Chapter 2
M. Contado. Eifaqui hum dos confelhos , que
o grande S. Luiz deu a feu filho , antes de
morrer. » ConfeíTai-vos a miúdo , elegei hum
d ConfeíTor idóneo , que feja homem pruden-
» te , e vos polia enílnar feguramerue a fazer
th o que vos convém. » O
13 Intkodttcçaõ
O amigo fiel , diz a Efcritura íagrada , (i)
he huma forte protecção : quem o achou ,
achou hum thefouro. O amigo fiel , he hum
medicamento de vida e immortalidade : os que
temem a Deos o acharáó ( 2 ) . Eftas divi-
nas palavras , como bem vedes , refpeitaõ
principalmente á immortalidade, para a quai
íobre tudo deve haver efte amigo fiel , que
guie noíTas acções com feus avifos e confelhos,
livrando-nos por efte meio das ciladas e enga-
nos do inimigo ; que feja para nós como hum
thefouro de íabedoria , em noffas triftezas ai>
ílicçóes e quedas ; que firva de remédio para
alliviar e confolar nolíos corações nas enfer-
midades efpirituaes : que nos guarde do mal ,
e torne o noíío bem melhor : e quando nos
venha alguma enfermidade 3 impida que feja
mortal , e nos livre delia,
Mas quem achará efte amigo ? Os que te-
mem a Deos , refponde o Sábio : a faber , os
humildes que deíejaõ de veras o feu adianta-
mento efpiritual. Já que tanto re importa,
Philotea , caminhar com bom guia nefta fan-
ta jornada da devoção , vede a Deos com fer-
vorofas inftancias , te conceda hum , que feja
conforme ao feu coração : e naó duvides , que
quando fora necefiario mandar-te hum Anjo
do
(O Ecclif. 6. v. 14. Arnicas fidelh , proteclio for-
íis : <ju: invemt tilam , invenit thefdurttm.
(2) v. íó. Arnicas Jidclis medicamentam vitée , &
bnmonalltatis , qul metuant Dominam , invçnient Hz
Iam.
a' Vida devota. 13
do Ceo , como a Tobias o moço , elle te con-
cederia hum bom e fiel.
Efte pois deve fer fempre para vós hum
Anjo : ifto he , quando o achardes , naó o con-
íidereis como hum mero homem , nem con-
fieis nelle , nem em feu íaber humano , mas
em Deos ; que vos favorecerá e fallará por
feu meio , pondo-lhe no coração e na boca ,
o que for necefTario para volla falvaçaô : e
aííim o deveis ouvir como a hum Anjo baixa-
do do Ceo , para vos lá levar. Trarai-o com
ò coração nas mãos , com toda a fmceridade
e fidelidade , manifeftando-lhe claramente o
voíTo bem e o voílo mal , fem fingimento nem
diffimuiaçaõ : por efte meio fera o voílo bem
examinado e fegurado , e o volTo mal corre-
gido e remediado. Acharvos-heis álliviada e
confortada em voífas afflicçóes , moderada e
regrada em volTas coníolaçóes. Poreis neile
huma fumma confiança , acompanhada de
huma fanta reverencia ; de modo , que a re-
verencia naó diminua a confiança , nem a con-
fiança embarace a reverencia. Confiai-vos nel-
le , como huma filha em feu pai : refpeitai-o,
com a confiança de hum filho para com fua
mái. Em huma palavra , deve efta amizade
fer forte e fuave , toda fanta , toda fagrada ,
toda divina, e toda eipirieual.
Por cuja caufa efeolhereis hum entre mil ,
diz Ávila : e eu digo entre dez mil : porque
fe achaó muito menos do que fe cuida , cue
fejaõ capazes defte officio. Deve fer cheio de
caridade feiencia e prudência : huma deitas
ties partes que lhe falte , tem muito perigo.
Alas
14 Xntroducçao
Mas torno a dizer-vos , que o peçais a Deos,
e quando o achardes louvai a Mageftade divi-
na , perfeverai conítente , e naô bufqueis ou-
tros , mas caminhai finccra humilde e con-
fiadamente : e fareis huma felicilíima jornada.
CAPITULO V.
Que he necejfario começar , por purificar a
alma.
APpareceraõ as flores na noíTa terra ( diz
o Sagrado Eípofo ) (i) he chegado o
tempo da monda e fcga. Quaes faó as flores
de noíTbs corações , Philovea , fenaó os bons
defejos ? Pelo que tanto que apparecertm , de-
vemos lançar maó á foice , para cortar de noí-
fa confciencia todas as obras mortas e fuper-
íiuas. A donzella (2) eftrangeira para fe dcf-
pofar com o Ifraelita , devia tirar o veftido
do leu cativeiro, e corrar as unhas e cabei-
los : e a alma que afpira à honra de fer eípofa
do Filho de Deos , deve-fe defpojar do ho-
mem velho , defpindo o peccado : e depois
cercear e rafpar todo o género de impedimen-
tos , que a defviaõ do amor de De4os : por-
que o principio da noíTa fantidade he eftar-
mos purgados de noíTos humores peccantes. S.
Pau-
(1) Cant. 2. v. 12. Flores apparuerunt tn terra no*
Jlra , t empas putationis advenit.
(2) Deutcron. 21. v. 12. Radet charlem > W #>-
cumeidet migues , W depenei vcjUm*
A3 V I D A D E V O T A. IJ
Paulo em hum momento foi purgado com
huma purgação perfeita ; como cambem o foi
Santa Catharina de Génova , Sarna Magdale-
na , Santa Pelagia , e outros mais. Aias efta
purificação he milagrofa , e extraordinária na
ordem da graça , como a refurreiçaõ dos mor-
tos na ordem da natureza , e por ifio a nao
devemos pretender. A purificação e cura or-
dinária , tanto de corpo, como de alma , fó
fe faz pouco a pouco , caminhando de melhor
em melhor , com trabalho e tempo.
Os Anjos da efcada de Jacob tem afãs , e
com tudo naõ voaó , mas fóbem e defcem por
ordem , de degráo em degráo. (*) A alma que
do peccado fóbe á devoção , he comparada á
Alva do dia , a qual quando fe levanta , naó
defterra as trevas em hum inflame , mas pou-
co a pouco. A cura ( diz o Aforifmo ) que íe
faz muito de efpaço , fempre he a mais fegu-
ra. As enfermidades do coração , aííim como
2S do corpo , vem a cavallo e pela poíta ,
mas vaó-íe a pé e a paffo lento. Deveis pois ,
Philotea , fer animoía e fofrida ncfla empre-
fa. Oh que laftima ! que tantas almas vendo-
fe fujeitas a multiplicadas imperfeições , de-
pois de fe haverem algum tempo exercitado
na devoção, entrem a inquietar-fe, turbar-fe, e
dsfanimar-fe : deixando-fe quafi feu coração
levar da tentação de deixar tudo e tornar atrás.
Por outra parte , também correm fummo pe-
rigo as Salmas , que por huma tentação contra-
ria á fobredita , fe perfuadem eitar já purifi-
das
C* ) Cant, $. v. 9,
l6 I N T R O D U C Ç A 6
das de fuás imperfeições , logo no primeiro
dia que começarão a purificar-fe ; tendo-fe
por perfeitas antes de o fer , e metendo-fe a
voar íem afãs. Que grande perigo , Philotea,
correm de recahir , por fe terem apartado taõ
deprelTa das máos do Medico ! Naõ vos levan-
teis ( diz o Profeta Rei ) antes que a lu\ feja
chegada. Le-vantai-wos depois de <vos terdes af-
fentado. (i) E elle próprio , praticando efta li-
ção , e tendo-fe jà lavado e limpado , perten-
de fer lavado outra vez.
O exercício da purificação da alma naõ
deve acabar fenaó com a noíía vida : naõ nos
perturbem pois nolías imperfeições , porque
em impugna-las confifle a noifa perfeição : e
naõ as poderíamos impugnar, fe as naó vilTe-
mos , nem vencê-las íem as encontrar : naó
confiíie a noiTa vicloria em as naó fentir , mas
em as naó confentir.
Porém naó he dar lhe confentimento , fen-
tir as fuás incomodidades , ances he neceíla-
rio para exercido da noiTa humildade , que
recebamos algumas feridas neíte efpiritual
combate : mas nunca fomos vencidos , fenaó
quando perdemos a vida ou o animo. As im-
perfeições e peccados veniaes naó nos podem
tirar a vida efpiritual , porque naó fe perde
fenaó pelo peccado mortal. Só refta , que
• naõ
(i) Pfalm. 126. v. 2. Vanum ejl vobls ante lacem
fur^erc , fargite pojlquam federitis.
Pialm. 50. v, 3. Amplias lava me , i3'c»
a5 Vida devota. 17
naõ nos façaó perder o animo. (1) Lirvrai-mè
.Senhor (dizia David ) da cobardia e pufilàni-
nridade. Eíla he a no lia felicidade neíta guer?
ra eípiritual , lermos fempre vencedores , com
unto que queiramos peleijar*
CAPITULO VI.
Da primeira purificação , pte be a dos peyjt*
dos mortaes.
A Primeira coufa de que nos devemos puri-
ficar , he do peccado , e o meio de o fa-
zer he o Sacramento da Penitencia. Bufcai o
mais digno ConfeíTor que poderdes : tomai al-
gum dos livrinhos , que fe tem eicrito , para
ajudar a conciencia a fe confeíTar bem , co-
mo Granada , Bruno, Árias, Âuger j lède-os
bem , e adverti ponro por ponto , em que ren-
des oífendido a Deos , de(ÒQ que ri veir.es ufo
de razaó até a hora preiente : e íe naó vos
fiais da vofla memoria , ponde por efe ri to o
que tiverdes notado : e tendo por efte modo
juntos os humores peccaminofos da vofla con-
ciencia , detettai-os e abominai-os , com hu-
ma contrição e difpiicencia a maior , que
poíla fu portar volTo coração : caafidexando
eftas quatro coifas. Primeira , que peio pec-
cado perdeit.es a graça de Deos. Segunda ,
que aba n donaires a parte que vos cabia no
B Ceo.
(O Plalra, 54. v. 9. Salvam mt fac a yuf.ianimi-
tatefyirittu.
i8 Introducçao
Ceo. Terceira , que aceitaftes as penas eter-
nas do inferno. Quarta , que renunciaftes o
amor eterno de Deos. Bem vedes , Philotea ,
que fallo de huma confiffaó geral de toda a
vida , a qual confelío na verdade , naó Ter
fempre abfolutamente necelTaria j mas também
confidero , que vos fera íummamente provei-
tofa neíte principio : e por iíTo vo-la aconfe-
lho encarecidamente. Commummenie fucce-
de , lerem as Confifsóes ordinárias dos que
vivem huma vida commum e vulgar , cheias
de grandes defeitos : porque commummente ,
ou naó ha preparação , ou he pouca , ou fal-
ta a contrição precifa : e aííim fuccede mui-
tas vezes , irem-fe confeílar com huma von-
tade tacita de tornar ao peccado : porque naó
querem evitar a ocafiaó delle , nem aceitar
os meios conducentes á emenda da vida : e em
todos eftes cafos he a ConfiíTaó geral neceíTaria
para fegurança da alma. Além de que , eíta
ConfiíTaó geral nos conduz ao conhecimento
de nós meímos ; nos excita a huma faudavel
confufaó da vida paíTada ; nos faz admirar a
mifericordia de Deos , que nos efperou com
paciência : focega os nolTos corações , dilata
roíTos ânimos , excita-nos a bons propoíltos ,
dá occafiaó a nolTo Padre efpi ritual , de nos
dar os documentos mais convenientes ao noiTo
eítado , e abre-nos o coração para nos de-
clararmos com mais confiança nas Confifsóes
íeguintes.
Fallando pois , de huma geral renovação
do nolío coração , e de huma conveifaó uni-
verfal de noíTa alma a Deos y para a empreza
da
A5 V IDA D E V O T A. Ip
da vida devora ; baftante razaó tenho , me pa-
iece , Philotea , para vos aconíeinar eita Con-
riilaó geral.
CAPITULO VIL
D.i fcgundx purifica: to , a faber do ajfeãa
ao pecado.
TOdos os ífraelitas fahiraõ com effeico da
terra do Egypto , mas nem todos com o
arriei: j : por cuja ca ufa muitos deiles fençiaó
no Deferto naó ter a-: cebolas e carnes do
Egypto. (*) Aííim também ha . pcnicenr.es ,
que com efFeito fahem do peccado , e com tu-
do lhe naó perdem o aíFcdo : quero dizer;
propõem nunca mais peccar , mas com certa
dilTabor, que tem em fe privar e abfter das
infelizes deleitações do peccado. Renuncia o
feu coração muitas vezes o peccado , e ie a-
parta delle , mas nem por iíío deixa de fe vol-
tar muitas vezes para eíle , como a mulher de
Lo:h para a parte de Sodoma. Abílem íe do
peccado como os doentes dos melóes , que os
naó comem , porque o Medico os ameaça
com a morte fe os provarem ; mas naó dei-
xaó de fe defaíbcegar por caufa deila abíli-
nencia, fallaó neiles , perguntaó ie os pode-
rão comer, querem ao menos cheira-los, e
terfi por dftofos os que os podem comer. Por
femelhante modo , eiies fracos, e débeis peni-
B ii ten-
(/) Exod. 16, v. 5.
20 Introduccao
3
tentes íe abftem por algum tempo do pecca-
do , mas com defgofto : e eítimariaó muito
poder peccar , fem fer condemnados : faflaó
com affeiçaó e gofto do peccado , e tem
por contentes os que o cometem. Hum ho-
mem refoluto a vingar-fe , mudará de vonta-
de na ConfiíTaó , mas pouco depois o acharão
entre feus amigos , faboreando-fe em faliar
nas fuás queixas , e que fe naõ fora por temor
de Deos , fizera ífto , e aquillo : e que a lei dí^
vina nefte artigo de perdoar he dirRcil , e que
prouveíle a Deos , que foíTe licita a vingança.
Quem deixa de ver , que efte miferavel ho-
mem , ainda que efteja livre do peccado , eílá
naõ obílame todo enredado no afteclo delle :
e eftando na realidade fora do Egypto , eftá
ainda apetecendo os alho^ , e ceboLts , que alli
coftumava comer. Aífim fuccede á outra mu-
lher 3 que tendo deixado feus lafcivos amo-
res, fe recrea naó obíiante , de fer bufcada ,
e galanreada. Ah , que grande he o perigo em
que eílà femelhante gente !
Por tanto , Philotea , já que quereis em-
prender a vida devota , naó fò convém dei-
xeis o peccado , mas deveis inteiramente lim-
par voJTo coração de todo- os aíFe^os, que del-
le dependem : porque além do perigo em que
põem de recahir , eftes miferaveis afieclos af-
trouxaráõ continuamente o voflo efpiriío , e o
oprimirão de forte , que naó polia executar
as boas obras prompta , diligente 3 e frequen-
temente , em que confille a verdadeira eiíen-
cia da devoção. Aquellas almas , que rendo
fahido do êáado do peccado s confervaó ain-
da
A* V I D A D E V O T A." 11
da eftes affeclos e achaques , parecem-fe , a
meu ver , ás donzellas indifpoítas , que naõ ef-
tando doentes , todas fuás acções faõ de mo-
leítia : comem Tem goílo , dormem íem def-
canço , rim fem alegria , e mais Te arraítaõ do
que andaó. Por femelhante modo cbraõ bem
cilas almas , com taó grande fraqueza efpiri-
tual , que tiraó toda a graça a feus bons exer-
cícios ', poucos em numero , e pequenos no ef-
feito.
CAPITULO VIII.
De que modo fe ba de fazer eflafegunda puri-
ficação.
