de Deos. Huma continua e moderada
fobriedade he melhor que as abftinencias vio-
lentas feitas em vários tempos 3 e entrefachadas
com grandes relaxações. A
230 IntroducçaS
A difcijfrlma rem admirável virtude , para
defpertar o apetite da devoção , tomando-fe
moderadamente. O cilicio debilita muita o
co.p-} , mas o feu ufo naó he próprio para or-
ei nario , nem a peflbas cafadas , nem a com-
pleições delicadas , nem aos que tem de íu-
porcar outros grandes trabalhos : verdade he
que nos dias mais notáveis dê penitencia , íc
poderá ufar delle , com confelho de hum pru-
dente ConíeiTor.
Cada hum deve tomar da noite para dor-
mir , fegundo a fua compleição , quanto lhe
for precifo , para bem e utilmente velar de
dia. E porque a Efcritura fanta em muitos lu-
gares , o exemplo dos Santos , e a razaó na-
tural nos recomendaó grandemente as manhãs,
como as melhores e mais fru&uofas partes de
noíTos dias : e NoíTò Senhor mefmo he intitu-
lado Sol que nafee , e NoíTa Senhora Aurora
do dia : entendo que he hum virtuofo cuida-
do , tomar o fono á noite a boa hora , para
poder defpertar e levantar bem de manha :
eíte he o tempo mais engraçado , e mais fua-
ve , e menos embaraçado : as mefmas aves
nos excicaõ nelle a que defpertemos e louve-
mos a Deos ! por onde o levantar de manhã
he útil á faude e a fantidade.
Balaam montado na fua jumenta hia buf-
car a Balac , mas como naó levava re&a in-
tenção , o efperou o Anjo noy caminho para o
matar (1) ; a jumenta que vio o Anjo , por
três
(1) Numer. 22. v. 28.
a> Vida devota. 231
três vezes diverfas parou como voltando para
trás : Balaam entretanto a feria cruelmente
com o íeu bordão para que andalle por dian-
te ; até que a terceira vez deix'ando-fe cahir
debaixo de Balaam , lhe falou miraculofa-
mente dizendo : Que te tenho feito , para me
teres ferido já três 'veiçs í e logo fe lhe abri-
rão os olhos a Balaam , e vio o Anjo que lhe
dilTe : Porque tens ferido a tua jumenta ? Se
ella fe naó apartaíTe de diante de mim , te te-
ria morto a ti , e a ella re (guardado. Fn;aõ
diiTe Balaam ao Anjo : Senhor pequei; por-
que naó fabia que eftaveis contra mim no ca-
minho. Aqui vedes , Philotea , como Balaam
fendo a caufa do mal , fere e maltrata a fua
pobre jumenta , que naó tem culpa. Aííim
luccede bem frequentemente em noiTos negó-
cios ; porque a outra mulher vê a feu marido
ou a feu filho enfermo , recorre logo ao je-
jum ao cilicio à diiciplina , como fez David
em femelhante matéria. Ah minha cariflima !
vós maltratais a pobre jumentinha , afligis o
volTb corpo , naó tendo elle culpa do voíTò
mal, nem de que Deos defembainhaíTe a fua
efpada fobre vós. Corregi o voíTo coração que
he idolatra deite marido , e confemio milha-
res de vícios ao filho , eo encaminhou á fo-
berba vaidade e ambição. O outro vê que
cahe mui amiúdo torpemente em pec'cadosde
luxuria i e que o remorfo interior vem con-
tra elle para o ferir com a efpada feita , para
o ferir com o fanto temor: e logo o feu co-
ração tornando em íi diz : Ah traidora carne !
ah cepo desleal ! tu me has vendido : e eis
íb-
%%% Introducçao
íobre eíta carne defmedidos caftigos , jejuns
immoderados, fortes difciplinas , e infupor-
taveis cilícios. Oh pobre alma , íe a tua car-
ne podeíTe falar , como a jumenta de Balaam,
cila te diria: Porque me feres tu miferavel l
Contra ti alma minha arma Deos a fua vin-
gança : Tu es a criminofa ; porque me con-
duzias ás mas converfaçóes \ porque appiica-
vas meus olhos mãos e lábios em Iafcivias ?
para que me inquetavas com más imagina-
ções í Tem bons penfamentos e eu naó terei
mãos movimentos ; trata com gente honefta ,
e eu naó ferei combatida da minha concupif-
eencia. He pollivel que me lanças no fogo ,
e naó queres que me queime : enchefme os
olhos de fumo , e naó queres que fe infla-
mem ? Neítes cafos fem duvida vos diz Deos:
maltratai q-jebrai fendei e defpedaçai princi-
palmente volTos corações ; porque contra el-
es fe tem irritado o meu furor. Na verdade
para farar da comichão , naó he taó precifo la-
var e banhar , como- purificar o fangue e re-
frefcar o fígado : aílim para farar-mos de nof-
fos vícios, na verdade que he bom mortifi-
car a carne , mas principalmente he neceíTa-
fio purificar^ os noífos affeclos , refrefcar os
noiíos corações. Em tudo pois e por tudo de
nenhum modo convém emprender aufterida-
des corpbraes ., fenaó com confelho do nofib
Diretor,
CA
l
a' Vida devota. 233
CAPITULO XXIV.
Das con-uerfaçoes e da folidao.
BUfcar as converfaçóes e fugir delias , faó
dois extremos de eítranhar na devoção ci-
vil , que he a de que vos falo : fugi-las deno-
ta deídem e defprezo do próximo , e bufca-
las cheira a ociofidade inútil. Devemos amar
o próximo como a nós mefmos. Para moftrar
que o amamos naõ devemos fugir de eítar
com elle : e para moítrar que nos amamos ,
naó devemos eítar quando effcamos com nós
mefmos : iíto íuccede quando eííamos fós :
Cuidai em tjós , diz S. Bernardo , e depois
nos outros. Se nada vos obriga a bufcar a con-
veríaçaó , ou recebela , deixai-vos eítar com-
vofco mefma , e entretende-vos com o voífo
coração: mas fe a converfaçaõ íe vos offere-
cer , ou aiguma juíta caufa vos convidar ,
ide com Deos , Philotea , e vede o voffo pró-
ximo com boa vontade e com bons olhos.
Chamaó-fe más converfaçóes aquellas ,
que fe tem com alguma tenção má : ou tam-
bém quando os que intervém nellas faó vi-
ciofos indifcretos e dillolutos : e a eílas fe
deve furtar o corpo , como as abelhas fogem
dos zangões e mofcóes. Porque como os que
faó mordidos de cáes danados, tem o fuor ,
o hálito , e a faliva perigofa , principalmen-
te para os meninos , e gente de delicada com-
preiçaó - allim eíles viciofos naó fe podem
con-
a}4 Introducçao
converfar , fem rifco e perigo : em efpecial ,
pelos que faó de devoção ainda tenra e deli-
cada.
Ha converfaçóes inúteis para tudo o mais,
excepto a recreação , as quaes fe tem por hum
íimples divertimenro das ocupações ferias :
quanto a eftas , aiíim como naô devemos en-
tregar-nos a ellas , allim fe podem tomar em
lugar de recreação.
As outras converfaçóes tem por fim a ho-
neftidade , como faó as mutuas vifitas , e cer-
tas alTembleas que fe fazem para honrar o
próximo •• e quanto a eftas , aííim como naõ
devemos fer fuperfíiciofos em as praticar ,
aiíim também naó devemos fer incivís em as
defprezar ; mas fatisfazer com modeftia á obri-
gação devida, para evitar igualmente a rufti-
cidade e a leviandade.
Reftaó as converfaçóes úteis , quaes faó
as das peiToas devotas e virtuofas : grande
ventura, Philotea, fera fempre para vós en-
contrar com eftas muitas vezes. A vinha plan-
tada entre as oliveiras dá cachos oleofos , e
que fabem a azeitona : huma alma que fe
acha com frequência entre gente de virtude ,
naó pode deixar de participar as fuás qualida-
des. Os zangãos fós naó podem fazer o mel ,
mas com as abelhas ajudaó a fabrica-lo. Gran-
de vantagem he para bem exercitar a devo-
ção , converfar com almas decotas.
Em todas as converfaçóes , a finceridade
íinçeleza fuavidade e modeftia , faó fempre
preferidas: peiToas ha que em qualquer forte
de acçaõ e gefto , ufaó de tanto artificio que
en-
A5 V I D A DEVOTA. 23^
enfadaó a rodos : e aííim como aquelle que
nunca quizeffe paffear fenaó contando os pál-
ios , nem falar fe naó cantando , feria mo-
leffco a todos os mais homens j aííim os que
tem hum modo artiíiciofo , e tudo fazem
com cadencia , importuna© fummamente a
converfaçaó : e nefte género de gente , ha
fempre alguma efpecie de prefunçaó. Con-
vém que ordinariamente predomine alguma
alegria moderada na nolTa converfaçaó. S.
Romualdo e Santo António faó fummamente
louvados , de que naó obítantes todas as fuás
aufteridades , traziaó os femblantes fempre
adornados de alegria regozijo e cortezia (1).
Alegrai-vos com os alegres. E outra vez vos
digo com o Apoíto (2) : Eflai fempre alegre
€m Nojfo Senhor , e a 'vo/fa modefiia feja no-
tória a todos os homens. Para vos alegrar em
NoiTo Senhor , convém que o motivo da vof-
fa alegria feja naó fó licito mas honeflo : di-
go ifto , porque ha coifas licitas que nem por
i(7ò faó honeítas. E para que a voíTa modef-
tia apareça , guardai-vos de infolencias , que
fem duvida fempre faó reprehenfiveis. Fazer
cahir a hum, infamar a outro , picar aquel-
outro , fazer mal a hum louco , faó coifas de
rifo e alegrias loucas e in foi entes.
Além da foledade mental , á qual , como
diífe acima , vos podeis retirar no meio das
maio-
(O Rom. 12. v. 15. Gouécre cum gaudcntibus.
(2} Philip. 4. v. 4. Gaudcte in Domino 9fcmpcr mo-
dejlia vcjira nota Jit omnlbus hcmhúbus.
2^6 Introducça6
maiores converfaçóes : deveis amar a foleda-
de local e real ; naõ para irdes para os defer-
tos , como Santa Maria Egypciaca , S. Paulo
Santo António, Arfenio , e os outros Padres
íblitarios : mas para eftardes algum tempo no
voíTb apofento , no voíío jardim, ou em ou-
tro lugar , onde poíTais retirar o voíTb efpirito
ao voifo coração : e recrear a voíTa alma com
boas confiderações e fantos penfamencos , ou
com huma pouca de liçaõ , a exemplo do
grande Biípo Nazianzeno , que falando de fi
mefmo diz : Eu paffeaua comigo mefmo ao
pôr do Sol , paflando o tempo á borda do
mar ; porque coílumava ufar deita recreação ,
para me divertir e defviar hum pouco dos
cuidados ordinários. E logo fala do bom dif-
curfo que aqui fez , como vos referi em ou-
tra parte : E a exemplo também de Santo
Ambrofio , do qual falando Santo Agoftinho ,
diz que muitas vezes quando entrava no feu
quarto ( porque a ninguém negava a entrada )
elle o vira lendo : e depois de ter efperado al-
gum tempo, pelo naó incommodar ^volta-
va fem lhe ter dito nada : entendendo , que
aquelle pouco tempo que ficava aquelle gran-
de Paílor para refazer e recrear o íeu efpirito,
depois da tarefa de tantos negócios , naó lho
devia tirar. Aííim depois dos Apoftoios terem
certo dia contado a NolTo Senhor , como ti-
nhaó pregado e trabalhado muito , lhes difle :
Finde para afolidaÕ , e defcançxi bum pouco.
CA-
a5 Vida devota. 237
CAPITULO XXV.
Da decência dos wejlidos.
SA5 Paulo (1) quer que as mulheres devo-
tas ( o meímo fe deve entender dos ho-
mens ) fe viftaó de traces decentes 3 adornan-
do-fe com pudicícia e fobriedade. A decência
pois dos veftidos e mais adornos , depende da
matéria e forma e aííeio. Quanto á limpeza
deve fempre fer igual em nolTos veftidos , nos
quaes quanto for poííivel devemos evitar toda
a mancha e falta de limpeza. O aííeio exte-
rior reprefenta de algum modo a honeftidade
interior. O mefmo Deos requer a honeftidade
corporal nos que chegaó a feus Altares , e
tem o encargo principal da devoção,
Quanto á matéria e forma dos veftidos , a
decência fe confidera por muitas circunftan-
cias , do tempo , da idade , das qualidades ,
das companhias , e das ocafióes. Nos dias feí-
rivos , ordinariamente fe ufa de mais adorno ,
fegundo a grandeza do dia , que fe celebra.
Em tempo de penitencia , como na Quareí-
ma , fe efcufa muita coifa. Nas vodas rra-
zem-fe veftidos nupciaes , e nas aíTembleas fú-
nebres roupas de Imo. junto aos Príncipes fe
aumenta o faufto , que fe deve diminuir en-
tre
(0 I« Thimoth. 2. v. 8* In habitu ornato cum vc-
rccundia O* fobrletate imantes fc.
238 Introducçaõ.
tre os domefticos. A mulher caiada fe pode e
deve adornar , quando eílà na prefença de feu
marido ; quando elle aílim o quer; e fe fizer o
mefmo eftando longe delle , perguntarfe-ha a
que olhos quer agradar , com taó efpeciai
adorno. A's donzelas fe concedem mais dixes ,
porque podem licitamente defejar agradar a
muitos , pofto que feja , com o fim de ganhar
hum fó , para o fanto Matrimonio. Naó fe
rem por máo que as viuvas, que pretendem
cafar , fe enfeitem algum tanto ; com tanto
que o façaõ fem nota de leviandade ; porque
como já tem fido mais de famílias , e paliado
pelos defgoftos da viuvez , tem o animo ma-
duro e moderado. Mas quanto ás verdadei-
ras viuvas , que o faó naó fomente do corpo
mas de coração , nenhum adorno lhes he
conveniente , fenaó a humildade a modeítia e
a devoção; porque fe querem moftrar amor a
homens, naó faó verdadeiras viuvas : e f e o
naó querem moftrar, para que trazem os inf-
tru mentos delle i Quem naó quer receber hof-
pedes , deve tirar as infignias da fua hofpeda-
ria. Naó ha quem deixe de rir-fe de gente ve-
lha , quando fe quer enfeitar demafiado : lou-
cura he efta , que fó em gente moça fe pôde
fuporrar.
Sede affeada' , Phelotea , de modo que
nada haja em vós defcompaíTaílo e mal pofto.
He defprezo daquelles com quem tratamos,
andar entre elles com habito defagradavel :
mas livrai-vos fummamente de affeclaçóes
vaidades curiofidades e loucuras. Propendei
fempre quanto vos for pollivel , para a parte
da
a5 Vida devota. 239
da fingeleza e modeftia , que fem duvida he
o maior adorno da fermofura , e a melhor
defculpa da fealdade. S. Pedro adverte prin-
cipalmente ás mulheres moças , de naó traze-
rem os cabelos taó crefpos eftofados anelados
e retorcidos. Os homens taó cobardes , que
fe daõ a eftas invenções affeminadas , todos
os cenfuraó de hermafroditas. E as mulheres
vás faó tidas por fracas na caftidade : pelo
menos fe a tem , naó aparece entre tantas fu-
perrluidades e bacatelas. Dizem que naó tem
má tençaó ; mas eu replico , como o fiz nou-
tra parte : que o diabo fempre a tem. O meu
defejo era , que o meu devoto e a minha de-
vota foíTem fempre os mais bem veftidos do
rancho , mas os menos pompofos e affedra-
dos ; e como fe diz nos Provérbios , fe ador-
naffem de graça decência e decoro. S. Luiz
diz em huma palavra , que nos devemos vef-
tir fegundo o noíío eílado ; de forte que os
fabios e bons naó poílaó dizer , tratais-vos
com demazia : nem os moços , tratai-vos
com com mefquinheria. Mas no cafo que os
moços fe naó queiraó contentar com a decên-
cia , devemos arrimar-nos ao confelho dos
velhos.
CA-
240 Introducçao
CAPITULO XXVI.
Do falar , e primeiramente como fe ha de fa-
lar de Deos.
OS Médicos tomaó grande conhecimento
da faude ou moleília do homem , pela
infpecçaó da lingua : e as noiTas palavras
faó os verdadeiros indícios das qualidades das
noflas almas (i) : Por tuas palavras ( diz o
Salvador ) feras juftificido , e por tuas pala-
vras feras condenado. Ordinariamente pomos
a maó íbbre o lugar em que íentimos a dor ,
e a lingua fobre o amor que temos.
Se fordes pois muito amante de Deos , Phi-
lotea , falareis frequentemente de Deos , nos
colóquios familiares que tiverdes com os vof-
fos domeílicos amigos e viíinhos. Sim , porque
(2) a boca do jufto meditara a fabedoria , ea
fua lingua falará o jnizp. E aílim como as
abelhas com fuás boquinhas naõ fazem ou-
tra coifa fenaõ mel ; aííim a voíTa lingua eíla-
rá fempre melada de íeu Deos : e naó terá
maior fuavidade , que fentir efcorregar por
entre os lábios os louvores e bênçãos de feu
nome. Como fe diz de S. Francifco , que pro-
nunci-
ai) JVTatth. 12. v. 37. Exvcrb>stu'isjujl;jicaberis;
€?" cx verbis tuis ccndemnabcns.
(2) Pfalm. $6. v. 70. Os jajli meditabitur fapien~
tiair. , W lingua ejus loauetur judiciam.
a* Vida devota. 241
punciando o fanto nome do Senhor , chupava
e iambia os beiços , como fe deiles recebcílc
a maior doçura do mundo.
Mas faiai fempre de Deos como de Deos :
ifto he , reverente e devotamente ; naó vos
alienando erudita nem pregadora , mas com
espirito de maníidaó , de caridade e humilda-
de , diftilando quando puderdes ( como Te di2
da Efpofa no Caniico dos Cânticos ) o mel
diliciofo da devoção e das coifas divinas , go-
ta e gota , ora nos ouvidos de hum , ora nos
de ou:ro : rogando a Deos no interior da vof-
fa. alma , feja fervido fazer , que palie eite
fanto orvalho até dentro do coração dos que
vos ouvem.
Sobre tudo fe deve fazer efte ofRciò An*
gelico , doce e fuavemente : naó por modo
de^correcçaõ , mas á femelhança de infpira-
çaó : pois he para admirar, quanto a fuavi-
dade e benévola prepofta de qualquer coifa
boa , he poderofo engodo para atrahír os co°
raçóes.
Nunca faieis de Deos nem da dévcçaÔ ,
e por modo de comprimento , e entretenimen-
to , mas fempre com atenção e devoção, li!»
digo por ves defvíar de numa notável vaida-
de j que fe acha em muitos , que fazem pro-
fiíT.iô de devoção : os quaes a qualquer propo-
íiro dizem palavras fantas e fervorofas , por
modo de comedimento 3 fem cuidar no que
dizem : e depois lhes parece , que faó taes
qoaes as palavras dizem, fendo na realidade
O contrario.
Q CA-
242 Introduccaõ
CAPITULO XXVII.
Da boneftidade das palavras , e do refpeito
que fe deue ás pejfoas.
SE alguém nao peca de palavra ( diz San-
tiago ) effe be homem perfeito (1). Guar-
dki-vos com cuidado de deixar cahir algumas
palavras deshoneftas ; porque ainda que as
naó digais com má intenção , poderão os que
as ouvem recebelas de oucra forte. A palavra
deshoneifca cahindo em hum coração fraco , fe
eílende e dilata como huma gota de azeite fo-
bre o pano : e ás vezes toma potíe do cora-
ção de moio , que o enche de milhares de
penfamentos e tentações lúbricas ; porque af-
íim como o veneno do corpo entra pela boca,
aífím o da alma entra pelo ouvido , ea lín-
gua que o produz he homicida ; porque ain-
da que por acafo o veneno que arrojou naó
tiveíTe o feu effeito , por achar os corações
dos ouvintes prevenidos de algum antídoto ,
nem por ilTo eftá da parte da fua malícia o
deixar de matar. E ninguém me diga que
naó cuidava ; porque NoíTo Senhor que co-
nhece ^»s penfamenros àifle 2 Que a boca faU
da abundância do coração- £ fe nos naó cui-
damos mal , o inimigo porém cuida muito ,
e
(0 Jacob. j. v. 2. Si quis in verbo non efendit ê
fuc pcrfleftus ejl vir.
a' Vida devota. 24 j
e fe ferve fecre-tamente deíhs más palavras ,
para trefpaíTar o coração de alguém. Dí2em ,
que os que cem comido a erva chamada An-
gélica , tem fempre o haliro íi»ave e agradá-
vel ; e os que tem no coração a honcíiidade
e caftidade , que he a virtude Angélica , tem
fempre luas palavras limpas cortezes e honef*
ras. Quanto ás coifas indecentes e loucas , naó
quer o Apolèolo , nem fequer que fe no-
meem , aííegurando-nos : Que nada corrompe
tanto os bons cojlmnes , como at mas cowver-
façoes. (1)
Se eftas palavras deshonefhs fe dizem dif-
íimuladamerue com artificio e fubiileza , ain*
da faó incrivelmente mais venenofas ; porque
aJíim como quanto o dardo he mais agudo ,
tanto mais facilmente entra em noíTos corpos ,
afíim quanto huma palavra he mais aguda ,
tanto mais penetra noiTos corações. E os que
cuidaó fer mui engraçados , com dizer feme»
lhantes palavras na converfaçaó , naó fabem
para que fe fizeraõ as converfaçóes : pois ef-
tas devem íer como enxames de abelhas jun-
tas , para fazer o mel de algum fuave e vir-
tuofo entretenimento ; e naó como montão de
vefpas que fe juntaõ para chupar alguma po-
dridão. Se algum louco vos dílTer palavras
indecentes , moftrai-lhe que os voíTos ouvidos
fe ofendem , eu voltando o ioil:o a outra par-
te , ou de algum outro modo , fegundo vos
di&ar a voíía prudência.
a li Ht>
(1) I. Corinth. 15, v. $J. Corrumpunt mores h+*
nos collocjitla mo\ú,
144 Intbodtjcça6
Huma das peiores condições que pode ter
hum efpMto , he fer morador. Dcos aborre-
ce eíle vicio fummamente ) e por cauia delle
executou nos rempos palTados eftranhos cafti-
gos. Naó ha coifa taó concraria a caridade , e
muiro mais á devoção , como o defprezo do
próximo. A irrTaó e mofa nunca fe praticaõ
iem efte defprezo : por iiío he grande pfecá-
do , de modo que os Doutores rem razaó em
dizer : que o efearneo he a peior cafta de ofen-
fa , que fe pode fazer ao próximo com pala-
va ; porque as ourras ofenias le fazem com
alguma eitimaçaõ do ofendido , e etta com
defprezo e defeftimaçaó.
Mas quanto aos jogos de palavras que fe
pnricaó entre huns e outros com huma mo-
dela alegria e regozijo , pertencem á virtude
chamada Eut rapei ia pelos Gregos , que nos
podemos chamar boa converfaçaó : Com ef-
tes fe toma huma honefta e amigável recrea-
ção , fobre ocafióes frívolas , que as imper-
feições humanas oferecem. Unicamente con-
vém gnardar-nos , de paíTar defta honefta ale-
gria á zombaria : efta provoca o rifo , por
meio do defprezo e defeftimaçaó do próximo :
mas a a<ej;ria e galantaria provoca o r^fo ror
huma fimpies liberdade confiança e familia-
rrdade ílncera , junta com a galantaria ât al-
gum dito. S. Luiz quando os Religiofos lhe
cjueiaõ falar depois de comer em coifas ele-
vadas , d-zia : Nao he tempo agora de d<ãar ,
wh de recrear , com aUum cano e galam t-
rli , q**e cait bum dita eome quiser com ha*
tiejlidade. O que dizia por comprazer a no-
bre-
A5 Vida devota, 24?
bre?a , que afliftia prefente , a receber os
abados de Sua Mageftade. Mas, Philotea ,
paiTemos de tal modo o rempo por recieaçan,
q?,e confervemos a fama eternidade por devo-
ção.
CAPITULO XXVIII.
Dos juÍ2ps temerários.
N Ao julgueis , e n ao Cereis julgados £0:
(diz o Salvador de noíías a. ma ) : Xaó
con ieneis , e naó fereis condenado. NaÕ ( diz
o Apoítolo ): N ao julgueis antes de tempo,
até que -venha o Senhor , que revelará o fe-
gredo dts trcvts , e manijtftará os confelbos
dos corações (2) . Oh quam defa^radaveis a
Deos faó os juizos temerários ! Saó temerários
os juizos dos filhos dos homens , porque naó
faó juizes huns dos outros, e julgando uf«>r-
paó o otficio de NoíTb Senhor. Saó temerá-
rios , porque a principal malícia do pren-
do , depende da intenção e confelho do co-
ração , que he o fe^edo das trevas para ncSs.
Saó temerários , porque cada hum tem afsás
que fazer , em fe julgar a fi mefmo , fem
fe meter a julgar o feu próximo : he coifa
igu al-
ÇO Luc. 6. v. J7. Nolitcjudicare W non jud'cabi-
minr.
(O I ^orinth. 4.. v. {. Noite «mtc temptts jcidica-
re t quoaduyjuc venial Dominus,
14(6 Intkoducça6
igualmente necefTaria para naó fer julgado ,
naó julgar os outros , e julgar-íe a fi próprio.
Porque aflim como NoíTo Senhor nos prohibe
huma deite coifas , o Apoftolo nos manda a
outra dizendo (i) : Se nós tios julgarmos a nos
mefmos 9 nxo feremos julgados. Mas oh bom
Deos í fazemos tudo pelo contrario : pois naó
ceifamos de obrar o que fe nos prohibe , jul-
gando a cada paífo o noífo próximo ■ e o que
fe nos manda , de nos julgar a nós mefmos ,
nunca o cumprimos.
Conforme forem as caufas dos juizo? te-
merários , aííim fe lhe ha de applicar o remé-
dio, Ha corações agros amargos e afperos de
fua natureza , que igualmente tornaó agro e
amargofo tudo o que recebem , e concertem
( como diz o Profeta (2) ) o juizp em lofna ,
nto julgando nunca do próximo , fe nao íom
rigor e afperezf. Efr.es tem grande neceílidade
de cahir nas máos de hum bom Medico efpi-
ritual ; poique fendo natural eíla amargura
de coração , he dificultofa de vencer: e ain-
da que em fi naó fe)a peccado y mas fó huma
imperfeição , he com tudo pengofa , porque
introduz e faz reinar na alma o juizo temerá-
rio e a murmuração. Alguns julgaó remera-
riauente, naó por rancor de coração , mas por
fobçrba , parecendo-lhes , que á medida que
aba-
(1) I. Corinth. 1 1, v. ji. Si nofmctipfos dijudica-
rtmus , non utique judie a remar .
(s) Amos. $. V. 7. Qjui convertant in abjinthiunt
judiei um*
a5 Vida devota. 247
abatem a honra alheia levantaó a própria. Ef-
pi ritos arrogantes e prefumptuofos , que fe
admiraó a 11 mefmos , e fe colocaó taó altos
em lua própria eftimaçaó , que olhaó para os
mais como coifa pequena e baixa. Eu naofott
como o reflante dos homens (1) , dizia o lou-
co Farifeo. Alguns naõ tem eíla foberba ma-
nifefta , mas fomente huma certa e pequena
complacência em conílderar o mal do próxi-
mo , para tomarem melhor o gofto , e fe fa-
borearem com o bem contrario , de que fe
juigaó dotados : cuja complacência he taó fe-
creta e imperceptível , que fem boa vifta fe-
naó pode defcobnr : e os mefmos que a cem ,
naó a conhecem fe lha naó moftraõ.
Outros para fe lifongear e efcufar para
comfigo mefmos , e por adoçar os remorfos
de fuás conciencias 5 julgaó de muito boa
vontade, que os outros faó viciofos no vicio
a que laõ dados , ou em outro taó grande co-
mo elle , parecendo-lhes que o haver muitos
criminofos , faz o feu peccado menos repre-
henfivel. Muitos fe daó ao juízo temerário ,
fó por tomarem o goíto de filofofar , e adivi-
nhar os coít-umes e génios das peíToas , por
moio de exercício de entendimenro : e fe por
infelicidade acertaó alguma vez com a verda-
de pm feus juízos , crefce nelles a audácia e
apetire de continuar , de modo , que naõ ha
quem os aparte delle. Outros julgaó por pai-
xão , e fempre cuidaó bem dos que amaó , e
mal
(í) Luc. 1$. v, u. Xon [um ficut cxteri hom.ncs.
2$ Intkodvcçaõ
mal dos que aborrecem ; excepto em hum ca-
io admirável e verdadeiro , no qual o excef-
{o do amor provoca a formar máo juizo do
que fe ama : eíFeiro monftruofo , más como
procedido de hum amor impuro imperfeito
perturbado e enfermo , qual he o ciúme ; o
qual , como todos iabem , por hum mero
olhar e pelo menor furrifo , condena as pelíoas
de deslealdade e adultério. Em fim , o temor
a ambição , e outras femelhantes fraquezas
de eípirí o , de ordinário concorrem muito
para produzir a fufpeita e o juizo temerário.
Mas que remédio haverá para iito í Os
que bebem o fumo da herva Ofiufa da Ethio-
pia , reprefentafe-lhe por toda a parte que
vêm ferpentes , e coifas efpantofas : e os que
tem engolido a foberba a enveja a ambição o
ódio , nada vem que naõ feja máo e vi tu pe ra-
ve!, Aquelles para fararem , devem beber vi-
nho de palmeira : e o mefmo digo dos fegun-
cjos : bebei o mais que poderdes , do vinho fa*>
grado da caridade , que elle vos purgará dos
máos humores , que vos provocaò a formar
juízos errados. A caridade eftá taó longe de
bufear o mal, que teme encontrar-fe com el-
le ; e quando o encontra volta o rofto , e o
«JilIImuia : e ainda fecha os olhos antes de o
ver , ao primeiro rumor que delle perfenre : e
depois crê com huma fanta fingeleza , que
naó era o mal , mas alguma 'fombra ou fan-
t.^ma deUe : e fe á força reconhece fero ma',
para logo fe volta , e procura efquecer-fe da
fua fiaj^ra. A caridade he remédio grande pa-
ra todos os males , e efpeçialmentç para efte.
To-
a3 Vida devota. 249
Todas as coifas parecem amarelas , aos olhos
dos que tem tericia , e eftaó mui amarelos :
dizem , que para faiar defte mal , devem tra-
zer debaixo da planta do pé a herva chelido-
nia. Verdadeiramente efte peccado do juizo
temerário , lie huma tericia efpirkual , que
faz parecer rodas as ceifas más , aos olhos djs
que delia efíaó tocados : mas quem quizer fa-
rar , deve por os remédios , naó nos olhos
nem no enrendi mento , mas nos afte&os , que
faõ os pés da alma. Se os voíTos afTc&os fo-
rem doces , a voifa alma fera fuave , fe fo-
rem caritativos , também o fera o vollo juizo.
Três exemplos vos darei admiráveis. Ifac ti-
nha dito , que Rebeca eia fua irmã : Abime-
íec vio que galanteava com elia , ifto he que
a acariciava ternamente , e lofo julgou que
era fua mulher. Huns máos olhos julgariaõ
antes , que era fua amiga , ou que fe era fua
irmá , era inccftuofo com cila : mas Abime-
lec feguio a opinião mais caritativa , que po-
dia ter neíle cafo. Deveis fempre fazer o mef-
mq , Philotea , julgando em favor do próxi-
mo* quanto vos for políivel : e fe huma aççaõ
podeííe ter cem faces, a devíamos olhar fe-
glMido a mais fermoía. Eíteva (i) Nollà Se-
nhora pejada : S. Jofeph o via claramente :
mas como por outra parte a via toda fama ro-
da pura toda angélica , naó fe pòje perfqa-
dir que a fua prenhez rpfíe contra a o.brigaçaâ
conjugal: e aílim fe reíolveo a deijca-la , dei-
xan-
£1) Matth. 1. v. 19.
7$G I N T R O D U O Ç A O
xando o juizo a Deos : e ainda que o argu-
mento foi violento , para lhe fazer conceber
má opinião defta Virgem , jà mais a quiz jul-
gar. Mas porque? porque ( diz o Efpirito de
Deos ) elle era jufto. O varaó jufto quando
naó pôde efcufar nem o fa^o nem a intenção
daquelle que alias conhece por homem de
bem 5 naó fó o naó quer julgar, mas lança
de fi tal penfamento , e deixa o juizo para
Deos, Mais , NolTo Salvador (i) crucificado,
naó podendo efcufar de todo o peccado dos
que o crucificavaó , pelo menos diminuio a
malícia , alegando fua ignorância. Quando
naó podermo6 efcufar o peccado , façamo-lo
ao menos digno de compaixão , atribuindo-o
á caufa mais fofrivel que polTa ter, como a
ignorância ou a fraqueza.
Pois nunca jamais podemos julgar o pró-
ximo ? Certamente nunca: Deos he , Philo-
tea , quem julga os reos com juftiça. Verdade
he que fe ferve da voz dos Magi Arados, para fe
fazer perceptivel aos noííos ouvidos : elles faõ
os íeus miniftros e interpretes , e fó devem
pronunciar o que delle tiverem apreniido ,
como feus oráculos que faó : e fe fe portarem
de outro modo , feguindo fuás próprias pai-
xões , entaó feraó elles verdadeiramente os
que juigaó , e por confeguinte feraó julgados ;
porque he prohibido aos homens em quanto
homens , juigar aos curros.
O ver e conhecer huma coifa naó he jul-
ga-la;
(i) Luc. 2$. v. 24*
A3 V I D A DEVOTA, 25T
ga-la ; porque o juizo ( ?o menos fegundo a
frafe da Efcritura ) prefupoem alguma peque-
na ou grande , verdadeira ou aparenre difi-
culdade de julgar : e por iíTo he que ella diz ,
que os (1) que naõ crem eftaó ja julgados ,
porque nenhuma duvida ha em fua condena-
ção. Naõ fera pois mal feiro duvidar do pró-
ximo 1 Xaó i porque naó eftáprohibido o du-
vidar , mas o julgar : ' mas também naó he
permitido duvidar nem íufpeitar , fenaó for
muito de palfagem , fó quanto as razoes e ar-
gumentos nos obrigarem a duvidar : de outro
modo leraó temerárias as duvidas e fufpeitas.
Se alguns olhos perverfos vilTem a Jacob (2) ,
quando deu ofculo a Raquel junto ao peço :
ou a Rebeca quando aceitou os braceletes e
arrecadas rde Eliezer , homem defeonhecido
naquelia terra ; fem duvida cuidara mal def-
tes dois exemplares de caílidade : mas fem ra-
zão nem fundamento i porque quando huma
acçac he de li meima indiferente , hefuípei-
ta temerária tirar dcllz huma má coníequen-
cia , íe naõ houver muitas circuníhncias que
dem força ao . argumento. Aílim he juizo te-
merário , tirar de huma acçaó cónfequencia ,
para injuriar a peíloa : mas difto faiarei de-
pois mais claramente.
Em fim , os que faó mui cuidadofos de
fuás conciencias , nada tem de fujeitos a juí-
zos
(1) Jcan. j. v. 18. C2"<" wn credit , iam judicalus
tf.
(O Gen. 29. v. 12.
(j) Gen. 14. v. 22.
i$i Iktroducçao
2os temerários i porque allim como as abelhas
vendo as cerrações e o tempo nubiaJo , fe re-
tiraó ás fuás coimeas a traftejar no mel ; aííira
os penfamentos das almas boas naó faiíera
fobie objelos embaraçados , nem entre as
acçóes nubladas do próximo , antes por evi-
tar o encontro fe encerraóem íens coraç^e- ,
para ahi cuidarem nas boas refoluçóes da Tua
própria emenda.
Fmprego he de huma alma inútil entre-
ter-fe em examinar a vida dos outros : excep-
to aquelles cjue tem outros a fe" cargo , tan-
to na família como na Republica ; porque
Hima boa parte da fua concícncia coníilte ,
em arender e vigiar fobre a dos outros. Façaô
pnis cíles o íeu dever com amor , e djpois
diíto voltem a cuidar em fi próprios.
CAPITULO XXIX.
Da murmuração.
O Juízo remenrio produz o defaíTocego , o
defprezo do próximo, a foberba e co n-
placencia de íl mefmo , e muitos outros envi-
tos pcrniciofiííímos , entre os qnaes a mentira
tem o primeiro lugar , como verdadeira peíle
das converíações. Ob quem tivera huma dag
(\) brazas do fanto A!tar , £ara tocar os lá-
bios dos homens , para que fua iniquidade
fof-
(0 Uai. 6. V; 6.
A' V I D A DEVOTA. 2<f$
fníTe extinga , e limpa-los de leu peccado , z
imitarão do Serafim que purificai] os de líaias.
Quem tiralTe a murmuração do mundo , tira-
va grande parre dos peccados da maida^e.
Todo aquelle que tira injuílamente a boa
forna ao leu próximo , além do peccado que
càmeie , tfta obrigado â rcftituiç.5 , ainda
que com variedade , fegundo a diveríldade
das murmurações ; porque ninguém pode en-
trar no Ceo com os bens de oucrem , e entre
todos os bens exteriores , a boa fama he o
me hor. A murmuração he huma efpecie de
homicídio ; porque rres vidas temos nós , a
espiritual que confifte na graça de Deos , a
corporal que coníiíte na alma , e a civil que
cunfiíte na fama. O peccado tifa-nos a primei-
ra , a morte a fecunda , e a murmuração a
terceira : mas o murmurador com hum ló gol-
pe de língua faz ordinariamente três mor-
tes : mata a fua alma , e a do que lhe dá ou-
vidos com hum homicidio efpiritual ; e tira
a vida civil , aquelle de quem murmura. Por-
que como dizia S. Bernardo , o que murmu-
re e o que o ouve , ambos tem o diabo fobre
íi , mas hum na língua outro no ouvido. Da-
vid falando do5» murmuradores , d'z ( i ) :
jffitrxõ fuás Ungttts como a ferpcrrte. A fer-
penre como diz Ariftoteles , rem a língua fen-
dida , e com duas pontas : tal he a do maldi-
zente , que com hum fò golpe fere e envene-
na
ÇO Pfalrru 1^9. v, 4. Aeucrunt línguas fucsficuf
fcrptnii*.
^5*4 IntroducçAo
na os ouvidos de quem ouve , ea reputação
daquelle de quem fala.
Rogovos pois , cariííima Philotea , que
nunca murmureis de ninguém , directa nem;
indirectamente: guardai-vos de impor falfos
crimes e peccados ao próximo 3 nem de def-f
cobrir os que faó ocultos , nem de engrande-
cer os mani feitos , nem de lançar à má parte
as obras boas , nem de ne^ar o bem que co-
nheceis haver em alguém , nem de o difhmu-
Jar com malícia, nem de o diminuir com pa-
lavras ; porque em todas efbs acções ofende-;
rieis gravemente a Deos : mas fobre tudo acu-
fando talfamente , e negando a verdade em
prejuízo do próximo ; pois he dobrado pecca-
do mentir e damnificar juntamente ao pró-
ximo.
Os que para murmurar fazem prefácios
honrolos , ou entrefachaó feus ditinhos e ga-
lantarias entre fi , faó os mais refinados e ve-
nenofos murmuradores de todos. Eu protefto
( dizem elles ) que o amo , e que quanto ao
de mais he hum bello fujeito ; masadizera
verdade , naó teve razaó em fazer tal pérfida :
Fulana he donzela mui virtuofa , mas deixou-
fe enganar : e outros femelhanres enfeites. -
Naó vedes o artificio í Aquelle que quer dif-
parar o arco , puxa para fi quanto pôde a fre-
cha , mas ifto he para a arcojar mais forte-
mente ; aííim parece que efles retiraó afia
maledicência , mas naó he fenaó para que
arroiando-a mais violentamente penetre mais
os corações dos que ouvem. A murmuração
dita por modo de galantaria , he a mais cruel
de »1
a3 Vida devota. 257
de rodas ; porque aflim como a cegnde naó he
de íi veneno mui tone , mas raôlenro que fa-
cilmente fe pode remediar : aílim a murmu-
ração que por íi entraria levemente per hum
ouvido e fahiria por outro , ( como fe coftu-.
ma dizer , ) fe arraiga firmemente no cérebro
dos ouvintes , quando fe aprefenta em algum
dito fubtil e jocoío : Tem efles (diz David)
0 veneno do afpide em fetis lábios. O aípide
faz a fua mordedura quafi imperceptível , e
feu veneno ao principio caufa huma comichão
faborofa , mediante a qual o coração e as en-
tranhas fe dilataó e recebem a peçonha , con-
tra a qual depois naó ha remédio.
Nunca digais , fulano he hum bêbado ,
ainda que o viíTeis embriagado : nem he adul-
tero , porque o vides neíte peccado : nem he
inceiíuofo , porque o encontraítes em feme-
lhante defgraça ; porque hum fó aâro naó dá
nome as coifas. O (1) Sol parou huma vez
em favor da vistoria de Jofué , e fe efeure-
ceo (2) outra vez em atenção da do Salvador ;
e nem por ifíb dirá ninguém , que o Sol he
immovel e efeuro (O* ^°é ^e embriagou
huma vez , e (4) Lot outra ; e efte a de mais
cometeo hum grande inceílo : e com tudo ne-
nhum delles foi bêbado , nem o ultimo incef-
tuo-
(0 Jof. ro. v. 1 j.
(2) Iitc. 2$. v. 45.
(O Gen. 9. v. 21.
(4) Gen. 19. v, j2.
25^ Intkoducçao
tuofo : nem (i) S. Pedro fanguinolento , por
derramar fangue huma vez ; nem blasfemo ,
por haver huma vez ( 2 ) blasfemado. Para
tomar o nome de algum vicio ou virtude , he
neceílario ter feito nella algum progrelíb e
habito. Teftimunho falfo he pois dizer : que
hum homem he colérico ou ladraó , pelo ter-
mos vifto huma vez agaíbr-fe ou furtar.
Ainda quando hum fujeito tenha fido vi-
eiofo por muito tempo, corremos perigo de
mentir , fe o chamarmos viciofo. Simaô le-
profo chamou à Magdalena peccadora , por-
que o tinha fido antes , e com tudo mentio ;
porque já o naó era , mas huma fantiffima
penitente : e por iíío defendeo NoíTo Senhor a
fua cauía (3) . O louco Farífeo linha o Pu»
blicano por grande peccador ; e poderá fer ,
que também por injuílo , adulrero e ladraó j
mas engrnou-fe enormemente ; porque no
mefmo inftanre foi juítificado. Ah ! que fe a
bondade de Deos he taó grande , que hum fó
momento bafta para impetrar e receber a fua
graça, que fegurança podemos nós ter, de
que hum homem hontem peccador , o feja
ainda hoje? O dia paliado naó deve julgar a
prefente , nem o prefente julgar o paliado : fó
o ultimo he que ha de julgar a' todos. Por
tanto , nunca podemos dizer que hum homem
he máo , fem perigo de mentir : o que pode-
remos
(O Matth. 26. v. 5,
(2) Matth. 27.
(j) luc. 18. v. lio
a5 Vida devota. 257
remos dizer em cafo que feja neceiTario falar ,
he j que fez huma acçaó má : que viveo mal
em tal tempo , ou obra mal ao prefeme ; mas
naó fe pôde tirar nenhuma confequencia de
honrem para hoje , nem de hoje para hontem,
e menos para a manha.
Ainda que devemos fer fummamente re-
portados , em naó dizer mal do próximo ,
também nos devemos guardar de outro extre-
mo em que alguns canem , que por evitar a
murmuração louvaõ e dizem bem do vicio.
Quando fe encontrar huma pelToa verdadeira-
mente maldizente , naó digais pela excufar ,
que he livre e fincera : de huma pefíba manifef-
tamente vá naó digais , que he generofa e af-
íeada : as familiaridades perigofas, naó as cha-
meis íingeleza ou finceridade : naó enfeiteis a
defobediencia com o nome de zelo , fiem a ar-
rogância com o de liberdade , nem a iafcivia
com o de amizade. Naó convém , cariilima
Philotea , procurando fugir o vicio da mur-
muração , favorecer liíongear e manter os ou-
tros : antes fe ha de dizer redonda e livre-
mente mal do mal , e deteítar as coifas abo-
mináveis ; porque fazendo iíto , damos gloria
a Deos ; com tanto que feja com as condições
feguinres.
Para reprehender os vicios de outrem lou-
vavelmente , he prédio que o requeira a uti-
lidade daquelle de quem fe fala , ou daquel-
les com quem fe fala, Conraó-fe diante de
donzelas familiaridades indifcretas de taes e
taes peíTbas , que faó manifeítamcme perigo-
sas : a didoluçaó de hum certo ou huma ccr-
R ta,
ijS Intkoducçao
ta , em palavras e geftos , que faó notória*
mente lúbricos. Se eu naó reprehender efte mal,
e o Cjiiizer efcuiar , aquellas almas cearas que
o ouvem , tomaráó ocafiaó daqui de fe rela-
xar em alguma coifa feroelhante : por onde
a fua utilidade pede, que logo abertamente
Teprehenda femelhantes coifas ; fe naó for
que poíía guardar o fazer eite bom orRcio
mais a propofito em outra ocaíiaó , com me-
nos detrimento daquelles de quem fe fala.
Além difto , também me pertence falar na
matéria , quando fou dos primeiros da aílem-
blea , e fe naó falar, parecerá que aprovo o
vicio : e fe fou dos menores , naó eftou obri-
gado a meter-me nefta cenfura. Mas fobre tu-
do devo fer nimiamente exa£lo em minhas
palavras , para naó dizer huma fó de mais.
Por exemplo ; quando reprehender a familia-
ridade deíle mancebo , ou daquella donze-
la , por fer mui indifcreta e perigoía : Bom
Deos ! Philotea , he precifo ter a balança
bem jufta para naó aumentar a coifa , nem
hum atómo : fe naó houver mais que huma
débil aparência , naó direi fenaó ifto : fe fó
ha huma fimples imprudência, nada mais di-
rei : fe naó ha nem imprudência nem verda-
deira aparência do mal , mas fó algum efpiri-
to maliciofo , poderá tomar pretexto de mur-
muração , ou naó direi coifa alguma , ou fó
direi ifto mefmo. A minha língua quando jul-
go ao próximo he como huma navalha (i)
na maó do Cirurgião , que quer cortar por
en-
— : *
(i) Píalm. si. v. 4. Sicut mvaeula acut*.
a' Vida devota. 25*9
entre os nervos e tendões : he precifo que o
golpe que hei de dar , feja taô jutfo , que naõ
diga mais nem menos do que he : e em fim
fobre tudo , fe deve obfervar , que reprehen-
dendo o vicio , efeuíeis o mais que puderdes
a pelíba que o tem.
Verdade he, que dos peccadores infames
públicos e manifeftos , fe pôde falar livre-
mente , com taneo que ifto feja comefpirito
de caridade e compaixão , e naó com arro-
gância e prefumçaó : nem por nos compra-
zer no mal alheio 5 porque iífco ultimo he ac-
ção de hum animo vil e abatido. Exceptuo
os inimigos declarados de Deos e da fua Igre-
ja ; porque a eftes os devemos infamar quan-
to pudermos , quaes faõ as Seiras dos Here-
ges e Cifmaticos , e feus cabeças. He carida-
de gritar ao lobo , quando eftá entre as ove-
lhas , ou onde quer que eíleja. Qualquer
toma a liberdade de cenfurar os Príncipes , e
dizer mal das Nações , fegundo os vários af-
fe&os particulares que lhes tem. Naó incor-
rais , Philotea , neíle defeito ; porque além
da ofenfa de Deos , fe vos podem delle ori-
ginar mil géneros de defgoftos.
Quando ouvirdes murmurar , ponde em
duvida a acufaçaõ , fe o puderdes fazer jufta-
mente : e fe naó puderdes , efeufai a intenção
do acufado : e fe também ifto naó poder fer ,
moftrai compadecer-vos delle, defviai a con-
verfaçaó , lembrando-vos e fazendo que es
mais fe lembrem , que os que naó cahem em
culpas , tudo devem agradecer a Deos. Pro-
curai que o murmuradon caia em íi , por ai-
R ii" gum
sfio Intkoducçao
gum modo fuave : dizei algum bem da peíToa
ofendida , fe o fabeis.
CAPITULO XXX.
alguns outros a<vifos pertencentes ao falar.
SEja a noíTa linguagem fuave livre fíncera
lhana ingénua e fiel. Guardai-vos de do*
brezes artifícios e fingimentos : e ainda que
naõ feja bom dizer fempre toda a cafta de
verdades , nunca he permitido contradizer a
verdade. Coftumai-vos a nunca mentir , nem
de propofito nem por efcufa , nem de outro
modo , lembrando-vos que Deos he o Deos da
verdade. Se por defcuido mentiftes , e poder-
des promptamente emendar a falta com algu-
ma explicação ou reparo , emendai-a : huma
efcufa verdadeira tem mais graça e erficacia
para excufar , do que a mentira.
Ainda que algumas vezes fe poíTa difcreta
e prudentemente disfarçar e encobrir a verda-
de , com algum artificio de palavras ; naó fe
deve praticar filo , fenaó em coifas de im-
Èortancia . quando a gloria e o ferviço de
>eos o requerem claramente : fora dríto , faõ
perigofos os artifícios ; porque como diz a fa-
grada Efcritura : (i) o Efpirito Santo nao ha-
bita em bum efpirito fingido e dobrado. Naó
ha futileza taó boa e eftimavel , como a fin-
cerí-
CO Sap. j,
a5 Vida devota, 261
eeridade. As prudencias mundanas e artifícios
carnaes , pertencem aos filhos deite feculo :
mas os filhos de Deos caminhão fem rodeio ,
e tem o coração fem dobrez. Quem caminha
íinceramente , caminha com confiança : a men-
tira a dobrez a dillimulaçaó , fempre denota"
raó hum animo cobarde e vil.
Santo Agoitúnho tinha dito no livro quar-
to das fuás Confifsóes , que a fua alma e a de
leu amigo naó eraó mais que huma fó alma :
-e que efta vida lhe era horrorofa , depois do
falecimento de feu amigo ; porque naó que-
ria viver fó com meia vida : e que por efta
mefma caufa temia o morrer , porque feu
amigo naó morreíTe de todo. Éílas palavras
lhe parecerão depois mui artificiofas ^ arrecea-
das 5 de forte que elle mefmo as revoga no
livro das fuás Retratações , e lhe? chama ne-
cedades. Vede, cariífima Philotea , quanto.
eíla fanta e fermofa Alma , fe moftra teroa no
fentimento da aJfè&açaó das palavras. Na ver-
dade he hum graodí adorno da vida chriftá ,
a fidelidade lifura e finceridade de língua :
Tenho (1) dito ( dizia David ) que cerei conta
com meus caminhos , para nav pecar com mi-
nha ling^a (2) . Oh Senhor ! ponde guardas
em minha boca , e huma porta que cerre meus
lábios.
Era di&ame do Rei S. Luiz , naó defmeu-
tir
(i) Píalm. ^8. v. 2. Dixi cufto.iuim v':as msaj , ut
non delinquam m tínguú mea.
(2) Plalm. 140. ▼. ]. Pene Domine cujtodiam or\
PM» , CF ojlium clrcunjhntíéS labiis nuis.
%6z I N T K O D tj e Ç A 6
tir a peíToa nenhuma , fenaó quando houveíTe
peccado , ou grande dano em concordar : ifto
era para evirar toda a forte de teimas e altera*
çóes. Quando porém for conveniente contra-
dizer a alguém , e oppor a opinião própria á de
outrem , he neceífario ular de grande brandu-
ra e deftreza , naó querendo violentar o en-
tendimento alheio ; porque nada fe ganha, em
querer levar as coifas por afpereza.
O falar pouco taó encomendado dos anti-
gos Sábios , naó fe entende fomente , de di-
zer poucas palavras , mas de naó dizer mui-
tas inúteis ; porque em matéria de falar , naõ
fe olha á quantidade mas â qualidade : enten-
do que ambos os dois extremos fe devem fu-
gir ; porque moftrar-fe mui entendido e feve-
ro , reçufando concorrer nas converfaçóes fa-
miliares que fe fazem nas converfaçóes , pa-
rece haver nifto defconfiança , ou algum gé-
nero de deídem : pairar e aplaudir fempre ,
fem dar lazer nem oportunidade aos outros de
falar a feu gofto , também he final de pre-
fumçaó e liviandade.
S. Luiz naó tinha por bom , que eftando
em fociedade fe falaífe em fegredo e particu-
lar , efpecialmente á meza , para naó caufar
fufpeita , de que fe diz mal dos outros : Aquel-
le (dizia) que eftá na meza em boa compa-
nhia, e tem que dizer alguma coifa alegre e
de prazer , deve dizê-la de modo que todos
a entendaó : e fe he coifa de importância ,
dçy^k calar e naó a dizer.
CA-
a5 Vida devota. 263
CAPITULO XXXI.
Dos paffatempos e recreações : e primeiramen-
te dos lícitos e lou-uaveis.
HE forçofo afrouxar algumas vezes o noí-
fo efpiriro , e também o corpo com al-
gum género de recreação. S. Joaó Evangelií-
ta , como diz Calíiano , foi hum dia encon-
trado por hum caçador tendo huma perdiz na
maó 5 á qual eílava acariciando por recrea-
ção : perguntou-lhe o caçador , porque fen-
do hum homem de tal qualidade , gaftava o
tempo em coifa taõ baixa e vil í Diife-lhe S.
Joaó : c tu porque naó trazes o arco fempre
armado ? Refpondeo o caçador ; porque eí-
tando fempre encurvado perderá a força , e
naó poderá atirar , quando for precifo. Naó
te admires pois lhe tornou o Apoíloio , fe por
•algum efpaço me aparto do rigor e atenção
do efpirito , para tomar huma pouca de re-
creação , pois fó o faço para depois me em-
pregar mais vigorofamente na contemplação.
Vicio he fem duvida , ferrnos taó rigurofos
agreftes e tofeos , que naó queiramos tomar
para nós, nem confentir aos outros, genera
nenhum de recreação.
Tomar o ar , paffear , entreter-nos com dif-
curfos alegres e amigáveis , tocar viola , e
outros iníírumantos , cantar por folfa , ir a
caça , tudo faó recreações taó honeílas que
para as praticar bem 3 baila huma prudência
ordi-
164 Intkodtjcçao
ordinária, que dá a rodas as coifas a fua or-
dem tempo lugar e medida.
Os jogos em que o g^iho ferve de paga e
recompenia , da habilidade do corpo e do ani-
mo ; quaes íaó os da peia , raqueta , argoli-
nha , xadrez , e das tabolas : rodas eftas re-
creações faó boas e licitas. Só fe deve evi-
tar o exceíTo , ramo no tempo que fe em-
prega como no preço que fe põem ; porque fe
íe gaftar muito tempo , naõ fera recreação ,
fenáô ocupação : e aílim naó fe aliviará o ef-
pirito nem o corpo , antes pelo contrario
fe aturdirá e oprimirá. Depois de jogar cinco
ou féis horas o xadrts , ao levantar fe acha
frouxo o efpirito por muito recreado : jogar
muito tempo a péla naó he recrear o corpo ,
mas moe-lo. Também fe o preço , ifto he a
quantidade que fe joga he mui grande, os af-
fe&os dos que jogaó fe defordenaó : além de
que , naó he jufto procurar taõ grandes inre-
reíícs , de habilidades e induftrias de taó pou-
ca importância , e taó inúteis como faó as
deftrezas dos jogos. Mas fobre tudo , PhiJo-
fea , tende cuidado , em naó empregar o vof-
ío afreto em nada dífto ; porque por honetèo
que fda hum divertimento , he vicio pôr nel-
le o coração e afFe&o : naó digo , que fe
naó ha de goílar do jogo quando fe joga Ç por-
que de outra forte naó recrearia) mas digo
quQ fe naó ha de por nelle o affefto , para o
defejarraos embebermos e empenharmos nelle.
CA-
a5 Vida devota. 165:
■— — — —
CAPITULO XXXII.
Dos jogos prohibidos.
OS jogos de dados de canas e outros feme-
lhantes , cujo ganho depende principal-
mente da forte , naó fó faó divertimentos pe-
rigofos como as danças , mas fimpleimente e
de fua natureza máos e vituperáveis ; por cu-
ja caufa eftaó prohibidos pelas Leis civis e
Ecleííaílicas. Mas taó grande he o mal ( di-
reis ) que nifto ha í O ganho neftes jogos naó
procede da razaó , fenaó da forte , a qual de
ordinário cahe âqnelle , que nem por fua in-
duítria nem por habilidade merece coifa algu-
ma , e nifto he ofendida a razaó. Mas dirme-
heis , aílim mefmo nó? temos ajudado. líTo eftâ
bem para moftrar , que o que ganha naó faz
agravo aos outros ; mas dahi naó fe fegue ,
que a convenção naó feja defarazoada , e
também o jogo ; porque o ganho que deve
fer paga da induftria , o vem a fer da forte ,
que naó merece preço algum, porque naó de-
pende de nós.
Além diíto , eíles jos^os tem nome de re-
creação , e fe inventarão para iílb , mas de
nenhum modo o faó, fenaó ocupações vio-
lentas : porque como pode de;xar de fer ocu-
pação , ter o animo arado e oprimido com con-
tínuos defaíTocegos temores e fadigas? Ha aten-
ção mais trifte fombria e melancólica que a
dos jogadores l por iílo naó fe ha de falar
quan-
166 Introducçao
guando fe joga , nem rir , nem toflír , por-
que fera dar-lhes caufa de fe irritarem.
Em fim naó lia gofto no jogo fe naó fe ga-
nha , e efta alegria naó pôde deixar de fer in-
juria : pois naó fe pôde ter , fenaó com per-
da do contentamento do companheiro. Infa-
me divertimento he eíte na verdade ! Por eítas
três razoes faó prohibidos os jogos. Sabendo
o grande S. Luiz , que feu irmaó o Conde de
Anjou e o Senhor Gautier de Nemurs joga-
vaó , íe levantou , pofto que citava enfermo ,
e todo tremulo entrou em feu apofento , e
pegando nas tabolas e dados e parte do dinhei-
ro , os arremeílbu por huma janela ao mar ,
enfadando-fe muito com elles. A fanta e caí-
ta donzela Sara , falando com Deos dizia :
Vós fabeis , Senhor, que1 nunca já mais coa-
verfei com os jogadores, (i)
CAPITULO XXXIII.
Dos bailes e pafatempos lícitos , mas peri-
gofos.
AS danças e bailes faó coifas indiferentes
de fua natureza : mas fegundo o modo
ordinário com que eíte exercício fe pratica ,
he mui propenfo e inclinada para o mal , e
por confeguinte cheio de rifco e perigo. Faz-
íe
(i) Tob. 5, v. 34. Nur.quam cu/n ladentibus mif*
cai me.
a5 Vida devota. 267
fe de noite e no meio das trevas e efeurida-
des , onde he fácil introduzirem-ie muitos ac-
cidentes tenebroíos e víoiofos , em huma ma-
téria que de fi he mui iufcepuvel de mal. Ha
grandes vigílias , depois das quaes fe perdem
as manhãs e dias feguintes , e por confeguin-
te o meio de fervir a Deos nellas. Em huma
palavra : fempre he loucura trocar o dia com
a noite , a luz com as trevas , as obras boas
com as loucuras. Todos ao baile levaó a vai-
dade a porfia : e a vaidade he huma grande
difpoílçaó para os affe&os máos , e amores
perigoíos e deteftaveis ; que tudo iílo facil-
mente fe gera nas danças.
O mefmo , Phiiotea , vos digo das dan-
ças , que os Médicos dizem dos cucumélos ,
que os melhores nada valem : e eu vos digo ,
que os melhores bailes naó faó muito bons:
íe naõ obftante houverdes de comer cucumé-
los 3 tende cuidado em que fejaó bem guiza-
dos. Se em alguma ocaíiaó , em que vos naó
poíTais efeufar , houverdes de ir ao baile 3 ten-
de fentido , em que a voíTa dança feja bem
guizada. Mas como deve fer ifto t pergunta-
reis. Refpondo , que com modeftia 3 com de-
coro , e reda intenção. Comei poucos e pou-
cas vezes ( dizem os Médicos faiando dos cu-
cumélos ) ; porque por bem guizados que eí-
tejaó , a quantidade lhes ferve de veneno. Dan-
çai pouco , Phiiotea, e raras vezes ; porque
havendo-vos de outra íorte , correreis perigo
de vos affeiçoar a ifto.
Os cucumélos , fegundo Plinio , como fao
eípcnjoíos e porofos , atrahem facilmente to-
da
268 Introducçao
da a infecção que cem junto a ú i de modo
que eftando perco de ferpentes , recebem o
íeu veneno. Os bailes danças e femelhantes
alTembleas tenebrofas , atrahem ordinariamen-
te os vicios e peccados , que rcinaó em hum
lugar : as pendências as invejas , as zomba-
rias , e os amores loucos : e aííim como eit.es
exercícios abrem os poros do corpo dos que
os praticaó , aííim abrem os poros do coração :
e fe no meio diílo , alguma ferpenre vier ba-
fejar aos ouvidos com alguma palavra lafciva,
alguma ternura , ou requebro : ou algum ba-
filifco vier arremedar viítas deshoneíias , e
acenos amorofos, eftaõ os corações mui ap-
ios a deixar-fe prender e envenenar.
Eítas impertinentes recreações , Philotea ,
faõ ordinariamente perigofas ; diíHpaó o efpi-
rito de devoção , enfraquecem as forças , eí-
friaõ a caridade , e excitaó na alma mil for-
tes de máos affeâ:os : pelo que naõ convém
pratica-las, fenaô com grande prudência.
Mas fobre tudo fediz: que depois de ter
comido cucumélos , fe ha de beber vinho ge-
nerofo : e eu digo , que depois das danças fe
ha de ufar de algumas fantas e boas coníidera-
çóes , que impidaó as impreíbões perigofas ,
que o vaõ prazer que fe tem recebido poderá
caufar em nofla alma. Mas quaes feraõ as con-
federações?
i Ao mefmo tempo que eítais no baile ,'
muitas almas ardem no fcgo do inferno , por
peccados cometidos na dança , ou por caufa
da dança.
2 Muitos Religíofos e peíToas de devoça5
eí-
A5 Vida devota. 269
eflaõ na mefma hora na prefença de Deos ,
cantando feus louvores , e contemplando a lua
íermofura. Oh quanto melhor e mais feliz-
mente empregado foi o feu tempo , que o
voíTo !
3 Quando vós eflaveis dançando , muitas
almas paííaraõ deite mundo com grande ago-
nia : milhares de homens e mulheres padece-
rão grandes trabalhos e enfermidades em feus
leitos , nos Hofpitaes , e nas ruas : gota , pe-
dra , e ardente febre. Ah , que naó tem o
xninimo defeanço! Tende compaixão delles ,
ç confiderai que algum dia gemereis como el-
les , ao mefmo tempo que outros eítaraó dan-
çando , como vós fizeftes.
NoíTo Senhor Noíla Senhora os Anios e
Santos , vos viraó no baile. Oh que laftima
tiveraó de vós , vendo vofTo coração embebido
em grande defatino , e atento a femelhante
necedade!
Ah ! que em quanto eíllveíles no baile fe
paíTòu o tempo e chegou a morte : vede como
ella zomba de vós,e vos chama para a fua dan-
ça ; em que os gemidos dos volTos mais vlil-
nhos ferviraó de viola : onde naó fareis mais
<jue huma mudança , da vida para a morre :
Efíe baile he o verdadeiro paíTatempo dos
mortaes ; porque nelle patTaõ em hum momen-
to do tempo a eternidade , ou de bens ou de
males. Aponto-vos eftas confideraçóesílnhas ,
mas Deos vos infpirarh outras muitas ao mef-
«no propoííto , fe tiverdes o feu temor.
CA-
.270 Int roducçaS
CAPITULO XXXIV.
Quando fe pode jogar e dançar.
PAra jogar e dançar louvavelmente , he
neceííario , que ifto fe faça por recreação,
e naó por aíFe&o : por pouco tempo , e naõ
até cançar ou entontecer , e que feja raras ve-
zes ; porque fendo de ordinário , a recreação
fe converterá em ocupação. Mas em que oca-
fiaõ fe poderá jogar e dançar ? As ocafióes
juftas da dança e do jogo indiferente faó mais
frequentes ; as dos jogos prohibidos faó mais
raras , aílim como também femelhantes jogos
faó muito mais reprehenfiveis e perigoíos.
Mas em huma palavra , dançai e jogai con-
forme as condições , que vos tenho apontado j
quando por condefcender e comprazer á ho-
nefta recreação em que vos achardes , a pru-
dência e diícriçaõ vo-lo aconfelharem ; por-
que a condefcendencia como lançamento da
caridade, faz boas as coifas indiferentes, e
licitas as perigofas E ainda tira a malícia ás
que de algum modo faó más : por efta caufa
os jogos de íorte , que aliás faó reprehenfiveis,
o naó feraó , fe nos induzir a elles a jufta con-
defcendencia. Confolou-me o, ter lido na vida
de S. Carlos Borromeu , que condefcendeo
com os SuiíTos em certas coifas , nas quaes
por outra parte era mui fevero. E que Santo
Ignacio de Loiola fendo convidado a jogar,
o aceitou. Quanto a Sarna Ifabel de Hungria,
por
a' Vida devota. 271
por vezes jogou e dançou , achando-fe em af-
íembleas de paíTatempo , fem detrimento da
devoção ; a qual eíiava taõ radicada em fua
alma , que aiíim como os rochedos que cer-
cão o lago de Rieta , crefcem lendo comba-
tidos das ondas ; aílim a fua devoção crefcia,
no meio das pompas e vaidades , a que a ex-
punha a fua graduação. Ilto íaó incêndios
grandes , que íe accendem com o vento , mas
os pequenos fogos apagaó-fe naó os levando
cubertos.
CAPITULO XXXV.
Qtie havemos fer fieis nas coifas grandes e
pequenas.
OEfpofo fagrado no Cântico dos Cânticos ,
diz , (1) que fua Efpofa lhe tem roubado
o coração , com hum dos feus olhos , e hum
de feus cabelos. Entre todas as partes exterio-
res do corpo humano nenhuma ha mais no-
bre , tanto pelo artificio como pela a&ivida-
de , como os olhos : nem mais vil que os ca-
belos. Quiz o divino Efpofo com ifro dar a
entender , que naó fomente lhe faó agradá-
veis as obras grandes das peíToas devotas , mas
também as menores e mais abatidas : e que
para o fervir a feu gofto , deve haver grande
*" cui-
(1) Cant. 4. v. 9. Vuherafll c*r meum In uno octt-
torum tuorum , in uno crinç eçli tuU
iji Intboducçaõ
cuidado , de o fervi r bem nas coifas grande!
e elevadas, e nas coifas pequenas e defpreíi-
veis ; porque igualmente podemos com hum as
e com ourras , roubar-ihe por amor o cora-
ção.