O Primeiro modo pois , e fundamento deíla
fegunda purificação , he a viva e forte
aprehenfaõ do mal que o peccado nos cau-
fa : por cujo meio nos difpomosa hum a con-
trição profunda e vehemente. Porque aííim
como a contrição ( com tanto que feja verda-
deira ) por pequena que feja , principal men-
te junrando-fe á virtude dos Sacramentos ,
nos purifica fuífícientemente do peccado : aíTim
também quando he grande , e vehemente ,
nos alimpa de todos os affeftos que delle de-
pendem. Huma raiva , ou hum rancor fraco
e débil , faz que tenhamos averfaó áquelles
que aborrecemos , e nos apartemos da fua
companhia : mas fe he hum ódio mortal e
violento , naõ fó os fugimos , e aborrecemos,
mas defgoftamos , e naõ podemos foffrer a
con-
11 Intkoducçaó
converfaçaõ de feus aliados , parentes , e ami-
dos , nem fcquer o feu rerraro , ou coifa
que lhe pertença. AíYim quando o penitente
fó aborrece o peccado com huma leve , pofto
que verdadeira contrição , he verdade que fe
leíblve a nunca mais peccar ; mas quando o
aborrece com huma contrição forte e vigo*
roía , naô fó deiefta o peccado , (enzô ram-
bem todos feus affe&os , dependências , e oc-
cafióes de peccar. Convém pois , Philotea ,
augmentai quanto nos for poííivel a contri-
ção , e atrependimento , para que aílím al-
cance as menores pertenças do peccado. Af-
fim a Magdalena na fua converfaó , perdeo
de tal modo o gofto das culpas , e prazer que
nellas achava , que nunca mais lhe lembra-
rão : e David proteílava aborrecer naó fó o
peccado , mas todos os caminhos e veredas,
que a elie conduziaó. Neíle ponro confifte a
renovação da alma , que o mefmo Profeta
compara ao renafcer da Águia. Para chegai
pois a eíla renovação e contrição , deveis
exercitar-vos cuidadofamente nas feguintes
Meditações ; que fendo bem praticadas , def-
arreigaráõ de vofTo coração ( mediante a gra-
ça de Deos ) o peccado , e feus principaes
cíFeitos. Para efte ufo determinadamente as or-
denei pelo modo feguinte. Fareis huma depois
da outra , com a ordem que 3t^ui vaõ , fem to-
mar mais do que huma para cada dia : a
qual fareis pela manha , por fer o tempo mais
próprio de todas as obras do efpiíito : e as re-
parareis e ruminareis no difcurfo do dia : e
íe naó citais ainda induftriada no moco- de
medi«
A5 V I D A DEVOTA. 23
meditar , vede o que fe diz na fegunda Parte
ck-fta Introducçaõ.
CAPITULO IX.
AfeditaçaÕ I. Da Creaçao.
PREPARAÇÃO.
1. Fonde-vos naprefença de Deos.
2. Vedi-lhe ^vos de fuás infpiraçoes.
CONSIDERAÇÕES.
COnfiderai , que ha mui poucos annos naó
eftaveis no mundo , e que o voíTo fer era
hum verdadeiro nada. Onde eílavamos , al-
ma minha , r.aquelle tempo ? O mundo tinha
já durado tanto , c de nós naõ havia noticia
alguma.
Tirou-vos Decs deite nada pnra ferdes o
que fois , fem ter ncceíiidade de vós , mas por
íua única bondade.
Confiderai o fer que Deos vos deu , por-
que he o primeiro fer do mundo vifivél , ca-
paz de viver eternamente , e unir-íe perfeita-
mente à Mageftade divina.
Ajfeclos , e refoluçÕes.
Humilhai-vos profundamente diante de
Deos dizendo com o Pialmifta , de coração.
Oh Senhor! Verdadeiramente fou hum nada
diante de vós : como vos lembraítes de mim pa-
ra
24 I-NTRODUCÇAÕ
ra me crear ? (i) Ai de ti alma minha ! fu-
mergida eflavas neíle antigo nada , e nelie ef-
rarias ainda agora, fe Deos te naó tivera ti-
rado. Que farias dentro defte nada ?
Dai graças a Deos. Oh meu bom e fo-
berano Creador : que grande he a minha obri-
gação para comvofco , pois me foíles tirar do
profundo do meu nada , pata me dardes o que
íou por voíTa mifericordia ! Que farei para
bemdizer daqui em diante voíío fantiííimo No-
me , c agradecer volTa infinita bondade ?
Confundi-vos. Mas ah Creador meu , que
em vez de me unir a vós por amor e ferviço ,
me tenho inteiramente rebelado com meus
defordenados afre&os , feparando-me , e apar-
tando-me de vós , para me unir ao peccado :
venerando raõ pouco voíTa bondade , como
fe naó tiveííeis íido meu Creador!
Abatei-vos diante de Deos. Alma minha f
fabe que o Senhor he o teu Deos. Ellehe
quem te fez , e naó tu a que te fizeite a ti mef-
ma. Deos meu ! obra fou das vollas máos.
fiefoluçaÕ effica^
Já âeÇòe aqui em diante naó quero compra-
zer-me em mim mefma : pois nada fou da mi-
pha parte. De que te glorias tu, pó e cinza ?
ou para melhor dizer , verdadeiro nada de
que te exaltas ? E para me huoiilhar , quero
fazer efta , e eftoutra coifa , fuportar eftes ,
e aqueloutros defprezos. Quero mudar de vi-
da %
(0 Pfalm. 38. v. 6. Suhjiantia mca tamejuam nihi-
lum ante te.
a5 Vida devota. 15
da , e feguir dcfde hoje a meu Creador , e
I\onrar-me da condição do Ter que me deu ,
empregando-me totalmente em obedecer á Tua
vontade , pelos meios que me forem eníina-
dos , conforme o parecer de meu Padre efpi-
ritual.
ConclufaÕ.
1 Graças a Deos. Bemdize , alma minha ,
a teu Deos , e rodas minhas entranhas lou-
vem feu fanto "Nome : porque fua bondade
me tirou do nada , e fua mifericordia me
creou. (1)
2 Oferecei. Deos meu , offereço-vos o fer
que me déftes , com todo o meu coração , c
vo-lo dedico , e confagro.
3 Rogai. Senhor , confirmai-me neftes Af-
fecbos , e refoluções. O3 Virgem Santiííima ,
encomendai-as á mifericordia de voílb Filho ,
com todos aquelles por quem devo rogar , &c.
Pater Nofter , Ave Maria , érc.
Ao fahir da Oraçaõ , paíleando hum pou-
co , ajuntai hum ramilhete de devoção das
coníideraçóes , que fizefíes , para o cheirardes
pelo decurfo do dia.
CA-
(1) Pfalra. 10. 2. v. I. Bcnedlc ar.ima mea Domino ,
V omnia cjujs intra me funt nomini jarifto ejus.
26 Iktroduccao
CAPITULO X.
Meditação II. Do fim para que fomos crtadou
PREPARAÇÃO.
i Vonde-vos em prefença de Deos:
z Rogai-lhe que <vos infpire.
CONSIDERAÇÕES.
DEos naõ vos poz nefte mundo por algu-
ma neceífidade , que tiveiTe de vós , pois
tocalmente lhe éreis inútil , mas fomente a
fim de praticar fua bondade, dando-vos íua ^ra-
ça , e gloria. Por iíTo vos deu o entendimen-
to para o conhecerdes , a memoria para delle
vos lembrardes , a vontade para o amardes , a
imaginação para reprefentardes feus benefícios,
os olhos para verdes as maravilhas das fuás
obras , a íingua para o louvardes , e aíiím ai
mais potencias.
Sendo creada e poíla neíle mundo com
efta intenção , todas as acções contrarias a el-
la devem ler rejeitadas e evitadas: e as que
para efte fim nada conduzem , devem fêi de[-
prezadas como vás e fuperrluas.
Confiderai a deígraça do mundo , que naõ
cuida niílo , antes vive como fe creíTe naõ
íer creado para outra coifa , fenaó para edifi-
car cafas, plantar arvores > juntar riquezas , e
iratar de ridicularias.
a' Vida devota, 17
A ff caos , e refoluçoes.
Confundi-vos reprehendendo a míferiada
vofía alma , que raô grande foi até agora , que
pouco ou nada cuidou nifto. Ai de mim Deos
meu! (direis vós) que cuidava eu, quando
naó cuidava em vós i De que me lembrava ,
quando me efquecia de vós i Que amava ,
quando a vós naó amava ? Miferavel de mim !
que devendo-me fuítentar da verdade , me en-
chia de vaid.de, e fervia ao mundo, que fó
fe fez para me fervi r a mim.
Deteftai a vida paliada. Eu vos renuncio
penfamentos váos , imaginações inúteis: abju-
ro-vos lembranças dereítaveis e frívolas : eu
vos renuncio amizades infiéis e desleaes , fer-
viços perdidos , e miferaveis , agradecimentos
ingratos , complacências enfadonhas.
Yoltai-vos a Deos. E vós ó meu Deos , e
Salvador ! vós unicamente íede daqui em di-
ante o obje&o dos meus penfamentos : nunca
mais aplicarei a attençaó a confiderações ,
que vos fejaó defagradaveis. Todos os dias de
minha vida fe encherá minha memoria da
grandeza da voíTa manfidaõ , ufada taó fuave-
mente comigo. Vós fereis as delicias do meu
coração , e a fuavidade dos meus afTe&os.
Eia pois, taes e taes fuperflu idades e di-
vertimentos , a que eu me applicava : taes e
taes exercícios váos , em que empregava meus
dias : taes e taes aífe&os , que empenhavaó
meu coração, me cau faraó horror daqui em
<3iante : e para iílo ufarei de taes e taes remé-
dios.
18 Introducçào
Conclufao.
i Dai graças a Deos , de vos crcar para
hum fim taõ excelleme. Vós , Senhor , me fí-
zeftes para vós , para que goze crernamente
da immenfidade da voíía gloria. Quando fe-
rei eu digna delia ? e quando vos bemdirei
eu como devo ?
2 OíFerecei. Eu vos ofFereço , ò meu
amado Creador , todos eftes meus affe&os e
refoluções , com toda minha alma e meu co-
ração.
3 Rogai. Suplico-vos , Senhor , vos agra-
deis dos meus defejos e propofitos , e conce-
dais á minha alma a voíía fanta benção ; pa-
ra que os poffa cumprir , pelos merecimen-
tos do Sangue de voííò Filho derramado na
Cruz.
Fa\ei bum ramilbetinbo de devoção*
CA-
A3 V I D A D E V O T A. 2$
tàmm — i L. — — — — i— — —
CAPITULO XI.
Dos Benefícios de Deos.
PREPARAÇÃO.
i Ponde-rvos na prefença de Deos.
2 Pedi-lbe que njos infpire.
CONSIDERAÇÕES.
COnfiderai as graças corporaes de que Deos
vos dotou : como corpo , commodidades
paia vos entreter , faude , confolaçóes licitas
para o corpo , amigos , afliílcncias : mas tu-
do ifto confiderai , comparando-vos com ou-
tras muitas peiToas melhores que vós , que ca-
recem de femeimtntcs benefícios : huns eit.ro-
peados de corpo , faude , e membros ; outros
expoftos aos d fprezos , opróbrios , e afrrontas ;
outros oprimidos om pobreza : e Deos naó
quiz que vós folieis raó miferavel.
Confiderai os dotes do animo. Quantos fu-
jeitos fia no mundo tontos , loucos e infenfa-
tos : e porque naó fofles vós hum delles. Hou-
ve-fe Deos comvofco beneficamente. Quan-
tos foraõ criados rufticamenre , e em íumma
ignorância, e a Providencia divina concedeo-
vos huma criação civil e honrada.
Ponderai as graças efpimuaes , Philotea.
Sois dos filhos da Igreja. Defde a vofía moci-
dade 3 vos tem Deos eníinado como o podeis
co-
70 IntroduccaÓ
conhecer. Quantas vezes vos tem dado feus
Sacramentos ? Quantas infpiraçóes , luzes in-
teriores, e reprehensóes para voíTa emenda í
Quantas vezes vos tem perdoado voíTas faltas ?
Quantas vos livrou das ocafióes de vos per-
derdes , a que eftaveis expofla. E todos eftes
annos que tendes vivido , naô iem fido ocafiaó
e commodidade de vo=; adiantar no bem de
voíTa alma. Confiderai hum pouco em particu-
lar , quanto Deos foi fuave e propicio para
comvofco.
AffeFtos , e refolucoes.
Admirai a bondade de Deos, Oh que bom
tem fido Deos para mim ! Oh quam bom he !
Que rico he , Senhor , voíío coração de mife-
ricordias , que liberal de beneficência ! Alma
minha , narremos continuamente os favores ,
que nos tem feito.
Efhanhai vofla ingratidão. Quem fou eu
Senhor , para vos lembrardes de mim í Que
grande he a minha indignidade ! Pizei aos pés
voííos benefícios, at onrei volTos favores, con-
vertendo-os em abufo e deiprezo de volía fo-
berana bondade : e oppuz o abifmo da minha
ingratidão , ao abifmo da volía graça e cle-
mência.
Excirai-vos a reconhecimento. Eia pois
coração meu , naõ queiras ler infiel , ingrato, e
desleal a taó grande bemfeitor. £ como naõ
fera minha alma âMc agora fujeita a hum
Deos , que tantas maravilhas obrou em mim
e por mim !
Eia pois , Philotea , retirai voíTo corpo ,
de
a5 Vida devota. 31
de taes e taes deleites , fujeitai-o ao ferviço
de Deos , que tanto por elle obrou : aplicai a
voíTa alma a conhecê-lo e reconhecê-lo , com
ertes e aquelles exercícios , que para iíTo fe re-
querem. Empregai cuidadofamente os meios ,
que ha na Igreja , para vos falvar e amar a
Deos. Aírim o farei , frequentarei a Oração ,
os Sacramentos , ouvirei a palavra de Deos ,
praticarei as infpiraçóes e conlelhos.
Co ti cl uf ao.
1 Agradecei a Deos o conhecimento que
agora vos deu da voíTa obrigação 5 e de todos
os benefícios , que tendes recebido.
2 OfTerecei-lhe voíTo coração , com todas
voíTas refoluçóes.
3 Pedi-lhe , vos fortaleça , para fielmente
as pordes por obra , pelos merecimentos da
morce de íeu Filho. Implorai a inrercelTaó
da Virgem, e dos Santos. Pater twíter , A<-ue
Maria.
Fá\ei hum ramilbetinho efpiritual.
CA-
32 Introducçao
CAPITULO XII.
Meditação IP". Dos peccados.
PREPARAÇÃO.
i Ponde~<vos na prefença de Deos.
z Pedi-lhe , que <vos ínfpire.
CONSIDERAÇÕES.
COníiderai , quanto tempo ha que começaf-
tes a peccar , e vede quanto ie tem multi-
plicado em voílo coração os peccados , defde
elTe primeiro principio : como todos os dias os
foíles aumentando contra Deos , contra vós
melms. , contra o próximo , por obra , por
palavra , por defejos e penfamentos.
Confiderai voiTas más inclinações , e quan-
to as tendes feguido : e por eíies dois pomos
vereis , que voltas culpas faó mais em numero
que os c i belos de voíía cabeça, e ainda que
as áreas do mar.
Confiderai por outra parte o peccado de in-
gratidão para com Deos, que he hum pecca-
do geral ^ que tranfcende por todos os outros ,
e os faz enormiJíimos. Vêdfe pois , quantos
benefícios vos tem Deos feito , e que de to-
dos abuíafles contra o dador. Efpecialmente ,
quantas infpi rações defprezadas , quantos bons
movimentos inúteis. E fobre tudo , qual foi o
fruto , que tiraííes , de tantas vezes que rece-
beíles
a3 Vida devota: 33
beftes os Sacramentos ? Que he feiro deitas
preciofas jóias , com que voflb amacio El poio
vos tinha ornado ? Tudo ficou fepultado em
voílas iniquidades. Com que preparação os re-
ceberes í Confiderai neíta ingratidão , que ten-
do Deos corrido tanto em vofíb alcance , pa-
ra vos falvar , fempre fugiit.es delle para vos
perder.
Ajfeãos , e refolnçoes.