Difponde-vos pois , Philotea , a
muitas e grandes affliçóes por amor de Nofíò
Senhor, e ainda o mar;yrio : refolvei-v-- k
dar-ihe tudo o que para vós he mais precioiu ,
fe for do feu agrado tomarvo-lo , o pai a
mái o irmaõ o marido a mulher o filho os vof-
íos mefmos oíhos e a voíía vida ; porque a
fudo ifto deveis difpor o voíTò coração. Ma?
em quanto a divina Providencia vos naó en-
via afrliçóes taó fenfiveis e raõ grandes , e vos
naó pede os olhos , dai-ihe pelo menos voí-
fos cabelos : as pequenas injurias levai-as fua-
vemente , foírei as pequenas incómodidades ,
as perdas de pouca importância que vos acon-
tecem quotidianamente; porque por meio àtC-
tas incommodidadesílnhas , levadas com amor
e dilccçaó , ganhareis inteiramente o feu co-
ração , e o fareis todo voíTo. As fadigas quo-
tidianas , a dor de cabeça , a dor de denres ,
a deHuxaó , os enfados do marido ou da mu-
lher , o quebrar-fe hum vidro , o defprezo , a
carranca, a perda das luvas, de humanei,
ào lenço ; a pequena incommodidade de nos
deitarmos a horas convenientes para nos le-
vantarmos cedo à oração , e para comungar ;
o pejofinho de fazer cerras acções de devoção
publicamente : em fim , todas eftas tribula-
çóesfínhas , tomadas e abraçadas com amor,
agiadaõ íummameme á Bondade divina ; a
qual*
a* Vida devota. 275
qual por hum único púcaro de agoa , tem
prometido o mar de toda a felicidade a Teus
lieis. E como eftas ocafiões fe offerecem a ca-
da pafTo , he eíte hum grande meio de ajun-
tar muitas riquezas efpirituaes 3 aproveita-las
bem.
Quando na vida de Santa Catharina de
Sena vi tantos raptos e elevações de efpirico ,
tantas palavras de fabedoria , e ainda prega-
ções feitas por ella ; nenhuma duvida tive s
cm que com eíte olho da contemplação , ar-
rebatou o coração de feu celeftial Eipoío :
mas igualmente fiquei confolado , quando a
vi na coilnha de feu pai , voltar humildemen-
te o aíTador , atiçar o lume , preparar o co-
mer, amaflar o paó, e fazer todos os mais
abatidos officios da cafa , com hum animo
cheio de carinho e amor de Deos. E naó ef-
timei menos a pequena e abatida meditação ,
que ella fazia no meio dos empregos vis e
abje£ios , que os extafjs e raptos que teve taõ
frequemes j que talvez lhe naô foííem conce-
didos , fenaó em premio deita humildade e
abatimento. A fua meditação pois era efta :
imaginava , que preparando a comida para
feu pai , a preparava para Noiío Senhor , co-
mo huma Santa Martha : que fua mái tinha o
lugar de Nolfa Senhora , e feus irmãos o dos
Apoftolos : exercitando-íe deita forte a fervir
cm efpirito roda a Corre ccleftial : empregan-
do-fe neftes baixos miniíterios , porque iabia
fer efta a vontade de Deos. Rcferi-vos cíle
exemplo , minha Philotea , para que conhe-
£*js quamp importa dirigir bem todas nof.
S fas
274 IntroducçaÔ
fas acções , por abatidas que fejaó , ao fervi-
ço da divina Mageítade.
Por cuja cauia vos aconfelho com toda a
efficacia , que imiteis aquella mulher forte,
que o grande Salomão tanto louvou ; a qual ,
como elle diz , punha maó em coifas fortes
generoías e remontadas ; e com tudo , naõ
deixava de fiar , e dar volta ao fufo : Lançou
mao de coifas fortes , e feus dedos tomarão o
Jufo. Lançai maó a coiías fortes , exercitan-
do-vos na oração e meditação , no ufo dos
Sacramentos , communicando amor de Deos
ás almas , derramando boas infpiraçóes nos
corações ; e em fim fazendo obras grandes e
de importância , legundo a volTa vocação :
mas também vos naô eíqueçais do volTo fufo
e roca : venho a dizer , praticai as virtudes hu-
mildes e pequenas , as quaes como flores cref-
cem ao pé da Cruz : o fervi ço dos pobres , a
vi lua dos enfermos , o cuidado da família ,
com as obras que diíío dependem , e a útil di-
ligencia qne vos naõ deixara eílar ociofa : e
no meio de todas eílas coifas entrefachareis
confiderações femelhances ás que acabei de di-
zer de Santa Catharina.
As ocafióes grandes de fervir a Deos raras
vezes fe oíFerecem , mas as pequenas faõ or-
dinárias : Aquelle pois que for fiel no pouco
( diz o mefmo Salvador ) fera efiabelecido no
muito. Fazei todas as acções em nome de
Deos , e todas feraó bem feitas : ou comais ,
ou oebais , ou durmais , ou vos divertais , ou
volteis o aíTador ; com tanto que faibais ma-
nejar bem os volíos negócios , aproveitareis
mui-
a' Vida devota. 27?
muito para com Deos ; fazendo todos eftas
coifas , porque Deos quer que as façais.
CAPITULO XXXVI.
Que devemos ter efpirito jrtflo e racionavel.
NAõ fomos homens fenaó pela razaõ 3 e
naó obftante he coifa rara achar homens
verdadeiramente arrezoados ; porque o amor
pfoprio nos aparca de ordinário da razaõ , in-
duzindo-nos iníeníivêlmente a mil fortes de
pequenas mas perigofas injuftiças e iniquida-
des i que como as rapofmhas , de que fe fala
nos Cânticos , deítroem as vinhas ; porque
como faó pequenas , naó fe faz cafo delias : e
como faó muitas naó deixaó de caufar grande
damno. Naó iaõ por ventura iniquidades e
femrazóes , eftas que vos vou a dizer.
Por pouco acufamos o próximo , e nós
nos efcufamos em muito. Queremos vender
mui caro , e comprar mui barato. Queremos
que fe faça juítiça na caía alheia , e na noíla,
mifericordia e condescendência : queremos
que lancem á boa pane as nollas palavras , e
fomos maiiciofos e retrincado? com as dos ou-
tros : quizera-mos que o próximo nos délfe a
fua fazenda pagando-lha : e naó he mais juí-
to , que elle a guarde , deixando-nos o noíío
dinheiro i Queixamos-nos delie , porque nos
naõ quer acommodar : e naó tem elle mais
razaõ de fe enfadar , porque o queremos def-
accmmodar ?
S ii Se
1j6 ItTTKODtJCÇAo
Se nos : /Feiçoamos a hum exercício , def-
prezamos tudo o mais, e contradizemos tu-
do o que naó he a noiío s;olto. Se algum de
hoiTos inferiores naó tem tom modo , ou al-
gum dia lhe tivemos tédio , qualquer acçaõ
que faça nos parece mal , e nunca eeilamcs
de o conílriítar e renhir: pelo contrario, fe
alguém nos agrada , com alguma graça íen-
fual , naó obra coifa alguma, que a naó ef-
cufemos. Ha filhos virtucfos , a quem feus
pais e mais quaíi que naó podem ver , pOr
caufa de alguma imperfeição corporal : e ou-
tros ha vicicfos , que faó os favorecidos , por
alguma graça corporal. Em tudo preferimos
os ricos aos pobres , ainda que naó fejaó de
melhor qualidade , nem de tanra virtude : e
femelhamemente preferimos os mais bem vef-
tidos. Queremos cobrar com exacçaó os nof-
fos direitos , e que os mais fejaó remiíTos na
exacçaó dos feus : mantemos os nofTos poftos
com capricho , e queremos que os outros fe-
jaó humildes e condefcendentes : queixamo-
nos facilmente do próximo, e naó queremos
que ninguém fe queixe de nós. O que faze-
mos per outro fempre nos parece muito , e
o que elle obra por nós, he nada na notía
eftimaçaó. Em huma palavra, fomos como
as perdizes de Paflagonia , que tem dois co-
rações ; tendo hum coração,, brando engraça-
do e cortez para comnoíco , e outro afpero
fevero e ngorofo para com o próximo. Te-
mos dois pezos , hum para pezar nolTas co-
modidades , com o maior exceiíò que pode-
mos i e outro para pezar as do próximo , com
a5 Vida devota. 277
fl maior diminuição que he pofíive!. E como
diz a Efcritura : Os lábios enganadores falao
po coração , e com o coração (1) . Ifto he , tem
dois corações : e ter dois pezos , hum avulta-
do para receber, e outro diminuto para re-
tribuir , he coifa abominável diante de Deos.
Sede igual , Philotea, e jufta em voíTas
acções: ponde-vos íemprc no lu^ar do próxi-
mo , e a elle ponde- o no vofio , e dzíle mo-
do julgareis com recbidaó. Fazei-vos vende-
dora quando comprardes , e compradora quan-
do venderdes e aííim vendereis e comprareis
com equidade. Todas eítas iiijuftiças faó pe-
quenas j porqne naô obii^aó a reítituiçaõ , fi-
cando nós fó nos termos do rigor , no que nos
he favorável : mas nem por iiTo deixaó de nos
obrigar á emenda , por ferem faltas grandes
de razaó e caridade : alflm naó faó fenaó tra-
paçarias ; porque nada fe perde em viver
generofa nobre e correzmente , com hum co-
ração leal igual e racionavel. Lembrai-vo- ,
pcHS , minha Philotea , de examinar hequen e-
meme o voljb coração , fe he tal para com o
próximo , qual quereríeis que o (cu folie pa-
ra comvofco , fe eftive "eis em feo lugar ;
pois eíte he o alvo da verdadeira razaó. Tra-
jano lendo cen furado de feus confidentes , de
que a feu parecer , fazia mui tratavel a Ma-
geftade Imperial , refpondeo : AíTim he ; mas
oaõ devo eu fer tal Emperador para os parri-
cula-
CO Plalm. 11. v. 3. Lábia dalofa In corde & <crdc
Iccuti funt.
278 Introdtjcça6
culares , qual Emperador defejaria eu encon-
trar fe eu mefmo foíle particular 2
CAPITULO XXXVII.
Dos defejos.
Ninguém deixa de faber , que fe deve guar-
dar dos defejos de coifas viciofa9 , por-
que o defejo do mal nos faz niáos : mas eu
ainda vos digo mais , Philorea , naó defejeis
coifas que fejaó perigofas á alma , como faó
os bailes , os jogos , e outros paffatempos ■;
nem honras e cargos , nem visões e extafis ,
porque ha grande perigo de vaidade e illu-
íaó em femelhantes coifas. Nem defejeis coi-
fas mui remotas , iílo he , que naó podem
fuceder fenaó paliado muito tempo , como fa-
zem muitos , que deite modo fatigaó e dif-
trahem o feu coração inutilmente , e fe põem
em perigo de grande defaífocego. Se hum
mancebo defejar com anciã fer provido em
algum ofricio antes de tempo, dizei-me , de
que lhe ferve efte defejo ? Se huma mulher
cafada defejar fer Religiofa , a que propoíl-
to ? Se eu defejar comprar a fazenda do meu
vifinho , antes que elle a queira vender , por
ventura naó perco o meu tempo nefte defejo?
Se eftando doente defejar pregar, ou dizer
MiíTa , vifirar os outros doentes , e fazer os
exercícios dos que tem faude , naó faó váos
efíes defejos , naó eftando na minha maó ef-
feitua-los em femelhanre tempo l E com tu-
do
A5 Vida devota. 279
cio eftes defejos inúteis ocupaó o lugar de ou-
tros , que eu devera tçr , de ter muita paciên-
cia e muita reugnaçaó , muiia mortificação ,
muita obediência , e muita manfid ò cm meus
achaques : que iílo he o que Deos quer que
eu pratique por entaõ. Mas nós ordinariamen-
te temos defejos de mulheres pejadas , que
querem cerejas freícas no Outono 3 e uvas
novas na Primavera.
De nenhum modo aprovo , que huma pef-
foa coníticuida em hum eítado ou vocação ,
fe entretenha em defejar ourra forte de vida ,
fen aó aquella que he conveniente ao feu mi-
nifterio : nem exercícios incompatíveis com o
feu eftado prefente ; porque tudo iílo afrou-
xa o coração , e o eniibia nos exe-rcicios ne-
ceíTarios. Se defejar a folidaó dos Cartuxos $
perderei o meu tempo , e femelhante defejo
ocupará o lugar daquelle , que devo ter , de
me empregar bem no meu orKcio prefente.
Taó pouco quizera que ninguém dcfejaífe ter
melhor engenho , nem meího- juízo ; porque
eftes defejos Liò frivo-los, e ocupaó o lugar
daquelles , que cada hum deve ter , de cilii-
var o feu , tal qual he : nem que íe defejem
os meios de fervir a Deos , que naó ha , mas
que fe empreguem com fidelidade os que ha.
Ifto porém fe entende dos defejos , que ocu-
paó o coração , porque quanto ás (ithp.les ve-
leidades , eítas n aó faó de prejuízo , com ti n-
to que naó fejac í requentes.
Naó defejeis as cruzes ^ fenaõ á medida ,
que tiverdes levado bem as que fe vo? n' ve-
rem olFerecido ; porque he hum abfurdo de-
fc-
280 hl T R O D U C (j A Õ
fejar o martírio , e naó ter animo para fofrer
huma injuria. O inimigo procura-nos muitas
vezes grandes defejos de obje&os aufentes , e
que nunca já mais fe orFereceraõ , a fim de nos
divertir o animo dos obje&os prefentes , os
qtlâss ainda fendo pequenos nos poderiaó fer
de grande proveito. Na imaginação batalha-
mos com os monftros de Africa, e na reali-
dade nos deixamos matar das menores cobri-
nhas , que eífaó pelo noííò caminho , por fal-
ta de atenção.
Nió defejeis tentações , porque ifto feria
temeridade : mas empregai o voílo coração
em efpera-las animofamente , e refiílir-lhe
quando vos vierem.
A variedade de iguarias ( principalmente
fendo grande a quantidade ) fempre carrega
o eiromago , e fe elle he fraco o arruina. Naó
enchais a voíla alma de multidão de defejos ,
nem mundanos ( porque eíles vos eílragaráò
de todo ) nem ainda efpirituaes , porque vos
çaufaráõ embaraço.
Quando a noífa alma eflâ purgada , fen-
tindo-fe defearregada de máos humores , tem
hum apetite mui grande das coifas efpirituaes,
e toda como esfaimada entra a defejar mil
forres de exercícios de piedade , de mortifica-
ção , de penitencia , de humildade , de cari-
dade , de oraçaó. Bom ílnaPhe , minha Phi-
lorea , ter taó bom apetite ; mas adverti , fe
podereis digerir tudo o que quereis comer. Ef-
colhei pois, por confelho do voíTo Padre ef-
pirítuai entre tantos defejos , os que prefente-
meute fe puderem executar e praticar , apro-
vei-
a5 Vida devota. 281
veitando-vos bem delles : feito iílo , Deos vos
enviará outros , que também praticareis a feu
tempo , e aiíim naó perdereis o tempo em de-
fejos inúteis. Naó venho a dizer, que fe de-
vem perder alguma forte de bons defejos } mas
digo , que fe haó âé prdduzíf pot ordem: e
os que agora naó podem effeittiar-fé , fe guar-
dem em algum recanto do coração , are lhes
chegar o feu tempo ; e entretanto fe effeituem
os que eftaó maduros e fazonados : o que naó
digo fó dos efpirituaes, mas dos mundanos :
naó o fazendo aííim , viveremos fem focego
nem defeanço.
CAPITULO XXXVIII.
Documento para os cafados.
O Matrimonio ( 1 ) he hum grande Sacra-
mento , eu digo em Jefu Chrifto , e na
fua Igreja. He honrofo a todos , em todos ,
e em tudo , ifto he em todas fuás parres. A
todos porque as mefmas virgens o devem hon-
rar com humildade : em todos , porque igual-
mente he fanto , entre os pobres , e entre os
ricos : em tudo , porque a fua origem , o feu
fim , as fuás utilidades , e a fua forma e ma-
téria , faó fantas. Efte he o viveiro do Chrll-
tianifmo , que enche a terra de fieis , para
com-
(1) Eph. 5. v. 52. Sacramentam hac magnám tjl 3
t%o atitem dico iti Çhrijio W Ecclefia,
2^2 INTRODUCÇAÕ
completar no Ceo o numero dos efcolhidos : e
aflim a confervaçaó do bem do Matrimonio
he fummamente importante á Republica , por
íer a raiz e a fonre de todas as fuás correntes.
Prouvera a Deos , que feu Filho folie
chamado a todas as bodas , como foi ás de
Cana , e naó lhes faltaria já mais o vinho
das confolaçóes e bênçãos : e naó haver nef-
tas de ordinário mais que hum pouco no prin-
cipio , he , porque em lugar de Nofío Senhor
he introduzido Adónis , em vez de Nofía Se-
nhora 5 Vénus.
Quem quizer ter cordeiros fermofos e ma-
lhados , como (i) Jacob , deve pôr diante das
ovelhas quando fe ajuntaó de propofito , varas
fermofas de diverfas cores : e o que quizer
ter feliz fucceíTo no Matrimonio , deve em
íuas bodas por diante dos olhos a fantidade
e dignidade deíle Sacramento : mas em vez
diílo 5 fucedem mil defordens em paíTaternpos
feílins e palavras : pelo que naó he de admi-
rar , que os eíreitos fejaó defordenados.
Sobre tudo exhorto os cafados ao amor
mutuo , que o Efpirito Santo tanto lhes re-
comenda na Efcritura : ifto naó he dizer , ò
cafados , amai-vos com hum amor natural ;
porque os cafaes das rolas fazem ifto meftuo :
nem com amor humano , porque os Pagãos
praticarão muito bem eíle amor : mas o que
vos digo com o grande Apoítalo , he : ( 2 )
Ma-
»
(1) Gen. $0. v. 40.
(2) Ephef. 5. v. 2. Vlri dilígite uxores vcjlvas , [i-
€ut W Chrijius dilcxit Ecckjiam.
a5 Vida devota. 283
Maridos amai *voffas mulheres , como Jefu
Chriflo ama a fua Igreja : Mulheres amai *vof-
fos nitridos , como a Igreja, ama a feu Salva-
dor. Deos foi quem levou Eva a noíío primei-
ro pai Adaó , e lha deu por mulher. Deos
também he ( amigos meus ) auem com fua
maõ inviíivel deu o nó do fagradò laço do
voílo Matrimonio , e vos entregou huns aos
outros ; porque vos naó amais com hum amor
todo fanto , todo fagrado , e todo divino 2
O primeiro effeiro defte amor he , a uniaó
indilToluvel do^ voíTos corações. Se dois pe-
daços de pinho fe juntarem com cola , fendo
a cola fina , fera taó forte a uniaó , que mais
facilmente os faraó em pedaços por outros lu-
gares , do que pelo lugar da uniaó. Mas Deos
junta o marido á mulher em feu próprio fan-
gue , e por ilTo he a uniaó taó forte , que pri-
meiro a alma fe deve feparardo corpo de hum
e de outro , do que o marido da mulher. Efta
uniaó porém naó fe entende principalmente
do corpo , mas fim do coração , do afFe&o ,
e do amor.
O fegundo effeiro defte amor deve fer a
fidelidade inviolável de hum para com o ou-
tro. Antigamente os íinetes andavaó gravados
nos anéis , que fe traziaó nos dedos , fegun-
do a mefma Efcritura teftifica. Efte he pois o
fegredo da ceremonia que fe faz nos defpofo-
rios : A Igreja por maó do Sacerdote henze
hum anel , e dando-o primeiro ao homem ,
dá a entender, que elle figila e cerra o feu
coração com efte Sacramento ; para que nun-
ca mais , nem o nome nem o amor de algu-
ma
284 Introdvcçaô.
ma outra mulher , poíTa entrar nelle ^ enl
quanto viver a que lhe foi dada. Depois o ef-#
pofo mete o anel na maó da mefma efpofa ,
para que ella reciprocamente íaiba , que nun-
ca o feu coração Te deve affeiçoar a outro
homem , em quanto viver na terra , aquei-
le que NoíTo Senhor acaba de lhe dar.
O terceiro fruto do Matrimonio be a ge-
ração e legitima criação dos filhos. Grande
honra he par:: vós , cafados , que Deos que-
rendo multiplicar as almas que o pfríTàó bem-
dizer e louvar eternamente , vos faz coopera-
dores de huma taó digna obra , pela produe-
çaô dos corpos : nos quaes infunde , como
orvalho ceieftial , as almas , criando as como
as cria.
Coníervai pois , Maridos , hum terno
conftante e cordial amor para com voíTas
mulheres : para iífo foi tirada a mulher da coí-
tela mais chegada ao coração do primeiro ho-
mem , para que delle foíTe amada cordial e
ternamente. As fraquezas e enfermidades ou
íejaó do corpo ou do animo , de voíTas mulhe-
res , naó vos devem provocar a nenhuma for-
te de defdem , mas antes a huma fuave e a-
mo.rofa compaixão ; porque Deos as creou
taes , para que dependendo de vós , receber-
íeis mais honra e refpeito ; e de tal modo as
tivelTeis por companheiras ^ que vós folieis
cabeças e fuperiores. E vós , ò mulheres ,
amai terna e cordialmente , mas com hum
amor atenciofo e cheio de reverencia , a vof-
fos maridos que Deos vos deu ; porque Deos
para iíío os creou de hum íexo mais vigorofo
e
a5 Vida devota. 28?
t predominante , e quiz que a mulher fbfle
huma dependência do homem , hum olío dos
feus oíTbs , huma carne da fua carne : e que
foíTe produzida de huma cofta fua , tirada de-
baixo do braço ; para moftrar , que ella de-
ve eftar debaixo da maó e conducta do mari-
do : e toda a Efcritura fama vos recomenda
eítreitamente efta fujeiçaõ , a qual com tudo
a mefma Efcritura vos fuaviza , naó fó que-
rendo que a leveis com amor , mas ordenan-
do a voflbs maridos , que a pratiquem com
grande carinho ternura e fuavidade (1) : M&-
ridos ( diz S. Pedro ) yortxi-<vos discretamen-
te com ^vojfas mulheres , como com hum <vafo
mais frágil , dando-lbe honra.
Mas ao mefmo tempo , que vos exhorro ,
a que aumenteis mais e mais efte reciproco
amor que vos deveis , tende cuidado em que
fe naô converta em algum género de zelos ;
porque fuccede muitas vezes , que aflinY co-
mo os bichos fe geraó na fruta mais delicada:
e madura , aílim os ciúmes nafcem no amor
mais ardente e a&ivo dos cafados , cuja fub-
ftancia com tudo elle confome e corrompe ?
porque pouco a pouco gera naufeas , diflerH
soes , e divórcios. Verdadeiramente os ciu->
mes nunca fe encontrão , onde a amizade fea
funda reciprocamente fobre a verdadeira vir-
tude : por cuja caufa he hum finai indubita-
vel,'
CO !• Petr. 5. v. 7. Viri cohabltantcs fccutrdut*
fcieniiam , cjueji infimwri vaftal* mulicm impcrtkn--
t$s bwprcm»
286 Intrqdtjcçaõ
vel , de amor de algum modo fenfual e grof-
íeiro i e bufca fítio onde ache huma virtude
manca inconítante e fujeita a defconfianças.
He pois louca prefunçaó de amizade , quere-
la aumentar por meio de zelos; porque os ciú-
mes verdadeiramente fó faõ fmaes da fua cor-
pulência e gro fiaria , mas naó da fua bondade
e perfeição ; porque a perfeição da amizade
prefupoem a fegurança da virtude da coifa
amada , e os ciúmes a incerteza.
Se quereis , maridos , que voíTas mulhe-
res vos fejaõ fieis, procurai que vejaó efta li-
ção no voOb exemplo : „ Com que cara ( diz
j) S. Gregório Nazianzeno ) quereis vós pe-
» dir honeftidade a voíTas mulheres , fe vós
a mefmos viveis com deshoneítidade í Gomo
x requereis delias o que lhes naó dais í Quereis
M que fejaõ caftas , portai-vos caítamente com
» ellas : e , como diz S. Paulo : ( i) Cada
bum faiba pojTuir o feu wa/o em fantificaçaÕ.
a E fe pelo contrario vós mefmos lhes enfinais
» malícias , naó he de admirar , que recebais
» deshonra na fua perda. Mas vós , ò mulhe-
5> res 9 cuia honra eítà infcparavelmente uni-
p) da com a pudicícia e honeíiidade , confer-
is vai zelofamente a volTa gloria , e naó con-
to tintais, que género algum de diíToluçaõ,
v ofusque o candor da voífa reputação. »
Temei toda a forte de encontros , por pe-
quenos que fejaó : nem confintais género ne-
nhum
(i) I. Thefal. 4. v. 4. Ut Jclat 9**fymff** «flj
fa um pofolere infanciiJicationi%
a3 Vida devota. 287
nhum de galantarias para comvofco. Qual-
quer que chegue a louvar a voiía fermofura e
graça , rende-o por íufpeito ; porque todo o
que louva huma mercadoria , que nac pôde
comprar , ordinariamenre eftá mui tentado a
furta-la. E fe ao voíTo louvor ajuntar alguém
o defprezo de voíTo marido, vos ofenderá in-
finito ; porque claro eftá , que naó fó vos
quer perder , mas vos tem já por meio per-
dida: pois ametade do contrato eftá feiro com
o fegundo vendedor , quando nos defgoftamos
do primeiro.
As mulheres tanto as idofas como as mo-
ças , coftumaó trazer muitas pérolas penden-
tes das orelhas , pelo prazer, diz Plínio , que
eilas tem de as ouvir darhumasnas outras:
mas eu que fei , que o grande amigo de Deos
Ifaac mandou arrecadas á caíla Rebeca , por
primeiras arras do feu amor ; creio, que ef-
te ornato miílico íignifica , que a primeira
coifa que hum marido deve confeguir de fua
mulher , e que efta lhe deve fielmente guar-
dar , he a orelha ; para que nenhuma lingoa-
gem nem ruido nella polTa entrar , fenaó o
iuave e amável fufurro das palavras caítas e
honeftas , que faó as pérolas Orientaes do
Evangelho ; porque fempre nos devemos lem-
brar , que as almas fe envenenaó pelos ouvi-
dos , aUim como os corpos pela boca.
O amor e a fidelidade juntos fempre ge-
raõ a familiaridade e confiança : por iíTo os
Santos e Santas ufaraõ de muitas caricias em
feu Matrimonia : caricias verdadeiramente
amorofas , mas caítas ; ternas _, mas íinceras.
Def-
288 Introducça6
Deite modo Ifaac e Rebeca , o mais caflo
par de cafados do tempo antigo , foraó vilãos
pela janela acariciar-fe de forte , que ainda
que alli naó houve nada deshonefto , Abime-
lec conheceo multo bem que elles naó podiaõ
fer , fenaô marido e muiher. O grande S.
Luiz igualmente rigorofo com a Tua carne ,
e terno no amor de fua efpofa , quafi que foi
cen furado de fer demafndo em femelhantes
caricias : poíto que na verdade , antes mere-
cia louvor, por faber acommodar o feu efpi-
riro marcial e valerofo , a eítes pequenos of-
ícios , neceíTarios a confervaçaó do amor con-
jugal ; porque fuppofto que eftas pequenas
demonftraçóes de pura e livre amizade , naõ
ligaó os corações , com tudo os chegaõ ,e fer-
vem de hum agradável adorno da mutua con-
verfaçaó.
Santa Mónica andando pejada de Santo
.Agoít.ir.ho , o dedicou por muitas vezes á Re-
ligião chriítá , e aos minifterios de gloria de
Deos : como elJe mefmo teítifica , dizendo :
Que jã tinha goftado do fal de Deos , dentro
no centre de fua mãi. Eifaqui hum grande do-
cumento para as mulheres Chriítis , oferecer
â Divina Mageftade os frutos de feus ventres ,
ainda antes de fahirem á luz ; porque Deos
que aceita as oblações de hum coração hu-
milde e voluntário, profpéra de ordinário os
bons aíFeftos das mais nefte tempo : fejaõ tef-
temunhas Canto Thomás de Aquino , Santo
André Fezulano , e muitos outros. A mái de
S. Bernardo , digna mái de hum tal filho , to*
mava feus filhos nos braços 3 logo que nafciaõ-
f
A' y I D A D E V O T A, !%<)
c os cfTerecia a Jefu Chriíto : e deCáe enraô os
amava com refpeiro , como a coifa [3°
e que Deos lhe tinha confiado : e foi raõ di-
tofamentc fucccdida , que todos fete foraõ fan-
tiflimos.
Lo^o que os filhos tendo entrado no mun-
do , fe começaó a fervirda razaó , devem os
pais e mais ter hum grande cuidado , de lhes
imir o temor Je Deos no coração. \ boa
iha Branca praticou fervorofamente elle
officio para com o Rei S. Luiz feu fi.ho , por-
que lhe dizia muitas vezes: Antes quereria t
meu amado filho , ver-vos morrer diante de
olhos, do que <ver <vos cometer hum fó
peccado mortal. O que ficou de tal forte im-
pre :> na alma deíle Sanro filho 3 que como
elíe próprio contava , naó havia d.;a em fua
vida , que lhe naó lembrada , trabalhando
quanto podia, por guardar effca divina domi-
na. Verdadeiramente as raças e gerações fe
5 Cafas na roíTa língua , eosH-breos
chamavaô á geração dos filho;, Edificação de
cafi : pois nefte fentido fe diz , que Deos edi-
i cafas ás comadres do Egypro. Ifto he ,
para que fe veia , que naó coníiite o faãeé
huma boa cafa , em baftecela de muitos bens
mundanos , mas em dourrinar bem os filhos
no temor de Deos e na virtude.
Nefta matéria naó fe deve perdoar a ne-
nhum género de moleítia ou trabalho ; pnr-
qur os filhos íaó a coroa de feus pais. Pelo
que Santa Mónica combateo com tanto fer-
vor e conftancia , as más inclinações de San-
to Agoílinho 3 que tendo-o lèguido por mar e
T por
•290 Introducçao
por terra , o fez mais ditofamente filho de
luas lagrimas , pela converíaó de fua alma ,
do que tinha (ido li:ho de feu ianque , pela
geração do corpo.
S. Paulo deixa á repartição das mulheres
o cuidado da cafa : por illo muitos afíemaõ
nelta opinião verdadeira , que a lua devcçaõ
he mais fruclruofa à família , que a de feus
maridos , os quaes ruõ fazem aíliliencia taõ or-
dinária entre feus domeíracos , nem os podem
por confej>'!Ínre encaminhar taó facilmen:e á
virtude. Nefta confideraçaó Salomão nos íeus
Provérbios , faz dependen e a profperidade de
toda a cafa , do cuidado e induítria daquella
mulher forte , que eíle defcreve.
No Genefis fe diz , que líaac vendo fua
mulher Rebeca efteril , orava ao Senhor por
el!a , ou fegundo os Hebreo^ , orava ao Se-
nhor defronte delia ; porque hum orava de
hum lado do Orarorio , e outro do outro : a
oraçaõ do marido feita nefta forma , foi ouvi-
da. A maior e mais íruítuofa uniaõ do mari-
do e m-ilher , he a que fe faz em fanta devo-
ção , á qual fe devem exhortar hum ao ou-
tro mutuamente. Ha frutos como o marmelo,
que pela afpereza do fumo , nada tem de agra-
dáveis , fenaó de conferva : outros ha , que
por ferem renros e delicados , naó fe podem
guardar , fenaó também co/ifeitando os , co-
mo as cerejas e damafcos : alíim as mulheres
devem defejar , que léus maridos fejaó cor\"
feitados com o afíucar da devoção; porque o
homem fem devoção , he hum animal aíper»
íeyero e intratável : e os maridos devem pro«
a5 Vida devota. 29 r
curar que fuás mulheres fejaó deveras , por-
que Tem devoção a mulher he fummamente
frágil , e fujeica a cahir , ou oíTufcar-íe na
virrude. S. Paulo di Te (1) : Que o homem In-
fiel he fantificado peit mulher fiel , e a mulher
infiel pelo homem fiel ; porque neíta eitreita
aliança do Matrimonio , hum pode facilmen-
te acrahir o outro á virtude. Mas que bençaõ,
a de quando o homem e mulher lieis , Te fan-
tificaó hum a outro em verdadeiro temor
de Deos ! . ;
Em fim , o fofrimento mutuo de hum pa-
ra com outro ., deve fer taó grande , que nun-
ca cheguem a enfadar-fe ambos ao mefmo
tempo ; para que aílim fe naó veja entre el-
les diíTenfaó nem debate. As abelhas naó po-
dem eftar em lugares onde fe formão ecos
tinidos e repetições de vozes : nem taó pouco
o Efpirito Santo em huma cafa , em que ha
debates replicas, e repetidas gritarias e alter-
cações.
S. Gregório Nazianzeno teítifica 5 que no
feu tempo , os cafados faziaó feitas no dia
aniverfario das fuás bodas : eu na verdade
aprovaria , que eíle coílume fe ímroduziíTe ,
com tanto que ido naó fòfle com aparelhos de
recreações mundanas e fenfuaes ; mas que os
maridos e mulheres fe conreíTafTem e cemun-»
gaífem nefte dia , e encomendaíTem a Deos
T ii mais
ÇO !• Corinth. 7. v. 14. Sanãificatus e/t v'r hfi-
delis pev mulkrem fideUm , <&' mulkr injiàelis per viram
/ideiem,
202 Intkoducçao
mais fervo rofamence do ordinário , os pro*
greíTos do teu matrimonio , renovando os
bons propoíitos de o fanti ficar mais e mais ,
por meio cie huma reciproca amizade e fideli-
dade : e cobrando alento fio Senhor , para le-
var os encargos da fua vocação.
CAPITULO XXXIX.
Da honejiidade do thoro Nupcial
OLeico nupcial deve fer immacelado (i) ,
como lhe ch.ima o Apoítolo , iíto he ,
ifento de impidicicia e outras fordidezas pro-
fanas. Àihm foi o fanto Matrimonio primei-
ramente inítatuido no Parai fo terreal (2) , on-
de nunca rinha havido , nem havia entaó def-
ordem alguma da concupiícencia , nem coifas
deshoneftas.
Ha Tua femelhança entre os deleites ver-
gonhofos e os de comer ; porque huns e ou-
tros dizem reipeito á carne : poíio que os pri-
meiros em razaó da fua vehernencia brutal ,
fe chamaó íimplesmente carnaes. Explicarei
pois o que naó poíío dizer de huns , pelo
que direi dos ourros.
O comer he ordenado para confervar as
peííbas : aífim pois como o comer , meramen-
te para nutrir e confervar a peílba , he coifa
fan-
(O Hebr. 1 3. v. 4.