Confundi-vos na voíTa miferia. Oh meu
Deos ! como me atrevo a aparecer diante de
volíos olhos i Miferave! de mim ! que naõ fou
mais que hum apoftema do mundo , e hum
charco de ingratidão e maldades ! He poífivel
que tenha eu fido taó desleal , que nem fe-
quer hum de meus fentidos , ou huma única
potencia de minha alma , deixei de eftragar ,
violar , e enxovalhar ! E que fe naõ paiTaííc dia
cm minha vida, em que naõ produzi (Te taõ
máos frutos ? He efte o modo , com que devia
agradecer os benefícios do meu Creador , e o
Sangue do meu Redemptor ?
Pedi perdão, e lançaivos aos pés do Se-»
nhor , como hum filho pródigo , ou como hu-
ma Magdalena , ou como huma mulher , que
manchou o thalamo nupcial com toda a forre
de adultérios. Senhor , mifericordia para efta
peccadora ! Ai de mim ! Fonte viva de pieda-
de , tende compaixão defta miferavcl.
Proponde melhorar de vida. Nunca mais ,
Senhor , mediante a voiTa graça , nunca mais
me arrojarei ao peccado. Pobre de mim ! que
outra, coifa cenho feito feciaõ arna-Io defenfrea*
C da»
34 Intkoducçaõ
damente ! Eu o deteílo , e vos abraço a vós 3
ò Pai de Miiericordia : em vós quero viver
e morrer.
Para apagar os peccados pafTados , acufar-
me-hei animofamenre delies , fem deixar ne-
nhum que naó lance de mim.
Farei todo o poííivel por defarraigar to-
talmente de meu coração as fementes do pec-
cado , efpecialmente taes e taes , que mais me
moleftaô.
E para o executar , aceitarei com muita
conftancia os meios , que me forem aconfe-
lhados : perfuadindo-me 3 que nada do que fi-
zer fera muito para reparar taó grandes fal-
tas.
ConclufaÕ.
1 Agradecei a Deos , tervos efperado até
agora , e darvos cites bons aíFe&os.
2 Fazei-ihe oferta do volTo coração y para
os efeituar.
$ Rogai-lhe , que vos conforte 3 &c.
CA-
A3 V I D A DEVOTA. ^
■————■li ■■ i ni— — mm i ■■ iH
CAPITULO XIII.
Meditação V. Ba Mone.
PREPARAÇÃO.
i Vonde-fvos na prefença de Deos.
2 Pedi- lhe a fua graça.
$ Imaginai , que e fiais na cama enferma j
fem efperança alguma de efcapar.)
CONSIDERAÇÕES.
C^ Onfíderai a incerteza do dia da voíTa mor*
> te. Alma minha , ha de chegar o dia , em
que iahirás defte corpo. Quando fera elle ? Se-
rá no Inverno ou no Veraó , na Cidade ou
na Aldeã , de dia ou de noite? Será impre-
vifto y ou advertido antes? Será de enfermida-
de 3 ou de accidenr.e í Tereis lazer para vos
confeíTar , ou naõ ? AíTiítirvos-ha voílb Con-
feífor e Padre efpirituai ? Ah , que de tudo
iíto naõ fabemos nada ! Só eftamos certos , de
que havemos de morrer , e ordinariamente mais
deprelfa do que cuidamos
Confiderai , que entaó fe acabará o mundo
para vos , fem vos ficar nada delle : dianie de
voífos olhes fe voltará de cima para ba xo.
Sim , porque entaó os goítos , as vaidades
e prazeres mundanos , e os váos afFe&os , fe
nos reprefentaráõ como fant3Írnas e fombras
vás, Miferavel de mim ! Porque bacatelas e
C ii chi-
36 Intboducçào
chiméras orfendi a meu Deos. Vereis , que
deixamos a Deos por nada. Pelo contrario as*
boas obras vos parecerão entaó mui apetecíveis
e fuaves. E porque naó fegui eu efte caminho
agradável e rermofo ? Os peccados que vos pa-
recido mui pequenos , vos parece áó enraó ra-
manhos como montanhas , e a voda devoção
pequena.
Conííderai as grandes e rriit.es defpcdidac,
que voíTa alma fará d.íle mundo inferior :
defpedirfe-ha das riqueza , das vaidades , das
companhias vás , dos goítos , dos paíTaiempos,
dos amigos e vizinhos, dos pais e filhos , da
mulher ■■, e em fim de todas as crearuras , até
de feu mefmo corpo , que deixará pálido ,
efpanrofo , desfeito , feio , e hediondo.
Confiderai a prelTa que haverá , em lan-
çar fora efte corpo , e cobri-lo de terra : e que
feito ifto , o mundo fe naô lembrará mais de
vós , nem terá maior lembrança , que a
pouca que vós tinheis dos outros. Deos o te-
nha em paz, diraõ ; e niílo fe encerra tudo.1
Oh morre , que imponderável ! que defapie-
dada es !
Confiderai que ao fahir a alma do corpo
toma feu caminho , ou para a direita , ou para
a efquerda Ai ! onde irá ? volTa ? Que cami-
nho tomará í Por certo , que naô fera outro a
que o que tiver começado nefte mundo.
Affeãos , e refoluçoes.
Orai a Deos , e Jançai-vos em feus bra-
ços- Senhor recebei-me debaixo da voífa pro-
tecção , naquelle dia tremendo. Concedei-me*
aquela
A5 V I D A D E V O T A. 37
aquella hora feliz e favorável , ainda que to-
das as mais de minha vida fejaó triftes e de
afrlicçaó.
Deíprezai o mundo. Já que naó fei , Mun-
do , a hora em que te hei de deixar , eu me
naó quero apegar a ti. O3 meus amados ami-
gos , meus queridos parentes , permitti-me ,
que vos naó tenha mais affl^o que huma fan-
ta amizade , que poíTa permanecer eterna-
mente : porque de que me' fervirá , unir-me
a vós de íbrce , que feja precifo quebrar eftes
laços í
Defde agora me quero preparar , e por o
cuidado nece Tario , para fazer com felicidade
efta paíTagem. Quero fegur r o eftado de mi-
nlv conciencia , quamo me for poíHvel , e pôr
remédio a taes e taes faltas.
Conclufao.
Dai graças a Deos deftas refoíuções que
vos deu. Oferecei-as a Sua Mageítade. Tor-
nai-lhe a pedir , que vos dè feliz morte , pe-
los merecimentos da de feu Fiiho. Implorai o
favor da Virgem , e dos Santos. Pater Nojlerj
Ave Maria , é<c.
FazçiJium ramilhete de myrra.
CA-
38 iNTFODUCqAÕ
CAPITULO XIV.
Jlsleditaçao VI. Do Juizp.
PREPARAÇÃO.
1 Vonde--vos diante de Deos.
Z Pedi-lbe que -z'os infpire.
CONSIDERAÇÕES.
EM fim depois do tempo , que Deos (ina-
lou de duração a efte mundo , e depois de
muitos finaes e preíagios horríveis , com que
os homens fe mirrarão de medo e efpanto ; o
fogo , vindo como hum diluvio , abrazará e
reduzirá a cinza toda a face da terra , fem lhe
efcapar coifa alguma , das que vemos fobre
ella.
Depois deite diluvio de chamas e raios ,
refufcitaiáó todos os homens da terra ( excepto
os que tem já refufcitado ) e á voz do Arcan-
jo comparecerão no valle de Jofafat. Mas oh ,
com quanta diferença ! porque hims eítaráõ
com corpos gloriofos e reípiandecentes : e ou-
tros com elles hediondos e horríveis.
Conílderai a mageftade com que aparece-
rá o Supremo Juiz , cercado de todos os An-
jos e Santos , trazendo diante de fi a Cruz
mais refphndecente que o mefmo Sol ; infíg-
nia de graça para os bons , e de rigor para os
tnâos.
Com
a* Vida devota, 39
Com feu terrível mandado , que fera pon-
tualmente executado , feparará o Supremo
Juiz os bons dos mãos : pondo huns à fua maõ
direita , e outros á efquerda. Separação eter-
na , depois da qual nunca mais fe tornaráõ
a ajuntar eftes dois ranchos.
Feita efta feparaçaõ , e abertos os livros
das conciencias , fe verá claramente a malí-
cia dos máos , e o defprezo que fizeraõ de
Deos : e por outra parte a penitencia dos
bons , e os eíFeitos da graça de Deos que re-
ceberão , fem nada fe encobrir. Oh que con-
fufaõ , Senhor , para huns j e que confolaçaõ
para os outros !
Confiderai a final fentença dos máos. Ide
malditos para o fogo eterno , que eftá apare-
lhado para o diabo e feus companheiros (1).
Ponderai taõ pefadas palavras. Ide diz , que
he huma expreffaó de perpetuo defamparo ,
que Deos intimou aos malaventurados , banin-
do-os perpetuamente da fua face. Chama-lhe
malditos. Alma minha , que rtialdiçaõ he ef-
ta? Maldição geral , que comprehende todos os
males , maldição irrevogável que compren-
de todos os tempos , e eternidade. Acrefcenta
o Senhor , para o fogo eterno. Confidera , ò
coração meu, efta grande eternidade. Oh perpe-
tua eternidade de penas, como es formidável í
Confiderai a fentença contraria dos bons.
Vinde , diz o Juiz ( oh que agradável pala-
vra de falvaçaõ he efta 3 com que Deos nos
atra-
(1} Matth. 25. v. 51. Difcedite ti me maltditti «
ignem , qtti p aratus efi dlubok g* Angcl.s ejus.
4o Introdvcçaõ.
atrahe a fi , e nos recebe no grémio de fua
bondade!) bemditos de meu Pai. Oh amada
benção , que comprehende todas as bênçãos !
PoíTui o Reino que vos eità aparelhado defdc
a conftituiçaó do mundo (i) . Oh bom Deos !
que incomparável mercê, polluir hum Rei-
no 3 que nunca terá fim !
Affcãos , e refoluçoes.
Treme , alma minha , com efta lembrança.
Oh meu Deos, quem me poderá fegurar na-
quelle dia, em que as columnas do Ceo tre-
merão de pavor.
Abominai voílbs peccados , pois ío elíes
vos podem fer de perdição nefte temeroíb dia.
Quero julgar-me a mim mefma agora , para
que naó íeja julgaria depois : quero examinar
minha conciencia , e condenar-me , acufar-
me , e reprehender~me, para que o Juiz me naó
condene naquelle dia tremendo. ConfeíTarme-
hei pois , e aceitarei os aviíbs neceiíarios , &c.
Conclufaff.
t Dai graças a Deos , por vos dar meios ,
de vos aííegurar para aquelle dia , e tempo
para fazerdes penitencia.
2 Oíferecei-lhe o voíío coração , para a
fazerdes.
:$ Pedi-lhe vos conceda st graça , de vos
perdoar inteiramente. Pater N. Ave Maria*
Faxei hum ramilbete.
CA-
(O Ibid.' v. $4. Venlte bcneáitllPatris mei ypjjide-'
te par atum vobis reptam a conjlltuilons mnudi.
a' Vida devota. 41
CAPITULO XV.
Meditaç.10 VIL Do Inferno.
PREPARAÇÃO.
1 Vonde-^vos na prefença de Deos.
2 Humilhdi-<vos , e pedi-lbe a fua ajjiftencia.
3 Imaginativos em huma Cidade , toda ar-
dendo em fogo de enxofre e pe\pe (li fe-
ro , cheia de habitadores 3 que nunca,
poderão fahir delia.
CONSIDERAÇÕES.
OS condenados eftaõ no abifmo do Infer-
no , como em huma Cidade dcfaventura-
da , na qual padecem tormenn.s indizíveis
em rodos feus íencidos e membros : porque
aífim como empregarão todos em pcccar , aflim
padecerão em todos as penas devidas ao pec-
cado. Os olhos , por fuás erradas e perverfas
viftas , padoceiáó a horrível vifaó dos diabos ,
e do Inferno : os ouvidos , por fe terem de-
leitado em difeurfos peccaminofos , naó ouvi-
rão já mais fenaó prantos , lamentações , e
defefperaçóes : e a mm dos mais.
Além de todos eftes tormentos , ainda ha
outro maior , que he a privação e perda da
gloria de Deos , da qual eftaó excluídos para
lempre.
E fe Abfalam entendeo , que a privnçaõ
da face benévola de feu pai David , era mais
Fe:
42 Introducçao
penofa que o feu deílerro ; oh bom Deos !
que affliçaô fera , fer privado para fempre ,
de ver voíTo benigno e fuave femblante !
Confiderai fobre tudo , a eternidade deitas
penas , que per fi io faz infofrivel o Inferno.
Ai ! Se huma pulga no ouvido , fe o calor de
huma pequena febre , faz huma breve noite ,
comprida e enfadonha , que terrível naó fera
a noite da eternidade de tantos tormentos. Def-
ta eternidade procede a defcfperaçaõ eterna,
as blasfémias e raivas infinitas.
Affeãos 9 e refoluçoes.
Amedrentai voffa alma com as palavras
de Ifaias. Alma minha : poderás tu viver eter-
namente neftes incêndios intermináveis , e no
meio deite fogo voraz (i) í Queres deixar pa-
ra fempre a teu Deos ?
Confeííai que o tendes merecido muitas
vezes. Mas daqui em diante , quero tomar pe-
lo caminho contrario : para que procuro eu
baixar a eíle abifmo ?
Por tanto praticarei tal e tal diligencia pa-
ra evitar o peccado , que unicamente me pode
caufar efta morte eterna.
Dai graças , offerecei , e rogai*
CM
( l ) Ifai. $$. v. 14. Quh poterit habitarc cymigne
devorante ? Çum ardoribus fenipiternis.
Ay Vida de v o ta. 43
CAPITULO XVI.
Meditação VIIL Do Ceo:
PREPARAÇÃO.
1 Ponde-wos na prefença de Deos.
z Fa^ei a invocação.
CONSIDERAÇÕES.
COnfiderai huma bela noite mui ferena , e
ponderai quaó agradável he ver o Ceo ,
com tal multidão e variedade de eftrelas. Ora
ajuntai toda efta formofura com a de hum
claro dia , de forte que o refplandor do Sol
naó impida a clara vifta das eftrelas , nem da
Lua : e depois dizei afoitamente , que toda
efta fermofura junta he nada em compara-
ção das excelências e grandeza do Ceo. Que
amável e eftimavel he femelhante lugar ! Quaó
preciofa cidade efta !
Ponderai a nobreza , a formofura, e a mul-
tidão dos Cidadãos e habitadores deite dirofo
Paiz : os milhões e milhões de Anjos , de Che-
rubins e Serafins : eíTes exércitos de Apofto-
los , de Martyres , de ConfeiTores , de Vir-
gens e Santas mulheres , naó tem conto ou nu-
mero. Oh que bemaventurada companhia ef-
ta ! O menor de todos he mais viftofo que
todo efte mundo : que fera ver a todos ! Oh
Deos meu , e quaó felizes faó 3 pois cantaó
fem
44 Introducçào
fem ceTar os doces Cânticos do Amor eterno :
gozaó fempre de huma confiante alegria : huns
a outros fe retribuem Indizíveis prazeres , e
vivem na conlolaçaó de huma ditofa e indiíTo-
luvel companhia.
Confiderai em fim , o bem que polTuem to-
dos , em gozar de Deo? : que perpetuamente os
ellá remunerando , com fua benigna prefença :
e por meio defta infunde em feus corações
hnm mar de delicias. Oh que grande bem ,
eftar fempre unido à fua origem ! Eítaõ alli
como aves felizes , cantando e voando fem
ceifar no meio do ar da Divindade , que por
toda a parre os rodea com incriveis prazeres :
cada hum á porfia , e fem inveja , entoa os
louvores do Creador : Bemdito fejais . ò So-
berano e doce Creador e Salvador noíTò ! que
taõ bom fois para nós , comunicando-nos raó
liberalmente voíTa gloria. E reciprocamente
abençoa Deos com bençaó perpetua todos feus
Santos: Bemdiras fejais perpetuamente , ( lhe
diz ) minhas amadas creaturas , que me ten-
des fervido , e me louvareis eternamente com
eterno amor e fervor.