(2) Gen. a. v. 22»
a5 Vida devota. 293
fanra e mandada : aíHm o que fe requer no
Matrimonio , para a geração dos filhos , e
multiplicação das pelToas , he coifa boa e lan-
tiíftma i porque he o rim principal dos dcipo-
íorios.
Comer, naó por coníervar a vida , mas
para coníervar a mutua converfaçaó e con-
defcendencia , que nòs devemos huns aos ou-
tros , he coifa iummamenre jufta e honefta :
e aflim também a reciproca e legitima fatis-
façaó dos Confortes , no fanto Matrimonio ,
he chamada por S. Paulo (O, debuo : mas
divida raõ grande , que naõ quer que alguma
das partes fe polTa eximir delia , íem o livre
e voluntário conienumento da outra : nem
ainda para os exercícios de devoção ; íobre
o que |à diiTe alguma coifa no Capitulo da fa-
grada Communhaó. Quanto menos pois , fe
poderáó eximir por caprichofas pretençóes de
virtude , e por enfados e defdens í
Aííim como os que comem por cumprir
com a mutua converfaçaó , devem comer li-
vremente , e naó como por força , mas antes
procurando moítrar apetência : aííim o debi-
to nupcial , deve fempre pagar-fe liei e efpon-
toneameme ; e da mefma lurte , que fe folfe
com eíperança da geração dos filhos , ainda
que por algum acafo naó haja tal efperança.
Comer, fem fer pelas duas primeiras ra-
zões , mas íimplesmenre por fa tis fazer o ape-
tite , he coifa tolerável , mas naó Louvável ;
por-
(1) I. Corinth. 7. v. 3
194 Intkoducçao
porque o ílmples prazer do apetite fenfual
naó pode ler objetío furRciente , para fazer
hii ma acçaó louvável : bem lhe bafta o fer to-
lerável.
Comer, naó por íimples apetite, mas por
excefío e deíordem , he coifa mais ou menos
yitupcravel , fegundo o exce.ío for maior ou
menor.
O exceífo pois de comer naó confiíte fó
na gnnde quintidade, mas também no mo-
do e maneira de comer. He muito para no-
tar , amada Philotea , que o mel fendo taõ
próprio e faudavel ás abelhas , lhes pode naó
obftante fer nocivo , e fazê-las enfermar , co-
mo quando comem demafiado na Primavera :
caufanio-ihes ifto deíinteria : e algumas vezes
faz que morraó ineviravelmente , como quan-
do tem melado o bico e as azas. Na verdade
o comercio nupcial, íendo taõ fanto taõ juíto
taõ recomendável e útil a Republica , he naó
obítame em cercos cafos perigofo aos que o
praticaõ ; porque muitas vezes torna as aimas
mui enfermas de peccado venial , e as vezes
as mata com peccado mortal : como fuccede ,
quando a ordem eftabelecida para a geração
dos filhos he violada e pervertida : em cujo
cafo , fegundo fe apartaô mais ou menos dei-
ta ordem , feraõ os peccados mais ou menos
execráveis , mas fempre moptaes. Porque co-
mo a geração dos filhos he o primeiro e prin-
cipal fim do Matrimonio , nunca he licito
apartar da ordem que ella requer , pofto que
por ai^um outro accidente fe naó poíía por
cntaõ cíFeituar ? como fuccede quando a efteri-
lida- '
a5 Vida devota. 295-
Jidade ou a prenhez impedem a geração e
producçaó ; porque neftas ocaiiões , o comer-
cio corporal naó deixa de poder fer jufto e
fanco , com tanto que as regras da geração íe-
jaó feguidas. Nenhum accidente pôde já mais
prejudicar à lei, que o fim principal do Ma-
trimonio tem importo. Verdadeiramente a in-
fame e execranda acçaõ , que (1) Onan exe-
cutava em Teu Matrimonio , eia deteftavel
dianre de Deos , fegundo diz o fagrado Texto
no Capitulo trin a e oito do Genefis : e pofto
que alguns Hereges da nciTa idade , cem ve-
zes mais deteítaveis que o* Cynicos ( de que
fala S. Jeronymo fobre a Epiftola aos Efefios)
tenhaõ querido dizer , que a perverfa inten-
ção derte malvado era a que deíagradava a
Deos , a Efcritura com tudo fala de outra ior-
te , e aiíevera em particular , que a mefma
coifa que elle obrava , era deteftavel e abo-
minável diante de Deos.
Verdadeiro final he de efpirito chocarrei-
ro vilaõ abjeclo e infame , cuidar em manja-
res antes do tempo de comer ; e ainda mais
quando etTe depois fe faborea no gofto que ex-
perimentou em comer , entretendo-^ em pa-
lavras e penfamentos , e revolvendo no leu
animo a lembrança do deleite , que tinha
quando engolia os bocados : como fazem os
que anres de comer tem o fentido no a fiador ,
e depois nos pratos : gente digna de ferem cães
de cozinha , que ( 2 ) fa\em ( como diz S.
Pau-
(1) Gen. $8. v. 9.
(2) Philip. 3. v. 19. Quorum Deus vcnterejl.
196 IntroducçaíS
Paulo) bum Deos do [eu ventre: as peífoas
de honra naó cuidaõ na meza , «enaó quando
Te afTentaó a ella ; e depois da comida hvaó
as ináos e a boca, para que lhes naó tique
nem o gofto , nem o cheiro do que comerão.
O e^efame he hum bruto grolTeiro , mas o
mais di^no de eíhr fobre a terra , e o que
tem mais juizo ; venho a dizer , huma pouca
de honeítidade. Naó muda já mais de fêmea ,
e ama ternamente aquelia que huma vez ef-
colhe , com a qual naó obítanre íe naó junta
fenaó de três em três annos , e iflo por finco
dias fomenre ; e taó fecretamente , que já mais
he vifto nefte a&o : mas ao fexto dia he bem
notório . quando primeiro que tudo vai di-
reito a a!^um rio, onde lava inteiramente o
corpo iodo ; fem querer volrar em modo al-
gum ao fcu rancho, aures de eíhr purihca-
cjo. \Taó faó bellas e honeilas as propriedades
deíle animal , com que convida os caiaios ,
a naó ficarem prezos do affefto â fenfuali Jade
e debites , que fegundo a fua vocação tive-
rem exerci :ado : mas que paíTados elles , la-
vem o coração e o affe&o e fe purifiquen
lo^o , para depois com mais liberdade de ef-
pirito praticarem outras acções mais puras e
remontadas. Xelte documento confífte a prati-
ca perfeita da excelente doutrina que S. Pau-
lo dá aos Corinthios (i) . O, tempo he breve
(diz
(0 1- Corinth. a. v. 29. Tempus breve eft , rclU
tjuunuejl 9 ui jui httbtnt uxores tanquam non habentes
Jint,
a5 Vida devota. 297
( diz elle ) refta , que os que tem mulher , fe*
)ao como fe a nao ti-uejfém. Porque fegundo
S. Gregório , aqueile rem mulher como te a
naó tivefíe , que de tal forte goza as confola-
çces corpóreas com elía , que nem por ido fe
apara das preiençóes eípiriruaes. Iito que di-
go do marido , fe enrende reciprocam eme da
mu her (i): Que os que tifto do mundo (diz
o mefm > Apoítolo) fejio como fe naoufarao
dclle. Todos poíç ufem do mundo , cada hum
fegundo a fua vocação : mas de tal modo ,
que naó lhes prendendo o afFe&o , eílejaó li-
vres e promptos a fervir a Deos , como fe naó
UÍatTem delle. Efte he o maior mal do ho-
mem, diz Santo Agoftinho, querer gozar das
coifas de que fomente deve uiar , e querer
ufar das que deve fomente gozar. Devemos
gozar das coifas efpirituaes , e fomente uíar
das corporaes , cujo ufo quando fe convene
em gozo , também a notTa alma racional fe
convene em alma brutal e beítial. Parece-
me que tenho dito tudo o que queria dizer-
vos , e dado a enrender fem o dizer , o que
naó quiz pronunciar.
CA-
CO Qj-il ututitar hoc mundo tanejuam nen utantur.
2q3 Introducçao
CAPITULO XL.
Documentou para as Fiwvas.
SAó Paulo inílrue a rodos os Prelados na
peííoa do feu Timotheo ( 1 ) : Honra as
rviwvas , que forem 'verdadeiramente (viwuas.
Para fer-m pois verdadeiramente viuvas, fe
requerem a- feguinres coifas.
Que a viuva naó feja fomente viuva no
corpo , mas no coração : iík» he , que eíleja
refolvida com huma refoluçaó inviolável a
confervar-fe no eílado de huma cafta viuvez ;
porque as viuvas que naó o faó mais , que
em quanto efperaó ocafiaó de lecafar, naó
eíb.ó apartadas dos homens , ienaó quanto ao
deleite corporal , mas eftaó já juntas com el-
les quanto a vontade do coração. E fe a ver-
dadeira viuva para fe confirmar no eftado de
viuvez, quizer offerecer a Deos porvoroo
feu corpo e a fua caftidade , juntará hum
grande adorno a fua viuvez , e dará grande
fegurança a fua refoluçaó ; porque vendo que
depois do voto naó eftá na fua maó deixar a
caridade , fem deixar o Ceo , viverá taó ze-
lofa do feu proje£to , que naó confenrirá que
íe detenha em feu coração, nem hum fó fim-
pies peníamento de fe caiar : em forma que
efte
(1) Tim. 5. r. 3. Honora viduas tju£ vcrcvlduéC
funt.
/5 V I D A DEVOTA, 299
eíle fagrado veto meterá de permeio hum
forte n.uro , en re a 1 u a alma e todo o géne-
ro de projeâos contrários á íua refoluçaõ.
Na verdade que Santo Agoítinho aconfelha
eíle voto fummamentc à viuva Chriftá : e o
antigo e douto Origenes paíTa muito adiante ;
porque aconfelha ás mulheres caiadas , que
façaó voto e fe dediquem cá caftidade vidual ,
em cafo que íeus maridos venhaó a falecer
anres delias ; para que entre os prazes fen-
fuacs , que poderão ter em Teu Matrimonio ,
polTaó com tudo gozar do merecimento de
numa cafta viuvez } por meio deíla anricipa-
da promelTa. O voto faz as obras , que em
jqucncia delle fe executaó , mais agrada-
vas a Deos ; conforta o coração para os fa-
zer , e naõ fomente dá a Deos as obras , que
faó como fru&os da noiTa boa vontade , mas
lhe dedica também a meíma von ade , que he
como a arvore das noiías acções : pe!a limples
caíra dade p relíamos o notTo corpo a Deos , re-
tendo porém a liberdade de o íujeirar outra
vez aos prazeres fenfuaes ; mas pelo voto de
caridade lhe fazemos huma doação abfolu-
ta e irrevogável , fem refervarmos poder al-
gum de nos defdizer , fazendo -nos aííim feliz-
mente efcravos daquelle , cujo fei viço he me-
lhor que todo o reinar. Afrim como aprovo
os documentos deites dois grandes perfona-
gens , aílim defejára . que as almas , que fo-
rem taó ditofas , que os queiraó feguir , o fa-
cão prudente fanta e íolidamente , tendo bem
examinado as fuás foiças , invocado a infpi-
taçaó celeílial , e tomado o confelho de al-
gum
300 Introducçaõ
gum fábio e devoto Dire&or , porque aílim
tudo fe fará mais fru£luofamence.
Alem diílo , deve efra renuncia de fecun-
das bodas fazer-fe pura e firnplesmente , para
com mais pureza voltar todos os feus aífectos
para Deos , e ajuntar por toda a parte o cora-
ção com o da Divina Mageftade ; porque fe o
defejo de deixar os filhos ricos , ou outro qual-
quer género de pretençaõ mundana , detém a
viuva em viuvez , pôde ler que configa lou-
vor , mas naó por certo diante de Deos ; por-
que para com Deos , nada pôde confeguir
•verdadeiro louvor , fenaó o que fe faz por
Deos.
De mais he precifo , que a viuva para fer
verdadeiramente viuva , efteja feparada e vo-
luntariamente deftituida de conrencamentos
profanos (i): A eviurva que -vive em dilicias
(diz S.Paulo) eftã morta em -uida. Querer
ler viuva , e goftar naó obftante que a galan-
teem acariciem elifonjeem: querer-fe achar
nos bailes danças e fefttns , querer andar en-
feitada perfumada e melinjrofa : ifto he fer
huma viuva viva quanto ao corpo , mas mor-
ra quanto a alma. Que imporia ( vos peço
me digais), que a iníignia da caía de Adónis
e do amor profano , feia fei*a de ramalhetes
brancos levantados como penachos , ou de
hum crefpo effendido como penda ao redor do
roíto í Antes ordinariamente 3 o preto fe af-
^ ien-
CO I. Tim. 5. v. 6. Quá in deliciis efi , vlvens
movi u a eji.
A' V I D A DEVOTA, 30I
/enta com mais vaidade no branco , para re-
alçar a cor. A viuva como [em feito experi-
ência do modo com que as mulheres podem
melhor agradar aos homens , arremetia a feus
ânimos mais poderofos atractivos. A viuva
pois , que vive neítas loucas delicias , eftà
morta em vida : e propriamente falando , naó
he íenaó hum idolo de viuvez.
O tempo de podar he chegido , a <vo2vda
rola foi owvida na noffa terra (1) : fe diz nos
Cantares. O cortar peias iuperfluidades mun-
danas , he preciío a qualquer que quizer vi-
ver piedofamente : mas efpecialmente he ne-
ceflario á verdadeira viuva , que como huma
cafta rola , acaba proximamente de chorar
gemer e prantear a moree ce feu marido.
Quando Noemi voltou de Moab a Belém , as
mulheres da cidade q"e a haviaó conhecido
no principio do feu Matrimonio , diziaó nu-
mas para outras ( 2): Naó lie efta Noemi ?
Mas ella refpondía : Peço-vos , que me na5
chameis Noemi ( porque Noemi quer dizer
engraçada e bel ia ) chamai-me antes Mara '3
porque o Senhor encheo minha alma de amar-
gura : o que dizia por lhe ter morrido feu
marido. Aífim a viuva devota naó quer já
mais fer chamada nem efhmada pnr fermoía
e engraçada , contentando-fe com fer o que
Deos quer que íeja , a faber , humilde e aba-
tida a feus olhos.
As
(1) Cant. 2. v. 12. Tempus putatlcms advcnit*.
Vox turturis audita efl w terra no/im.
£2) Ruth. j. v. 20. H*ç cjl Ma Noemi.
302 Introducçaô
As alampadas , que tem óleo aromático ^
lançaó cheiro mais íuave quando fe apaga 5 :
aííím as viuvas, cujo amor foi mais puro em
fen Matrimonio , exhalaó maior fragrância de
virrude e cdlidade , quando a fua luz , ifto
he feu marido , fe extingue pela morte. Amar
ao marido em quanto elle vive , coifa he en-
viai entre as mulheres ; mas amalo tanto ,
que depois da fua morte naó queiraõ outro ,
he gáo (ieamor, que fó compete ás verda-
deiras viuvas. Efperar em Deos em quanto o
marido ferve de fuftenro , naó he coifa mui
rara ; mas efperar em Deos quando effcaó deí-
tituidas deíle arrimo , he coifa digna de gran-
de louvor. Efta he a razaó , porque no tem-
po da viuvez fe conhece mais facilmente 2
perfeição das virtudes , que havia no tempo
do Matrimonio.
A viuva que tem filhos , que neceíTítaõ da
fua direcção e conduta , principalmenre no
que pertence á alma e elíabelecimento de fua
vida , n.tõ pôde nem deve em modo algum
deíampara-los ; porque o Apoítolo S. Paulo
diz claramente , que eilas eítaõ obrigadas a
eíte cuidado , para pagarem o que deverão 2
feus pais. E também , porque fe algum naõ
tem cuidado dos feus, e principalmenre dos
de fua família , he peior que o infiel. Mas fe
os filhos fe achaõ em eílaJo,, que naó preci-
faõ inftruçió 5 enraó deve a viuva unir todos
feus affe^os e cuidados , para os applicar
mais puramente ao feu adiantamento no amor
de Deos.
Se alguma força violenta naó obrigar a
ver-*
a' Vida devota. 303
verdadeira viuva a embaraços exteriores taes ,
quaes faó os litigios , eu lhe aconfelharia ,
que fe apanalTc deles imeiramenre , e feguif-
fe o methodo de conduzir os negócios que
foíTe mais locegado e tranquilo , ainda que
naó pareceííe fer o mais frucíuofo ; porque he
neceltario que os frutos de femelhantes in-
commodos fejaó muito grandes , para fe po-
derem comparar com o bem de huma fanta
tranquilidade: fem falar, em que as deman-
das e femelhantes turbulências diííipaõ o co-
ração, e abrem muitas vezes porta aos inimi-
gos da caít.idade ; quando por agradar áquel-
les de cujo favor fe neceííita , fe fazem acções
indevotas e defagradaveis a Deos.
A oraçaõ leja o exercício continuo da viu-
va ; porque naó devendo ter mais amor fenaõ
para Deos , aílim rambem naõ deve ter pala-
vras fenaõ para com Deos : e ailim como o
ferro que eítando impedido de feguiroiman
por cauía da atracção do diamante , fe arroja
ao mefmo iman , t3nto que o diamante fe
aparta ; aílim o coração da viuva , naõ po-
dendo commodameme arremelTar-fc todo a
Deos, nem feguír o atractivo de feu divino
amor, durante a vida de feu marido , deve
logo depois do feu falecimento , correr fer-
voroiamente atraz do cheiro das fragrâncias ce-
leftiaes , dizendo â imitação da Efpofa fan-
ta : Oh Senhor ! a^ora que fou toda minha ,
recebei-me por toda voíla (1) : Atrahi-me a
vós,
(i) Cant. 1. v. 1. Trakc me pojl te : currtmus in
vdorem unguentorum tuorum,
304 Introdtjcçaõ
vós , correremos â fragrância dos voííos ungu-
entos.
As vircudes próprias do exercido da fanra
viuva faó a perfeita modeíf;a , a renuncia
das honras , poííos , aílembleas , ticulos , e
femelhantes géneros de vaidades: o ferviço
dos pobres e dos enfermos , a confolaçaõ d >s
afrli&os , a infirucçaõ das donzelas na vida
devota 3 o moflrar-fe hum perfeito exemplar
de todas as virtudes ás mulheres moças. A ne-
ceílidade e a ílngeLza faó os dois enfeites dos
feus veílidos : a humildade e caridade , os dois
ornatos das fuás acções : a honeítidade e man-
fidaó , dois adornos da fua língua: a modef-
tia e pudicícia , o enfeite de feus olhos : e Jefn
Chrifto crucificado , o único amor de feu co-
ração.
Em huma palavra , a verdadeira viuva
he na Igreja h.mia violeta de Março , que di-
funde huma íuavidade incomparável , pelo
cheiro da fua devoção : permanece quafi fem-
pre efcondida debaixo d\<s folhas do feu aba-
timento , e moília na cor pouco refplande-
ccnte , a mortificação : bufca os lugares fref-
cos e incultos , livrando-fe dos apercos da
conveifaçaó mundana , para melhor confer-
var a frefcura de feu coração , contra todos
os calores , que o defejo dos bens das honras ,
e t: mbem do amor, lhe poderiaó acarrear :
(1) Ditofa ella ( diz o Apoílolo ) fe perfcve-
rar de fia, forte.
Ou-
CO I. Corinth. 7. v. 8. Bonum cji Mis Ji Jie per-
maneant.
a5 Vida devot a. ^of
Outras muiras coifas tinha que dizer a eltd
propollto , mas tudo cifrarei d ^ndo ; 411c a
viuva zelofa da honra do feu eft.do , lea atem-
tamen:e as beas Epiftolas , que o grande S.
Jeronymo eicreveo a Fúria e a Sa:via , e a
todas aquelas Matronas tao ditoias , que fo*
r.ió filhas efpirituaep de hum raó grande Pai ;
porque naó he poJíivel acrecentar coifa a'gu-
ma ao que elle diz , fenaó erta advertência :
que a verdadeira viuva naó deve já mais vitu*
perar nem cenfurar aquelles que paffaó a fe-
gundas , ou ainda a terceiras e quartas bodas-;
porque em cenos cafos o difpoem Deos aííim,
para íua iruior gloria. E devem ter fempre
diante dos olhos efta doutrini dos 2ntigos :
que nem as viuvas nem a virgindade , tem me-
lhor lugar no Ceo , que aquelle que lhe for
alíinado pela humildade.
CAPITULO XLJ.
Hum.i p.tia-jr.i as Donzelas.
DOnzelas , fe pretendeis o Matrimonio
temporal , guardai zeloíameme o voíTo
primeiro amor , para votTo primeiro marido.
Tenho por hum grande engano , preíentar
em lugar de hum ecraçaó inteiro e ilneero ,
hum coração todo ulado , falficado , e per-
turbado de amor. Mas fe a voíTa boa forte
vos chama ás caftas e virginaes bodas efpiri-
tuaes , e quereis para fempre coníervar a
yoíu virgindade , oh bom Deos ! confervai
U I
306 Introducça6
o voílo amor o mais delicadamente que pu-
derdes , para efte Divino Efpofo , que como
he a melma pureza , nada ama tanto como a
pureza : e a quem as primícias de tudo faó
devidas , mas principalmente as do amor. As
Epiitolas de S. Jeronymo vos proverão de
todos os documentos , que vos faó necefía-
rios. E já que o voíío eftado vos obriga á
obediência , efcolhei hum Direcior , fob cuja
condu&a poííais mais fantamente dedicar o
vo Io coração e o volTo corpo á Divina Magel-
tade.
>ooo<x
>ooc<x
•A*
QUA&
307
QUARTA PARTE,
QUE CONTEM MUITOS DOCUMENTOS
neceírarios , contra as tentações mais ordi-»
narias.
CAPITULO I.
Çjge naÕ devemos fa\er cafo das palavras da$
filhos do mundo.
TAnto que os mundanos conhecerem $
que quereis feguir a vida devota , ar-
remeiíaráõ fobre vós mil dardos de di-
c^eríos e murmurações: os mais perve rios ca-
lumniaráó a volTa mudança , de hipocriíia
e fingimento : diraõ que o mundo vos moítrou
má cara. , e que por elle vos lançar de fi re-
correres a Deos. VoíTos amidos fe empenha-
rão em vos fazer milhares de admoeftações
mui prudentes e caridofas, a feu parecer. Vi-
reis a dar ( diraó elles ) em algum humor
melancólico , perdereis o credito com o mun-
do , farvos-heis infofrivel , envelhecereis an«
tes de tempo ? padecerão voíTos negócios ào*
mefticos : he precifo viver no mundo como no
mundo : bem fe pôde confeguir a falvaçaó feni
tantos mifterios nem tal multidão de bacate-
hu
U ii W*
3c8 Introducçaó
Minha Philotea , tudo ifto naó he mais
que hum louco e váo falar : e a femelharue
gente nada le lhe dâ da voíía íaude , nem dos
voííos negócios : Se vós fôreis do mundo ( diz
O Salvador ) , amara o mundo o que he feu ;
vias como naõ fois do mundo , por i[[o vos
aborrece (i). Nós vemos muitos Cavalheiros e
fenhoras , pafTarem a noite inteira , e ainda
muitas noites a fio , jogando o xadrez ou as
cartas : ha por ventura applicaçaó mais trifte
melancólica e fom.bria do que efta í Os mun-
danos com tudo naõ dizem palavra , e aos
amigos nenhum cuidado lhes dará ifto: e pe-
la medicação de huma hora , e por nos ver le-
vantar hum pouco mais cedo do ordinário ,
para nos preparar á Communhaó , todos buf-
caó o Medico para que nos cure do humor hi*
pocotidriaco , e da tericia. PafTarfe-haó trinta
noites em bailes , e ninguém fe queixa , e por
ter velado na noite de Natal, todos toflem e
íe queixaó do ventre no dia íeguinte. Quem
naó vè nifto , que o mundo he hum juiz iní-
quo ; benévolo e aíFavei para com feus fi-
lhos , mas afpero e rigorofo para com os de
Deos.
Naó he poífivel eftar bem com o mundo ,
fenaó perdendo-nos com elle , nem he poífi-
vel contenta-lo , pois he mui fantaftico. Veio
^foao ( diz o Salvador ) naa comendo nem be*
ben-
(O Joan. 15. v. 19» Si de mundo fui Jjetis , mim"
àus quod fuum erat Ailigeret : (juia vero de mundo net)
cjlis ,propíerca odit vos mundas.
a5 Vida devota. 309
bendo , e direis que efiâ endemoninh.tdo : Feio
o Filho do homem comendo e bebendo , e di-
reis que he Samaritano (1). He certo , Philo-
tea , que fe por condefcendencia , nos dif-
trahir-mos em rir jogar e dançar com o mun-
do , efte fe efcandalizará : fe o naõ fizermos ,
nos acufará de hipocriíla ou melancolia : fe
nos enfeitarmos , entenderá que o fazemos
com algum deíignio : fe andarmos fem ador-
no , atribuirá ifto a baixeza de coração : cha-
mará as nolías alegrias dilToluçóes , ás nolTas
mortificações triilczas , e vendo-nos aííim com
máos olhos já mais lhe poderemos fer agradá-
veis. Exagera as nolTas imperfeições , e pu-
blica que faõ peccados : de nonos peccados
veniaes , faz mortaes : e os peccados de fra-
queza , os converte em culpas de maiicia : de
forre que aííim como diz S. Paulo : A cari'
dade he benign.t (2) , pelo contrario , o mun-
do he maligno : em lugar de que a caridade
nunca cuida mal , pelo contrario o mundo
fempre julga mal , e quando naõ pode acufar
HoiFas acções, acufa nolTas intenções : e ou os
carneiros tenhaó pontas ou naõ , fejaó bran-
cos ou negros , nem por iiTo deixa o lobo de
os comer , fe pôde.
Qualquer coifa que façamos , nos fará
fem-
ÇO Luc. 7. v. $]. Vcrit Joannes Bapti
manducam fanem , nc::>.c bibtns vi . de*
momum habct : Venlt filhis hominis manducam ©" bi-
be ns , W dicitis.
(2) I. Corinth. 13. v. 14. Charitas benigna efi.
3 io Introducça6
fempre guerra o mundo : fe eftivermos mui-
to com o ConfeíTor , perguntará como pôde
haver tanto que dizer í Se eftivermos pouco ,
dirá que naó dizemos tudo : efpreitará todos
nolíos movimentos , e por huma fó palavra
colérica , afirmará que íomos infofriveis : o
cuidar em nofíbs negócios lhe parecerá avare-
za , e a noífa mznfklaõ , necefíidade. Quan-
to aos filhos do mundo . as fuás raivas faó ge-
neroíldade , a fua avareza economia , as fuás
familiaridades entretenimentos honrados : he
certo que as aranhas fempre deftroem a obra
das abelhas.
Deixemos a eíle cego , Philotea , que gri-
te quanto quizer , como a cigarra para inquie-
tar os paiíaros de dia : fejamos firmes em nofr
íos intentos , invariáveis em noíTas rôfolu-
çóes : a perfeverança nos dará a conhecer , fe
he certo termo-nos inteiramente facrificado a
Deos , e entregado á vida devora. Os Come-
tas e Planetas faó quaíi igualmente luminoíos
na apparencia , mas os Comeras de/aparecem
em pouco tempo , por naó ferem mais que
huns fogos paffage iro s , e os Planetas daó hu-
ma claridade perpetua. AíHm a hipocrifia e
a verdadeira virtude tem muita parecença no
exterior , mas diferença-fe huma da outra ,
em que a hipocrifia naó tem duração , e fe
diíílpa como fumo quando fóbe , mas a ver-
dadeira virtude fempre he firme e confiante.
Naó he pequena comodidade ? para íegurar-
mos bem o principio da noíTa devoção , rece-
ber opróbrios e calumnias ; porque poreíte
medo evitamos o perigo da vaidade e fober-
ba,
a5 Vida devota. 311
ba , que faó como as (1) parteiras do Egyp-
to , ás quaes tem mandado o Faraó infernal ,
que matem os filhos varões de Ifraei , no pró-
prio dia do Teu nafcimento. Eftamos crucifi-
cados para o mundo , e o mundo deve eftar
crucificado para nós : fe elle nos tem por lou-
cos , tenhamo-lo nós por infenfato.
CAPITULO II.
Que de<vcmos ter bom animo.
A Luz pofto que feja fermofa e deleitavel
aos noíTos olhos , os deslumbra depois que
ettiveraõ ás efcuras por muito tempo. An-
tes que nos familiarizemos com os habitado-
res de algum paiz , ainda que fejaõ mui cor-
tezes e afiáveis , fempre encontramos alguma
eftranheza. Poderá fuceder , minha Philorea ,
que nefta mudança de vida , fintais no voffo
interior muitas contradições ; e que efta gran-
de e abfoluta defpedida , que fizeit.es das lou-
curas e necedades do mundo , vos caufe al-
gum refentimenro de trifteza , e defcahimento
de animo : fe aííim vos fuceder , tende huma
pouca de paciência , porque naõ fera nada :
ifto naõ he mais que hum pouco de efpanto ,
que a novidade vos caufa , pa Ta lo elle rece-
bereis milhares de confolaçóes. Poderá fucce-
der, que ao principio vos caule alguma mo-
le-
(0 Exod. 1. v. 15,
?T2 InTRODUCÇAÓ
leftia, o deixar a gloria que os loucos e chocar-
Teiros vos daó em volTas vaidades: mas oh
bom Deos ! querereis vós perder a e.ema ,
que Deos verdadeiramente vos dará ? Os di-
verrimentos e pallatempos váos , em que vos
empregaftes os annos paliados , fe reprefenta-
râõ ainda em voíTo coração , pa>a o arrahire
fazer pôr da fua parte : mas tereis vós animo
«e renunciar a felicidade eterna , por eftas li-
viàrtdades enganadoras i Oède-me , que fe
períeve^ardes , naó tardará que recebais mui-
tas fuavi-dades , taõ delkiofas e agradáveis,
que confefíareis , naó ter o mundo fenaõ fel
em comparação deite mel ; e que hum ío dia
de devoção vale mais , que mil annos de vida
mundana.
^Mas como vedes que o monte da perfei-
ção chriftá he alriílimo , Ah Deos meu ! di-
zeis vós : como o poderei eu íubir i Animo ,
Philotea ; quando as mofquinhrís dasab:lhas
começaõ a tomar forma , chamaó-fe ninfas;
e aink naó fabem voar folre as flores , nem
fobre os montes , nem fobre os oiteiros vifí-
nhos para ajuntar o mel : mas pouco a pouco
Criando- fe com o mel que fuás mais tem pre-
parado , eftas pequeninas ninfas romaó azas ,
e fe reforçaõ de forre , que depois voaó a
bufca-lo por todo o paiz. Verdade he , que
ainda fomos pequenas mofeas na devoção ,
nem poderíamos fubir feguncio o noífo inie i-
to . que naó he menos que chegar ao (imo da
perfeição chriftá : mas fe começarmos a tomar
forma , por meio dos noiTos defejos e refolu-
çóes , nos começarão a fahír as asas. Deve-
mos
Ay V I D A DEVOTA. 313
mos pois efperar , que algum dia viremos a
fer abelhas efpirituaes , e que voaiemo^ ; e
entretanto vivamos do mel de tantos documen-
tos que os antigos devoto* nos tem deixado ; e
pellamos a Deos , que nos dê ^zas como de
pomba (1) ; para que naõ ió políamos voar no
tempo da prefente vida , mas também deícan-
çar na eternidade da futura.
CAPITULO III.
JD.t naturetf das tentações , e da diferença que
ha entre fentir a tentação e confentir nell.%.
COníiderai , Philotea , huma Princeza mo-
ça extremofamente amadi de feu efpofo :
e qMe a!gum perverfo , para a perder e man-
char fen leiro nupcial , lhe envia algum infa-
me menfageiro de amor, para tratar com cl*
le ferj danado intento. Primeiramente pro-
põem eíte menfageiro á Princeza a intenção
de feu amo. Em fegundo lu^ar , agrada ou
defagrada á Princeza a propofta e embaixada.
Em terceiro lugar , confente ella , ou a rejei-
ta. Deite modo Satanás o mundo c a carne ,
venio a huma alma defpof.ida com o Filho
de Deos , lhe enviaõ tentações e fugeftóes ,
pelas qnaes : 1. Lhe propõem o peccaJo : 2.
Sobre ifto ella fe agrada , ou defagrada : ?.
Ella confente ou refifte ; que faó em fuma os
três
(1) Pfalm. 57. v. 4.
314 Introdvcçaõ
três degráos por que fe defce á inquidade ; a
tentação , a deleicaçaó , o confentimento. E
pnfto que eftas três acções fe naó conheçaõ
raó manifeftamente em toda a outra forte de
peccados , naó deixaó de conhecer-fe nos pec-
cados grandes e enormes.
Ainda que a tentação de qualquer peccado
que fe|a , duraííe toda a noífa vida , naô fe-
ria poderofa , para nos fazer defagradaveis a
Deos , em quanto nos naó agradaffe , e nós
lhe naó deitemos confentimento. A razaõ he :
porque na tentação naó obramos nós , mas ío-
f remos ; e como nella naô tomamos prazer ,
também naó podemos ter género nenhum de
culpa. S. Paulo fofreo por dilatado tempo as
tentações da carne , e taó longe cíleve de fer
defagradavel a Deos , que ao contrario por
ellas foi Deo^ glorificado. A bemaventurada
Angela de Fulgi no experimentou tentações
carnaes taó cruéis , que mete compaixão quan-
do as conta. Grandes foraó também as tenta-
ções que padeceo S. Francifco e S. Bento ,
quando hum fe lançou nos efpinhos , e o ou-
tro na neve , para as mitigar ; e com tudo
raó perderão nada da graça de Deos , antes a
aumentarão muito.