Affeãos , e refoluçoes.
Admirai e louvai aefta Pátria celeftial. Oh
que fermofa es minha amada Jerufalem 3 que
bemaventurados faõ teos Cidadãos !
Reprehendei o pouco esforço , que aré aço-
ra teve o voífo coração : pois íe apartou ran-
to do caminho deita gloriofa morada. Porque
me tenho aparrado tanto , da minha fumma
felicidade? Míferavel de mim! Poreiíesgof«
tos
A3 V I D A D E V O T A. tf
tos defabridos e ridículos , tenho milhares e
milhares de vezes defprezado eítas perpetuas
e immenías delicias. Onde tinha o juizo ,
quando defprezei bens taó eftimaveis , por
huns defejos váos e defpreziveis.
Afpírai pois com vehemencia a efta deli-
ciofa morada. Meu bom e Soberano Senhor ,
já que foit.es fervido de indirckar meus paf-
fos pelos voííos caminhos , nunca mais retro-
cederei delles. Eia pois alma minha amantirli-
ma , vamos para eíle defcanço infiniro : ca-
minhemos para efta terra abençoada , que nos
he prometida. Que fazemos nefte Egypto ?
Defembaraçarme-hei pois de taes coifas ,
que me eítorvaó , ou retardão nefte cami-
nho. Praticarei ifto e aquiilo 3 que para alli
me podem conduzir.
Dai graças , oferecei , rogai.
CA-
46 Introditcçaó
CAPITULO XVII.
Meditação IX, Por modo de eleição e efcolhx
do Ceo.
PREPARAÇÃO.
i Vonde-<vos na prefença de Deos.
2 Humilbai-evos diante delle , rogando vos
infpire.
CONSIDERAÇÕES.
IMaginai que eítais em huma campina rafa ,
deferta , ío com o vofTo Anjo da guarda ,
como eftava o mancebo Tobias , quando hia
para Rages : e que lâ no alto , vos moítra o
Ceo aberro , com os prazeres reprefentados
na meditação do Paraifo , que íizeftes. E de-
pois pela parte inferior , vos faz ver o Infer-
no aberto , com rodos os tormentos menciona-
dos na medicação do Inferno : figurando tudo
iíto imaginariamente , e eftando pofta de joe-
lhos diante do voíTo Anjo bom.
Confiderai que he cerciííimo eftardes en-
tre o Ceo e o Inferno , e que hum e outro cí-
taó abertos para vos receber , fegundo a efeo-
lha que fizerdes.
Confiderai que a efeolha que fe faz nefte
mundo , durará eternamente no outro.
R ainda que ambos eftaõ abertos para vos
receber , fegundo a voíla efeolha : e Deos eí-
tá
A5 V I D A D E V O T A. 47
cã prompto a dar-vos , ou hum por fua jufti-
ça , ou outro por fua mifericordia : deieja
com tudo incomparavelmente , que efcolhais
o Ceo : e vofib Anjo bom vos ajuda com todo
feu poder , oírerecendo-vos da parte de Deos
mil graças, e mil íbcorros para vos animar
a lá íubir.
Jeru Chriílo vos eftá vendo do alto do Ceo
com clemência , e vos convida amoroíamen-
te. Vem alma minha querida , para o defcan-
ço eterno entre os braços de minha bonda-
de, que te tem preparado immortaes delicias
na abundância de* feu amor. Vede com os
olhos interiores a Virgem Santifíima , que
vos convida com affecto maternal. Animo ,
filha minha , naõ queiras defprezat os defejos
de meu Filho , nem tantos fufpiros como dou
por ti , fufpirando com eile pela tua falvaçaó
eterna. Olhai os Santos que vos exhortaó , e
hum milhão de Almas fantas , que docemen-
te vos convidaó ; naõ defejando mais , que
ver o voíTò coração junto com o feu , para
louvar a Deos eternamente : e vos aiTeguraõ,
que o caminho do Ceo naó he taõ trabalhofo
como o mundo o faz. Ardentemente vos ef-
taõ ellas dizendo : Amiga amantiííima , quem
confiderar bem o caminho da devoção por
onde temos fubido , verá que chegámos a ef-
tas delicias, por meio de humas delicias in-
comparavelmente mais fuaves , que todas as
do mundo.
Eleição.
Eu te abomino , Inferno , agora e para
fem-
48 Introducçao
fempre deteíto teus tormentos e penas , abo*
mino tua infeliz e desventurada etenidade:
e fobre tudo , a^ eternas blasfémias e maldi-
ções , que vomitas eternamente contra meu
Deos. E voltando meu coração e minha alma
a ti , ò fermofo Ceo ; gloria erema , perpe-
tua felicidade , efcolho para fempre e irrevo-
gavelmente meu domicilio e habitação , em
tuas fermofas e fagradas moradas , e em teus
fantos e eítimaveis tabernáculos. Bemdigo ,
Deos meu , voíTa miíericordia : e aceito a of-
ferta , que fois fervido de me fazer. Oh Je-
fus , meu Salvador ! aceito voffo amor eter-
no , e confinto na poíTe que tendes tomado
por mim , de hum folar e morada neíTa Jeru-
lalem bemavenrurada : naõ tanto por outro
algum motivo, como por vos amar e bemdi-
zer eternamente.
Aceitai os favores que a Virgem e os San-
tos vos ofrerecem : prometei-lhe caminhar pa-
ra onde elles eíbó : dai a maõ ao voíío Anjo
da guarda , para que que vos conduza : ani«
mai a voíTa alma a eíla eleição.
CA
A' Vida devota, qy
CAPITULO XVIII.
Meditação X. Por modo de eleição , que a al-
ma Ja\ da vida devota.
PREPARAÇÃO.
i. Fonde-vos na prefença de Deos.
z Humilbai-ijos na fua face 9 e pedi4be
vos ajude.
IMagínai outra ve2 , que eílais cm huma,
deferta campina , fó eom o voíío Anjo da
guarda : e que à voíía maó efquerda vedes o
demónio fobre hum grande throno mui eleva-
do , rodeado de muitos efpiritos infemaes , e
grande multidão de mundanos , que com as
cabeças defcobertas o reverenceaó , e lhe ren-
dem homenagem : quaes com hum peccado s
quaes com outro. Olhai a poftura de todos os
de/aventurados vaffalios deite abominável Rei.
Vede huns furiofos de raiva , inveja , e cólera?
outros que a íi mefmos fe tiraó a vida s ou-
tros macilentos , penfativos , e ocupados em
juntar riquezas: outros entregues a vaidades ,
iem género nenhum de prazer 3 que naó íej.i
inútil e vaó : outros immundos , perdidos , e
corruptos em feus brutaes apetites. Vede co-
mo eíiaó fem focego , fem ordem , nem ccn-
-certo. Vede como fe defprezaó huns a ou*
uos , e íe naó amaó íenaó fingidamcnte. Em
£m vereis a huma calamitcla Republica ?
D tyra-
5T0 IntroducçàS
tyranizada defle maldito Rei , que vos meterá
compaixão.
A5 parte direira vede a Jefu Chrifta Cru-
cificado , que com hum amor cordial roga
por aquelles miferaveis pofluldos do demó-
nio , para que faraõ deita tyrania : e que os
chama para íi. Vede hum grande efquadraó
de devotos , que o cercão com feus Anjos.
Contemplai a rormofura deíle Reino de devo-
ção. Quaó viftofo he eí!:e exercito de Virgens,
homens, e mulheres, mais claros que açucenas :
efte ajuntamento de Viuvas , cheias de huma
fagrada mortificação e humildade. Vede a or-
dem de tantas peíToas caiadas , que taó fuave-
mente vivem juntos , com mutuo refpei-
to , o qual naó poderiaõ ter fem mutua cari-
dade. Vede como eítas almas juntaó o cuida-
do de fua cafa exterior com o da interior , o
amor do marido com o do Efpofo celeftial.
Lançai geralmente a viíta por todos , vêlos-
heis em huma Tanta íuave e benévola conti-
nência , oiavindo a Nofíb Senhor , e defejan-
do metelo dentro em feu coração. Alegraó-
fe , mas com huma alegria engraçada , cari-
tativa , e bem regulada : amaó-fe , mas com
hum amor fagrado e puriílimo. Os que pade-
cem aflicçóes neíte povo devoto , naó fe def-
afocegaó ttiuito , nem perdem o fofrimento.
Em fim , vede como o Salvador com feus
olhos os confoia , e que todos afpiraõ a elle.
Vós já deixaftes a Satanás , com fua mal-
dita companhia pelos bons affeclos , que ten-
des concebido : e naó obftante , ainda naó che-
gaftes ao Rei Jefus , nem vos juntaftes á fua dí-
tofa
A5 V I D A D E V O T A, ff
rofa e fanta companhia de devotos : mas tcn*
des fempre eftado entre huma e outra.
A Virgem Sahciífiifia com S. Jofeph 9 S,
Luís , Santa Mónica , e cem mil outros ? que
eílaó no efquadraõ daquelles , que viveraóno
meio do mundo , vos convidac e alentaõ.
O Rei Crucificado vos chama por vcíío
nome próprio : Vem amada minha , vem para
eu te coroar.
Eleição.
Oh mundo ! oh turba abominável ! Nun«
ca mais me verás íeguir tuas bandeiras. Para
fempre tenho deixado tuas vaidades e loucu-
ras. Pvei da íoberba , Rei maldito , efpirito in-
fernal , eu te renuncio com todas tuas pompas
vás , eu te detefto com todas tuas obras.
E convertende-me a vós , meu doce Jefus ,
Rei de bemaventurança e gloria eterna , vos
abraço cem todas as forças de minha alma.
Eu vos adoro de todo o meu coração : e vos
efeolho agora e para fempre por meu Rei : c
para teftimunho de minha inviolável fidelida-
de vos tributo huma irrevogável homenagem.,
c me fumeto à obediência de vcfías famas Iqís
e preceitos.
O5 Virgem Santiflima , minha querida
Senhora ! eu vos efeolho por minha guia , e
me ponho de baixo do voífo eílendar-te , e
vos oíiereço hum refpeito particular , e eipe-
cial reverencia.
O5 meu Santo Anjo ! aprefentai-me a
cíía fanta companhia : naõ me defampareis ,
até que chegue ao porto bemaventurado com
D ii el-
$z Introducçaõ
cila : com a qual digo e direi fempre , em tef-
timunho da minha eleição : Viva Jeíus , Vi-
va Jeíifs.
CAPITULO IX.
Como fe deve fazer a CotijiflaÕ geral
Elfaqui pois , minha cariíííma Philotea ,
as meditações precifas ao noffo intento»
Depois de as terdes praticado , entrai animo-
famente com efpirito de humildade a fazer
a voíTa Confiííaó geral; mas peço-vos , que
vos naõ deixeis defafocegar com género al-
gum de aprehenfaó. O eícorpiaó quando nos
morde he venenofo , mas o feu mefmo óleo
he grande medicina contra a fua mordedura.
O peccado he afrontofo quando o comete-
mos , mas convertido em Confiííaó e peniten-
cia , he honro fo e íaudavel. A contrição e
confiííaó faó taõ formofas e de tal fragrância ,
que tiraó a fealdade, e diííipaó o mào chei-
ro do peccado. Simaó o Leprofo dizia que
a Magdalena era peccadora \ mas No fio Se-
nhor diífe que naó : e fó falou dos perfumes
♦que derramou , e da fua eminente caridade.
Se formos mui humildes , Philotea , nos def-
agradará infinito o peccado , pbr fer Deos com
elle ofendido : mas a acuíaçaó do noffo pec-
cado nos fera fuave e agradável , por fer
Deos com ella honrado. Hum género de ali-
vio grande , he declararmos bem ao Medico
a qualidade do mal que nos atormenta. Quan-
do
A3 V I D A D E V O T A. 5-3
do chegardes á prefença do voíTo Padre e fp i ri-
tual , imaginai que eftais no monte Calvário ,
debaixo dos pés de Jefu Chriílo crucificado ,
cujo Sangue prsciofo diftila por toda a par-
te , para vo^; lavar de voíTas iniquidades. Por-
que ainda que efte njó feja o próprio Sangue
do Salvador , com tudo he o merecimento do
feu Sangue derramado , que em abundância
rega os penitentes nos Confeíiionarios. Abri
pois bem o volTo coração , para que faiaõ
delle os peccados peia Conhlíaó , porque ao
mefmo pailo que fali irem , entrará o preciofo
merecimento da Paixaó divina , para vos en-
eher de benção.
Dizei tudo aquilo de que vos acufardes ,
fincéra e claramente : contentando niílo a vof-
fa conciencia , e dando-lhe huma boa vez : e
feito iito , ouvi as advertências e mandados do
Miniftro de Deos , e dizei em voiTo coração :
Falai Senhor , porque voíla ferva ouve.
(1) Sim 3 Philotea , Deos he a quem ouvis ;
pois elle diílè a feus Vigários : Quem a *vós
eufe, a mim otrve (2). Tomai depois nas máos
a feguinte proteltaçaó , que fervirá de remate
a toda a voiTa contrição , a qual deveis ter pri-
meiro coníiderado e meditado. Lêde-a atenta-
mente , e com o maior affeclo , que vos foz
poííivel.
CA-
ÇO I. Rzg. j. v. 9. Loaucrc Vc;;:;íic , cu:a audit
ftrvus tuus.
(j.) Lu;. 10. v. 16. Qui vos audit M mç audit*
ça Introducçào
CAPITULO XX.
frotefljçaÕ authentica , para gravar na alma
a refoluçao de fer-vir a Deos , e concluir
os aóios de penitencia.
NA prefença de Deos Eterno , e de toda a
Corte Celeftial fubfcrevo refolvo e pro-
teito : que conílderando a immenfa mifericor-
dia de fua divina bondade para comigo , in-
digniílima e viliílima çreatura fua , que creou
de nada , conferva , e fuítenra , livra de tantos
perigos , e enche de tantos benefícios : mas fo-
bre tudo , tendo confiderado a incomprehen-
íivel doçura e clemência , com que efte bo-
niíhrne Deos me tem taõ benignamente tole-
rado em minhas maldades ; infpirando-me fre-
quentemente com tanta benevolência , convi-
dando-me á emenda , e efperar.do-mc com
tanta paciência a penitencia e arrependimen-
to are eíte N. anno de minha idade : naõ
obílar.res todas minhas ingratidões deslealda*
des e infidelidades , com que diferindo minha
fonverfaõ , o ofendi de fp rezando imprudente*
mente a (tia graça. Tendo confiderado , que
no dia de meu fagrâde Bautifrho , fui ditofa e
fantamente (oferecida e dedicada a meu Dens ,
para fer filha fua : e que contra a p ro filia õ
PU0 fe fez em meu nome , tintas e tantas ve-
ies infeliz e abominavelmente profanei e vio-
lei minha alma 9 applicando-a, e empregando-a
ççnrra a divina Ivlageílade. Volrando-me ago-
ra
A' V I D A D E V O T A, Çf
ra a mim meíma , proílrada com coração e
alma ante o Throno da Juítiça divina , me re-
conheço proreíto e confeiTo 3 por legitimamen-
te incúria e convencida de crime de leia Ma-
geftade divina , e culpada na Morte e Paixão
de Jefu Chfifto , em razaó dos peccados que
tenho cometido 3 peles quaes elle morreo e
padeceo os tormenros da Cruz. Por confeguin-
ce, digna fou da perdição e condenação eterna.