Deveis pois , Philorea , moftrar-vos mui
anirooía no meio das tentações , e naó vos
dar por vencida em quanto ellas vos defagra-
darem , obfervando bem a diferença que ha
entre fentir e confentir : qual he , que as po-
demos fenrir , ainda que nos defagradem , mas
naó as podemos confentir fem que nos agra-
dem j porque de ordinário o prazer ferve de
de-
a5 Vida devota. 315*
degráo para vir ao confentimento. Offereçaó-
nos os inimigos de noila alma quantos engo-
dos e atra&ivos quizerem : eftejaó fempre á
porca do noíío coração para entrar , e façaõ
quantas propoftas quizerem : que em quanto
eítivermos na refoluçaó de lhes naó agradar
em tudo ifto , naó he poííivel que ofendamos
a Deos. Nada menos , que o Príncipe efpofo
da Princeza que tenho reprefentado , naó pô-
de dar-fe por ofendido da fobredita menfa-
gem , em quanto ella difto naó tiver género
algum de prazer. Eira diferença ha com tudo
entre a alma e eíta Princeza , na prefente ma-
téria ; que a Princeza tendo ouvido a propoí-
ta deshoneíta , pode , fe lhe parecer , defpedir
o menfageiro , e naó o querer mais ouvir :
mas naó eftá fempre em poder da alma , naó
fentir a tentação , pofto que fempre eíleja o
naó confentir nella : e por eíta caufa ainda
que a tentação dwre e perievere dna:ado tem-
po , nos naó pôde caular damno 3 em quanto
nos he defagradavel.
Mas quanto á deleitação , que pôde fe-
guir-fe á tentação ; como temos duas partes
em nolTa alma , huma inferior outra fuperior ,
e a inferior naó legue fempre a fuperior , mas
faz fua obra a parte ; fuecede muitas vezes ,
que a parte inferior fe deleita na tentação fem
o confentimento , e ainda contra a vontade da
fuperior. Efta he a contenda e guerra que o
.Apoftolo S.Paulo defereve quando diz (1):
que
(1) Gal. 5. v. 17. Caro ctncapifçH erfvcrfus [piri-
tum , Vfpirituj tdverfus camem.
316 Introdt/cçaõ
que a fua carne apetece contra o efpirito , e
que (i) ha huma lei dos membros e outra lei
do efpiriro , e outras coifas femelhantes.
Viftes alguma vez, Philotea , hum gran-
de brazeiro de lume cuberto de cinza , que
quando daili a dez ou doze horas fe vem buf-
car lume , naõ fe acha mais que hum pouco
no meio do brazeiro , e ainda cufta trabalho o
acha-lo ? ai li eftá com tudo , porque fe acha ,
e com elle fe podem acender todos os outros
carvões , já quafi exiinclos. O mefmo fucce-
de na caridade , que he a noíía vida efpiri-
tuai , no meio das grandes e violentas tenta-
ções ; porque a tentação lançando a lua delei-
raçaó na parte inferior , cobre, ao que pare-
ce , toda a alma de cinza , reduzindo o amor
de Deos a hurna pequena faifca ; porque naó
apparece em pane alguma fenaó no meio do
coração , e no fundo da alma ; e ainda parece
que naõ eftá alli , pelo trabalho, que cufta
acha-lo : eftá com tudo na verdade , porque
ainda que tudo eftej.i perturbado em nofta al-
ma e corpo , temos a refoluçaõ de naó con-
fenrir no peccado , nem na tentação ; e o de-
leite que agrada ao nolTo homem exterior ,
defagrada ao interior: e pofto que cerque a
vontade , nem por ilTo eftá dentro de! la : no
que fe conhece , que femelhante deleitação
he involuntária , e fendo tal naó pôde fer pec-
cado.
CA-
(i) Rom, 7. v. 25, Vidou aliam legem in membrl$
méis , erv.
a5 Vida devota. 317
CAPITULO IV.
Dois bellos exemplos fobre efta matéria.
IMporta tanto entender ifto bem , que ne-
nhuma dificuldade terei , em me demorar
a explica-lo. O mancebo de quem fala S. Je-
ronymo , que deitado e prezo com fitas de íe-
da , bem delicadamente , fobre huma cama
branda , foi provocado com todo o género de
torpes tocamentos e atractivos , por huma des-
honeita mulher , que fe deitou com elle para
contraílar a fua confhncia , por ventura dei-
xaria de fentir terríveis eftimulos da carne ?
Era poííivel que naó eítiveíTem feus fentidos
combatidos do deleite , e a fua imaginação
fummameme ocupada da prefença de objecíos
taõ lafcivos ? Sem duvida que eftavaó : e nao
obftante no meio de tanta perturbação e taõ
brava tempeítade de tentações , e entre tantos
deleites que o cercavaõ , deu a conhecer que
o feu cor.içaõ naó citava vencido , e que a
fua vontade de nenhum modo confentia ; por-
que o efpirito vendo tudo rebelado contra fi ,
e naó lendo fenhor de membro algum de feu
corpo , excepto a língua , a cortou com os
dentes , e a cuíjtio na cara daquella alma per-
dida , que atormentava a fua mais cruelmen-
te com aquellas torpezas , do que os algozes
o poderiaõ fazer com os tormenros. Defte mo-
do o tirano , que defconfiára de o vencer
com as dores , cuidou de o conrraftar com os
pwzeres, A
3io Introducçaó
A hiftoria da baralha de Santa Cathariru
de Sena cm íemelhante matéria , he em tudo
admirável: em fumma vem a Ter. O efpirito
maligno tendo alcançado de Deos licença de
aíTaltar a honeftidade defta Santa Virgem , com
a maior fúria que podetle , cora tanto porém
que a naõ tocaíTe , induzio toda a forte de íu-
geftóes em feu coração : e para mais a mo-
ver , vindo com feus companheiros em forma
de homens e mulheres , obrava á fua viíla
milhares de torpezas e deshoneftidades , jun-
tando a ifto palavras e vozes deshoneftiffimas :
e pofto que todas eftas coifas roíTem exteriores,
com tudo por meio dos fen idos penetravaó
bem dentro do coração da Virgem , o qual ,
como ella mefma confeíTou , eftava todo cheio,
naõ lhe ficando mais , que a mera e pura von-
tade fuperior , que naó foi agitada defta tem-
peftade de torpeza e deleitação carnal : Du-
rou ifto muito tempo , até que aparecendo-
lhe NoíTo Senhor hum dia , lhe dilTe ella :
Onde eftaveis, meu doce Senhor , quando meu
coração eftava cheio de tantas trevas e fordi-
dezas i Ao que elle refpondeo : Eu eftava den-
tro do teu coração , filha minha. E como , re-
plicou eila , habitáveis vós em meu coração ,
havendo nelle tanta torpeza? Morais vós em
lugares taó deshoneftos ? DitTe-lhe NoíTo Se-
nhor : Dize-me , eíTes impuros penfamentos de
teu coração davaó-te prazer ou trifteza , a-
margura ou deieitaçaó ? Refpondeo ella; fum-
ma amargura e trifteza. Tornou-lhe o Se-
nhor : E quem era o que introduzia eíTa gran-
de amargura e trifteza em teu corajaó , íenaõ
eu,
a' Vida devota. 319
cu , que eftava efcondido no meio da tua al-
ma ? Crêde-me , filha minha , que fe eu na5
tivera eílado prefenre , aquelles penfamentos
que cercavaó a rua vontade , e a naó podiaõ
render , fem duvida a venceriaó ; e entrando
dentro e fendo recebidos com gofto pelo teu
alvedrio , teriaó dado a morte á tua alma :
mas como eu eftava dentro , caufava efle deí-
prazer e eíTa refiftencia em teu coração , com
a qual elle refiftio quanto pôde á tentação : e
naó podendo tanto quanto quizera , fenda em
fi maior defprazer , e aborrecimento contra
ella e contra fi próprio : e aííim eíTas penas
eraó de grande mérito e ganância para ti , e de
grande aumento á tua virtude e fortaleza.
Vedes Philotea , como efte fogo eftava cu-
berto de cinza , e que a tentação e deleite tl-
nhaó também entrado no coração e cercado a
vontade ; a qual fó aíliftida de feu Salvador ,
refiftio por entre amarguras defprazeres e de-
teftaçóes do mal , que lhe fugeriaó ; negando
perpetuamente o feu confenrimento ao pecca-
do que a rodeava. Oh bom Deos ! que trifte-
za para huma alma amante de Deos , naó fa-
ber ao menos fe o tem comfigo ou naó : e f e o
amor divino pelo qual peleja , efta ou naó de
todo extin&o nella: mas efta he a flor mimo-
fa da perfeição do amor celeftial , fazer fo-
frer e pelejar o amante pelo amor , fem fa-
ber fe tem o amor , pelo qual e para o qual
elle peleja.
CA-
320 Intkoducça6
CAPITULO V.
Conforto para a alma que efiá metida em ten-
tações.
PHilorea minha , efles grandes aíTaltos e eí-
tas tentações taó poderofas as naô permite
Deos nunca , fenaó ás almas , que elle quer
levantar a hum puro e excelente amor feu :
mas naó fe fguc daqui , que depois delias fi-
caõ feguras de o coníeguir ; porque fuecede
muitas vezes , que os que tinhaó fido confian-
tes em violentos combates , naô correfponden-
do depois fie'mente ao favor divino , fe tem
achado vencidos de bem pequenas tentações.
Ifto vos digo , para que fe vos fueceder algu-
ma vez fer afligida de taó grande tentação ,
íaibais que Deos vos ajuda com hum favor
extraordinário , pelo qual declara , que vos
quer engrandecer na fua prefença : e que com
tudo iíío eftejais fempre humilde e temeroía r
naó vos alTegurando de poder vencer as tenta-
ções pequenas , depois de ter vencido as gran-
des , (enzó por huma fi-ielidade continua para
com fua divina Magefiade.
Qpaefquer tentsçóe- pois que vos venhaõ ,
e qualquer que for a deleitação que fe lhes fe-
gmr , em quanto a vou"a vontade recufar o'
confentimenro , naó fó á tentaç.iõ, roas á delei-
tação , de nenhum modo vos perturbeis , por-
que naó ofendefres a Deos. Quando hum ho-
mem eílá em efpafmo , de modo que naó dá
fi-
a5 Vida devora; grr
final algum de vida , fe lhe põem a maõ fo-
tre o coração , e por pouco movimento que
alli fe finta , fe julga que eftá vivo , e que
por meio de alguma agua preciofa , ou de al-
gum epythima , o poderão reftituir ao feu vi-
gor e ientidos : afiim fuccede as vezes , que
com a violência das tentações , parece eftai:
a nolTa alma cahida em hum desfalecimento
total de fuás forças , e como pafmada naó
tem vida efpiritual , nem movimento : mas
fe quizer-mos conhecer o que ifto he , ponha-
mos-lhe a maõ fobre o coração : confidere-
mos fe elle e a vontade tem ainda feu movi-
mento efpiritual , ifto he , fazem o feu de-
ver , em recufar confentir á tentação , e de-
leitação : porque em quanto o movimento de
refiftencia eftá em noíío coração , feguros ef-
tamos de que a caridade , vida da nolfa alma,
eftá em nós ; e que Jefu Chrifto Noffo Salva-
dor habita em nofTa alma , pofto que efcon-
dido e encoberto : e aííim mediante o exercí-
cio cominuo da oraçaó , dos Sacramentos , e
da confiança em Deos , nos reftitu iremos ás
noíTas forças , e viveremos huma vida inteira
e delekavel.
X CA-
322 Introducçaõ
CAPITULO VI.
De como a tentação e deleitação podem fer
peccado.
APrinceza de que temos falado , naõ teve
culpa alguma na requeíta deshonefta que
fe lhe fez ; porque como fuppozemos , lhe
íuccedeo contra a fua vontade : mas fe pelo
contrario , ella por meio de alguns atra&ivos
e afagos tiveile dado motivo a fer bufcada ,
pertendendo correfponder com amor , áquel-
le que a galanteava , indubitavelmente leria
culpada na mefma pertençaó : e ainda que fe
moílralTe melindrofa , naõ deixaria de mere-
cer reprehenfaó e caftigo. Aííim fuccede algu-
mas vezes , que meramente a tentação nos
põem em peccado , por fermos nós a caufa
delia. Por exemplo : fei que jog2ndo , facil-
mente me enraiveço e blasfemo , e que para
ifto me ferve o jogo de tentação , peco todas
e quantas vezes jogar , e fou culpado de to-
das as tentações, que me fuccederem no jo-
go. Do meímo modo , fe fçi que alguma con-
verfaçaó me ocafiona tentação e queda , e
vou a ella voluntariamente 5 ferei indubita-
velmente culpado em todas, as tentações que
nella me acontecerem.
Quando a deleiraçaõ que procede da ten-
tação fe pode evitar , fempre he peccado o
recebê-la ; conforme for o prazer que delia fe
toma a e o confentimento que fe lhe dá ,
gran-
a5 Vida d e v o t a. 323
grande ou pequeno , dilatado ou de pouca du-
ração. .Sempre feria coifa reprehenfivel na
Princeza de que acima faiei , fe naó fomente
déile ouvidos á propoíla torpe e deshonefta
que fe lhe fez , mas também depois de a ter
ouvido, tomalle delia prazer, entretendo o
feu coração com gofto neíta matéria i porque
ainda que naó quizeiTe confcntir na real exe-
cução do que fe lhe propunha , com tudo
conferiria na applicaçaó efpi ritual do feu co-
ração , pelo contentamento que nella recebeí-
le : e fempre he deshoneftidade , applicar o"
coração ou o corpo a coifa de>honeíta : antes
a deshoneftidade conilíte de tal modo na ap-
plicaçaó do coração , que fem ella a applica-
çaó do corpo naó pôde fer peccado.
Quando pois fordes tentada de qualquer
peccado, coníldcrai fe voluntariamente déftes
caufa á tentação , e entaó a mefma tentação
vos põem em eftado de peccado , pelo rifeo
a que vos arrojares. Ifto fe entende , fe po-
díeis commodamente evitar a ocafiaó , e íe tí-
nheis previílo ou devido prever a vinda da
tentação: mas fe naó déftes caufa nenhuma át
tentação , de nenhum modo vos pôde fer im-
putada a peccado.
Quando a deleitação que fe fegue â tentação,
fe podia evitar e fe naó evitou , fempre have-
rá algum género de peccado , fegundo a pou-
ca ou muita demora que houve nella , e a
caufa do prazer que tivemos. Huma mulher
que naó t^ndo dado caufa a fer pjalan^eada ,
naó obítante toma prazer de o fer , naó deixa
de fer reprehenfivel , íe o prazer que ella rc^
X ecbe
324 Introducçao
cebe naó tem outra caufa mais que o galara
teio. Por exemplo : fe o amante que a galan-
teia , tocalTe primorofamente huma viola e
ella gofta fe , naó das finezas de amor , mas
da armonia e fuavidade do mít-rumenco ,
naó haveria nfto nenhum peccado : poílo
que naó devia continuar por muito tempo
neile prazer , receando paílar delle a deiei-
tai-íe no galanteio. Da mefma forte pois ,
fe alguém me propuzer algum eítratagema
cheio de invenção e artificio , para me vin-
gar de meu inimigo , e niílo naó tomar
prazer, nem der confentimento algum á vin-
gança que fe me propõem , mas fomente á
futileza da invenção e artificio ; fem duvida
que naó pecco : pofto que naó feja convenien-
te derer-me muito nefte prazer , temendo que
pouco a pouco feja induzido a algum confen-
timeivo da mefma vingança.
Somos ás vezes alfahados de hum eftre-
mecimento de deleitação , que immediata-
mente fegue a tentação , antes que commoda-
mente fe poíTa prevenir : iíto naó pode fer
mais , que hum bem ligeiro peccado venial ;
o qual fe faz maior, fe depois de termos co-
nhecido o mal em que cahimos , nos demo-
ramos por negligencia algum tempo , a nego-
ciar com a rentaçaó , fc a havemos aceitar ou
defpedir : e ainda muito maior fera, fe ten-
do-a percebido, nos demorarmos nclla algum
tempo com verdadeira negligencia , fem gé-
nero algum de propofito de a lançar tora ; por-
que tanto que voluntariamente e de propofito
deliberado refolvemos comprazer-nos em fe^
me-
a' Vida devota. 325*
melhantes deleitações , efte deliberado propo-
ítro he h\im grande peccado , fe o obje&o da
deleitação for notavelmente mio. Grande vi-
cio he em numa mulher , querer-fe entreter
em amores perverfos , ainda que na realidade
naó queira emregar-fe ao amante.
CAPITULO VIL
Remédios para as tentações graves.
LOgo que fentirdes em vós algumas tenta-
ções , fazei como os meninos pequenos ,
quando vem o lobo ou urfo no campo , que
iem demora correm a acoitar-fe entte os bra-
ços de feu pai ou mái , ou pelo menos os cha-
maó em (ua ajuda e focorro. Recorrei deite
modo a Deos , implorando fua mifericordia
e foeorto , que he o remédio que No (To Se-
nhor eniina : Orai , para que naó entreis em
tentação.
Se virdes que a tentação perfevera , ou
que fe aumenta , correi em efpirito a abraçar-
vos com a fanta Cruz , ccmo fe viíTeis a Jefu
Chriíto crucificado diante de vós : proteftai-
Ihe que naó confenrireis a tentação , e pedi-
Ihe locorro contra ella , e continuai fempre
em proteítar , que naó quereis confentir , em
quando a tentação durar.
Mas feitas eftas proteílaçóes e eftas nega-
ções de confentimento , naó olheis para a ei-
ra da tentação , mas fomente para MoiTo Se-
nhor 3 porque fe olhardes para a tentação ,
piin-
326 Int roducçao.
principalmente quando ella he forte , podereis
desfalecer cíç animo.
Diverti o voiTo efpirito com algumas ocu-
pações boas e louváveis; porque eítas ocupa-
ções entrando em voíTò coração , e tomando
lugar , lançarão fora as tentações e fugeflóes
malignas.
O maior remédio contra todas as tenta-
ções , grandes ou pequenas, he mani feriar o
próprio coração , e communicar as lugeftóes
íentimentos e affe&os que tivermos , com o
noíío Direclor ; porque notai , que a primei-
ra condição que o inimigo faz com a alma ,
jque elle quer enganar , he o filencio : como
fazem os que querem enganar as mulheres ca-
fadas e donzelas , que no primeiro invíce lhes
prohibern , que naó communiquem as fuás
propoítas aos pais nem aos maridos : pelo con-
trario Deos em fuás infpirações , requer fe-
bre todas as coifas, que nós as façamos recor
phecer por noíTos Superiores e Directores.
E fe depois de tudo iíto , a tribulação por-
fiar em atribular-nos e perfeguir-nos , naõ te-
mos outra coifa que fazer , fenaó teimar da
polia parte no protefto de naó querer confen*
tir ; porque aííím como as donzelas naó as po-
vdem caiar , em quanto ellas diílerem que naó ;
aííim a alma , ainda que atribulada , nunca
pôde fer ofendida em quanto difier que naó.
Naó difputeis com volTo inimigo , nem
Jhe refpondais já mais huma fó palavra , fe-
naó aquella que Noffo Senhor lhe refpon-
deg # cqv*. ^"€ o confundio : Vai- te dahi Sa?
tauãs t adoraras ao Senhor teu Deos , e a elle
a? Vida devota. 327
fá fervirás (1) . E aílim como a mulher caf-
ta , naó deve refponder huma ío palavra , nem
olhar para a cara do infame que a íblicira ,
e lhe propõem alguma deshoneítidade : mas
cortando tudo de golpe, deve no mefmo inf-
tante volrar o coração a leu efpcfo , e ramifi-
car a fidelidade que lhe tem prometido , fem fe
demorar em femeihanre converfaçaó : aííim
a alma devota vendo-fe acometida de alguma
tentação , de nenhum modo deve entreter- fe
em difputar nem refponder ; mas íimplecmen-
te voltar-fe logo para a parte de Jeíu Chriito
feu eípofo , e proteftar-lhe de novo a lua fide-
lidade , e que quer para fempre fer unicamen-
te toda Tua.
CAPITULO VIII.
Qjte fe deve rejtflir as tentações tevês.
Ainda que fe haja de peleijar contra as
tentações graves com hum animo inven-
cível , e a vi&oria que confegu irmos nos feja
miliilima j com tudo pode fuceder , que nos
feja de maior proveito combater bem com as
pequenas ; porque aílim como as grandes ex-
cedem em qualidade , as pequenas excedem
em numero ; e poderíe-ha comparar a vicro-
ria delias com a daouellas. Os lobos e urios
faõ
( 1 ) Matth. 4. v. 10. Vade $ ataria , D.1"
Da:m taumadorabh , ©• illifotifcrvies.
323 I N T R O D li C C A á
f;iõ fem duvida mais perigofos que as mofcas ;
mas como nos naõ caufaó tanta importunida-
de e nojo, naõ exercitaõ tanto a nolTa paciên-
cia. Coifa bem fácil he evitar o homicídio ,
mas he coifa diíicultofa evitar as raivas me-
nores , de que fe nos oíferecem ocalióes todos
os inflames. Coifa bem fácil he a hum ho-
mem ou a huma mulher , evitar o adultério ;
mas naõ he raõ fácil evitar viftas , correfpon-
dencias amorofas , gracejos e favores peque*
nos , dizer e aceitar palavras de galanteio.
Muito fácil he , naõ dar no thalamo compe-
tidor ao marido , nem competidora á mulher,
quanto ao corpo ; mas naõ he taõ fácil , naõ
lho dar quanto ao coração. Bem fácil naõ
manchar o thoro nupcial , mas bem pouco fá-
cil naõ negociar com o amor matrimonial.
Bem fácil naõ furtar os bens alheos , mas di-
ficultofo naõ os apetecer e cubicar. Bem fá-
cil , naõ proferir falfos teftemunhos em juizo ,
mas dificultofo naõ mentir na converfaçaó.
Bem b.cil , naõ embebedar, mas difícil o fer
íobrio. Bem fácil naõ defejar a morte de ou*-
trem , mas dificultofo naõ lhe defejar incom-
modidade. Bem fácil naõ o infamar , mas bem
dificultofo naõ o defprezar. Em fim eftas miú-
das tentações , de raivas fufpeicas zelos inve*
jas amores leviandades vaidades dobrezes en-
feites fingimentos e penfamencos deshoneftos ,
.faó as que continuamente exercitaõ aquelles
mefmos , que faõ mais devotos e refolutos : e
j^or ilío , minha cariílima Philotea , nos deve»
mos e»m grande cuidado e diligencia prepa-
rar para çm peleija ; ç eftai certa D que quan-
tas
a3 Vida devota. 329
tas vi&orias confeguirmos , contra eftes pe-
quenos inimigos , tantas pedras preciofas fe-
raó polias na coroa de gloria , que Deos nos
prepara no Ceo. Por cuja caufa vos digo , que
procurando peleijar bem e valerofamente com
as gran ies tentações , devemos também de-
fendemos com diligencia deftes miúdos e dé-
beis ataques.
CAPITULO IX.
Como fe ha de dar remédio as tentações
leves.
QUanto pois a cilas pequenas tentações ,
de vaidade , fufpeitas , trifteza , inveja ,
afteiçóes , e outras femelhantes ninhe-
rias , que como mofeas e moiquitos , nos an-
daó paiíando por diante dos olhos , e humas
vezes nos picam nas faces , outras no nariz ;
como he impoíiivel eítarmos totalmente li-
vres da fua importunidade , a melhor reíif-
tencia que lhes podemos fazer , he naó nos
afligir ; porque nada difiro nos pode caufar
damno , ainJa que nos pode enfadar ; com
tanto que tenhamos íirme refoluçaó de querer
fervir a Deos.
Defprezai pois eftes miúdos aíTaltos , e naõ
vos ponhais nem aindi fomente a confiderar o
que querem dizer: deixai-os zunir á roda dos
volTos ouvidos quanro quizerem , e andar pa-
ra cá e para lá á roda de vós , como fazem
as mofeas : e quando vos vierem picar , e v\z-
ÒCS
330 Introducçao
des que fe demoraó algum tanto em voíTo co-
ração , naó façais mais nada fenaó abana-las
meramente, naó peleijando com ellas , nem
lhes refpondendo : mas fazendo a&oscomra-
rios quaesquer que fejaó , e principalmente
de amor de Deos. E Te me dais credito , o
melhor lerá , naó porfiardes , em querer oppor
a virtude contraria à tenraçaó que íentis ; por-
que iíto feria quaíi o meímo , que difputar
com cila : mas depois de terdes feito hum acto
de virtude directamente contraria , fe tiverdes
lugar de conhecer a qualidade da tentação ,
voltai fimplesmente o volío coração para Jefu
Cnriílo crucificado , e com hum adio de amor
íeu beijai feus fagrados pés. Efte lie o melhor
modo de vencer ao inimigo , tanto nas leves
como nas graves tentações ; porque o amor
de Deos contem em íi a perfeição de todas as
virtudes , e com mais excelência que as mel-
mas virtudes, e também he o mais denolo
remédio contra todos os vicios. E coftu man-
do-fe o voífo cfpirito a recorrer em todos os
allalros a efte afilo gerai , nenhuma obriça-
çaó terá de ver e examinar de que género faó
as tentações que lhe vem ; mas fimplesmente
íentindo-fe perturbado fe acolherá a eíte gran-
de remédio ; o qual alem diíro , he tam foimi-
davel ao efpirito maligno , que quando vê que
as fuás tentações nos provocaõ a efte divino
amor , céíia de nos tentar.
Ifto baile , quanto ás leves e frequentes
tentações : e fe alguém com ellas quizeíTe en-
treter-fe por miúdo , monificarfe-hia e naó fa-
ria nada.
CA-
a? Vida devota. 331
CAPITULO X.
Como devemos fortalecer o coração contra
as tentações.
C"> Onílderai de tempos a tempos , que pai-
_j xóes dominaó em voíTa alma : e tendo-as
deícoberto , tomai hum theor de vida que lhes
ítja de todo contrario , em penfamentos , pa-
lavras , e obras. Por exemplo, fe vos feri tis
inclinado á paixão de vaidade , cuidai a miú-
do nas mi lerias delia vida humana , quanto
eílas vaidades feraó enfadonhas na hora da
morte , quanto faó indignas de hum coração
gen:rofo, que naó íaõ mais que ridicularias
e entretenimentos de meninos , e outras coifas
femelhante?.
Falai com frequência contra a vaidade , e
ainda que iíto vos pareça contrafeito , naó
deixeis de a defprezar muito ; porque por eí-
re meio ganhareis reputação com o partido
contrario : e á força de dizer mal de alguma
coifa , nos movemos a aborrece-la , ainda que
no principio lhe tiveífemos affe&o. Fazei
obras de abatimento e humildade , as mais
que puderdes , ainda que vos pareça , que naó
goftais dilTo ; porque deite modo vos habitua-
reis na humildade , e enfraquecereis a vaida-
de^de forte, que quando a tentação vier , a
naó poderá favorecer tanto a voíía inclina-
ção , e tereis mais força para combate-la.
Se fordes inclinada á avareza , confuferai a
miu-
53^ Intf oducçaS
miúdo ria loucura deite peccado , que nos faz
fefcravos , do que naó foi criado íenaó para
nos fervír : e que alfim quando chegir a mor-
te , forçofamente largareis tudo , e o dei-
xareis nas mãos de quem o diílipará ; ao
qual fervirá ifto de ruina e condenação , e
outros penfamentos femelhantes. Falai com
efficacia contra a avareza , louvando muito o
defprezo do mundo : violentai-vos a fazer
frequentes efmoías e obras de caridade , e dei-
xai paliar algumas ocafióes de adquirir.
Se fois inclinada a amar e fer amada ,
confiderai frequentemente , quaõ perigofo he
cíle divertimento , tanto para vós como para
os outros : quaõ indigna coifa he , profanar
e empregar em paíTarempos , a mais nobre
coifa que tem a noíía alma : quaó fujeko eira
ifto á ceníura de huma fumma leveza de
juizo. Falai commummente a favor da pu-
reza e fingeleza de coração ; e também o
mais que puderdes , obrai acções conformes a
efte dizer; evitando todas as finezas e galan-
teios.
Em fumma : em tempo de paz , iíto he ,
quando as tentações do peccado a que eftais
propenfa , vos naó apertão , fazei muitos a&os
da virtude contraria: e fe as ocafióes fe vos
naó orFerecerem , bufcai-as a ellas ; porque
deite modo fortalecereis o voíTa coração 5 con-J
tra a tentação futura.
CA-
a> Vida devota. 335
CAPITULO XI.
Do defajfocegv.
ODefaíTocego naó he huma fimples tenta-
ção , mas huma origem , da qual e pela
qual nos vem muitas tentações : direi pois fo-
bre ifto alguma coiía. A trifteza naó he ou-
tra coifa , íenaó a dor do animo , do mal que
em nós eítá , contra nofTa vontade : ou o mal
íeja exterior , como pobreza , achaques , def-
prezos ; ou feja interior , como ignorância ,
fecuras , repugnancias , tentações. Quando
pois a alma conhece ter algum mal , lhe deí-
agrada o tê-lo , e eifaqui a trifteza : e em
continenre defeja livrar-íe delle , e ter meios
para o defpedir. Até aqui tem ella razaó ; por-
que naturalmente cada hum defeja o bem , e
foge do que entende fer máo.
Se a alma bufca meios para fe livrar
do mal por amor de Deos , bufcalos-ha com
paciência manfidaó humildade e tranquili-
dade , efperando ficar livre delles , mais da
bondade e providencia de Deos , que do
feu trabalho induftiia e diligencia : fe procu-
rar ver-fe livre por amor próprio , fe afadiga-
rá e efquenrará em buica de meios , como fe
efte bem dependelíe mais delia , do que de
Deos : naó digo que ella aífim o entende ,
mas digo , que fe empenha como fe o enten-
delTe.
£ fe naó encontra logo p que defeja , en-
tra
334 iNTRODUCqAÔ
tra em grandes defaifocegos e impaciências 5
as quaes como naó defvanecem o mal ante-
cedente , antes pelo contrario o empeioraõ ,
entra a alma em hum? agonia e triíteza def-
marcada , com hum desfalecimento de animo
e de forças tal , que lhe parece , que o feu
mal jà naó tem remédio. Eilaqui vereis , co-
mo a trifteza que no principio hejufta , gera
defafibcego , e o defaiíocego depois hum ex-
cedo de trifteza íummamente perigofo.
O defaflbcegp he o maior mal que pode
vir á alma , excepto o peccado. Porque aiiim
como as fediçóes e turbulências interiores de
huma Republica a arruinaõ inteiramente , e
embaraçaó o poder refiítir aos eftranhos ; aí-
íim o noíío coração eftando pe* turbado e in-
quieto cm íi me imo , perde a força de man-
ter as virtudes que tinha adquirido : e ao mef-
mo palio , os meios de reílftir ás tentações do
inimigo, o qual entaõ faz toda a diligencia
por pefcar , como fe diz , na agua turva.
Provem o defaíTòcego de hum defejo def-
ordenado , de nos livrarmos do mal que fen-
timos , ou adquirir o bem que efperamos : e
com tudo, naó ha coifa que mais empeiore o
mal , e defvie mais o bem , que o defaíTòce-
go e a afrlicçaõ. Os paflTaros ficaó prezos nas
redes e laços , porque achando-fe enredados
neiles , trabalhão e forcejaó defordenamente
por fe foltar : ficando cada vez mais embara-
çados , quanta mais diligencia fazem. Quan-
do pois eftiverdes preza do defejo , de vos ver-
des livre de algum mal , ou de chegar a confe-
guir algum bem ; primeiro que cudo a ponde
o
a? Vida devota. 33?
o voíTo animo em focego e tranquilidade , fa-
zei aíTenrar o voíío juizo e vontade : e depois
com toda a brandura e fuavidade , profegui
em bufcar o que defejais , tomando por fua
ordem os meios convenientes : quando digo
com toda a brandura, naó quero dizer com
negligencia ; mas fem afrlicçaó , turbação , e
deíaflbcego : de outra forte , em vez de con-
feguirdes o fim de voíTo defejo , perdereis tu-
do , e vos embaraçareis mais.
A minha alma ejiãfempre em minhas mãos,
d Senhor , e eu me n ao tenho efquecido da
rvojalei (1), dizia David. Examinai mais de
huma vez ao dia , ou ao menos á noite e pe-
la manha , fe tendes a voíía alma nas volTas
mãos , ou fe alguma paixão ou cefaiTocego
vo-laiem tirado. Coníiderai fe tendes o voíTo
coração ao voíTo mando , ou fe elle fe tem
cfcapado das voíTas máos , para fe enredar com
algum afFe£lo defordenado , de amor , ódio ,
inveja , cubica , temor , enfado , ou alegria :
e fe fe defgarrou , primeiro que tudo bufcai-o,
e trazei-o com toda a brandura á prefença de
Deos , fobmecendo todos voffcs affe&os e defe-
jos á obediência e condu£la da vontade divi-
na. Porque aílim como os que temem perder
alguma coifa preciofa , a aperraó bem na
maõ , aííim á imitação daquelle grande Rei ,
elevemos nós fempre dizer : O* meu Deos ! a
minha alma eftá em rifeo 3 e por iiTo a trago
fem-
(i) Pfalm. 118. v. 109. Anima mea !n matv.hus
méts Jcmper , «51 Ugcm tuam nonjum oblltus.
336 Introducça6
fempre em minhas máos : e deite modo ms
naó tenho efquecido da voiía Canta lei.
Naó confintais .a volTos defejos , por pe-
quenos que fejaó e de pouca importância ,
que vos inquietem ; porque depois dos peque-
nos , acharão os grandes e mais imporantes
o volTo coração mais dilpoit-o á turbação e
deíordem. Quando preíentirdes que vem o
defafíocego , encomendai-vos a Deos , e alTen-
tai em naó fazer nada do que o voflo defejo
vos pede , em quanto o deíaiíocego naó tiver
paíTado totalmente , falvo fe for coifa que fe
naó poíTa diferir: e entaó deveis com huma
fuave e tranquila força , deter a correnre do
voíío coração 5 temperando-o e moderando-o
quanto vos for poílivel : e além difto , fazer-
des a obra , naó conforme ao voiTo defejo ,
mas conforme á razaó.
Se poderdes defcobrir o voíTo defaffocego
a quem dirige a volTa alma , ou pelo menos a
algum confidente e devoto amigo , naó duvi-
deis , que logo vos achareis inteiramente fo-
cegada ; porque a communicaçaó das penas
do coração faz o mefmo efeito na alma , que
a fangria no corpo daquelie , que tem febre
continua : efte he o remédio dos remédios.