Mas voitando-me ao Throno da infinita
miferkordia deite mefmo Deos Eterno , depois
de ter deteítado de todo o meu coração , e
com todas minhas forças , as maldades da mi-
nha vida paliada , humildemente peço e ro-
go graça perdaó e mercê , com inteira ab-
tolviçaó da minha culpa , em virtude da Mor-
te e Paixaó do mefmo Senhor e Redemptor
de minha alma : na qual eftri bando- me como
em único fundamento da minha efperança, no-
vamente ofereço c renovo a fagrada proíhTaó
de fidelidade , feira da minha parte a meu
Deos no Bautifmo ; renunciando ao diabo
ao mundo e a carne ; deteíiando luas maldi-
tas fugeílóes vaidades e concupifcencias , por
todo o tempo da minha preieme vida , e de
toda a eternidade: e convertendo- me a meu
Deos benigno e piedofo , deíejo e proponho 5
determino e refolvo irrevogavelmente fervi-
lo e ama-lo, agora e eternamente : cntiegan-
do-lhe a efte fim , dedicando-lhe e confagran-
do-lhe minha alma com todas fuás potencias ,
meu entendimento com todas fuás faculdades ,
meu coração com todos feus affeftos , meu
corpo com todos feus feriados : proteilando
de
$6 IntroducçaÕ
âe nunca mais abufar de parte alguma do meu
íer contra fua divina vontade e foberana
Mageítade ; á qual rne offereço e facrifico em
efpiriro , para fempre fer leal obediente e fiel
creatura ; fern que já mais me queira difto
defdizer , nem arrepender. E fe por fugeítaõ
do inimigo , ou por alguma humana fraque-
za , me íucceder , contravir em alguma cot-
ia a efta minha refoluçaó e dedicação , òeíác
agora protefto e proponho , mediante a graça
do Efpiriro Santo , de me levantar , tanto que
o advertir, convertendo-me de novo á Mife-
ricordia divina, fem demora nem dilação ne-
nhuma. Efta he a minha vontade , a minha
intenção , e a minha refoluçaó inviolável e
irrevogável ; a qual prometo e confirmo , fem
Referva nem excepção , na mefma divina pre*
fença de meu Deos , e á viíla da igreja triun-
fante . e na face da Igreja militante minha
rnái , que prefencea efta minha declaração ,
na peííòa daquelie , que como feu Miniftro
me ouve nefta acçaõ. Dignai-vos pois , ò meu
Deos eremo , todo poderofo e todo bom , Pa-
dre , Fiího , e Efpiriro Santo , confirmar em
mim efta refoluçaó , e açorar o meu facrifir
cio cordial e interior, em cheiro de fuavida-
de. Ê aílim como foi do vofío beneplácito
dar-me a infpiraçaó e vontade de o fazer ,
tíai-me também as forças e graça necelTaria
para o aperfeiçoai. O5 meu Deos í Vós foi s
meu Deos , Deos do meu coração , Deos da
minha alma , Deos do meu efpiriro : portal
vos reconheço e adoro agora e por toda a eter-
nidade. Viva Jefus.
CA-
A?VlDA DEVOTA. 57
I 1 , 1 -i
CAPITULO XXL
ConclufaÕ defia primeira purificação,
FEica efta proteftaçaó eftai atenta , e apli-
cai os ouvidos do voíTo coração , para
ouvirdes em efpirito as palavras da voíTa abíol-
viçaó , que o meímo Salvador da voíTa alma ,
íenrado no Throno de Tua mifericordia , pro-
nunciará dos altos Ceos , diante de todos os
Anjos e Santos : ao mefmo tempo , que em
ícu nome vos abioive o Sacerdote na ter-
ra. E regozijando-íe todo o exercito de Bem-
feRfenturados da voíTa felicidade , cantará o
Cântico efpiritual com incomparável ale-
gria ; dando todos ofculo de paz e amizade
áo vcíío coração , poíto já em graça e fantifi-
cado.
Bom Deos , Phiiotea ! Que admirável
contrato ! no qual fazeis hum ditofo concer-
to com lua divina Mageftade : porque entre-
gando-vos a elle , o ganhais , e a vós mef-
ma para a vida eterna. Naó reíta mais ienaó,
que tomando a penna na maó , firmeis de boa
vontade o auto da voíía protefhçaó : e que
depois vades ao Altar 3 onde Deos reciproca-
mente aiíinará e felará a voíTa abfolviçaó , e
a promeila que vos fará do Ceo , pondo- fe a
fi mefmo facramentado , como hum ia^rado
íinete e íello fobre voíTo coração renovado.
Defte modo , Phiiotea , entendo ficará a
«yoiía alma purificada do peccado , e de todos
o?
58 Intbodvcçào
os afTe&os do peccado. Mas como eíles afre-
&os renafcem facilmente na alma , porcaufa,
da noíTa fragilidade e da nolTa concupifcencia,
que póJe fer mortificada , mas naó pôde mor-
rer , em quanto formos vivos nefte mundo;
darvos-hei documentos, os quaes fe os praticar-
des bem , vos prefervaráõ daqui em diante do
peccado mortai , e de todos feus affe&os : pa-
ra que nunca já mais poíía ter lugar no voííb
coração. E porque os mefmos aviíos também
fervem para huma purificação mais perfeita ,
ames de vo-los dar , quero-vos dizer alguma
coifa deíla mais completa pureza , a que de*
ÍCjo conduzi r-vos.
CAPÍTULO XXII.
Que nos devemos purificar dos affeãos aos pec-
cados <veniat$.
QUanro mas vai efclarecendo o dia , tan-
to mais claramente vemos no eípelho
os defeitos c manchas do noíío rofto. De
Femelhame modo , á medida que a luz inte-
rior do Efpirito Santo alumia noíías conci-
encias , aítim vemos mais difundia e claramen-
te os peccados , inclinações, c imperfeições,
que nos podem embaraçar o dar-nos á verda-
deira devoção : e a mefma luz», que nos mof-
tra as faltas e defeitos , nos acende no defejo
de nos alimpar e purificar delias.
Defcobrireis pois , minha cariíííma Philo-
tea , que aiém dos peccados mortaes e feus af-
íecios y de que vos puiiticaftes com os exercí-
cios
A' V I D A DEVOTA. 5-9
cios jã mencionados , ainda tendes em voíTa
alma muitas inclinações e afFecros aos pecca-
dos veniaes : naó digo que defcobrireis pec-
cados veniaes , mas afre&os e inclinações
a elles. Huma coifa difere muito da outra :
porque nunca podemos eítar totalmente izen-
tos de peccados veniaes , ou ao menos perfe-
verar .por muico tempo nefta pureza : mas
podemos naó ter aífe&o algum aos peccados
veniaes. Bem fe vê > que huma coifa lie men-
tir hurna ou duas vezes por entretenimento ,
em ceifa de pouca importância ; e outra ter
affecto a eíle género de peccado.
Digo pois , que convém purificar a alma
de todo o arFe&o que tiver aos peccados ve-
niaes : iffco he , que naó deve voluntariamen-
te manter vontade de perfeverar cm género
algum de peccado venial. Porque feria dema-
nda iaxidaó , querer apoítadamente confer-
var em nolTa conciencia coifa caó defagrada-
vel a Deos , como a vontade de lhe defagra*
dar. O peccado venial , por pequeno que fe*
ja , defagrada a Deos : poíto que lhe naó áeC-
agrada tanto 5 que por illo nos queira conde-
nar nem perder. E fe o peccado venial lhe
deiagrada , a vontade e aíieclo que fe tem ao
peccado venial , naó he outra coifa que huma
refoluçaó de querer de fa gradar a lua divina
Mageííade. Como he poííivel , que huma al-
ma nobre queira , naó fó deiagradar a feu
Deos , mas ter affe&o a eflfe defagrado ?
Eíles afre&os , Philotea , faó directamen-
te oppoftos á devoção , aílim como os do pec-
cado mortal o faó á caridade : porque en fra-
que-
6o Intkoduccaô
.>
quecem as forças do efpirito , impedem as
coníolaçóes divinas , abrem porta ás tentações,
e ainda que naó mataó a alma , a tornaó fum-
mamente enferma. As mofcas que morrem no
unguento , diz o Sábio , deitaó a perder e ex-
tinguem a fua fuavidade. Quer dizer , que
quando as mofcas naó cahem no unguenro ,
mas fó o provaõ de palTa^em , naó perdem fe-
naõ o quetomaó: mas quando morrem den-
tro nelje , lhe tiraó a eltimaçaó e o boraó
a perder. Da mefma forte os peccados veniaes,
quando chegaó a huma alma devota , e naó
fe de. em nella muito tempo , naó a damniíi-
x-aó muico : mas fe efte3 mefmos peccados fe
demorarem na alma , pelo afFeão que ella
lhe tem , fem duvida deitarão a perdera fua-
vidade do unguenro , ifco he , da fama de-
voção.
As aranhas naó mataó as abelhas , mas
perdem e corrompem o feu mel: e com os fios
das fuás teas , que tecem na colmea , as em-
baraçaó de modo , que naó podem continuar
a íua obra. ífto íe entende , quando as ara-
nhas a!li eftaó de alfenro. Aíiim o peccado ve-
nial naó mata a noíTa alma , mas confome a
devoção , e embaraça tanto com os máos ha-
biros e inclinações as potencias da alma , que
naó pôde praticar a promtidaó da caridade ,
em que confiíte a devoção : o» que fe entende
quando o peccado venial mora de allento em
noíTa alma , pelo afreclo que lhe temos. Pou-
co mais de nada he , Philotea , dizer huma
inentirinha , defmaniar hum pouco em pa-
layias 3 em acções 3 cm viitas, em veftidos ,
em
a} Vida devota. 61
em gracejos 3 em jogos , em danças ; com tan~
to , que logo que eitas aranhas efpirituaes en-
trarem na noiTaaima, as rechacemos e defter-
remos , como fazem as abelhas com as ara-
nhas materiaes. Mas fe lhe coníenrirmos mora-
jem em noíTos corações , e naó ló iíto j
más nos aíFeiçoarmos a conferva-las e multi-
piica-las , brevemente veremos o noíío mel
perdido , e a colmea de noíía conciencia infi-
cionada e desfeita. Ainda torno a dizer : em
que razaó cabe , que huma alma generofa ,
fe agrade de defagradar a Deos , e fe afFeiçoe
a fer-lhe defagradavel , e efcolha livremente
querer o que íabe lhe he enfadonho?
CAPITULO XXI1L
Qirt convém purificar-nos do affeclo a coifas inú-
teis e perigo/as.
OS jogos , os bailes , os feítins , as pom-
pas , as comedias , fubitancialmente de
nenhum modo faõ coifas más , mas indiferen-
tes , porque fe podem praticar com culpa , ou
fem ella : com tudo fempre faõ coifas perigo-
fas, e arFeiçoar a ellas ainda he mais perigoío»
Digo pois , Phiiotea , que ainda que feia li-
cito jogar , dançar , enfeitar-fe , ouvir come-
dias honeíías , celebrar convires , nem por
iffo deixa de íer contrario á devoção , teraf-
feclo a eftas coifas , e fummamente nocivo e
perigofo. Naó he máo fazê-lo , mas ílm ter-
lhe aíFe&o. Grande perda he 9 femear na ter-
ra
6t Xntkoducçao
ra cie noffo coração afFe&os taó váos c lou-
cos, que ocupem o lugar das fantas impref-
soes , e impidaõ que o íuco de noífa alma , fe
empregue em boas inclinações.
Por ilTo os antigos Nazarenos fe abftinhaõ,
naó ío de tudo o que podia embriagar , mas
ainda das uvas e abraço : naó porque as uvas
nem o agraço embebedem , mas pelo perigo
que havia, de que comendo o agraço fe ex-f
citaíTe o defejo de comer as uvas , e comen-
do as uvas fe piovocaffe o apetite de beber o
moiro e o vinho. Naó digo pois que naó po-
demos ufar deitas coifas perigofas , o que af-
íevéro he , que nunca já mais poderemos em-
pregar nellas o aíFedo, fem arrifcar adevoçaó.
Os veados depois de terem paftado muito , fc
apartaó e retiraó ás fuás covas , conhecendo ,
que por eílarem mui pezados , rràó poderáó
correr , fe forem acometidos. E o coração do
homem , carregando-fe deites aíFedos inúteis
luperfluos e perigofos, fem duvida naó pódc
prompta ligeira e facilmente correr para feu
Deos , que he o verdadeiro alvo da devoçaóc
Os meninos pequenos affeiçoaó-fe e correm
atras das borboletas ; e ninguém o eílranha ,
pois Csió meninos : mas naó fora coifa ridícu-
la , ou antes deplorável , ver a homens feitos
cnrregar-fe e afTeiçoar-fe a taó indignas baca-
telas , quaes faó as coifas que nomeámos : as
quaes além da Cua inutilidade , nos põem em
perigo, de nos defmandar e defordenar pelas
íeguir ? Eifaqui , minha cariílima Philotea ,
porque vos digo, que convém purificar def-
tes aífe&os : porque ainda que os feus actos-
naó
a3 Vida devota, 63
naõ fejaó fempre contrários á devoção , os
affe&os com tudo lhe faó fempre prejudiciacs.
CAPITULO XXIV.
Qtte devemos purificar- nos das más inclina-
ções.
TAmbem temos , Philotea , certas inclina-
ções natura es , que como fe naó origina-
rão dos noílbs particulares peccados , propria-
mente naó faó peccados , nem monaes , n€jn
veniaes : mas chnmaõ-fe imperfeições , e feus
a&os defeitos e faltas. Por exemplo , S* Pau-
la fegundo refere S. Jeronymo rinha numa
grande inclinação á triíteza e melancolia : tan-
to aííim , que na morte de feus filhos e mari-
do J efteve em pontos de morrer de pena. Era
ifto huma imperfeição , mas naó peccado ,
pois era contra o feu alvedrio e vontade. Ha
alguns que de fua condição faó fáceis , ou-
tros aufteros , outros pertinazes na fua opi-
nião , outros propenfos â indignação , outros
á cólera , outros ao amor : em fumma , pou-
cas peíloas fe achaõ , em que fe naó poíTa no-
tar algum género de femelhantes imperfei-
ções. E pofto que eílas fejaó próprias e natu-
raes a cada hum , podem com o cuidado e
affe£ro contrario corrigir-fe e moderar-fe , c
até livrar-nos e puriíicar-nos delias. Di-
go-te j Philotea , que aííim o deves fazer.
Se fe tem achado modo de converter as amen-
doeiras azedas em doces â fomente com as
Jfu-
<?4 Introducçaó
furar junto ao pé , para que faia por allí o
íuco j porque naó poderemos nós excluir nof-
ias inclinações perverfas , para fer melhores ?
"Naó ha natural taó bom , que Te naó poíTa
perverter pelos hábitos viciofos : nem tam-
bém ha natural taó ave (To , que primeiramen-
te com a graça de Deos , e depois eom a rri-
duílria e diligencia , naó polia domar-fe e
vencer-fe. Por agora vou a dar-vos documen-
tos , e propor-vos exercícios , por meio do$
quaes purificareis volía alma dos afTedtos peri-
gofos , das imperfeições , e de todo o afFe&a
aos peccados veniaes: e de mais a mais alTe-
gurareis voífa conciencia contra todo o pecca-
do mortal. Deos vos conceda a graça de o?
praticardes bem.
f
SEt
6f
mmmmMmofmimmmjm
SEGUNDA PARTE,
QUE CONTEM VÁRIOS DOCUMENTOS t
para levantar a alma a Dcos , por meio da Ora-
ção , e dos Sacramentos.
CAPITULO I.
D^ Necejftdade da Oração,
A Oração alumiando o noíTo entendi-
mento com a claridade e luz divina, e
expondo a noiTa vontade ao calor do
amor celeílial , naó ha coifa que tanto purifi-
que noíTo entendimento de fuás ignorâncias ,
t a vontade de feus affe&os depravados. Eftà
he a agua de bençaó , cujo orvalho faz rever-
decer e florecer as plantas de noííos bons de-
fejos , lava nofías almas de fuás imperfeições ,
e locega em noíTos corações os feus affecfccs.