Pelo que EIRei S. Luiz , deu eíle confelho a
feu filho : Se tiveres em teu coração algum
trabalho , dize-o logo ao teu ConfeíTor , ou a
alguma pelToa de bondade , e'aiíim poderás le-
var o teu mal mais facilmente > com o confor*
to que ella te dará.
CA-
Ay Vida devota. 337
»- '■■' ■»
CAPITULO XII.
Da trifte\t.
ATriftcx* que be fegunâo Deos ( diz S. Pau-
lo ) obra a penitencia piri a fíluaçto 9
A triflexg do mundo obra a morte (1). A trií-
teza pois pode fer boa ou má , conforme os
efeiros que em nós faz. He verdade que mais
faó os màos do que os bons ; pois naó produz
mais que dois bons , a faber a compaixão e
a penitencia : e tem féis mãos , que faõ ,
anguftia , preguiça , indignação , zelos , in-
veja, e impaciência; o que fez que o Sábio
diíleíTe : A trifle\t mata a muitos , e a nin-
guém aproveita (2) ; porque por dois regatos
bons que procedem da origem da triíleza , pro-
cedem também féis , que faõ muito màos.
Da trifteza fe ferve o inimigo para exe-
cutar fuás tentações com os boro; porque aí-
íim como procura que os màos íe alegrem no
íeu peccado , aílim folicita que os bons fe en-
trifteçaó nas fuás boas obras : e aííim como
naó pódc introduzir o mal fenaô fazendo que
pareça agradável ; aííim também naó pôde
defviar o bem , fenaô fazendo que fe repre-
Y fen-
(0 II. Corint. 7. v. 10. Qji<£ fecundam Desm tri-
Êltia e/i , poenitentíam ir. falutem flabiUm overatur s
Jarcrtli a atem trjjiitia mor tem operatur.
(2) Ecclef. 50. v. 25. Muitos ocYidlt trljiitla , CT
noneji utilitai inca,
338 Introducçaô
fente defcgradavel. O inimigo folga com I
trifteza e melancolia , porque como elle he
trifte e melancólico , c o fera ecernamente , de-
íeja que todos fejaó como elle.
A trilleza má perturba a alma , e a põem
cm defaíTocego , caufa temores defordenados ,
defgofto da oiaçaó , amodorra e oprime o
cérebro , priva a alma de confelho de refolu.
çaó de juizo , c coragem , e lhe proftra as
forças: em huma palavra, he como o rigo-
rofo Inverno , que confome toda a rormoíu-
ra da terra , e entorpece todos os animaes ;
porque priva a alma de toda a íuavidade , c
a torna como tolhida e impolíibilitada em to-
das fuás faculdades.
Se alguma vez vos fueceder , Philotea , fer-
des afoitada defta trifteza má , praticai os re-
médios feguintes : Se alguém efiã trifte , ( diz
S. Thiago ) ore (1) . A oraçaó he hum remé-
dio foberano , porque levanta o efpiritò a
Deos , que ke a nolTa única alegria e confola-
çaó : mas quando orardes , ufai de afeftos c
palavras , ou fejió exteriores ou interiores ,
que fe encaminhem á confiança e amor de
Deos : como , ó Deos de mifericordia ! meu
bom Deos! meu benigno Salvador! Deos de
meu coração ! alegria minha ! minha efpeian-
ça ! meu amado efpoío ! bem amado de mi-
nha alma ! e outras íemelhantes.
Refifti vivamente ás inclinações da trifte-
za c ainda que vos pareça , que tudo o que
nef-
£1) Jaeeb. s. v.íj. Trijêtur §B§m vijlrum ,§r€fm
a5 Vida devota. 339
nefte tempo fizerdes , o fazeis com frieza ,
triíteza c frouxidão , nem por iífo deixeis de
o fazer ; porque o inimigo que pretende enti-
biar-nos nas boas obras , com a rrifteza , ven-
do que naó deixamos de as fazer , e que fen-
do feitas com refiftencia faó de maior valor s
ceíTará de nos afrtigir.
Cantai cânticos efpirituaes, porque o ini-
migo muitas vezes por efte meio defiíte da fua
obra : feja boa teítimunha o efpirito de que
Saul eftava obíeílo ou poiTello , cuja violên-
cia era reprimida com a Pfaimodia. (1)
He também bom empregarmo-nos em
obras exteriores , e varia-las o mais que pofíi-
vel for, para divertir a alma do objeclo trif-
te ; purificar e aquecer os efpiritos , porque a
trifteza he huma paixão de compleição fria.
Executai acções externas fervorofas , ain-
da que feja fem gofto , abraçando a imagem
do Crucifixo , apertando-a ao peito , beijan-
do-lhe os pés e as máos , levantando os olhos
e máos ao Ceo , e levantando a voa a Deos ,
com palavras de amor e confiança , como faõ
eftas (2) : Meu amado para mim , e eu para
elle (2,) . Meu amado he para mim hum ra-
malhete de mirrha , que fe deterá entre meus
peitos (4) . Meus olhos desfalecem em vós ,
ó meu Deos , dizendo quando me confolarei*
Y ii vós ?
I I II I ix I III u .. _
(O Reg. 18. v. 10.
(2) Cam. 2. y. 16. Dileliui mcut mihi & cg» Mi.
(j) Fafcieulàts mirrh* éilc&m meus mihi.
(4) Pfalm.118. v. 82. Dtftarunt Hrnli mii , 4ton*
Hl 1 qutnd» iifljêfobcris mg.
34o Introducçaõ
vós ? Jefus fede para mim Jefus , Viva Jefus e
viverá a minha alma: Quem me apartará do
amor de meu Deos (i) í e outras femelhan-
tes.
A difciplina moderada he boa contra a trif-
teza , porque eíla voluntária afrlicçaó extencr
impetra a confolaçaó interior : e a alma fen-
tindo as dores de fora , fe efquece das que
tem dentro. A frequência da lacrada Com-
munhaõ he excelente , porque efte paó celef-
té fortifica o coração e alegra o efpirito.
Defcobrireis todos os refentimentos , afie-
mos e fugeítóes , que provierem da voíía trif-
teza , ao voiTo Director eConfeííor, humil-
de e fielmente : Bufcai a converfaçaó de pef-
foas efpiricuaes , frequen:ando-as o mais que
puderdes neíte tempo. Finalmente , reíi^nai-
vos nas mãos de Deos , difpondo-vos a fofrer
efta trifteza enfadonha com paciência , como
jufto caftigo das voíTas alegrias vans. E tende
por certo , que Deos depois que vos tiver pro-
vado , vos ha de livrar deite mal.
CA-
(O Rom. 8. v. 35. Quis nos feparabit a charitatú
Chmjiii
A? Vida devota. 341
CAPITULO XIII.
Das confolaçoes efpirituaes efenfweis , e como
nellas nos devemos portar.
COntinúa Deos a exiftencia deíle grande
mundo em huma perpetua alternativa 3
pela qual o dia fe muda em noite , a Prima-
vera em Eftio , o Eílio em Outono , o Outo-
no em Inverno , e o Inverno em Primavera ,
e nenhum dos dias fe parece inteiramente com
o outro , huns vemos nublados e chuvofos ,
outros Tecos e vento fos : variedade que dá
grande formoíura a eite Univerfo. O mefmo
paiTa no homem , que fecundo o dito dos an-
tigos , he hum mundo abreviado ; porque já
mais eftá no mefmo ertado : e a íua vida paf-
fa fobre a terra como as aguas , fluchiando e
ondeando , em huma continua variedade de
movimentos , que humas vezes o levantaó á
efperança , outras o abatem ao temor , já o
inclinaó para a direita com a confolaçaó , já
para á efquerda com a afrlicçaó : e já mais
hum fó de feu s dias, nem fequer huma de
Tuas horas , fe parece inteiramente com a ou-
tra.
Hum grande documento fe encerra niílo.
Devemos procurar ter huma continua e invio-
lável igualdade de coração em nó grande
defigualdade de accidenres : e ainda que to-
das as coifas que no* cercão , fe mudem c re-
volvaó por muitos modos, devemos pcrfiftír
con-
342 IntroducçaS
confiantemente immoveis , olhando fempre ,
caminhando , e afpirando ao noíTo Deos.
Tome a náo a derrota que quizer , desfi-
ra as velas para o Poente ou para o Levante ,
para o Meio dia ou para o Setemptriaõ , le-
ve-a que vento a levar , nem por ifíò a agu-
lha de marear fe voltará fenaó para a fua for-
iriofa eftrela , e para o pólo. Volte-fe tudo de
íima para baixo , naó digo fó á roda de nós ,
mas dentro em nós : iiio he , efteja a noíTa
alma triíle ou alegre , com fuavidade ou com
com amargura, com paz ou com turbação,
com claridade ou cm trevas, em tentações
ou em defcanço , com gofto ou com defgofto,
com fecura ou com ternura , queime-a o Sol
ou a refrefque o orvalho ; em todo o cafo de-
ve fempre a cufpide do noíTo coração , do
noíTo efpirito , e da noíTa vontade fuperior ,
que he a noíía agulha , voltar-fe e caminhar
inceíTante e perpetuamente para o amor de
Deos , feu Creador , íeu Salvador , feu úni-
co e verdadeiro bem. Ou vivamos ou morra-
mos ( diz o Apoftolo ) (i) fe fomos de Deos ,
quem nos apartará do amor e caridade de
Deos? Nada por certo nos feparará deite amor :
nem a tribulação , nem a anguftia , nem a
morte , nem a vida , nem a dor prefente ,
nem o temor dos accidenres futuros , nem as
artes dos efpi ritos malignos , nem a altura das
confolaçócs , nem a profundeza das affliçóes,
nem
(0 Rom. 14. v. 8. Slve vlvimus ,Jtvc morimur ,
domhú famas , &c.
a5 Vida devota. 343
nem a ternura nem a feciira , nos deve já mais
feparar deita fama caridade , que eftá fundada
emjefu Chrifto.
Efta refoiuçaõ abfoluta de nunca mais dei-
xar a Deos , nem apartar-nos de feu fuave
amor , ferve de contrapezo a nolTas almas ,
para as confervar em igualdade , entre a defi-
gualdade dos vários movimentos que a condi-
ção deita vida nos acarrea : porque aflim co-
mo as abelhas vendo-fe no campo combatidas
do vento , tomaó humas pedrinhas para fe po-
derem fofter no ar , e naó ferem taó facilmen-
te levadas da força da tempeftade ; aííim a
noíTa alma , tendo abraçado vigorofamente a
refoluçaó , de fe dar ao preciofo amor de feu
Deos , permanece conftante no meio da in-
conftancía e alternativa , das confolaçóes e af-
rlicçóes , tanto efpirituaes como temporaes ,
exteriores como imeriores.
Mas alem defta doutrina geral , temos nc-
eeflidade de alguns documentos particulares.
Digo pois , que a devoção naó confifte na
doçura íuavidade confolaçaó e ternura fenfi-
vel do coração , que nos provoca a lagrimas
e fufpiros , e nos caufa huma certa fatisfaçaõ
agradável e goftofa , em alguns exercícios ef-
pirituaes: Naó, cariflima Philotea , a devo-
ção e ifto naó faó a mefma coifa ; porque
ha muitas almas , que tem eftas ternuras e
confolaçóes , que nem por ilTo deixaó de fer
muito viciofas ; e por confeguinte naó tem
verdadeiro amor de Deos , e muito menos al-
guma verdadeira devoção. Saul perfeguindo
de morte a David , que tinha fugido dellc
pa-
344 Introducçao
para o defeito (i) de Engade , entrou fó em
huma cova , onde David com os feus efhva
efcondido : David que nefta ocafiaó teve mui-
ta commodidade de o marar , lhe concedeo a
vida , naó queiendo nem fequer afufta-Io :
mas deixando o fahir á fua vontade , o cha-
mou depois para lhe moílrar a fua innocen-
cia , e o fazer fabedor , de como o tivera em
feu poder. E que naó fez Saul neíte paííò ,
para teltimunhar , ,que o feu coração eftava
compadecido de David ? Chamou-lne feu fi-
lho , poz-fe a chorar em alto pranto , a lou-
va-lo , a confeííar a fua benignidade , a rogar
a Deos por elle , a pronoíticar a fua fur.ira
grandeza , e encomendar-lhe feus ãeicenden-
tes , para depois de lua mete. Que maior
fuavidade e ternura de coração podia elle mof-
trar í e fem embargo de tudo ifto , naó mu-
dou de animo , nem deixou de continuar em
perfeguir a David taõ cruelmente como dan-
tes. Por eíte modo fe achac peiíoas , que con-
fidarando a bondade de Deos , e a Paixaõ do
Salvador, fenrem grandes ternuras de cora-
ção, que lhe fazem exbalar fufpiros, e la-
grimas, orações e acções de graças mui íeníl-
veis , em forma que diríamos , terem o cora-
ção poíTuido de huma grande devoção : mas
quando vimos á prova , adiamos , que aííira
como as chuvas de pafTagem , de hum Veraõ
mui cálido , -vali indo de pancada iobre a ter-
ra , a naó peneuaó , nem fervem lenaó para
criar
CO *< Re?. 24. v. 4.
a5 Vida devota. 345*
criar cucumelos ; aííim as lagrimas e ternuras
cahindo fobre hum coração viciofo , e naó o
penetrando , lhe faõ totalmente inúteis ; por-
que com tudo ifto eit.cs m-ieraveis naó lar-
garão hum real do mal adquirido que pof-
íuem , nem renunciarão hum íó de léus per-
vertas affe&os , nem quererão ter a menor
defcoTimodidade do mundo , por ferviço do
Senhor, por quem chorarão : de forte , que
os bons movimentos que tem tido , naó faó
mais que huns certos cucumelos efpiruuaes ,
que naó fó naó íaó verdadeira devoção , mas
mui de ordinário grandes aftucias do inimi-
ga, que entertendo as almas com eílas peque-
nas confolaçóes , faz que fiquem comentes e
fatisfeitas delias ; e que naó bufquem a verda-
deira e íolida devoção, que conílíie em hu-
ma vontade conílante refolura prompra e erTi-
caz , de executar o que íabe ler do agrado de
Deos.
Huma criança entra em pranto desfeito ,
vendo ferir a fua mái com a lancera , quando
2 fangraó : mas fe ao melmo tempo a mái por
quem chora , lhe pede huma maçã , ou pa-
pel de confeitos que tem na maó , de nenhu-
ma forte os quer largar. Taes faó a maior par-
te das ternuras das noíTas devoções : vendo
dar hum golpe de lança , que trefpafía o co-
ração de Jefu Chriilo crucificado , choramos
ternamente. Ah Philotea ! jufto he chorar a
morte e Paixaó dolorofa de noíTò Pai e Re-
demptor ; mas porque lhe naó damos nos com
boa vontade a maçã que temos nas máes , e
que nos pede inilantemente í A laber o noiío
co-
346 Introducçao
coração , única maça de amor , que efte ama-
do Salvador requer de nós. Porque lhe naó
refignamos tantos miúdos afFeclos deleitações
complacências , que nos quer tirar das máos ,
e naó pode ; porque eftes faó os noíTos con-
feitos , de que fomos mais golofos , do que
defejofos da lua celeítial graça. Ah , que ifto
faó amizades de crianças , ternas , mas fra-
cas , fantafticas , e fem eíFeito ! A devoção
pois naó confifte neftas ternuras e fenfiveis af-
feftos , que ás vezes procedem do natural íer
mui brando , e mui acomodado a receber a
impreíTaó que fe lhe quer dar : e outras vezes
provém do inimigo , que para nos engodar
com ellas , excita na noffa imaginação a apre-
henfaó proporcionada a femelhantes effeitos.
Ifto naó obftante , eftas ternura*; e affe-
ftuofas fuavidades , faó algumas vezes bonilíi-
mas e de utilidade; porque exciraó o apetite
da alma , confortaó o efpirito , e ajuntaõ á
prompridaó da devoção hum famo regozijo e
alegria , que faz as nolTas acções fermofas e
agradáveis , ainda no exterior. Efte he o gofto
que fe tem das coifas divinas , pelo qual ex-
clama David : Oh Senhor , quão doces fao -vof-
fas palavras ao meu paladar ! mais doces fao
que o mel para a minha boca (r) . E na ver-
dade a mais pequena confolaçaó da devo-
ção que recebemos , vale mais de qualquer
modo , que as mais excelentes recreações do
mun-
(1) Piai. 118. v. 10$. Quam dalcia faucibus miis
loauia í ua t jupcr mel orí meo I
a5 Vida devota. 347
mundo. Os peitos e o leite , ifto he , os favo-
res do divino Efpofo , faó melhores á alma ,
que o mais generofo vinho dos prazeres da
terra : quem os tem provado , rodas as de mais
confolaçóes tem por fel e abímtio. E aílim
como os que tem a erva fcythica na boca , re-
cebem huma taó extremou fuavidade , que
naó Tentem fome nem íêde : aiíim aquelles a
quem Deos tem dado efte maná celeftial de
íuavidades e confolaçóes interiores , naó po-
dem delejar nem receber as confolaçóes do
mundo , e muito menos deleitar-fe e inrluir-fe
nos aíTe&os delias. Saó eftas humas pequenas
antecedencias das fuavidades immonaes , que
Deos concede ás almas que o bufcaó : eftes
faó os confeitos, que dá a feus filhinhos pa-
ra os engodar : eftes as aguas cordiaes , que
lhes oíferece para os confortar : e também ás
vezes faó penhores dos prémios erernos. Diz-
fe que Alexandre Magno navegando pelo mar
alto , fora o primeiro que defcobrira a Arábia
Feliz peio olfato dos fuaves cheiros que o
vento lhe trazia ; por efta caufa cobrara ani-
mo , e o dera a todos feus companheiros :
a-Iim nós recebemos muitas vezes doçuras e
íuavidades nefte mar da vida mortal , as quaes
fem duvida nos fazem prefentir as delicias da-
quella pátria celeftial , para onde caminha-
mos e afpiramos.
Mas ( dirme-heis vós ) fuppofto haver
confolaçóes fenfiveis , que faó boas e vem de
Deos , e eme também as ha inúteis e perigo-
fas , e ainda prejudiciaes , que provem da na-
tureza , ou ainda do inimigo : como poderei
eu
348 Introducçào
-eu difcernir humas das outras , e conhecer as
más ou inúteis entre as boas^ He doutrina ge-
ral , cariilima Philotea , acerca dos affe&os e
paixões da noiTa alma , que os devemos co-
nhecer pelos Teus fru&os : os corações faõ as
arvores , os affeílos e paixões faõ (eus ramos ,
e as obras ou acções faõ os frufros. O cora-
ção bom he o que tem bons aífe&os , e os
affe&os e paixões boas , os que produzem
bons effeiros e acções fantas. Se as fuavidades
ternuras e confolaçóes nos fazem mais humil-
des iofredores tratáveis caritativos e compade-
cidos do próximo, mais fervorofos em morti-
ficar noiTas concupifcencias e más inclinações,
mais confiantes em noíTos exercícios , mais
maneiros e fujeitos aquelles a quem devemos
obedecer , mais íinceros na noiTa vida ; fem
duvida , Philotea , que elias faõ de Deos : mas
fe as fuavidades fó tem fuavidade para nós ,
íe nos fazem curioíos aíperos picados impaci-
entes teimolos feros prefumptuofos duros pa-
ra com o próximo ; e cuidando que já fomos
huns fantinhos , nos naó queremos fujeitar
mais â direcção, nem á correcção , indubita-
velmente faõ as confolaçóes falfas e pernicio-
fas. A arvore boa naó produz fenaó bons fru-
ãàs.
Quando tivermos deitas doçuras e confola-
çóes , devemos humilhar-nos muiio diante de
Deos : lívrqrçio-nos muito de dizer por cau-
fa deftas doçuras; oh que bom fou ! Naó,
Philotea , naó faé eítes os bens , que nos tor-
naõ melhores ; porque como tenho dito , naó
conílíte niilo a devoção: antes digamos , oh
que
a' Vida devoti. 349
que bom he Deos , para os que nelle efpe-
raó , e para a alma que o bufca 1 Quem rem
aííucar na boca , naó pôde dizer , que a fua
boca he doce , mas fim que o aííucar he do-
ce : do mefmo modo , ainda que efta doçura
efpiritual feja boa , e Deos que a dá boniííimo,
naó fe legue , que he bom quem a recebe.
Conheçamos que ainda fomos meninos pe-
quenos , que neceílitamos de leite , e que eí-
tes confeitos fe nos daõ , porque ainda temos
o efpirito tenro e delicado , e neceUita de en-
godos e atractivos , para fer atrahido ao amor
de Deos.
Mas depois difto , geralmente falando e
de ordinário , recebamos humildemente eftas
graças e favores , e eftimemo-las por fumma-
meme grandes ; naó tanto pelo que faó em fi
mefmas , mas por fer a maó de Deos quem
no-las põem no coração. Como faria huma
mái , que para acariciar feu filho , lhe meteí-
íe ella mefmo os confeitos na boca a hum e
hum ; porque fe o menino tivetTe juizo , efti-
maria mais a doçura do regalo e caricia , que
a mefma doçura dos confeitos. E aiiim , Phi-
lotea , muito he ter eftas doçuras , mas a do-
çura das doçuras he confiderar , que Deos
com lua maó amorofa e maternal , no-las me-
te na boca , no coração , na alma , e no ef-
pirito.
Tendo-as aílim recebido humildemente ,
empreguemo-las com cuidado , conforme a
intenção de quem no-las dá. Porque cuidamos
nós que Deos nos dá eftas fuavidades í Para
fazer-nos fuaves com todos , e amorofos para
cora
35"o Introducçao
com elle. A mái dá os confeitos ao menino ,
para que elle a beije : beijemos pois a elte
Salvador, que tantas fuavidades nos dá. Bei-
jar ao Salvador he obedecer-lhe , guardar Teus
Mandamentos , executar fua vontade , feguir
os feus defejos , em fim abraça-lo ternamente
com obediência e fidelidade. Quando pois ti-
vermos recebido alguma coníblaçaó efpiritual,
devemos neffe dia ler mais diligentes em obrar
bem e humilhar-nos.
Convém alem de tudo ifto , renunciar de
tempos a tempos eftas doçuras ternuras e
confolaçóes , apartando o nofíb coração del-
ias : proteftando , que ainda que as aceitamos
humildemente e as amamos porque Deos no-
las envia , e ellas nos convidaó ao feu amor ,
com tudo naó faõ ellas o que bufcamos , mas
Deos e feu fanto amor : naó a coníblaçaó ,
mas o coníblador ; naó a doçura , mas o doce
Salvador ; naó a ternura , mas aquelle que he
a fuavidade do Ceo e da terra. Com efte afFe-
&o nos devemos difpôr a perílftir-mos firmes
no fanto amor de Deos , ainda que em noiTi
vida nunca mais recebamos confoiaçaó algu-
ma : e a querer-mos dizer aííim fobre o mon-
te Calvário , como fobre o Thabor : Oh Se-
nhor (i) ! bom he para mim eítor comvofco ,
ou vós eftejais na Cruz , ou na Gloria.
Finalmente vos advirto , que fe vos vier
alguma abundância notável de femelhante
con-
(0 Alatlh. 17. v. 4. Demsne , bgnum eji ms hic
a' Vtda devota. 35T
confolações ternuras lagrimas e doçuras , ou
nellas alguma coifa extraordinária , o comu-
niqueis fielmente ao voíTo Conteílor ; para fa-
berdes como vos deveis moderar e portar. Pois
efctiro eftá : Achafies o mel i comei o quedos
bajie. (1)
CAPITULO XIV.
Das fecuras , e ejlerilidadti efpirituaes.
OBrareis pois como vos acabo de dizer , ca-
níhma Philotea , quando tiverdes confo-
lações , mas efte belo e agradável tempo naõ
durará fempre , antes fuecederá algumas ve-
zes ferdes de tal forte privada e deftituida do
fentimento de devoção , que já vos parecerá ,
fer a votTa alma huma terra deferta infru&uo-
ía e efteril , na qual naõ ha vereda nem ca-
minho para achar a Deos ; nem agua alguma
de graça , que a poíTa regar , por cauía das
fecuras , que parece a tem tornado inculta.
Oh que digna de compaixão he a alma , que
íe acha neíle eftado ! principalmente quando
efte mal he vehemente ; porque entaó á imi-
tação (2) de David , fe íuftenta de lagrimas
dia e noite , em quanto com mil fugeftóes , o
ini-
(0 Provcrb. *$. y. 16. Mil invcmfti 0 comede quod
fvjicit tibi.
(O Pfalrn. 4, y« 4. Fmritnt mlii iaenms mtd }*•
%u di$ êê w#<.
3$z Introducçaó
inimigo para a defefperar zomba delia , di-
zendo lhe : Ah pobre ! onde eftá o leu Deos i
por onde o poderás achar i quem te poderá
nunca reftiruír a alegria da Tua divina graça í
Que fareis pois neíle rempo , Philotea ?
Vede donde vos vem o mal. Ordinariamente
nós melmos fomos a caufa de noíTàs eíterilida-
des e fecuras.
Aiíim como a msi recufa dar aíTucar ao fi-
lho , por fer atreiro a criar bichos , aíiím
Deos nos priva das confolaçóes , quando to-
mamos delias alguma vá complacência , e fo-
mos fujeiros aos bichos do defcuido. Bom he
para mim , Deos meu , que vós me humi-
lheis , porque antes que foíTe humilhado, vos
tinha ofendido.
Quando fomos negligentes em recolher as
fnavidades e delicias io amor de Deos , entaõ
he o tempo em que eJle as aparta de nós , em
pena da noíTa preguiça. O (i) Ifraelita que
naó colhia o maná muiro de madrugada , naõ
q podia fazer depois já Sol fora , por eftar en-
tão rodo desfeito.
Efbmos ás vezes deitados em huma cama
de contentamentos fenfp.ies e confolaçóes ca-
ducas , como eítava a L7fpofa fanta dos Canta-
res : o (2) Efpofo de nofías almas bate á por-
ta de noito coração , infpira-nos que torne-
mos a nolTos exercícios efpnituaes j mas nós
regateamos com elle 3 fentindo haver de dei-
xar
(1) Èxoà. 16. v. 2.
(2) Cant. 5. v. 3.
a5 Vida devota. 35*5
xar eftes váos divertimentos , e feparar-nos dos
falfos contentamentos : e por ilTo paíía adian-
te e nos deixa jazer : e depois quando o que-
remos bufear , naó temos pequeno trabalho
em acha-lo. Bem o merecemos aííim , pois
fomos raô infiéis e desleaes a feu amor , que
rejeitámos erte exercício por feguir o das coi-
fas do mundo. Ah ! que fe vos naó ha de dac
maná do Ceo , pois tendes ainda da farinha
do Egypto. As abelhas aborrecem todos os
cheiros artificiaes; e as fuavidades do Efpirico
Santo faó incompatíveis com as delicias en§a-,
nofas do mundo.
A dobrez e refolho de animo , praticada
nas confifsóes e conferencias efpirituaes que fe
fazem com o ConfeíTor 3 daó caufa a fecuras
e efterilidades ; porque como mentis ao Efpi-
rito Saruo 5 naó he de maravilhar , que elle
vos ne^ue a fua confolaçaó : naó quereis fer
fb.gela e cândida como hum menino í pois
naó tereis os confeitos dos meninos pequenos.
Como vos tendes fartado bem das confola-
ções mundanas , naó he para eílranhar que as
delicias efpirituaes vos enfaftiem. As pombas
já fartas , diz o antigo Provérbio , achaó amar-
gofas as cerejas: Èncheo de bens , diz NolTa
Senhora , os famintos , e aos ricos deixou ~j.í-
2Jos (1) . Os ricos dos prazeres mundanos naó
faó capazes dos efpirituaes.
Se confervardes bem os fruclos das confo-
Z la-
(l) Lues I. v. jj. Efuricnies implcjit banis i •"
dmtCf dimif.t Inanes.
3?4 Introducçaó
laçóes recebidas y recebereis outras de" novo;
Porque ao que tem , fe lhe dará mais : e
aquelie que naõ tem o que fe lhe deu , mas o
perdeo por fua culpa , tirarfe-lhe-ha aquillo
mefmo que naõ tem : a faber , priva-lo-haõ
das graças , que lhe eftavaó preparadas. Ver-
dade he que a chuva vivifica' as plantas que
tem verdura , mas ás que eftaó fem ella , lhes
tira ainda aquella mefma que tem , porque
apodrecem de todo. Por muitas deitas cauías
perdemos nós as coníblações e devoções, e
cahimos em fecura e eíteriiidade efpiritual.
Examinemos pois a noíTa conciencia , por ver
fe achamos em nós alguns defeitos femelhan-
tes. Mas adverti , Philotea , que naõ convém
fazer eíle exame com defaííocego e demaílada
curiofidade 3 mas depois de ter fielmente con-
fiderado como nos portámos nifto , fe achar-
mos em nós a caufa do mal , devemos dar
graças a Deos ; porque defcuberra a caufa ,
eítá curada ametade da doença. Se pelo con-
trario , naõ virdes nada ern particular , que
vos pareça ter dado caufa a efta fecura , naõ
vos detenhais em mais curiofa inquirição ;
mas com toda a fingeleza , fem examinar mais
particularidade alguma y fazei o que vos vou
a dizer.
Humiihai-vcs fummamente diante de Deos^
no conhecimento do voíTo nada e miferia. Ai*
de mim ! que he o que fou í naõ outra coifa y
Senhor , fenaõ huma terra feca , que gretan-
do por toda a parte , moftra a kde que tem
da chuva do Ceo 3 e entre tanto o vento a.
ciílipa e redus empe.
li*
a5 Vida devota; 35^
Invocai a Deos e pedi-lhe a fua alegria :
Concedei-me Senhor a alegria da wo/fa fin-
de (1) . Pai meu , fe be poffrvel , paJTe de mim
ejie cali\ (2). Vai-te daqui ò vicio infruíiire-
ro , que deiíccas a minha alma , e vem ò ven-
to agradável das confolaçóes , e íbpra no
meu jardim , e os Teus bons arredios eipalha-
iáó cheiro da fuavidade.
Bufcai o voíTo ConreiTor , moftrai-lhe bem
o voíTo coração , procurai que veja bem to-
das as dobrezes da voíTa alma , aceitai os avi-
fos que vos der com grande fingeleza e humil-
dade. Porque como Deos ama infinito a obe-
diência , torna ordinariamente úteis os confe-
lhos que fe tomaó de outrem , principalmen-
te dos DireSores de almas , ainda que por ou-
tra parte naó pareçaó de proveito : aflim co-
mo íbraõ faudaveis a Naamam as agoas do
Jordaõ , das quaes Elifeo lhe mandou ufaile ,
íem alguma aparência de razaõ humana.
Mas depois de tudo ifto , naó ha coifa taõ
«til nem de tanto fru&o em ícmeihanres fecu-
ras e efterilidades , como naó nos aíFeiçoar-
inos , nem nos afrerrar-mos ao defejo de fer
livres delias. Naó digo , que naó devemos ter
alguns fimples defejos de livrar-nos , digo fim
que naó devemos affeiçoar-nos a ilío , mas re-
íignar-nos na mera difpoíiçaó da efpecial-pro-'
vidência de Deos , para que em quanto. 'for do
Z ii ^ leu
* ■
(1) Pfalm. 50. v. 14. Rcddc mihi léttitiam fahttarls
iui.
(2) Matth. 26. v. 39. P«ter ml , fi foJ/ibiU e$
Iranftat a me culkc ijh.
35^ Introducçaô
feu agrado , fe íirva de nós , no meio dos ef-
pinhos , e por meio deães defejos Digamos
pois a Deos neíte tempo : Pai , fe be pojfwel ,
paJTai de mim efe cali\ò mas acreceniai com
grande valor : Com tudo nao fe faça a minha,
vontade , mas a *vo§a : e paremos niílo com
o maior deícanço cjue pudermos ; porque ven-
do-nos Dées nefta fanta indiferença , nos con-
folará com muitas graças e favores ; como
quando vio a Abraham refoluto a privar-fe de-
feu filho Ifaac , fe fatisfez de o ver indiferen-
te nefta mera refignaçaó , e o confolou cem
hum a vifaó deliciofifíima , e com fuaviílimas
bênçãos. Por tanro devemos em todo o géne-
ro de afrlicçóes , aílim corperses como eípi-
rituaes , e nas diftracções ou fubítr*cçóes da
devoção fenfivel que nos acontecerem , dizer
de todo o ncílo coração , e com huma fub-
miíTaõ profunda: O Senhor me deu as confola-
çoes , o Senhor mas tircu ; bemdito feja o feu
janto Nome (i). Porque perfeveiando nefta
humildade , nos concederá feus celiciofos fa-
vores , como fez a Job , que conftantemente
tifava de femelhantes palavras em todas fuás
defconfolaçóes.
Finalmente, Philotea , no meio de todas
as ndíTas fecuras e eílerilidades , naõ perca-
mos o animo y mas efperemos com paciência,
que tomem as confolaçóes: flgamos fempre a
noíía derrota, naó deixando'por ifto exercí-
cio
: (0 Job. i. v. 2i. Vominus èeiH , Vwinus ab/lif*
IH . . . Jlt \umcn Domlgi fançfiftum*
a5 Vida devota. 357
cio algum de devoção , antes fe for poffivel ,
multipliquemos no. las boas obras : e fe nao
podermos o Merecer ao nono Efpoío doces lí-
quidos , oííereçamos-lhos fecos ; porque tudo
vale o meímo , com tanto que o coráçaõ que
lhos oíferece , eíleja perfeitamente refolvido a
querer ama-lo. Quando a Primavera he fer-
mofa , as abelhas fazem mais mel e criaó me-
nos fi'hos ; porque com o favor do bom tem-
po , fe embebem tanto em fazer a fua colhei-
ta nas flores , que fe efquecem da fua produc-
çaó : mas quando a Primavera he afpera e nu-
blada , entaó produzem mais crias e menos
mel ; porque naó podendo fahir para colhe-
rem o mel , fe ocupaó em propagar a fua ef-
pecie. Succede muitas vezes , minha Philotea,
que a alma vendo-fe na fermofa primavera
cie confolações efpirituaes, fe emprega tanto
em colhe-las e gofta-las , que na abundância
deílas doces delicias faz muito menos obras
boas i quando pelo contrario, entre as afpe-
rezas e efteril idades efpirituaes , à medida
que fe vò privada dos fentimentos agradáveis
de devoção , multiplica tanto mais obras foli-
das , e abunda de producçaõ interior de ver-
dadeiras virtudes , de paciência , humildade ,
abjecção de fi mefma , refignaçaó e abnegação
do feu amor próprio.
Efte he hum grande abufo de muitos , íi-
naladamente de mulheres , entender , que o
ferviço que fazemos a Deos fem gofto , fem
ternura de coração , e fem afiei: o , he me-
nos agndavel á Mageftade Divina* : antes pe-
lo contrario 3 as noiías acções faõ como as ro-
ías ,
35*3 IntroducçaS
ias , as quaes ainda que frefcas , tem mais
graça ; corn tudo eftando fecas tem mais chei-
10 , e efhcacia. Do meímo modo , pofto que
as nofías obras, feitas com ternura de coração
nos fejaõ mais agradáveis: digo anos, que
nsó atendemos fenaõ ao nollo próprio delei-
te ; he ceno que fendo feitas em fecura e efte-
lilidade , tem mais cheiro e valot diante de
Deos. Sim , cariflima Philotea , em tempo de
fecura , a noíTa vontade nos leva ao ferviço
de Deos como â viva força , e por confeguin-
te , deve fer mais vigorofa e confiante , que
no tempo da ternura. Naõ he tanto de eili-
mar , fervir a hum Príncipe na fuavidade de
hum tempo pacifico entre as delicias da Cor-
te : mas fervi-lo no aperto da guerra , entre
as revoltas e infeílaçóes , he hum verdadeiro
final de conftancia e fidelidade. A B.Angela
de Fulgino diz , que a oraçaõ mais agradá-
vel a Deos he aquella 9 que fe faz por força
e confrangida ; iíto he aquella a que vamos ,
naó por gofto algum que nella tenhamos ,
nem por inclinação , mas puramente por
agradar a Deos , a que a noíTa vontade nos
leva como contrafeitos , forçando e violen-
tando as fecuras e repugnancias , que a iílo
fe oppoem. O mefmo digo de toda a cafta de
Boas obras ; porque quanto mais contradições
temos , fejaõ exteriores ou interiores , mais
cílimadas e prezadas faõ para com Deos.
Quanto menos de noílo intereíTe particular
houver em confeguir as virtudes , tanto mais
aqui reluzirá a pureza áo amor divino. O me-
nino beija facilmente a rnáia guando lhe dà
A5 V I D A D E V O T A. 3$^
éoce , mas o íinai de que a ama multo , he
beija-la depois de lhe ter dado abíimio ou azi-
Lar.
CAPITULO XV.
Conjirma-fe e illuftra-fe o que cftã dito com
bum exemplo notável.
MAs para fazer roda efla inftrucçaõ mais
evidente, quero enxerir aquihuma ex-
celente paflagem da Hiftoria Eccleílaftica de
S. Bernardo ,como a achei em hum douto e ju-
diciofo Efcritor. Diz pois aílim : He coifa ordi-
nária em quafi todos os que começaõ a fervi c
a Deos , e que ainda naõ eilaó experimenta-
dos em íubítracções da divina graça , nem nas
alternativas efpirituaes ; que em lhe vindo a
faltar eíte gofto da devoção fenfivel , e eíta
agradável luz que os convida a aprefTar-fe no
caminho de Deos , perdem totalmente o ani-
mo , e cahem em pufilanimidade e triíteza de
coração. As pefíbas bem entendidas daó eíta
razaõ : que a natureza racional naó pode por
muito tempo permanecer faminta , e fem al-
guma deleitação celeítial ou terrena : como
pois as almas remontadas fobre fi mefmas ,
com a experiência dos prazeres fuperiorcs ,
facilmente renunciaó os objeftos vifiveís ; aílim.
também quando por difpoíiçaõ divina , lhe
he tirada a alegria efpi ritual , achanJo-fe por
outra parte privadas de confolaçóes corporaes,
Ç naó eftando ainda coftumadas a efperar com
3fo Introducçao
paciência que rorne o verdadeiro Sol , lhes*
parece que naõ eftaõ nem no Ceo nem na ter-
ra , e que eftaõ fepultadas em huma noite per-
petua : e à maneira de crianças que fe defma-
tnaô , tendo perdido o peito , enfermaõ e ge-
mem , e íe fazem enfadonhas e importunas ,
principalmente a íi mefmas. Ifto pois de que
falamos , fuccedeo indo em jornada a hum
òà comitiva chamado Gofredo de Perrone ,
novameme òzdicado ao ferviço de Deos. Efte
achando-íe repentinamente com fecura e def-
tituido de confoiaçaó , e ocupado de trevas
interiores , entrou a lemhrar-le de feus ami-
gos mundanos . dos parentes , das poíles que
acabava de deixar , e entre tanto o acometeo
huma taõ brava rentaçaó , que naó a poden-
do encobrir no femblante , a entendeo hum
dos feus mais confidentes : e chegando-fe deí-
tramente a elle com doces palavras lhe diííe
em fegredo : que quer iiTo dizer Gofredo ?
porque caufa contra o teu coílume , eftás pen-
fativo e afrli&o ? Refpondeo Gofredo com
hum profundo fufpiro : Ai , irmaó meu, nun-
ca já mais em minha vida c-ftarei alegre. Mo-
vido o amigo a compaixão com efías pala-
vras, com hum zelo fraternal foi logo contar
tudo ifto ao commum Pai S. Bernardo , o
cjual vendo o perigo entrou em huma Igreja
próxima, a rogar a Deos por elle: e Gofre-
do neíte tempo oprimido da írifteza , encoí-
tando a cabeça fobre huma pedra adormeceo.
Mas depois de hum breve efpaço fe levanta-
rão , hum da oraçaó com a graça confegui-
Ú23 e ourrç do íomno com o femblante âfonho
I
A5 Vida devota. 361
€ fereno : de modo que feu amigo admirado
de taó grande e repentina mudança , íe naõ
pode conter de o reprehender amigavelmen-
te , do que anres lhe tinha refpondido. Emaõ
lhe tornou Gofredo : Te antes vos diíTe 3 que
já mais citaria alegre , agora vos aíTeguro que
já mais eftarei trifte.
Efte foi o fuccello da tentação deite devo-
to perfonagem : mas notai nelle , Philorea.
Que Deos concede ordinariamente aos que
entraò no feu ferviço , algum gofto anticipa-
do , para os re:irar dos goftos terrenos , e os
animar á continuação do amor divino : como
a má! , que para engodar e atrahir feu filho ,
a que tome o peito , lhe põem mel no bico.
Que fem embargo difto , efte tom Deos
algumas vezes ( conforme fba fábia difpofi-
çaó ) nos tira o leite e mel das coníolacóes ,
para que defmamando-nos aííim , aprenda-
mos a comer o paó feco e mais folido de hu-
ma devoção vigorofa , exercitada á prova de
deígoftos e tentações.
Que ás vezes fe levantaó bem grandes ten-
tações , por meio das fecuras e efterilidades :
e entaó convém peleijar confiantemente com as
tentações , porque eftas naõ provem de Deos :
mas devem-fe fofrer com paciência as fecu-
ras 3 pois Deos as ordenou para noílb exercí-
cio.
Que nunca devemos perder o animo entre
os enfados interiores , nem dizer como o bom
Gofredo , já mais eftarei alegre ; porque no
meio da noite devemos efperar a luz : e reci-
procamente no mais alegre tempo do eípi ri ro
que
%6z Introdtjcçao
que podermos ter , naó devemos dizer : ja
mais eítarei trifte : porque como diz o Sábio :
Nos dias felizes lembra-te da defgraça (i) .
Hafe-de efperar no meio dos trabalhos , e te-
mer entre as profperidades: e tanto em hu-
ma como em outra ocaílaõ convém fempre
humilhar.
Que he hum remédio foberano , defco-
brir o próprio mal a algum amigo efpiritual ,
Cjue nos polia confolar.
Em fim por conclufaõ defta advertência
taó neceíTaria , noto , que niito como em tu-
do o nofíb bom Deos e o noíTo inimigo tem
contrarias pertenções ; porque Deos nos quec
conduzir por ellas a huma grande pureza de
coração , e a huma total renuncia do noíTo in-
tereífe próprio , no que he de feu ferviço , e
a hum perfeito deípir de nós mefmos : mas o
inimigo procura valer-fe deites trabalhos , pa-
ra nos fazer perder o animo, para que nos
voltemos para a parte dos prazeres íenfuaes ,
e em fim para nos fazer enfadonhos a nós mef-
mos e ao~ outros , a fim de defacreditar e in-
famar a fanta devoção. Porém fe obfervardes
os documentos que vos tenho dado , aumen-
tareis grandemente a volTa perfeição , no ex-
ercício que tiverdes entre eftas afrlicções in-
teriores , d3s quaes naó acabarei de falar , fem
vos dizer ainda huma palavra. Algumas vezes
os defgoílos eílerilidades e fecuras provém da
in-
(i) Ecclef. u. v. 27. In dk bcnerum nç Immemrt
Jíí maior um .
a5 Vida devota: 363
Indifpofiçaó do corpo : como quando pelo ex-
ce-To das vig;lias dos trabalhos dos jejuns , fe
acha oprimido de canfaço adoimecimemo e
pezo , e de outras femelhanres enfermidades ,
as quaes pofto que dependem do corpo , naõ
deixaó de incomodar o efpirito, pelo eftreito
nexo que tem entre íi. Em taes ocafiões deve-
mo-nos lembrar fempre , de fazer muitos a&os
de virtude , com a ponta do nofíb efpirito c
vontade fuperior ; porque ainda que pareça ,
que toda a noíTa alma dorme , e eflà oprimi-
da de modorra e canfaço ; nem por ifli as ac-
ções do noiTo efpirito deixaó de fer mui agra-
dáveis a Deos. E podemos neftc tempo dizer
como a Efpofa fanta : Eu durmo , mas o meu
coração ^Sigia (1) . E como diife acima , fe
ha menos gofto em trabalhar deita forte , tam-
bém ha mais merecimento e virtude : mas o
remédio neftas ocafiões , he fortalecer o cor-
po , com algum género de legitima recreação
e alivio. Pelo que S. Francifco ordenou a feus
Religiofos , que folTem moderados em feus
trabalhos de forte , que naò confumiíTem o
fervor do efpirito.
Alo propoílto , efte gloriofo Pai foi cer-
ta vez acometido e agitado de huma taó pro-
funda melancolia , que fe naò podia reprimir ,
fem a moftrar em fuás acções ; porque fe que-
ria converfar com os Religiofos , naõ podia :
íe fe retirava delles 3 achava-fe peior : a abíli-
nen-
(0 Cant. S, v. 2, Ego dormlo , & cor mcumvh
364 Introducçaõ
nencia e maceração da carne proítravaó-no 5
e a oração naó o aliviava nada. Dois annos
andou allim , de forte que lhe parecia eftar
defamparado de Deos : mas em rim depois de
haver humildemente fofrido efta bruta tem-
peftade , ihe reftituío o Senhor em hum mo-
mento huma feliz tranquilidade. Ifto he para
que fe veja , que os maiores fervos de Deos
eftaó luieitos a eftas fecuras , e que os meno-
res fe naó devem efpantar , quando lhe vie-
rem algumas.
JOÔOO
0 *£k &
\%W0&1
•A.
QUIN-
QUINTA PARTE,
QUE CONTEM OS EXERCÍCIOS
e di&ames para renovar a ahr,a , e a confirmar
na devoção.
CAPITULO I.
Qtte convém renovar todos os annos os bons
propofuos , com os exercidos fegtúntes.
O Primeiro ponto deft.es exercícios con-
ílfte , em reconhecer bem a fua im-
portância. A nolTa natureza humana
defcahe facilmente de feus bons afie-
mos , por caufa da fragilidade e má inclina-
ção da noíía carne , que oprime a alma e a
puxa fempre para baixo , fe ella fe naõ le-
vanta fempre ao alto , á viva força de refolu-
çaõ : aííim como os paíTaros cahem logo em
terra, fe naó multiplicaó os impulfos e bater
das azas , para continuarem o voo. Por cuja
caufa , Phiiotea carilíima , precifais de reite-
rar e repetir mui amiúdo os bens propeli es
que tendes feito de fervir a Deos : receando
oue pelo naó fazer alIim , venhais a defcahij
do volío primeiro eftado , ou ainda em outro
muito peior ; porque as quedas efpirituaes tem
jfcfta propriedade, que fempre nos precipitai?
ea>
366 IntroducçàÓ
em mais baixo eirado , do que eftavamos an-
tes de fubir ao alro da devoção. Nkõ ha reló-
gio , por bom que feja , que naõ neceííite de
que o armem e lhe dem corda duas vezes ao
dia , pela manha e á tarde : além difto , he
precifo que huma vez no anno fe defarmem
todas as peças , para ferem limpas da ferru-
gem que tiverem contraindo , e fe endireita-
rem as que eftiverem tortas , e fe reforçarem
as que eíliverem gaitas. Aílim aquelle que
verdadeiramente cuida do feu coração , deve
levanta-lo a Deos de manha e de tarde , com
os exercícios acima mencionados : e além dií-
to , deve confidetar muitas vezes o feu efta-
âo , endireita-lo e polo em ordem : e em fim
ao menos huma vez no anno , deve delcon-
certar e ver todas as peças , ifto he todos feus
affe&os e paixões , para remediar todos os de-
feitos que alli pode haver.
E aílim como o Relojoeiro unta com al-
gum oieo delicado, as rodas , rofcas e molas
do feu relógio , para que os movimentos fe
façaó mais docemente , e efteja menos fujei-
to á ferrugem : alíim a peíToa devota depois
de praticar eíte defmancho do próprio cora-
ção , para melhor o renovar , o deve untar
com os Sacramentos da ConéíTaõ e Eucarif-
tia : efte exercício refarei rá voíías forças aba-
tidas com o tempo , aquecerá o voílo cora-
ção , fará reverdecer voffos bons propoíltos , e
florecer as virtudes do voílo efpirito.
Os antigos Chrifláos aílim o praticavaòV
cuidadofamente , no dia anniverfario do Bap-
tifmo de NoíTo Senhor: no qual como diz
S,
a3 Vida devota." 367
5. -Gregório Bifpo deíNanzianzo , renovavaõ
a profiiíaó e protertaçaó que fe fazem nefte
Sacramento. Façamos nós o mefmo , cariííima
Philotea , (difpondo-nos e empregando-nos nií-
to s com toda a boa vontade e feriedade.
Havendo pois efcolhido tempo convenien-
te , fegundo o confelho de vofío Padre efpiri-
tual , e tendo-vos retirado hum pouco mais á
íolidaó efpirítual e real , fareis huma ou duas
ou três Meditações fobre os feguintes pontos,
fegundo o methodo que vos dei na Segunda
parte.
CAPITULO II.
Confideraçao fobre o beneficio que Deos 1109
b fA\* &* nos chamar a feuferwiço , fegun-
do a proteflaçao acima dita.
C^ Oníiderai os pontos da voíTa proteíhçaõ.'
j O primeiro he haver deixado rejeitado
deteftado e renunciado para fempre todo o
peccado mortal. O fegundo he ter dedicado e
confagrado voíTa alma , voíTo coração , voíTo
corpo com tudo o que difío depende 5 ao
amor e ferviço de Deos. O terceiro he , que
fe vos fueceder cahir em alguma acçaó má ,
vos levanteis logo mediante a graça de Deos.
Naõ íaõ fermofas fantas dignas e generoías
refcluções eítas ? Ponderai bem em v o (fa al-
ma, quaó fanta 5 racionavel e para defejar he
eíla proteílaçaõ.
Cgnilderai a quem fizeftes efta proteíla-
368 Introdttcçao.
çaõ , que foi a Deos. Se as palavras arrezoa-
das dadas aos homens nos obrigaó eftreitamen-
te , quanto mais as que ternos dado a Deos ?
Ah Senhor ! ( dizia David ) a <vós foi , a
quem o meu coração dijfe : Meu coração arro-
tou efia boa palavra y nunca já mais me efque~
cerei. (1)
Coníiderai em prefença de quem , porque
foi á vifta de toda a Corte celeftial : a Vir-
gem SantiiTIma , S. Jofeph , voíTo Anjo da
guarda, S.Luiz; toda efta bemdita compa-
nhia vos via , e refpirava fobre vós palavras
de alegria e confolaçaõ : vendo com olhos de
amor indizível , o voiTo coração proftrado aos
pés do Salvador , dedicando-fe a Ceu ferviço»
Houve difto particular alegria na Jerufelem
celeftial , e agora fe fará delia commemora-
çaó , fe de boa vontade renovardes as voíTas
leíoluçóes.
Coníiderai por que meios fizeftes a voíTa
proteftaçaõ : oh que doce e a/Favel foi Deos
comvoíco nefte tempo ! Mas dizei-me de ver-
dade , naõ foftes convidada com doces atracti-
vos do Eípirito Santo ? as cordas com que
Deos puxou vofía barquinha a efte porto fau-
davel , naõ foraõ de amor e caridade ? naõ
vos foi eile engodando com o aílucar divino ,
por meio dos Sacramentos, da liçaó , e da
oraçaõ ? Ah cariílima Philotea , vós dormíeis
c Deos vigiava íbbre vós , e penfamenteando
fo-
(1) Píahn. 44. v. 2. Eruttavi* cor miam vsrbttm
$011 um áico ego , &c.
a5 Vida devota. 369
fobre vós penfamemos de paz , meditava pai
Vós meditações de amor*
Confiderai em que tempo vo9 afrahlo Decrs
a eftas grandes refoluçóes 5 pois foi na flor da
voíTa idade í oh que felicidade ! aprender de
pretfa o que naó podemos faber fenaó miii tar*
de. Sanco Agoítinho, tendo fido a fua vocaçaá
aos trinta annos de idade ? exclamava : Oh
antiga fermofura quav tarde <vos conheci l eu
te <vi# , e naõ te confederava. E vós podereis
também dizer: oh doçura antiga , porque vos
naó tenho eu já goftado í Ah 3 que talvez naó
o tenhais merecido : e entre tanto agradecen*
do a mercê que vos fez de vos chamar na
VoíTa mocidade , dizei com David : Oh meti
Deos y vós tile alumiifles e tocajles defde a nd*
nht moddade , e para fcmpre anunciarei vof*
fa mifericordia (1) ■ & fe foi em voíTa velhi-
ce , Piíilotea , que grande graça 6 depois de
ter abufado dos primeiros annos , chamar-vos
Deos antes da morte; e fer elle quem dete-*
ve a corrente das voíías miferias , em tempo
que fe as continuaífeis , ferieis eternamente;
miferavel.
Confiderai os eífeitos deita vocação , e acha-
reis em vós , fegundo entendo , feliz mudan*
Ç3i , comparando o que éreis com o que foís*
Naõ tendes por grande felicidade faber faiar
com Deos por meio da oraçaó í ter aífe£lo a
«juerei ama-lo i ter atalhado e pacificada
Aa mui-
(0 Pfalm. 70. v. 17. Dcut éicuifii wc ajttvtrt*-
37° Introducçaó
muitas das paixões que vos perturbavaõ ?
ter evitado muitos peccados e enredos de con-
ciência i em fim , ter commungado com
tanta frequência , ( o que antes naó fazíeis )
tjnindo-vos a eíta bella fome de graças erer-
nas. Oh que grande., faó eílas mercês ! Con-
vém , minha Philotea , pcza^as com o pezo do
Santuário. A maó direita de Deos , foi a que
obrou tudo ifto (i,) : J mao de Deos ( diz Da-
vid ) obrou a wirtndi : a faa niao direita me
levantou. Oh que tiao morrerei ! mas viverei
t cantarei de coração com a boca e com as
obras , as maravilhas da fua bondade.
Depois de todas eftas confideraçóes , as
quaes como bem vedes, eítaó cheias de affe-
âos bons , deveis fmiplesmenre concluir , com
huma acçaõ de graças , e oração affe&uofa ,
de vos aproveitardes bem : retirando-vos com
grande humildade e confiança em Deos , re-
fervando fazer a inftancia deitas refoluçóes ,
para depois do fecundo ponto deite exercí-
cio.
CA-
(l) Pfalm. 117.V. 16. Dextera Domlni Jeelt vir*
lutem ; dextera Dornini exaltavit WC : non meriar jed
vivam t. O* narrabo opera Dooiiiri.
a3 Vida devotai ff%
CAPITULO III.
Do exame da nojja alma, y [obre o feu adianta*
mento na <vida devota.
"p? Ste fegundo ponto do exercício he hum
I2j pouco dilatado , e para o praricar vos di-
rei : que naó he precifo , que o façais todo
de hum ja&o , mas por varias vezes : como
tomando o que refpeita o modo de portar-vos
com Deos , por huma vez: por ou ra o que
pertence a vós mefma , de outra o concer*
nente ao próximo , e na quarta a confidera-
çaõ das paixões. Naó he neceiTario que façais
de joelhos , fenaó o principio e fim , qu»
comprehende os affeclos : os outros pontos do
exame os podereis fazer utilmente patTeando ,
e ainda com mais utilidade no leito, fepor
ventura aqui podeis eftar alçum tempo lem
fonolencia e bem dcfperta : mas para tt fazer
irto , he preciío tè-los lido bem ances. He com
tudo neceiTario , fazer todo o fecundo ponto ,
em três dias e dua; noites , quando muito \ to-
mando de cada dia e de cada noite alguma
hora , venho a dizer , algum tempo conforme
puderdes. Porque fe efte exercido fe fizer cm
tempos mui diítantes nuns dos outros ? perde-
rá a força , e caufará mui fraca imprelfao. De-
pois de cada ponto do exame , notareis em
que vos achais culpada , que defeitos tendes
e as principaes diftracçóes que tiverdes fenti*
do j para vos poderdes declarar , e tornar con,
A a ii fe-"
37* I NT RODUCÇAá
felho , e refoluçaõ e conforto efpititual. Pof-
to que neftes dias que praticardes efte exercí-
cio e os mais , naó feja abfolutamente necef-
fario retirar-vos de converfaçóes , com tudo ,
convém fazê-lo hum pouco , principalmente
junto da noite , para vos poderdes deirar a
boas horas , e tomar o defcanço de corpo e
efpirito neceííario á meditação- E entre dia
convém fazer frequentes afpiraçóes a Deos ,
a NoíTa Senhora , aos Anjos , a toda a Jeru-
íalem celeíHal : também he precifo , que tu-
do ifto fe execire com hum coração namora-
do de Deos, e da pei feição da voíTa alma.
Para bem. começardes pois eíle exame.
i Ponde-vos na prefença de Deos.
2 Invocai o Efpirito Santo , pedindo-lhe
luz e claridade , para vos poderdes bem co-
nhecer : coroo Santo Agoítinho , que clama-
va diante de Deos em efpirito de humildade :
Oh Senhor ! conheça- -vos eu a <vós , e conheça-
me A mim. E S. Francifco que perguntava a
Deos dizendo : Qjtem fois ^vós , e qmm [oh
eu l Proteílai que naó quereis conhecer o vof-
fo adiantamento , para vos comprazerem vós
mefma , mas para vos alegrar em Deos : nem
taò pouco para vos vágkmar , fenaó glorifi-
car a Deos e lhe dar graças.
Proteftai que , fe como- cuidais , achardes
ter aproveitado pouco , e ainda retrocedido ;
nem por ilTo quereis ficar abatida , nem enti-
l>iar-vos com género algum de defalento e
defeahimento de animo : anres pelo contrario ,
vos quereis animar e alentar mais , humilhar
e remediai os defeitos , mediante a graça de
Deos. £ ei-
a* Vida devota; 373
Feiro ifto , coníiderai com focego e tran-
quilidade , come aré á hora p relente , vos ten-
des portado com Deos , com o próximo , c
com vós mefma.
CAPITULO IV.
Exame do ejlado da nojja alma para com
JDcos.
1 Jn Orno eítá o voíTo coração contra o
V^/ peccido morcai í tend.s huma refolu-
çaó forre de nunca mais o comerer , por qual-
quer cafo que poíía fucceder : Durou vos etta
refoluçaó , deíae a volTa proteftaçaó acé o pre-
íente i Nefta refoluçaó confiíte o Lindamento
da vida efpirituai.
2 Que tal eítá o voffo coração para com
os Mandamenros de D^os i Achai-los bons ,
fuaves , agradáveis * Ah, filha minha , quem
tem o goíto em boa difpoíiçaó , e o eftoma-
go faó , apetece os bons manjares e rejeita os
mãos.
$ Como eítá o voffo coração a refpeito
òoi peccados veniaesí talvez vós naó fabereis
refguardar de cometer ora hum ora outro :
mas haverá alguns , a que tenhais efpecial in-
clinação , e o que fera peior , arTeclo e amor.
4 Como eítá o voffo coração com os exer-
cidos efpirituaes ? amai-los ? eílimai-los i en-
fattiaõ-vos? canfaó-vos ? a quaes fentis maior
ou menor inclinação? ao ouvir a palavra de
Deos 3 a lua liçaõ 3 a medua-la , a pratica-
la,
374 , Introducçaõ
Ia , a afpirar a Deos , a confeíTar-vos', a re-
ceber os a vi los efpirituaes , a preparar-vos a
Comunhão, a comungar, a reprimir os affe-
&os , e o que niílo houver , que repugne ao
voifo coração i L fe achardes alguma coifa , a
que efte coração Te incline menos , examinai
donde procede efte deígoíto , e qual feja a
ca ufa.
5 Como eftá o voíTo coração para com o
mefmo Deos : alegta-fe o voiio coração em
j~e lembrar de Deos ? fente nifto doçura agra*
davel i Ah que David dizia: Lembrei me de
Deos , e me deleitei. Experimentais em volío
coração huma facilidade em o amar , e hum
particular goíto de vos faborear nefte amor i
Jlecrea-íe o voíTb coração em cuidar na im-
menfidade de Deos , na fua bondade e doçu-
ra ? Se a lembrança de Deos vos vem no meio
das ocupações do mundo e fuás vaidades ,
dais-lhe por ventura lugar ? ocupa o votlo co-
ração ? parece-vos que o voíTo coração fe
põem da fua parte , e em certo modo a fahe
a receber ? Ha cerras almas que aííim faó.
6 Se algum homem cafado chega de lon-
ge , tanto que fua mulher o fente , e lhe ouve
a voz , ainda que efteja embaraçada com fuás
ocupações , ou detida com algum violento
cuidado, nem por iífo fica fulpenfo o feu co-
ração , mas abandonando outros cuidados , fó
cuida na vinda de feu marido. O mefmo íuc-
ceáe ás almas, que amaó muito a Deos, ain-
da que eítejaó embaraçadas , quando Deos
lhe vem a lembrança , perdem a atencaó a
ludo o mais, com o goíto que tem dever,
que
A5 V I D A DEVOTA. 37?
<j'»e lhe vem efla Tua ornada lembrança : e he
èfle Kum final f ummainente bom.
7 Como ertá o vo To coração para com
Jefu Chrifto Deos e homem ? Goftai* de eftar
com elle í As abelhas goiteó mui. o de andar
junto do ícu mel , e as vefpas perto dos mon-
turos: afíim as boas almas, rem o feu conte n-
tamenro junto de Jefu Chiiíto , e fentem fura-
ma rernura de amor com eile : mas as más ,
íe comprazem com a« fuás vaidades.
8 Qjial he o voífo coração para com Nof-
fa Senhora , os Sanros , c o voíío Anjo da
Guarda? amai-los muito? tendes huma efpe-
cial confiança na lua benevolência 3 gofUis
das fuás imagens , das fuás vidas , e dos feus
louvores ?
Quanto á vofTi língua , como falais de
Deos ? folgais de falar com acerto , fcgundo a
voíTa condição e futficiencia ? goftais de can-
tar os feus Cânticos ?
Quanto ás obra; , conílderai fe tendes o
coração na gioria exterior de Deos , e fazei
qualquer coifa para honra fua ; porque os que
amaó a Deos , amaó com David o decoro da
fua cafa.
Sabereis vós advertir , fe rendes deixado
algum aífeclo , e renunciado alguma coifa por
Deos ? porque he hora bom final de amor,
privar de alguma coifa cm cbfequio da peifoa
que lc ama. Que tendes pois deixado por amor
de Deos ?
CA-
376 IntroducçàS
sm
CAPITULO V.
Exame do %?ojfo cílado para com njòs mefma,
(7> Orno vos amais a vós mefma ? amais-vos
_> demafiado para efte mundo ? í"e aííim he
<Jefejarei> ficar íempre nelle , e cuidareis fum*
mamenre em vos eítabelecer neíta terra : mas
fé vos amais para o Ceo , defejareis , ou ao
rnenos vos conformareis facilmente em fahir
daqui na hora cjue Noífo Senhor quizer.
Guardais boa ordem no amor de vós mef»
ma? porque nada nos arruina tanto como o
#mor defordenado de nós mefmos. O amor
pois ordenado quer , que amemos mais a al-
ma que o corpo , que tenhamos mais cuida^
«lo de adquirir virtudes que qualquer outra
coifa : que tenhamos mais conta com a honra
ce'eítial , que com a terrena e caduca. O co-
ração bem ordenado , diz mais vezes comfi*
go : que diraó os Anjos fe eu cuidar nifto ou
jpaquilo ; do que , que diraò os homens í
Que amor tendes vós ao vo (To coração ?
*uíh vos fervi-lo em íuas moleftias ? Ah! e
quamo lhe deveis efte cuidado de o focorrer ,
>ç procurar que feja focorrido , quando as paU
xões o atormentaó , e para ifto deixar tudo o
mais.
Fm quanto vós efti mais , em comparação
<3e Deos 2 em nada certamente : ifto porém
riaó he grande humildade , que huma mofca
io IIH^g pçr min a íefyeko de huma monta-
nha 1
a* Vida devota. 377
nhã : nem huma pinga de agua em compara-
ção do mar : nem huma faiica de fogo a vifta
do Sol : a humildade coniilte em mó nos ef-
timarmos mais que os outros , e em naó que-
rermos fer mais eftimados dos ounos. Como
cftais vós nefta matéria ?
Quanto á língua, louvai«>vos por efte ou
aq'jelle modo ? liionjeais-vos quando falais de
vós ? °
Quanto as obras , tomais algum diverti-
mento contrario a voíla íaude ? quero dizer
díver.imento v-tò , inútil , demafiadas vigias
fem caufa , e outros femelhantes.
CAPITULO VI.
Exame do ejlado da no{f.i alma para com o
próximo,
DEve-fe amar muito o maiido e a mulher
com hum amor fu^ve e tranquilo , firme
e continuo , e ifto ha de fer em primeiro lu-
gar , porque Deos o manda e o quer. O mef-
mo digos dos filhos e parentes próximos , e
também dos amigos , cada hum íegundo a lua
ordem.
Mas falando em geral , como eítâ o vofTo
coração para com o próximo ? amai-lo mui
cordialmente , e por amor de Deos ? Para co-
nhecerdes ifto bem , deveis recordar-vos de cer-
tas peíTbas enfadonhas e defagradaveis ; por-
que com eftas he , que fe pratica o amor de
Deos para com o próximo : e muito mais
com
378 ÍNTRODUCqAo
com os que nos fazem algum mal ? por pala*
vra ou por obra. Examinai fe o voíío cotação
eltá largo para elles , ou fe tendes grande >
pugnancia em os amar.
Eílais prompta a murmurar do prcx;mo ,
principalmente dos que vos naó amaó ? fazeis
algum damno ao próximo , dire&a ou indire-
ctamente ? pouco difeurfo he precilo , para o
conhecerdes facilmence.
CAPITULO VIL
Exame fobre os affcâos da notfa alma.
DEmorei-me tanto nos pontos anteceden-
tes , em cujo exame conílfte o conheci-
menro do aproveitamento efpiritual , que re-
mos confeguido ; porque o exame dos pecca-
dos he para as Confifsóes daquelles , que naó
cuidaõ no feu adianiamenro.
Naó he pois necedario , que nos mortifi-
quemos , fobre cada hum deites artículos , mas
com toda a fuavidade coníideremos , em que
eftado fe acha o nofro coração , no que per-
tence a elies , defde a noíía refoluçaó : e que
faltas notáveis temos cometido.
Mas por abreviar : todo o exame fe ha
de reduzir ao conhecimento das próprias pai-
xões •• e fe nos cança coníidera-las taó miuda-
mente, como temos dito , poderemos exami-
nar quaes temos fido , e como nos temos por-
tado.
Em noíío amor , para com Deos, para
com
a> Vida devota. 379
com o próximo, para com nos mefmos.
1 Em noílb ódio , para com os peccados que
temos , e para com os peccados dos outros ;
porque devemos defejar , íejaó defterrados
rruns e ourros-
Em noíTos deíejos , no tocante as riquezas,
aos goftos , e ás honras.
Em o temor dos perigos de peccar , e das
perdas dos bens deite mundo : teme-fe ordina-
riamente muito huma deitas coifas , e a outra
muiro pouco.
Na efperança talvez demaíiadamente pof-
ta no mundo e nas creaturas , e mui pouco em
Deos , e nas coifas eternas.
Na triít-eza , fe he mui excefliva por coi-
fas vãs.
Na alegria , fe hc demaílada , e por coifas
indignas.
Que affe&os, em fim , tem embaraçado o
noílb coração, que paixões o dominaó , em
que principalmente fe rem diftrahido.
Porque pelas paixões da alma fe reconhe-
ce o feti eftado , tocando ora huma ora outra :
aílim como hum rangedor de viola belifcan-
ào todas as cordas , as que acha dillbnantes as
tempera , e levanta ou afrouxa : aííim nós de-
pois de ter tocado o amor , o ódio , o defejo ,
o temor , a efperança , a trifteza , e alegria de
noffa alma; fe as acharmos dilTonantes ao fom
que queremos tocar , que he a gloria de Deos,
bem podemos temperalas , mediante a fua gra-
ça , e os confelhos do noíTo Padre eípiritual.