Mas fobre tudo vos aconfelho a mental ,
cordial , e particularmente a que fe faz fobre
a vida e paixaõ de NoíTo Senhor: paíTando-a
frequentemente pela memoria 3 toda a voíTa
alma fe encherá delle : aqui aprendereis os
íeus geftos , e formareis voiTas acções pele?
modelo das fuás. Elle he a luz do mundo , e
por iíTo nelíe , e por die , e com elle devemos
ítr efclareckios e alumiados. He a arvore de?
E de-
66 Introdvcçao
defejo , á fbmbra da qual nos devemos refref-
car. He a fonte viva de Jacob para o lava-?
tório de todas nofias manchas. Em fim os me-
ninos , á força de ouvir fuás mais , e balbu-
ciar com èlias 3 aprendem a fallar a íua lín-
gua ; e nós demorando-nos com NolTo Salva-
dor por meio da meditação , e obfervando
fuás palavras acções e aíFe£ios , aprendere-
mos , mediante a fua graça , a fallar obrar
e querer como eile. Aqui deveis parar 3 Phi-
lotea : e crede-me , que naõ poderíamos en-
trar a Decs Padre , fenaò por eita porta : por-
que allim como o plano de hum efpeiho naó
poderia terminar a noíTa vifta , fe naó eíli-
velíe pelo revés reveilido de eílanho ou chum-
bo : alíim neíle mundo inferior , naó pode-
ríamos contemplar bem a Divindade , fe naõ
eíliveíTe junta a fagrada humanidade do Sal-
vador: cuja vida e morte faó o obje&o mais
proporcionado fuave doce e proveirofo , que
podemos efcolher para noíTa meditação ordi-
nária. Nem por outra coifa fe chama o Se-
nhor , paó defcido do Ceo (i) , fenaó por-
que aííim como o paó fe deve comer com to-
da a forte de iguarias , aílirn o Salvador deve
íer meditado , coníiderado , e bufcado em todas
noiTas orações e acções. Sua vida e morte ef-
taó difpcfhs e diílri buídas em diverfos pon-
tos, para fe acomodarem á npíTa meditação ,
por diverfos Authores. Os que vos aconielho
iaó S. Boaventura , Belintano , Bruno , Ca-
piiia ,
(1) Joaru 6. v. 5 1. P*mis vivuiqaj de Coslo dejcei*».
éit.
A5 Vida devota. 6?
pilia, Fr. Luiz de Granada , e o P. Luiz dô
ía Puente.
Empregai neila cada dia huma hora antes
de jantar, podendo fer, no principio da manhã/
porque então eftãreíá com o efpiri-o mais déí-
embaraçado e frefco , depois do deícanço da
r.oice. Nem gaiteis mais de huma hora 3 fe o
voíTo Padre efpi ritual vo-lo naó ordenar ex-
preífa mente.
Se poderdes praticar effce exercido na Igre-
ja , e achardes nella baftanre íbcggfl , vos fe-
ra coifa mais fácil e acomodada : porque nem
pai , nem mái , nem mulher , nem marido 5
nem algum outro, vos poderá com razaõ impe-
dir que vos demoreis huma hora na Igreja : e
eftando fujcita a alguém , talvez naó podereis
ler huma hera taó defambaraçada em voíTa
cafa.
Ccmeçai toda a forte de Oração , tanto
mental , como vocal , pela prefença de Deos :
e abraçai efta regra f^m exceiçaô ; e vereis
fem pouco tempo , de quanto proveito vos he.
Se "confiais no que vos digo , direis o Pa-
ter Noftsr , e Artxè Mãrià , e o Credo , em
Latrm : más aprendereis também bem o fenti-
do que tem eftas palavras, na volTa lingua :
para que proferindo-as na linguagem comrnua
da Igreja , poflais faborear-vos no fentido ad-
mirável deftas famas orações : as quaes haveis
dizer com profunda applicaçaó do penfamen*
to , excitando-vos a affe&os concernentes ao
fcu fignificado : e naô vos a fadigando em mo*
do algum , por dizer muitas , más eítudando
dizsr o que dizeis , cordialmente : porqus
£ n hum
68 Introducçao
hum Pater Nojier dito com afretto , vale maí$
que muitos ditos á preffa e de corrida.
O Rofario , he hum modo de rezar utiliffi-
mo , com tanro que o faibais rezar como con-
vém i e para o fazer , tereis algum dos livri-
nhos que enfinaó a reza-lo. Também he bom
rezar as Ladainhas de Noíío Senhor , NoíTa
Senhora , e dos Santos , e todas as outras Pre-
ces vocaes , que andaó nos Manuaes e Horas
aprovadas ; mais iíio ha de fer de modo , que
fc tiverdes o dom de oração mental , lhe re-
ferveis fempre o melhor lugar: de forte , que
fe depois delia ou pela mukidaó dos negó-
cios , ou por alguma outra caufa naó poder-
des ter oraçaõ vocal , naó tomeis pena por
iíío , contentando-vos com dizer antes ou de-
pois da Meditação a Oraçaõ Dominical , a
Saudação Angélica, e o Symbolo dos Apof-
tolos.
Se fazendo oraçaõ vocal , fentirdes vofib
coração atraindo e convidado á oraçaõ inte-
rior e mental, naó recuíeis entrar nella , mas
deixai correr fuavemente o voíTo efpirito por
c-íTa parte : e naó fe vos dè nada , de naó ter-
des acabado as orações vocaes , que vos tí-
nheis propoílo, porque a mental que fizerdes
em feu lugar , he mais agradável a Deos , e
mais útil á voífa alma. Exceptuo o Officio Di-
vino, fe eítais obrigada a eile , porque nef-
te cafo óqvc~[q cumprir a obrigação.
Se fucceder palfar-fe toda a manhã fem
eíle fanto exercício da oraç2Ó mental , ou pe-
la multiplicidade de negócios, ou por outra
qualquer cauía ( o que deveis evitar quanto
vos
a' Vida devota, 69
vos For poííivel ) proponde refarei r eíta falta
cm alguma hora diílante da comida : porque
fazendo-a íbbre ella , e antes de feita a digef-
taó , vos íobrevirá muita fonolencia , e pode-
rá perigar a volTa faude.
E fe em todo o dia a naõ poderdes fazer ,
deveis refarcir eíta perda multiplicando as ora-
ções jaculatórias , e com a liçaõ de algum li-
vro de devoção ; com alguma penitencia , que
impida o profeguir nefta falta , e com eíta fa-
zei huma firme refoluçaõ , de voltardes ao ca-
minho no dia feguinte,
CAPITULO II.
Bre~ue methodo para a Meditação , e em pri-
meiro lugar da prefença de Deos : primeiro
ponto da Preparação,
MAs poderá fer , Philotea , que naó fai-
bais , como fc faz Oraçaó mental : por-
que he coifa , que por infelicidade noíTa ,
pouca gente fabe nos noífos tempos. Por cuja
caufa vos prefento hum fmgéio e breve me-
thodo para ella , atendendo a que pela liçaõ
dos muiios e bons livros que fe tem compoílo
neíla matéria , e muito mais pelo íeu exercí-
cio , podereis fer mais amplamente inítruida.
Primeiramente vos advirto a preparação , que
coníiíte em dois pontes : dos quaes o primei-
ro , he pôr na prefença de Deos , e o fegun-
do invocar a fua afíiftencia. Para vos pordes
pois na prefença de Deos^ > vos proponho
qua-
7o IntroducçaÒ
quatro mouos principaes , de que vos podereis
fervi r neíte principio.
O primeiro confifte em huma viva c aten-
ta aprehenfaó da total prefença de Deos : que-
ro dizer , que Deos efe em tudo e por tudo ,
c que naó ha íugar nem coifa neíle mundo ,
onde naó eíleja com huma verdadeiriiíima
prefença : de fone que afíim como os palTaros
para onde quer que voem , encontrão fempre
ar , aííim nós para onde quer que vamos ou eí-
tejamos , achamos a Deos prefente. Verdade ,
a que nem todos daÕ atenção. Os cegos fe ef-
tao na prefença de hum Príncipe , naó deixaõ
de lhe ter respeito , quando os advertem de
que elle eílá prefente : bem he verdade , que
pomo o naó vem , fe efquecem facilmente de
efbr alii prefente : e eíqueeidos , ainda mais
facilmente íhe perdem o refpeito c reverencia.
JPhilotea , nós naó vemos a Deos que eftá pre-
fente , e poílo que a fé nos adverte da fua pre-
fença , como o naó vemos com os olhos . nos
efqaeçcmos muitas vezes , e nos portamos co-
mo fe eíliveiTe bem longe de nós : porque ain*
da que íabemos que eílá prefente a todas as
coilzs , fe naó o confiderarmos , vale o mef*
mo que fe o naó foubeíTemos. Por ííTo fem*
pre antes da oração , devemos excitar a noíía,
alma a huma atenta ponderação e confideraçaõ
deíla prefença de Deos. Eila foi a aprehenfaó
de David quando rompeu dizendo : Se fubir do
Ce o , Deos meu, ãlli ejLiis--vós : fe defcer ao In-
Jerno, ãlli cjlais prefente(i). Também devemos
uíar
f ' '■' ' ■ ■ . — ',■.'■. ■>■■' ■
Q\ ) Ffalrn. 3 8.v. o.$i ojeendero in Çoçlum, tu llllc es 9J,
fi dcfcendtro in Infcrnum , ades.
ArVlDA DEVOTA." 7?
uf.ir das palavras de Jacob , o qual vendo a
fagrada efcada , diíTc : Oh que temerofo hn.tr
he ffie ! Efxl aqui Deos verdadeiramente , e
eu o nao fabia (i). Quer dizer que naó cui-
dava nifTb , porque aliás naó podia ignorar ,
que Deos êftava em roda a paire. Entrando 5
pois , na oração , deveis dizer com todas as
veras ao voiTo coração : Coração meu ! meu
coração , Deos eítá verdadeiramente aqui.
O íegundo modo de nos pormos nefta fa-
grada prefcttça , he conliderar que naó íómen-
re cíiá Deos no lugfff onde vós eílais , mas
que êitá pãrtítQlâriflirhàttierite no voflo cora-
ção e no intimo da voíTâ alma , a qual vivifi-
ca e anima com íua divina prefença , fendo
como coração do voflo coração , e alma da
voiTa alma. Porque áffiftl como a alma por
eilar eftendida por iodo o corpo , fe acha pre-
féflte em todas as partes delie , e nao obítanre
i no coração com efpecíal reíldencia : da
itleftna force Deos fendo prefentiíiimo a todas
as coifas , com tudo aííiíle na noíTa alma por
htlffl moio efpecial. E por efta caufa David
chamava a Deos : Deos do feu coração (2) :
e S. Panlo dizia : Qtte tVtfvetiiOs , nos move-
mos , e eftatnos em Deos (\). Na confideraçaó
pois defta verdade , excitareis huma grande
reve-
rei) Gen. 28. v. 16. Quam terríbilU efl locus tjle I
Vere Dominas ejl In loco tjlo , t? e^o nefeiebam,
(2) PfaJm. 72. v. 26. Deus cófâis inci.
(O A cl. 17. v. 2%, í/i ipfi vivi mus j & i-uvemur 9
tT fèmus.
72, Introducçaõ'
reverencia em vofíb coração para com Deos^
que intimamente lhe eftá prefente.
O terceiro modo , he confiderar a NolTo
Salvador , que em ftia humanidade vê defde
o Ceo todas as peiíoas do mundo , e mais par-
ticularmente os Chriíláos , que faô feus filhos,
e em efpecial os que eftao em oração , cujas
acções e modos obferva. Naó he iíío , Philo-
tea , huma mera imaginação , mas verdade
certa ; porque inda que o naó vemos , elle dos
mais altos Ceos nos confidera. Aíhm o vio
Santo Eílevaõ no tempo do feu martyno : de
íorte que bem podemos dizer com a Eípofa :
Vedes como eflá por detrás da parede , olhattr-
do pelas janelas , e efpreitando pelas fref-
tas (i). J
A quarta maneira confiíle , cm nos fervir-
mes da íimples imaginação , reprefentando-nos
o Salvador em fua facrofanta humanidade, co-
mo fe eítiveíTe junto de nós : aííim como col'-
tumamos reprefentar a noíTos amidos , e di«-
zer : reprefentafe-me que eítou vendo a fula*-
po fazer ifto ou aquillo : parece-me que o ef^
tou vendo ; ou outra coifa femelbante. Mas
ie o Santiííime Sacramento do Altar eftiver
preienre , então efta prefença fera real , e naó
ineramerue imaginaria: porque as efpecies e
aparências de paó íeraó como huma cortina ,
detrás da qual NoíTò Senhor' realmente pre-
fcrilQ nos vê e confidera , poflo que o naó ve-
mos
(j) Cant. 2. v. 9, En ipftt jlet poji ptiridícm no-
jirum rcfpiclcns per Jcnsjlras , profpscier.s per cancela
a' Vida devota, 73
mes em fua própria forma. Ufareis pois de
hum deftes quatro modo?, para pordes volTa al-
ma em preiença de Deos , antes da oraçaó :
e naó deveis valer-vos de todos juntamente ,
fenaó de hum fó de cada vez , e iílo breve e
fimplesmente.
CAPITULO III.
Da invocação : fegundo ponto da Preparação.
A Invocação fe faz defte modo. Sentindo-
fe a voifa alma já na preiença de Deos ,
fe proftrará com fumma reverencia , reconhe-
eendo-fe indigniílima de eftar diante de raó
loberana Mageítade : e naó obílanre , faben-
do que efta mefma bondnde aííim o quer ,
lhe pedirá a graça de a fervi r bem e adorar
neíla meditação. E fe quizerdes , podereis ufar
de algumas palavras breves e feivorofas , co-
mo aquelias de David : Naome aparteis , Deos
meu, da prefença do vouo roflo : e nao me
priveis do favor do vo[rofanto Efpirito (1).
EJclarecei voffa face , fobre vojja ferva , e
confiderarei vojfas maravilhas. Dai-me enten-
dimento e observarei voffa lei , e a guardarei
de todo o meu coração (2). VolTa elerava fou
dai-me o Efpirito , Scc, e outras femelhanres
a eílas. Também vos aproveitará a invocação
cio
(1) Plahn. 50. v. 15. Ne prqjieias me a Jade tua ,
IP* Spirhum Scnttum tuum m aujirai a me.
Ç2) Plalm. u 8,
74 I N T Tl O D tf C Ç A Õ
do voflo Anjo da guarda , e dos Santos qué
fe acháraõ prefenres ao myíterio que meditais.
Como na morte de Noiío Senhor , podereis
invocar a Nolía Senhora , a Magdalena , o
bom Ladrão ; para que vos fejaõ cornmunica-
dos os fenti mentos e movimentos interiores s
que ellcs tiveraó. E na meditação da voíla
morte , podereis invocar o volTb Anjo da guar-
da , que fs achará pre Tente para vos inf pi-
rar as considerações convenientes : e aliira
vos havereis nos outros myíterios.
CAPITULO IV.
Da propof.cao do Myfterio : ponto terceiro da
preparaçxo.