CA-
380 Introdvcçaó
CAPITULO VIII.
Jffeâos que fe hao de praticar depois do
exame*
DEpois de ter fuavemente confiderado ca-
da ponto do exame , e vifto em qual
delles eftais , paliareis aos affe&os deite modo.
Dai graças a Deos , defTa pouca emenda ,
q e tiverdes achado na voílà vida depois da
volTa refoluçaó : e reconhecei que fó a fua mi-
fericordia a obrou cm vós , e por vós.
Humilhai-vos muito diante de Deos , re-
conhecendo , que fe vós naó (endès adiantado
muiro , foi por voíTa negligencia ; porque naó
correfpondeftes fiel , animoía e conftanrememe
ás infpiraçóes , luzes e impuiíos , que vos fb-
raó dados na oraçaó e fora delia.
Prometei louva-lo fempre , pelos auxílios
que vos concedeíTe , para vos tirar de volías
más inclinações > e trazer-vos a eíla pequena
emenda.
Pedi-lhe perdão da infidelidade e desleal-
dade , com que lhe tendes correfpondido.
Oíferecei-lhe o voíTo coração , para que
inteiramente fe fenhoree delle.
Suplicai-lhe , que vos faça totalmente
fiel.
Invocai os Santos , a Virgem Santifíima ,
o voíTo Anjo , o volio Patrono , S. Jofeph , e
aílim os demais.
CA-
a^ Vida devota. 3S1
CAPITULO IX.
Confederações próprias par* renovar osnojfos
bons propofitos.
DEpois de feito o exame , e ter conferido
bem com algum digno Dire&or , fobre
as falias e feus remédios , valervos-heis das
confiderações feguimes , fazendo huma cada.
dia , por modo de meditação , gaftando nifto.
o tempo da voiTa oraçaó : e fera ifto lempre
com o mefmo methodo ( quanto a prepara-
ção e affe&os) de que ufaftes nas meditações
da Primeira Parte : pondo-vos primeiro que
tudo em prefença de Deos , implorando a lua
graça para bem vos eftabelecer no feu íanto
amor e ferviço.
CAPITULO X.
Conftderaçao primeira , da excelência das nof-
fas almas.
COnííderai a excelência e nobreza da vof-
fa alma , dotada de hum entendimento ,
que conhece naõ íó todo efte mundo vifível ,
mas conhece também que ha Anjos, e o Ceo ,
que ha hum Deos foberaniííimo boniííimo e
inefável , que ha huma eternidade ; e além
difto conhece o que he precifo para viver bem
oeíte mundo vinvel 3 para fe ajuntar com os
An-
3 §2 iKTRODtfCÇAtí
Anjos nojCeo^ e gozar de Deos eternamente.
Tem mais a volTa alma huma vontade em
tudo nobre ,! a íjiial pode amar a Deos , e o
naó pôde aborrecer em fi mefmo . vede quaõ
generofo heo voffo coração : e aíiim como as
abelhas fe haó podem pôr em coi "a alguma
corrup a , mas fomente fe detém fobre as flo-
res 3 aífim o voffo coração fó pode ter defcan-
ço em Deos , e nenhuma creatura o pôde fa-
dar. Reprefenrai vivamente os mais prezados
e activos divertimentos , que em outro tempo
ocuparão o voíFo coração ; e julgai com ver-
dade , fe naó eftavaó cheios de defaffocego ,
molefto de penfamentos picantes , e cuidados
importunos ; no meio dos quaes era miferavei
o voffo pobre coração.
O noíTo coração quando corre após as crea-
turas , oh , e com que anciã naó vahe cuidan-
do em fartar os feus defejos ! mas ran o que
as alcança , reconhece a vaidade do feu inten-
to , e que nada o pôde contentar. Deos naõ
quer , que elle ache lugar algum , em que
poíTa defcançar : para que , como a (i) pom-
ba que fahio da Arca de Noé , volte ao feu
Deos , donde fahio. Oh quanca he a fermo-
fura natural do noífo coração ! pois por que o
havemos entreter contra íua vontade em íervi-
ço das creatnras?
Oh bella alma minha ( deveis vós dizer )
fe tu podes conhecer e querer a Deos , para
que te entreténs em coifas menores? podes
per-
CO Gen. S. v. 9,
a* Vida deyota. 383
pertender a eternidade , porque te entreténs
com momentos ? Eíle foi hum dos pezares (1)
do rilho pródigo, que podendo viver delicio^
famente á meza <íe leu Pai , comia vilmente
na dos brutos. Alma , tu es cap«z de Deos :
infeliz de ti, fe te contentas com menos que
Deos. Exaltai muito a voHa alma , com efta
confideraçaó , moftrai-lhe como he eterna e
digna da eternidade: infundi-lhe valor a eíle
propofito.
CAPITULO XI.
Segunda confideraçao da excelência das <w-
tudes.
COnfiderai , que fó as virtudes e a devo-
ção , podem fazer , que a voíTa alma efte-
ja contente nefte mundo. Vede como faó fer-
mofas : comparai as virtudes com os vícios ,
que lhe faó contrários: que fuavidade na pa-
ciência comparada com a vingança : na man-
fidaó , a refpeico da ira e trifteza : da humil-
dade , em comparação da arrogância e ambi-
ção : da liberalidade comparada com a avare-
za : da caridade , com a inveja : da fobrieda-
de , com as dilToluções. As virtudes ido tem
de admirável , que deleitaô a alma com huma
doçura e fuavidade incomparável , depois de
praticadas , mas os vicios a deixaõ fumma-
men-
(1) Luç. 15. v. 17»
384 ItfTfcODVCÇAo
mente endurecida e mal parada. Eia , porque
nào pretendemos nós confeguir eitas fuavida*
des.'
Dos vicies quem rem pouca , naõ efíâ
éonte- ; e quem tem muito , eítá defeonenie s
nas das virtudes o que tem pouco já tem al-
gTun contentamento , o quui depois fempre
vahe em aumento , quanto mai- nelas Te adi-
anta. Oh vida devora como es bella , doce
agradável e fuave ! vós fois a que f^avizais
as tribulações , e fazeis fuaves as coníoJaçóes:
fem vós o berh he mal , e ds pfazere* cheroS
de defaflbcego , inquietação e desfalecimemo.
Oh , e que bem poderá , quem te conhecer ,
dizer com a Samaritana : Domine , da tnihi
hanc aquam (i) . Senhor dai me deita agua %
afpiraçaõ de que ufavaó mui frequentemen e
Sarna Tereza , e Santa Catharina de Génova,
pofto que em diferente matéria.
CAPITULO XII.
Terceira confideraçao fobre o exemplo dos
Santos.
COnflJerai o exemplo dos Santos , de to-
das as fortes. Que he o que naó obrarão
por amar a Dcos , e fer feus devoro'- : vede
òs Mártires invencíveis em fuás reíolnçóes i
que tormentos naó padecerão pelas lufUnrar g
mas
(i) Joan. 4, v. 15
A5 V I D A DEVOTA, 385'
mas fobre tudo as fermofas e florentes Don-
zelas . mais cândidas na pu/eza que as aílii-
cenas , e mais rubicundas que a rofa na ca-
ridade : humas de doze, outras de treze, q inze,
vinte e vinte cinco annos , fofreraó mil géne-
ros de martírios, antes que renunciar a lua
refoluçaó : naó ío no que tocava a profiffaõ
da Fé , mas no que era da proteílaçaó da fua
devoção : querendo humas antes morrer que
deixar a pureza , outras anres que deixar de
fervir aos affligidos , confular os atormenta-
dos , e fepultar os mortos. Bom Deos ! que
conftmte ie tem molhado eíte fexo frágil , em
fe mel h antes ocaíiões.
Olhai tantos Tantos Confe'Tbres , com que
fortaleza defprezáraõ o mundo ! quaõ inven-
cíveis foraõ em fuás refoluções. Nada os pô-
de delias apartar : abraçaraó-nas fem referva ,
e mantiveraó-nas fem excepção. Deos meu !
que diz Santo Agoítinho de fua mái Santa
Mónica ? Com que firmeza perfeverava em
fervir a Deos em feu matrimonio , e em fua
viuvez ! E S. Jerónimo de fua arriada filha
Paula , entre tantos conrraftes e variedade de
accidentes ? Mas qual fera a caufa de naó fa-
zermos o mefmo , com taõ excelentes patro-
nos ? F.Ues eraó o mefmo que nós fomos , el-
les o fazíaõ pelo mefmo Deos, e pelas mef-
mas virtudes; porque naó faremos nós outro
tanto , no noífo ela io , e fecundo a nolTa vo-
cação , pela noiTa amada refoluçaó e fama.
proteftaçaõ ?
Bb CA-
386 Introducçaô
CAPITULO XIII.
Do amor que Jefii Cbrifto nos tem»
COif\Jerai o amor com que Jefu Chrifto
noííò Senhor padeceo tanto neíle mundo ,
x particularmente no Horto do Olivete , e no
monre Calvário : ette amor vos via , e por
todas fuás penas e trabalhos , alcançava de
Deos Padre boas refoluçóes e propoíltos para
voíío coração ; e pelo mefmo meio confeguia
também tudo o que vos he neceííario , para
manter nutrir fortificar e confumar eftas refo-
luçóes. Oh refoluçaõ como es preciofa , pois
es filha de huma tal mái , qual he a Paixão
de meu Salvador. Oh quanto , a minha alma
te deve amar , pois taõ amada fofte do meu
Jefus. Oh Salvador da minha alma , já que
morreftes para me alcançar minhas refoluçóes,
concedei-me a graça , de antes morrer que
deixalas.
Vedes, minha Philotea, como he certo , que
o coração do nofTo amado Jefus via o voíío ,
6etâe a arvore da Cruz , e o amava : e por
efte amor lhe alcançou todos os bens que go-
zareis , e entre elles eftas refoluçóes. Sim ,
carifllma Philorea , nós todos podemos dizer
com Jeremias : Senhor , antes que eu foíTe ,
vós me vieis , e me chamáveis por meu nome ;
porque verdadeiramente a fua divina bondade,
prepara em feu amor e miíericordia todos os
meios geraes e particulares de ngíTa falvaçaó?
C
a5 Vida devota. 387
e por confeguinte as noiTas refoluçóes. Sim
por certo , bem como huma mulher pejada
prepara o berço , as fachas , as mantilhas, e
rambem a ama , para o filho que efpera ter,
ainda ames de ler nafeido : aííim NolTo Se-
nhor , tendo a fua bondade pejada e ocupada
de vós , defejando crlar-vos para a falvaçaô e
íazer-vos filha Aia , preparou defde a arvore
da Cruz , quanto vos era precifo ; o volTo
berço efpiritual , as vofias manrilhas e fachas,
a voíía ama , e tudo o que era conveniente
para a voiTa felicidade. Eftes faõ todos os
meios, todos os âtra&tvos , todas as graças,
com que elle conduz a voiTa alma , e a quer
levar à perfeição.
Ah meu Deos ! quaõ profundamente de-
víamos arreigar ifto em noíía memoria. He
poífivel, que renha eu fido amada , e taó do-
cemente amada do meu Salvador , que fe pu-
zeíTe a cuidar em mim em particular , e em
todas eftas miúdas circumftancias , com que
me atrahio a fi ? e quanto devemos nos amar,
eftimaF , e empregar bem tudo ifto em noiTa
utilidade. Que fuave confideraçaó efta ! O
benevo-lo coração de meu Deos cuidava em
Philotea , e a amava , e lhe procurava milha-
res de meios para a fua íalvaçaõ : e de mais ,
como fe naõ tivera outra alma no mundo em
que cuidar , alTim como o Sol alumiando hu-
ma parte da terra , lhe communica a fua luz
como fe a efta fó alumiara ; porque do meí-
mo modo NoíTo Senhor penfava e cuidava de
todos feus amados filhos : de tal modo que
cuidando era cada hum , parece que naó cui*
Bb ii dava
388 Intkoduccao
dava dos mais : Elle me amou ( diz S. Paulo)
e fe entregou por mim (i). Como fe diííera ,
por mim iò , e como fe naõ fe houvera entre-
gado pelos demais. Ifto , Philotea , deveis
imprimir na voíTa alma , para eftimardes e
manterdes volTa reíoiuçaó , que taó preciofa
foi para o coração do Salvador.
CAPITULO XIV.
Quinta confideraçtõ do amor eterno de Deos
para comnofeo.
COníiderai o amor eterno , que Deos vos
tem tido : pois antes que Noíío Senhor
Jefu Chrillo padeceíTe por vós na Cruz , já fua
Divina Ma^eftade difpunha de vós , em fua
foberana bondade , e vos amava extremofa-
menre. Mas quando começou a amar-vos ?
começou quando começou a fer Deos. E
quando começou a ler Deos ? nunca. Porque
fempre foi íem principio nem fim , e afiim
v^s amou fempre defde a eternidade : e por
iílb vos preparou as graças e favores que vos
tem feito. Elle mefmo o diz pelo Profeta : Eu
te amei ( fala como fe a vós fó o diífera ) com
bumt caridade perpetua : e por iffo te tenho
ttrabido tendo piedade de ti (2). Cuidado ha
pois
(1) Gal. 2. v. 20. Vilexit me , «F tradidit femet-
êpfwn pro mo.
(2) Jere-n. jj. v. ?. In charitate perpetua dilçxt
; ideo atvaxl te mijerans.
a5 Vida devota. 389
pois entre outras coifas , em fazer que tomeis
refoluçaó de o fervir.
Oh bom Deos , que refoluçóes faõ eftas ,
que Deos -tem penfado , meditado e traçado
delde a fua eternidade í quanto nos devem
fer eftimaveis e preciofas ? quanto devemos
padecer 3 antes que apartar-nos deltas hum
átomo ? Naó por certo , ainda que todo o
mundo houveífe de perecer ; porque todo o
mundo inteiro naó vai huma alma , e huma
alma nada vai , fem fuás próprias reíoluçces.
CAPITULO XV.
Affeãos geraes fobre as antecedentes confidera-
çoes , e conclufao do exercido.
OH amáveis refoluçóes ! vós fois a bela
arvore da vida , que meu Deos tem plan-
tado da fua maó , no meio de meu coração ;
que meu Salvador quer regar com feu San-
gue , para que dè fruíio : antes padecerei mil
mortes , que confentirei que algum vento vos
arranque. Naó , nem a vaidade , nem as dili-
cias , nem as riquezas, nem as tribulações,
me arrancarão já mais do meu propoíito.
Mas ai Senhor : vós plamaftes , e em vof-
íb feio paternal çuardaftes efta arvore , para
o meu jardim. Oh e quantas alma^ ha , que
naó foraó defle modo favorecidas ! e como
poderei eu ia mais humilhar-me baftantemen-
te a voíTa mifericordia ?
Oh fermofàs e famas refoluçóes ! fe eu Vos
con-
39° Introducçao
confervar vós me confervareis : fe viveres em
minha alma , a minha alma vivirâ em vós.
Vivei pois fempre , oh refoluçóes , que fois
eternas na miferteordia de meu Deos , eftai e
vivei eternamente em mim, que já mais vos
naó deixarei.
Depois deftes affedos , deveis propor em
particular os meios requiíltos , para manrer ef-
tas amáveis refoluçóes : e proteftai , que vos
quereis íielmente fervir da frequência da Ora-
ção , dos Sacramentos, das boas obras, da
emenda de vofTas faltas reconhecidas no fe-
gundo ponto , do evitar as más ocaílóes , do
cumprimento dos aviios que vos forem dados
a efte refpeito.
Feito ifto , com toda a anciã e efhcacia ,
proteftai mil vezes de perfeverar em voíTas re-
foluçóes : e como fe tivelTeis voffo coração
alma e vontade em voíTas mãos , a dedicai ,
confagrai , facrificai e offertai a Deos , proteí-
tando , que naó atornareis mais a tomar , mas
a deixareis na maó de fua Divina Mageftade ,
para feguir em tudo e por tudo fuás ordens.
Pedi a Deos , que vos renove toda , que aben-
çoe a voíTa renovação de proteftaçaó , e que
a fortifique. Invocai a Virgem , o voífo Anjo,
a S. Luiz , e outros Santos.
Com efta commoçaó de coração hide aos
pé<? do voífo Padre Efpi ritual , acufai-vos das
faltas principaes , que advertirdes rer cometi-
do defde a voíía confiffaõ gerai , e recebei a
abfolviçaõ , da mefma maneira que fizeftes a
primeira vez : proferi diante deile a protefta-
çaõ e âíílnai-a : e por íim hide unir voíTo co-
ia-
A5 Vida devota. 391
raçaõ renovado, a feu principio e Salvador ,
no Santilfcmo Sacramento da Euchariftia.
CAPITULO XVI.
Dos fentimentos quefe bao de confer<var depois
de fie exercido.
NO dia em que tiverdes feito cila renova-
ção , e nos íeguintes , haveis repetir mui
amiúdo , com o coração e com a boca , aquel-
las palavras fervorofas de S. Paulo , Santo
Agoftinho , Santa Catharina de Génova , e
outros. Eu já naó fou meu , ou viva ou mor-
ra : eu fou de meu Salvador : nada tenho de
mim nem meu : o meu ter he Jefus : o meu
fer he feu. Oh mundo tu fempre es o mefmo ,
e eu fempre tenho fido a mefma ; mas daqui
em diante naó ferei a mefma. Naó naó feremos
já os mefmos , porque teremos mudado o co-
ração , e o mundo que tanto nos tem engana-
do , fera enganado em nós : pois naó perceben-
do a nohV mudança fenaó pouco a pouco ,
cuidara que fomos dos de Efau , e nós fomos
dos de Jacob.
He precifo que todos eftes exercicios def-
cancem dentro do coração , para que apar-
tando-nos da confideraçaó e meditação , nos
portemos acertadamente entre os negócios c
converíações : para que o licor de noífas re-
foluções fe naó derrame e peca ; porque con-
vém que fe dufolva , e penetre bem iodas as
par-
392 Intkoducçao
TJ5SJLZlma: Â" tud0 ifto fem violência
detípiriro, nem de corpo.
CAPITULO XVII.
Xepofta a duas objecções, que fe podem fa^r
a tila Introdução.
Dlrvos-ha o mundo , minha Philotea , que
eftes exercícios e difames faó rances em
numero, que quem os quizefle obfervar , naó
poderia dar atenção a outra coifa. Ah, cari/Ti-
ma PhiJorea, quando nós naó fizeíTemos ou-
tra coifa, afsas faríamos niíto , pois faríamos
o que devemos fazer nefte mundo. Alas naó
vedes a precaução. Se fe houveraó de fazer to-
dos eítes exercícios todos os dias, na verdade
que ocupanaõ todo o tempo ; mas naó he ne-
ceJano , fenaó fazer em feu tempo e lugar .
cada hum miando lhe chegar a fua vez. Quan-
tas LelS civis ha no Diçefto e Código , que fe
devem obfervar ? Mas ifto fe entende , quan-
do ie oferecer ocaílaó, e naó he preciío exe-
rura-las todos os dias. Além de que, EIRei
l^avid carregado de negócios dificultoílílimos ,
praticava mui. os mais exercícios do que eu
vos tenho apontado. S. Luiz Rei pafmofo na
guerra e na paz , e que com incomparável cui-
dado adminiftrava juílíça e manejava negó-
cios ouvia rodos os dias duas Mitos , refava
\ efperas e Completas com feu Capelão, h-
21a íua oraçaó, vifirava os Hofpitaes , rodas
as òextas feiras fe confeíTav* e tomava difei-
a3 Vida devota. 393
plina , ouvia frequentiflimamente os Sermões,
tinha mui a miúdo conferencias efpiritueês :
e com tudo iito , naó perdia huma fó ocafiaõ
do bem publico , que naó defempenhaiíe c
cxecuraiTe diligentemente : e a fúa Corre cita-
va a mais viftofa e florente , que já mais eíli-
vera em tempo de íeus predecellores. Praticai
pois fervorofamente eftes exercícios , fegundo
vos tenho advertido , e Deos vos daiá baila n-
te lugar e forças , para o expediente de todos
os mais negócios : fem duvida , ainda que pa-
ra iílb houveffe de parar o Sol , como fez no
tempo de Jofué. Sempre fazemos muito , quan-
do Deos trabalha comnofeo.
O mundo dirá , que eu quafi totalmente
fupponho ? que a minh.i Philotea tem o dam
de Oraçaó mental , e que como nem todos o
tem, naò fervirá para todos efta Introducçao.
Sem duvida , he verdade , que fupponho iito :
e também He verdade , que nem todos tem o
dom de Oraçaó mental : mas também he ver-
dade , que quafi todos o podem ter , ainda que
feiaó os mais rudes : com tanto que tenhaõ
bons Diredores , e queiraó trabalhar pela ad-
quirir , tanto quanto a matéria o merece. E
fe fe achar alguém , que naó tenha efte dom
em nenhum grão ( o que naó cuido que polia
acontecer fenaó raiiííimamente ) o prudente
Padre efpiritual , lhe fará faprif eita falta ,
com lhe enílnar a dar atenção ou á liçaõ , ou
a ouvir as mefmas coniideraçóes que vaó pof-
tas nas meditações.
CA
394 iNTRODUCqAo
CAPITULO XVIII.
Três últimos e principies a~uifos acerca deslA
JntroducçaÕ.
REpetireis todos os primeiros dias do mez ,
a protcílaçaó que eftá na Primeira Parte ,
depois da oraçaó : e a cada momento que pu-
derdes , prcteítareis querer guarda-la , dizen-
do com David : Nunca já mais eternamente
me efqnecerei de 'vojfds juslificaçoes , meu Deos ;
porque nellas me tendes tviruificado ( i ) . E
quando fentirdes algum difírah-imento em vof-
ía alma , tomai a volTa proteítaçaó nas máos,
e proílrada em tTpiíito de humildade , a pro-
feri de rodo o voíTo coração , e achareis hum
grande alivio.
Fazei proíiíTaõ manifefta de querer Ter de-
vota : naó digo de fer devota , mas de o que-
rer Ter : e naó tenhais pejo das acções comuas,
e precifas, que nos conduzem ao amor de
Deos : proteílai refolutamente que tratais de
meditar , e que antes quereríeis morrer , que
peccar mortalmente : que quereis frequentar
os Sacramentos , e íeguir os confelhos do vof-
fo Diretor ( pofto que ordinariamente naó
feja necetfario nomea-Io , por muitas razões )
porque eíta franqueza de confeiTar, que quc-
re-
(i) Pfalm. 1 1 3 v. ç<. In atcrnum non oblhiftar-
jitfiificationes tuas : y«,'a in i\>jis vivijicajti me.
a' Vida devota. 39^
remos fervir a Deos , e nos temos dedicado
ao feu amor com efpecial affecto , he mui
agradável a Mageflade Divina , que naó quer
nos envergonhemos delJe , nem da lua Cruz ;
porque ella corra o caminho a muitos laços ,
que o mundo nos quereria armar em contra-
rio : e nos obriga por brio a fegui-la. Os Fi-
lo fofos publicavac-fe por Filo fofos , para que
os deixaííem viver riloforlcamente : e nos de-
vemos darnos a conhecer por defejofos da de-
voção , para que nos deixem viver devota-
mente. E fe alguém vos differ , que fe pôde
viver devotamente , iem a pratica deíles do-
cumentos e exercícios , naó lho negueis ; mas
reípondeilhe amigavelmente , que a volTa fra-
queza he taó grande , que ha miíter mais aju-
da e foccorro que outro*.
Em fim , cariffima Philorea , rogo-vos por
quanto ha fagrado no Ceo e na terra 5 pelo
Bautifmo que recebeftes , pelos peitos a que
Jefu Chrifto fe alimentou , pelo coração ca-
ndofo com que vos ama , e pelas entranhas
de mifencordia com que vos efpera , conti-
nueis e perfevereis nefta ditofa empreza da
vida devota: Cs noííos dias palTaó , a morte
eítá á porta : A trombeta ( diz S. Gregório
Nazianzeno ) toca a retirar : cada bmnje pre-
pare , porque o Jui\ he chegado. A mái de S.
Symforiano vendo-o conduzir ao manyrio ,
gritava atraz delle. Filho meu , meu filho ,
lembra-te da vida eterna , olha para o Ceo ,
e confidera o que nelle reina , o teu fim pró-
ximo terminará brevemente a carreira deita
vida. Philotea minha , o mefmo vos direi eu:
olhai
•'396 Introducçaó
olhai para o Ceo , e naó o deixeis pela ter-
ra : olhai para o Inferno , e naó vos lanceis
nelle pelo que he momentâneo : olhai para
Jeíu Chriíto , e naó o renuncieis pelo mun-
do: e quando o rrabalho da vida devota vos
parecer duro , cantai com S. Francifco.
Confederando os bens que efpero
Os trabalhos me faò divertimento.
Viva Jefus a quem com o Padre e o Efpirito
Santo íqa dada honra e gloria , agora e ícn-
pre por feculos de feculos. Amem
MODO DE REZAR DEVOTAMENTE
o Rofario , e bem fer~vir a Virgem Maria.
PFgareis no Rofario pela Cruz , que bei-
jareis , tendo-vos primeiro períignado ;
e ponde-vos na preíença de Deos , dizen-
do o Credo dc(de o principio até o fim.
No primeiro Padre noílò , invocareis a
Deos , p^dindo-lhe aceite o ferviço , que lhe
quereis fizer , e que vos aííitla com a fua gra-
ça para bem rezar.
Nas primeiras três Ave Manas , bufcareís
a interfeçaó da Virgem Samiflima ; faudan-
do-a na primeira como a mais amada Filha
de Deos Padre : na fegunda , como Mái de
Deos Filho : e na terceira como Efpofa queri-
da de Deos Efpirito Santo.
Em
A' V I D A DEVOTA. ^J
Em cada dez Ave Marias , confiderareis
hum dos Myíterios do Rofario , conforme o
cómodo que tiverdes , lembrando-vos do myf-
terio que vos propuzerdes : principalmente ao
pronunciar os Santilíimos nomes de Maria e
Jefus , pairando-os pela voíía boca com huma
grande reverencia de coração e de corpo. Se
vos vier algum ourro arredo ( como dor dos
peccados paliados , ou propofito de emenda )
o podereis meditar por todo o difeurfo do Po-
íario o melhor que puderdes : e vos recorda-
reis deíle arredo , ou outro que Deos vos inf-
pirar , principalmente quando pronunciardes
os Santiííimos nomes de Jefus e Maria.
No Padre noílb que eíti no fim do ultimo
Myfterio , dareis graças a Deos da mercê que
vos fez , em permitir que o rezaíTeis.
Ao paliares as três Ave Marias que fe fe-
guem , faudareis a Santiílima Virgem Maria ,
fuplicando-lhe na primeira , que offereça o
voílo entendimento ao Padre Eterno , para
fempre poderdes meditar as fuás mifericor-
dias : na fegunda , lhe pedireis offereça a vof-
fa memoria a Deos Filho , para terdes fempre
na lembrança a fua morre e Paixão : na ter-
ceira , lhe rogareis , que offereça a voíía von-
tade ao Efpirito Santo , para poderdes andar
fempre inflamada em feu divino amor.
Ao paiTar o Padre nofTo que eftá no fira ,
fuplicareis â Divina Mageítade , aceite tudo
para fua gloria e da fanta Igreja ; de baixo de
cujo eltendarte pedireis vos conierve , e traga
a elle todos os que andaó extraviados : e ro-
gareis a Deos por todos voílos amigos , aca-
ban-
398 Intb oducçao
bando como começaíles pela profiíTaõ da fé ,
dizendo o Credo , e fazendo o final da Cruz.
Trareis o Rofario á cintura , ou em outro
lugar patente , como huma fagrada divifa ,
com a qual quereis proteftar , que deíejais
fer fervo de Deos NoíTo Senhor , e de fua
Santiflima Efpofa , Virgem , e Mái , e de vi-
ver como verdadeiro filho da Santa Igreja Ca-
tholica Apoítolica Romana. Amen.
•#%•
;1P£X
•A*
IN-
399
ÍNDICE
PARA SE ACHAR FACILMENTE
qualquer matéria defte Tratado. O
numero moílra as paginas.
jA Cbaques. Modo de nos portar nel-
JÍ JL les 3 140.
Affettos. Quaes fe haó de praticar com o pró-
ximo , 210. Aífeefcos ou affeiçóes vicufas ,
214- Quando fe haó de praticar os aftedos
fantos na oração mental , 77.
Amizades. Das perverfas , 202. Das verdadei-
ras, 210. Diferenças de humas e outras,
214. Avifos contra as más amizades , 217.
Amor de Deos. t). Do próximo , 210. Amor
mundano e perigoíb , 202,
B
Jj Ailes. Dos bailes . e quando fe podem
praticar , 266, 270.
Beneficios. Meditiçaõ dos benefícios de Deos ,
29. Em nos chamar ao ieu ferviço , $86,
}87, )88.
C
V^ Afados. Documentos para as pefToas defte
citado , 281, 192.-
Ca-
4co ÍNDICE
Cajiidade. Como he neceííaria , 181. Avifos
para a guardar , 186.
Ceo. Medi rações do Ceo , 4}, 46.
Communbao. Da fua frequência, 116. Como
fe ha de commungar , 121.
Confeffor. Veja-fe Dire&or.
Confijf ao geral. Como fe ha de fazer, 52. Con-
hfiaõ ordinária , III.
Confolaçóes. Das confolaçóes efpirkuaes e fen-
íiveis , 341.
Conter facões. Das converfaçóes e folidáõ ,
D
D
Ecencia. Das palavras , 242. Dos verti-
dos , 22,7.
Difaffoccgo. Do defaííocego de animo , e feus
remédios , 2,*,}.
DpvoçmÕ. Em que confifte a devoção , 5. Suas
propriedades , 8- He própria de todos os
eirados, 8- Naó confifte em confolaçóes
fenfiveis , 2,4 T-
Direftor. NecelfiJade que delle temos , 10.
Dcnzçlas* Documeiuos para as peííoas deite
eítado , 305.
E
Nf ermida des. Como nos devemos haver
nellas , 14c
Eucharifiia. Veja-fe Comunhão.
Exime" Do eítado da noífa alma para com
Deos , 373. Para com o próxima , 577. Pa-
ra
ÍNDICE. 43i
n comíigo mefma , 376. Exame fobre o
adiantamento na vida devota , 371. Exame
dos nollos aífedos , ^78.
Al.tr. Do falar , principalmente de Deos.
232,. Aviíos pertencentes ao falar , 260»
H
H
Umildade. Deita viítude quanto ao exte-
rior, 143. Quanto ao interior, 147 , J54.
Como íe ha de procurar o bom nome ,
159.
Honeflidade. Da honeílidade das palavras ,
242. Da dos veílidos , 237. Da honeitidade
do thoro conjugal , 202.
J Aculxtorias. Do ufo delias , 92.
Inferno. Meditação do Inferno , 41.
Infpir.tcoes. Como fe haõ de receber , 107.
In-uocaçao dos Santo* , 10$.
'Jogos. Dos prohibidos , ^65. Dos lícitos e ho-
neftos , 264.
?ui%p. Meditação do Juizo , 2,8.
uijps temerários , 245. Remédios contra el-
ies , 246.
Ira. Remédios contra ella, 16?.
Çç Li-
40* I N D I C E.
L
_-rf TçaÕ efpiritual , e livros para dia , ic6.
S. Lui\Rei de Franca. Seus di&ames Te achao
efpalhados por toda £ Terceira Parte deíla
Introduccaó.
M
Anfidao. Para com o próximo , icU. Pa-
ra com nós mefmos , i-o.
Matrimonio. Documentos para pelíoas deite
citado , 28 1> 202.
Meditação. Veja-fe Oraçaõ.
Meditações. Sobre os Noviflimos , 2,5". Sobre
2 eleição da vida devota , 40. Sobre os
benefícios de Deos , 29. Sobre os pecca-
dos , 32.
JMiffd. Como fe ha de ouvir, 09.
Molcjiias. Veja-fe Enfermidades.
Morte. Medicação da Morte , 35.
Mortificação. Da exterior, 225.
Murmuração. Seus dam nos e remédios , 251.
N
N
Egocics. Como fe haó de tratar fem an-
siedade nem deíaíloccgo , 19:.
O
o
Bediencia. Como a haõ de exercitar pef-
ícas feculares : itfa
Ora-
ÍNDICE. 403
Oração. Da mental , fua necefíidade , 72. Mo-
do-de a ter e partes de que coníla , 76.
JL Adenda. Deita virtude , 1 27.
Palavra de Deos. Como fe ha cie ouvir , 106.
Pajfatempos. Dos licitos e louváveis , 262,.
Peccados. Meditação íbbre os peccados , 2,2.
Pobreyi. Da ce efpi ri 10 , 190. Como íe ha de
pratica?, no meio das riquezas , 194, ipp-
Purificação- Da purificação da notTa alma. 17*
Amilhete e/piritual. Que coifa feja 3 78.
Renovação dos bons propofitos. Quando fe ha
de fazer , 2,65-.
Ref peito. Do reípeito devido às peíToas , 242.
Retiro. Do retiro efpiritual , 88.
Rofario de Nojja Senhora. Modo de o rezar *
xS
O Ecuras. Das fecuras efpiriniacs , 2.51.
X Entaçoes. Da fua natureza e diferenças ,
2,12,. Conforto para quem as padece anual-
mente , 320. Como a tentação e deleitação
podem fer peccado. 322. Remédios para as
tentações graves , 325. Para reílftir às le-
ves 5 327, 2,29. Como fe ha de fortalecer o
CO'
4:>4 ÍNDICE,
coração contra as tentações. Do defaíToce-
TrijleTg. Da túíleza e feus remédios 3 ^7.
V
V Efiidos. Da decência dos vertidos , 237.
fiu-vas. Documentos para pefToas deite eíta-
do , 2pS.
Virtudes. Que efeolha devemos fazer delias ,
e por quaes devemos principiar , 125, 1:52»
FIM.
1
b
W w
m
Pét
jfc-jf