Epois deíles dois pontos ordinários da
J meditação , ha hum terceiro , que naó he
commum a toda a force de meditações : he
cíle a que muitos chamaõ compoíiçaõ de lu-
gar , e outros liçaó interior. Mas iílo naõ he
mais , que propor á imaginação própria a
íuítancia do Myfterio, que fe quer meditar ,
como íe com effeito realmente íuccedeíTe na
noiía prefençj. Por exemplo , fe quizerdes me-
ditar a Nono Senhor na Cruz , imaginareis
que éftaís no monte Calvário , e que vedes
iudo o que fe fez e fe drlíe no dia da Paixaó :
ou fe quizerdes (porque tudo vem a fer o mef-
mo ) imaginareis , que no mefmo lugar onde
eítais , fe executa a Crucifixão de Noifo Se-
nhor , do mefmo modo que os Eyangeliftas a
drir
a3 Vida devota. 75-
defcrevem. O rnefmo vos digo , quando me-
ditardes na morte 5 como adverti na meditação
delia : e também na do Inferno , e em todos
os mais femelhanres Myfterios , em que fe tra-
rá de coifas vifiveis e fenfiveis : porque quan-
ro aos outros Myfterios da grandeza de Deos ,
da excelência das virtudes , do fim para que
fomos creados , que faó coifas inviíiveis , naõ
ha neceííidade de fervir-nos defta forte de ima-
ginação. Verdade he que nos podemos valer
de alguma femeihança ou comparação , para
ajudar a coníideraçaó : mas ifto lie algum tan-
to dificulcoío de encontrar , e naó quero tra-
tar fenaó mui fingelamenre comvoico , de
forte , que o voíTo efpirito naó trabalhe de-
roaíiado em formar eiras femelhanças. Por
meio pois deílas imaginações , cingimos o
noílo efpirito ao Myfterio , que queremos me»
dirar , para que naó ande vagueando de huma
para outra parte : nem mais nem menos , que
como quando fechamos hum paífaro na gaio-
]a , ou atamos o falcaô ás fuás piozes , par.?
que naó fuja da maõ. Ido naó obltanre , vos
diraó alguns , que he melhor ufar do fimples
peníamento da fé , e de huma apreheníaó to-
da mental e eípiritual , na reprefentaçaõ òt[-
tes Myfterios : ou também confiderar , que
eftas coifas íe executaó em voíTo mefmo efpi-
rito. Mas tudo ifto he mui fotil para o princi-
pio , e até Deos vos naó levantar mais alto ,
vos aconfelho , Philotea , vos demoreis neítc
primeiro degrào que vos moftro.
CA-
y6 Intkoducçaõ
CAPITULO V.
Das confiderações : fegunâx parte da Medi-
taçao.
DEpo/s do a&o da imaginação, fegue-fe
o aclo do entendimento , que chamamos
Meditação : que naó he outra coifa mais , que
huma ou muitas conilderaçóes , feitas a fim
de promover noílos afFeclos para com Deos,
e cotias divinas: no que a Meditação difere
do eitudo , e de outros penfamentos e confidc-
raçõcs , 25 quaes fe naó fazem para adqui-
rir a virtude ou amor de Deos , mas por al-
guns outros rins e intentos , como para faber
mais , para efcrever ou difputar. Tendo pois
encerrado voíio efpirito dentro da matéria que
quereis medita? : ou peia imaginação , íe a
matéria he fenfivel ; ou pela íimples propoíi-
çiô , fe he infenfivel : entrareis a fazer febre
ella confiderações ; para o que achareis exem-
plos mui acomodados nas Meditações , que
vos tenho dado. E fe o voíTb efpirito achar
baítante gofto , luz e fruto em huma das Con-
ilderaçóes , detervos-heis nella fem paiTar-a
outra : obrando como as abelhas , que naó
largaó a rlor , em quanto nella'achaõ mel que
recolher : mas fe naõ achardes o que defejais ,
em alguma das Confiderações, depois de vos
ter detido nella , paliareis a outra : profeguin-
do fempre a obra corn bom ar e finge) amente a
ícm vos afligir.
CA-
A3 V I D A DEVOTA. 7J
CAPITULO VI.
Dos affeftos e refoluçÕes : terce ir d parte da
Meditação.
A Meditação produz movimentos bons na
vontade , ou parte afre&iva da nolla al-
ma , como faõ o amor de Deos e do próximo^
o defejo do Ceo e da Gloria , o zelo da fal-
vaçaó das almas , a imitação da vida de Nof-
fo Senhor , a compaixão , a admiração , a ale-
gria , o temor de cahir em defgraça de Deos $
e o do Juízo, e do Inferno, o aborrecimento do
peccado , a confiança na bondade e mifericor-
dia de Deos , a conruíaõ da nofla má vida paf-
fada : em cujos affe&os fe deve demorar e ef-
tender o nolto efpirito , quanto lhe for pofíí-
vel. £ fe quizerdes alguma ajuda para ifto ,
tomai nas máos o primeiro Tomo das Medita-
ções de D. André Capila , e vede a íua Pre-
fação : porque nelia moítra o modo com que
fe haó de dilatar os afFeclos : e mais ampla-
mente o P. Árias , no feu Tratado da Oração
mental.
Nem por iíTo , Philotea , vos deveis deter
tanto nos affeclos geraes , que os naó conver-
tais em refoluções efpeciaes e particulares 9
para vofía correcção e emenda. Por exemplo.
A primeira palavra , que NofFo Senhor diíTe
na Cruz , infundirá fem duvida em voíTa al-
ma hum bem aífeSo de o imitar ', iílo he , de-
fejo de perdoar a volTos inimigos , e de os
amar.
73 Introdugcao
amar. Digo pois , que ainda iíto he pouco ,
ie naó acrecentardes hum a refoluçaó efpecial
deite modo: Eia pois, naó me íentirei mais
de taes palavras afrontofas , que hum certo ou
liuma certa , vizinhe ou vizinha , domeílico ou
domefíica , dizem de mim : nem de tal e tal
defprezo , que me fazem eíte e aqueloutro :
e pelo contrario , farei cal e tal coifa, para
os reconciliar e atrahir : e aílim no demais.
Deite modo , Philotea , emendareis voíías fal-
tas em pouco tempo , o que íó pelo afFedto fa-
reis tarde e diíicultofarnente.
CAPITULO VIL
Da conchifao e ramilbete efpiritual.
EM fim haveis de concluir a Meditação com
três acros , que deveis executar com a ma-
ior humildade poílivel. O primeiro he a ac-
ção de graças , dando-as a Deos , pelos affe-
ftos e refoluçóes que nos tem dado , c pela
bondade e mifericordía que temos deícuberto
no myíterio da Meditação. O fegundo he o
afro de oferecimento , pelo qual offerecemos
a Deos lua mefma bondade e mifericordia , a
morte o fan^ue as virtudes de feu Filho , e
juntamente com ellas noiíos aaTeetos e refolu-
çóes. O terceiro acto hc a fuplica , em que
pedimos a Deos , nos communique as graças
e virtudes de feu Filho , e bemdiga noffos af-
fe£ros e refoluçóes , para fielmente as poder-
mos execuur. Depois diílo , rogaremos a
Deos
a' Vida devota. 79
Deos pela Igreja , por noíTos Prelados paren-
tes amigos e outros , valendo-nos da intercef-
ia 5 de NoiTa Senhora , dos Anjos 3 e dos San-
tos. Por fim , advirto , que convém dizer o
Pater Nofier e Ave Aí ária : que he a gerai e
neceíi2ria oração de rodos os fieis,
A tudo iíto tenho acrecentado , que con-
vinha compor hum ramilhetinho de devo-
ção. O que niílo quiz dizer , he o feguinte.
Os que tem patTeado por hum jardim , naõ
íahem delle de boamente , iem levar na maõ
quatro ou cinco flores, para as cheirar e ter
com figo pelo decurfo do dia : afiim o noíTo
entendimento , tendo difcorrido por algum
myfterio na oraçaó , cevemos efcolher hum
ou dois ou três pontos , dos que mais tiver-
mos goftado , e mais acomodados ao noíTo
aproveitamento , para os trazermos na me-
moria no refto do dia , e os cheirar efpirituai-
mente. Iílo fe prarica no meírno lugar em que
tivemos oraçaó , entretendo-nos alli , ou paí-
feando íós algum tempo depois.
CAPITULO VIII.
De alguns a<vifos utiUjJlmos acerca da Me-
ditação.
SObre tudo 3 Philorea , ccnvem que ao fa-
hir da vo^Ta Meditação , coníerveis na me-
moria as refoiuções e deliberações , que ti-
verdes tomado , p2ra pratica-las com cuidado
naquelle dia, Éilfi he o maior hucío ca Me-
dita-
8d Intròducçaô
ditaçaó , fem o quaL muitas vezes naó fó hô
inútil , mas danofa : porque as virtudes medi-
tadas e naó praticadas , inchaó ás vezes e dzf-
vanecem o efpirito e animo , parecendo-nos
que fomos taes como temos refolvido e aíTeri-
tado fer : o que fem duvida feria verdade , fe
as refoluçóes foliem avivas e ioiidas : mas
naó faó taes , antes vás e perigofas , naó fen-
do praticadas : convém pois em toda a forma ,
procurar pratica-las , e bufear para ifto oca-
lióes pequenas ou grandes. Por exemplo. Se
tenho alentado , em ganhar com fuavidade o
animo daquelles que me oífendem , procura*
rei neíte dia encontrar-me com elíes , para os
íaudar amigavelmente : e fe os naó polTo en-
contrar , dizer bem delles 3 e encomenda-los
a Deos.
Ao fahir deita craçaó cordial, tereis cui-
dado em naó bambolear com o voiío cora-
ção i porque entornareis o baífamo que rece-
beftes por meio da oraçaó- Venho a dizer i
que deveis guardar 3 fe poder fer , hum pou*
co de filencio : e voltar fuavemente volTo co-
ração àà oraçaó para os negócios , confervan-
do o mais tempo que puderdes , os fentimen-
tos e aífeclos , que tiverdes concebido. Hum
homem que tiveiíe recebido em hum vafe de
fermofa porcelana , algum licor mui precio-
íb , para o levar para fua tafa , hiria com
muita pau ia , fem olhar para parte alguma ,
íenaó para diante ; com receio de topar nal-
guma pedra , ou por o pé em falfo , para que
o feu licor fe naó derramaffe : o mefmo de-
veis obrar ao fahir da oraçaó 3 naó vos diftra-
hindo
a' Vida devota; 8í
híndo logo , mas olhando ílmplesmente para
diante. ifto fe deve dizer , ainda quando
vos encontrardes com alguma pelToa, com quem
feja precifo demorar-vos e ouvi-la: nefte caio
naó ha remédio , he neceilario acommodar a
iíTo , mas de • tal forte , que ao mefmo tempo
atendais ao voíTo coração , para que o licor da
íanta oraçaõ fe derrame o menos que for
poífível.
Também he precifo ccftumar-vos a fa-
ber paíTar da oraçaó a toda o género de ac-
ções, que juíta e legitimamente de vos reque«
rem a voiTa vocação e proniTaó : ainda que
pareçaó mui difparadas dos afFe&os , que re-
cebeftes na oraçaó. Venho a dizer. Hum Ad-
vogado deve faber paiTar da oraçaó a avo-
gacia , o Mercador ao contrato , a mulher ca*
fada à obrigação do feu Matrimonio , e ao go-
verno da fua família ; com tanta doçura e
tranquilidade , que nada fe perturbe feu ani-
mo por efta caufa : pois como huma e outra
coifa he conforme á vontade de Deos , deve
paffar de huma para ouera com efpirito de hu-
mildade e devoção.
Algumas vezes vos fuccederá , immediata-
mente depois da preparação , athar-fe o vof-
fo afFeclo todo movido a Deo; : nefte cafo ,
Philotea , convém largar as rédeas , fem que-
rer feguir o methodo que vos tenho dado. Por-
que fe bem de ordinário as confideraçóes de-
vem preceder aos afTe&os e refeluçóes : fe o
Efpirito Santo vos dá os affeclos antes das
ponderações , naó deveis bufcar ponderações,
porgue eítes naó fe fazem , fenaó para movei'
F os
82 Introducçao
os afFeSos. Em huma palavra , fempre que
os arf^&os fe vos oíFerecerem , os deveis rece-
ber e dir-lhe lugar , ou venhaó antes ou de-
pois de todas as confideraçóes : e ainda que
renho pofto os affe&os depois de todas as con-
íideraçóes , naó o fiz aííim , fenaó para dif-
tinguir melhor as partes da oração : porque
no demais tereis fempre como regra geral ,
que fe naó devem já mais conter os aíFedos ,
mas deixa-los fahir todas as vezes que fe of-
ferecerem. E ifto digo , naó fó dos outros af-
fe^os , fenaó também da acçaó de graças , do
oferecimento , das íuplicas , que fe podem
fazer entre as ponderações : porque naó con-
vém reprimi-los, aflim como diilemos dos mais
affe&os : pofto que depois para concluir a me-
ditação , he precifo repeti-las e menciona-las.
Mas quanto às refoluçóes , fe devem fazer de-
pois dos affeílos , e no fim de roda a medita-
ção , antes da conclufaó : porque havendo el-
]as de nos reprefentar obje&os particulares e
familiares, nos poriaó em perigo de nos dif-
trahir , fe as fizefTemos no meio dos arfemos.
No meio dos affe&os e refoluçóes , he
bom ufar de colóquios , e faiar com NoíTq
Senhor , com os Anjos , com as peíToas repre-
fentadas nos Myfterios , com os Santos , e
comnofeo : com o próprio coração , com os
peccadores , e com as mefmas creaturas infen-
fiveis : como fe vê , que falava David em feus
Pfalmos , e outros Santos em fuás meditações
e orações.
CA*
A5 V I D A D E V O T A. £$
-j i i ■ .— ■■ ■! ■■■■■ ■ »■■■ ■
CAPITULO IX.
Das fecuras que acontecem na Oração.
SE vos fuceeder , Phiíotea , naó fentirdes
gofto algum , nem confolaçaó na Oração ,
peço-vos que vos naó perturbeis : mas abri
por algum efpaço a porta ás orações vocaes ,
queixando-vos de vós mefma a Noíío Senhor :
confelTai voiTa indignidade , e pedi-lhe 5 que
feja em voíTa ajuda : beijai a fua imagem , fe
a tendes comvofco : proferi as palavras de Ja-
cob : Nao 'vos largarei , Senhor , fem que me
deis a <voffa benção (i) , ou as da Cananea :
Sim , Senhor , fou huma cadela , mas os ca-
chorrinhos comem das migalhas damefa de fett
dono (2) .
Outras vezes pegai em hum livro , e lê-
de-o com atenção , até que o voíTo efpirito
deípene , e torne em íi. Excitai o voíTo cora-
ção com alguma poftura , ou movimento de
devoção exterior ; proftrando-vos em terra ,
cruzando as mãos fobre o peito , abraçando
hum Crucifixo : o que fe entende fe eíliverdes
em lugar retirado. E fe depois de tudo ifto
naó eíliverdes confolada, por grande que feja a
F ii voí-
(0 Geri. 31. v. 26. Non dimittam te , riiji bcncdi-
xeris miht.
(jz) Matth. 15. v. 27. Etiam Domine , nam ff $a*
tellt edttnt de mieis 3 <jitx cadunt dç menfa dominoruni
Juorum*
%4 Intkoducçao.
vofTa fecura , naó vos perturbeis , mas conti-
nuai com huma poftura devota diante de
Deos. Quantos cavalheiros ha , que vaó hum
cenro de vezes na roda do anno ao quarto
do feu Príncipe , iem efperança de lhe falar,
mas unicamente para que elle os veja , e a
cumprir o feu dever. Amm devemos nós , ca-
riffima Philotea , ir â fama oraçaó , pura e
íimplesmente para cumprir o noífo dever , e
teftimunhar a noíTa fidelidade. E fe for fervi-
da a Divina Mageítade falar-nos , e intreter-fe
comnofco , com fuás fantas infpirações e con-
folaçóes interiores , fem duvida que fera para
nós grande honra , e hum prazer deliciofiíK-
mo ; mas fe naó for fervido fazer nos cita mer-
cê , deixando-nos eftar alli fem nos falar , co-
mo fe naó nos vira , nem eftiveíTemos na fua
prefença , nem por ifTo nos havemos retirar j
antes pelo contrario , devemos perfeverar di-
ante daquella fuprema Bondade , com fem-
blante devoro e aprazível : e entaó certamente
lhe agradará a noíía paciência , e advertirá na
noíTa perfiftencia e perfeverança : e outra vez
que chegarmos à fua prefença , nos favorece-
rá , e tragará comnofco , por meio de fuás
confolaçóes , fazendo que vejamos a ameni-
dade da fanta oraçaó. Mas quando nada difto
nos faça , contentemo-nos , Philotea , com
que nos he de honra exceíliva eftar perto del-
le , e á fua vifta.
CA-
A5 V I D A D E V O T A: 8$
CAPITULO X.
Exercício para o tempo da manha.
ALém defta Oração mental perfeira e aca-
bada , e das mais orações vocaes , que
deveis rezar huma vez cada dia ; ha outras
cinco cfpecies de orações mais breves , que faõ
como ramos ou lançamentos da outra oraçaõ
maior : entre as quaes a primeira he , a que
fe faz pela manhã , como huma geral prepa-
ração de todos as obras do dia. P; aticala heis ,
defte modo.
Dai graças e adorai a Deos profundamen-
te , pela mercê que vos fez de vos confervar
na noite antecedente : e fe nella tiverdes co-
metido algum peccado , pedi-lhe perdaõ.
Vede que o dia prefente vos he dado , pa-
ra nelle poderdes grangear o dia que ha de vir
da Eternidade : e fareis hum propoílto firme ,
de emprega-lo bem para efre fim.
Confiderai que negoc;os , que tratos , que
ocafiões podereis encontrar nefte dia para fer-
vir a Deos , e que ocafiões vos poderáó fobre-
vir de o ofender , ou por cólera , ou por vai-
dade , ou por qualquer outro defconcerto : e
preparal-vos com huma fanra refoluçaõ , para
empregar bem os meios , que fe vos oferece-
rem , de fervirdes a Deos , e adiantardes a vof-
fa devoção : como pelo contrario , difponde-
Vos bem a fugir peleijar e vencer , o que
íe vos polia oíFerecer contra a volTa falvaçaõ ,
c
86 Introducçao
e gloria de Deos. E naó bafta afíentar neíta
reíoluçaô , mas devei.*; preparar os meios , pa-
ra bem a executar. Por exemplo : Se prevejo
que hei de tratar hum negocio com huma pef-
foa apaixonada e prompta para a cólera, naó fò
me refolverei a naó ofende-la advertidamen-
te , mas me prevenirei com palavras brandas
para a mitigar , ou com a aííiítencia de algu-
ma peííoa , que a poíía conter. Se prevejo ,
«que viíltarei num doente , difporei a hora, as
confolaçóes e confortos que lhe hei de dar : e
alíim dos mais.
Feito ifto , humilhai-vos diante de Deos ,
reconhecendo que de vós mefma nada fareis
do que tendes deliberado ; tanto para fugir o
mal , como para executar o bem. E como fe
tiveíteis nas mãos o voíTo coração , oferecei-o
com todos vofTòs bons defejos à divina Magef-
rade , pedindo-lhe o receba na fua protecção ,
e o fortaleça , para que aproveite no feu fer-
viço : com eftas ou outras femelhantes pala-
vras interiores : Oh Senhor ! eifaqui efte po-
bre e miferavel coração , que por bondade
voíía tem recebido tantos bons affe&os. Mas
ai , que fraco e mefquinho eítà , para execu-
tar o bem que defeja , fe vós lhe naó deparar-
des voíía celeítial bençaó : a qual para efte
fim vos peço , Pai benigniílimo , pelos mere-
cimentos da Paixaó de voíTo Filho , em cuja
honra confagro cite dia , e todos os òe minha
vida. Invocai a NoíTa Senhora , o Anjo da
guarda , e os Santos, para que vos aíliftaõ
nefía empreza.
Mas todas eítas acções íe haõ de fazer bre*
ve
a' Vida devota. 87
ve e vivamente , antes de f hir do apofento ,
fe for pofíivel : para que por meio deite exer-
cício, tudo o que obrardes entre dia, feja orva-
lhado com a bençaó de Deos. Peçq-vos , Phi-
lotea , que nunca falteis a ifto.
CAPITULO XI.
Do exercido da noite , e exame de conciencia,
ASfim como antes do jantar corporal ha-
veis de ver hum jantar efpiritual;aírim tam-
bém antes da voíTa cea deveis ter outra cea-
íinha , ou ao menos huma colação devota e
efpiritual. Procurai pois algum tempo , hum
pouco antes de cear , e proft' ando- vos dian-
te de Deos , recolhendo o voffo efptrito em
Chrifto crucificado ( que reprefentareis por
huma fimples confideraçaó e vifta interior)
tornai a acender o fogo da voíTa oraçaó da ma-
nha em volTo coração , com huma dúzia
de vivas afpirações humiliaçóes e jaculatórias
amorofas , que fareis a efíe divino Salvador
de voíTa alma : ou também repetindo os pon-
tos , em que maior gofto achaftes na Medi-
tação da manha , fegundo vos psrecer melhor.
O exame de conciencia , que fe deve fa-
zer fempre antes de deitar , quem quer fabe
como fe ha de praticar.
Daremos graças a Deos , por nos ter guar-
do naquelle dia.
Examinaremos como nos temos portado
cm todas as horas do dia : e para o fazer mais
fa-
88 Introducçao
facilmente , confíderaremos aonde , com
quem , e em que ocupações eítivemos.
Se acharmos ter feito alguma coifa boa ,
daremos graças a Deos : e íe pelo contrario
algum mal , pediremos perdaó á Divina Ma-
gertade , com refoluçaó de nos confeíTar na
primeira ocafíaó , e de nos emendar cuidado-
famente.
Depois difto encomendaremos à Providen-
cia divina o noíTo corpo e alma , a Igreja ,
os parentes, os amigos: rogaremos a NolTa
Senhora , ao Anjo da guarda , e aos Santos
velem febre nós , e por nós : e com a benção
de Deos hiremos tomar o defeanço , que por
vomade íua nos he neceiTario.
Efte exercício naó menos que o da ma-
nhã , nunca fe ha de pôr em efquecimento :
porque pelo da manhã abris as janellas da
voiía alma ao Sol dejuftiça : e pelo da noi-
te as fechais ás trevas do Inferno.
CAPITULO XII.
Do retiro efpiritual
ESta he a ocafíaó , carifíima Philotea , em
que vos defejo mui afeiçoada a feguir o
meu confelho : porque nefte «artigo confífte
hum dos mais feguros meios do voílb adianta-
mento efpiritual.
Convidai as mais vezes que puderdes en>
tre dia a vofTa alma à prefença de Deos , por
hum dos cpacro modos que vos tenho dito;
ateai
A5 V I D A D E V O T A. 89
atendei ao que Deos faz , e vós fazeis : e ve-
reis feus olhos fempre volvidos e fitos em vós,
com hum amor incomparável. Deos meu (di-
reis ) porque naó olho eu fempre para vós ,
como vos olhais para mim 5 Porque cuidais
taõ frequentemente de m=m , e eu taõ poucas
vezes cuido em vós ? Onde eflamos 5 alma
minha i A noíTa verdadeira habitação he Deos :
onde he que nos achamos i
Pelo modo que os palTaros tem os feus ni-
nhos fobre as arvores , para fe retirarem a el-
les 3 quando lhes he neceiTario : e os cervos
tem fuás embofcadas e lugares fortes , em que
fe recolhem e refguardaó , para gozarem da
frefcura da fombra no Veraó : aííim também ,
Phiiotea , o noíTo coração cada dia deve ele-
ger e tomar algum poilo , ou fobre o monte
Calvário , ou nas Chagas de NoíTo Senhor ,
ou em algum ourro lugar perto delle : para
fazer alli a fua retirada , em qualquer forte
de ocafióes , nelle fe alegrar e recrear enrre os
negócios exteriores , e para lhe fervir de for-
taleza onde fe defenda das tentações. Ditofa
a alma , que puder dizer com verdade a NoíTo
Senhor : Vós fois a minha cafa de refugio ,
vós a minha fortaleza fegura , o meu te&o
contra a chuva 3 e a minha fombra contra o
calor (1) .
Lembrai-vos pois , Philotea , de fazer
muitas retiradas deftas a foledade do voiTo
çoraçaô : no tempo que corporalmente eílais ,
no
CO Pfalra. 7c, v. 3.
ço Introducçaõ
no meio dos negócios e converfações. Eíla fo«
lidaó mental de nenhum modo a pode impe-
dir a multidão dos que vos cercão : porque
naõ eftaó ao redor do voffo coração , mas do
voíTò corpo : e aíllm pôde o voífo coração ef-
tar inteiramente fó na prefença de Deos. He
o exercício , que praticava EIRei David , en-
tre tantas ocupações , quaeg eraó as fuás , fe-
gundo elle afirma em mil lugares dos feus
Pfalmos , como quando diz : Oh Senhor !
fempre eftou convvofco. Sempre eftou vendo A
meu Deos diante de mim A vós levantei
meus olhos , Deos meu , que habitais nos Ceos,
Meus olhos ejiao fempre em Deos.
E também as converfações ordinariamen-
te naõ faó taõ graves , que fe naõ polia de
quando em quando retirar o coração , intro-
duzindo-o neíla fagrada folidaó.
Tendo os pais de Santa Catharina de Seni9
tirado à Santa toda a commodidade e ocafiaõ
de rezar e meditar , lhe infpirou NoíTò Se-
nhor, que fabricaíTe hum oratorioílnho inte-
rior no feu efpirito ; ao qual retirando-fé men-
talmente, podefTe no meio das ocupações exte-
riores gozar deita fanta folidaó cordial. E
depois , quando o mundo a períeguia , naõ
recebia nenhum defaífocego 5 porque dizia ci-
la , eftar recolhida em feu gabinete interior ,
onde fe confolava com feu efpofo celeftial. E
aílim defde entaõ aconfelhava a feus filhos
efpirituaes , que fizeíTem hum quarto em feu
coração , e nelle habiraíTem.
Por tanto , retirai algumas vezes o voíTo ef-
pirico pára dentro do vofíb coração , onde fepa-
rado
A' V I D A D E V O T A. 91
fado de todos os homens poíTais de coração
a coração tratar da voíTa alma com Deos , di-
zendo com David: Tenho velado, e fidofe-
vielhante ao pelicano da folidao : fui como o
mocho no pardieiro , e como pardal folitario no
telhado (1). Cuj <.s palavras, alem do fentido
literal (que ateíla refervar efte grande Rei
algumas horas . para vagir em folidao na
contemplação das coifas efpirituaes ) nos mol-
traó em feu fentido myítico três excelentes
retiros , e como três hermidas , em que pode-
mos praticar a notTa folidao , à imkaçaó de
NolTo Salvador ; o qual fobre o monte Calvá-
rio foi como o pelicano da folidao , que
com feu fangue deu vida a feus filhinhos mor-
tos. Em íeu Nafcimento em hum eftabulo
deferto foi como o mocho na caía cahida , la-
melando e chorando o? nolTos defeitos e pec-
cados. No dia da fua Afcenfaó foi como o
pardal , ret rando-fe e voando ao Ceo , que
fie como telhado do mundo. E a todos eítes
três lugares podemos fazer as noíías retiradas ,
no meio de todo o trafego dos negócios. O
bemaventurado Elzeario Conde de Ariano ,
na Provença , tendo eftado muito tempo au-
fente da fua devota e cafta Delfina , lhe en-
viou ella hum correio , a faber da fua faude :
a que elle refpondeo : Eu eftou bom , minha
amada efpofa ; e fe me quereis ver , bufcai-
jne na chaga do lado de Jefus ; porque ahi
he onde habito 3 e tôs me achareis : fora da-
qui,
O) Pfalm. 101. v. 7.
92 Introducçaó
qui de balde me bufcareis. Que Chriílaô
Cavalheiro era efte !
CAPITULO XIII.
X>as afpiraçoes , orações jaculatórias , e bom
penj amentos.
ADeos fe retira , quem a elle afpira ; e af-
pira , para fe retirar a Deos : de modo
que a afpiraçaõ a Deos e retiro efpiritual fe
daó as mãos hum ao ourro , e ambos de dois
provém e nafcem dos bons penfamentos.
Afpirai pois frequentemente a Deos , Phi-
lorea , com breves mas ardentes jaculacorias
do voíTo coração : admirai a fua fermofura ,
invocai o feu favor , lançai-vos em efpirito
ao pé da Cruz , adorai a fua bondade , tratai
com elle a miúdo da voíTa falvaçaõ , entre-
gai-lhe milhares de vezes no dia a voíTa alma ,
fitai a vifta interior na fua doçura , tomai a
fua maõ como hum menino a de feu pai , pa-
ra que vos conduza : pondc-o fobre volTo pei-
to , como hum deliciofo ramalhete , arvorai-o
em voíía alma como trofeo : e excitai outros
muitos géneros de movimentos em voíTo cora-
ção , para alcançardes o amor de Deos , e vos
acenderdes em huma affe&uófa e terna dilec-
çaó deite divino Efpofo.
Deite modo fe fazem as orações jaculató-
rias 3 que o grande Santo Agoftinho aconfe-
lha com tanto cuidado a devora matrona Pro-
ba. Se o noíTg efpirito > Philotea 5 fe entrei
a5 Vida devota." 93
gar á frequência privança e familiaridade com
Deos , fe perfumará rodo das fuás perfeições.
Eíte exercido naõ he dificulrofo , porque fe
pode inrerfachar em rodos noiTos negócios e
ocupações , fem fervir de incommodo ; por-
que tanto no retiro efpiritual , como neftes ar-
remedos interiores , naõ fe fazem mais que
humas breves digrefsóes , que em modo ne-
nhum impedem , ames ajudaõ a profeguir o
que eíhmos fazendo. O peregrino que toma
hum pouco de vinho , por alegrar o coração
e refrefcar a boca, inda que niíto fe detenha
hum pouco , naõ interrompe a jornada , an-
tes cobra forças para mais ágil e facilmente a
concluir ; naó fendo a fua demora , fenaó pa-
ra melhor caminhar.
Muitos tem fido os que ajuntarão grande
quantidade de aipiraçóes vocaes , na verdade
mui úteis : o meu parecer porém he , que vos
naõ prendais a alguma forma de palavras ; mas
pronuncieis com o coração ou com a boca
aqueilas que o amor vos miniftrar prompta-
mente : porque elle vos proverá de quantas
quize#ies. Bem he verdade , que ha certas pa-
lavras que tem particular eficácia para fatis-
fazer o coração a eíte propoíito : quaes fâô as
frequentes jaculatórias , que eítaõ efpalhadas
pelos Pfalmos de David: as diverfas invoca-
ções do nome de Jefus , e os lances de amor
que eftaó impreíTos no Cântico dos Cânticos :
as Canções efpirituaes também conduzem pa-
ra o mefmo efeito , com tanto que fejaó can-
tadas com atenção.
Em fim, aííim como os que eftaõ pofTui-
dos
94 Intr o d ucçaõ
dos de hum amor humano e natural , quafl
íempre tem todos íeus penfamentos emprega-
dos na coifa amada , feu coração cheio de af-
fe&o delia , a boca chea dos feus louvores :
e cjuando eftaó aufentes naõ perdem ocafiaõ
de teftimunhar os íeus affectos por cartas : e
fiaõ encontrão arvore , em cuja cafca naõ ef-
crevaó o nome de quem amaõ : aííim tam-
bém os que amaó a Deos , naó podem dei-
xar de confiderar nelJe , fufpirar por elle , af-
pirar a elle , e falar delle : e quereriaó , fe
poífivel foíTe , gravar no peito de todos os ha-
bitadores do mundo , o fanto e fagrado nome
de Jefus.
A ifto os convidaó todas as coifas , nem
ha creatura alguma , que lhe naó anuncie 05
louvores do feu amado bem : e como diz San-
to Agoítinho depois de Santo Antaó , tudo
quanto ha no mundo lhes fala com huma lín-
gua muda , mas mui inteligível , em £avor
do feu amor. Todas as coifas os excitaõ a pen-
famentos bons , dos quaes nafcem depois vi-
gorofos lances e afpiraçóes a Deos. Eifaqui
tendes alguns exemplos. S. Gregório Bifpo de
Nanzianzo , como elle mefmo contava ae feu
povo , paíTeando á borda do mar , confídera-
va como as ondas lançando-fe fobre a área ,
deixavaó ao retirar-fe amêijoas , conchinhas,
caracolinhos , raizes de ervas, oítrinhas , e
femelhantcs miudezas que o mar arroja , e
por modo de expluar , cofpe na praia , e tor-
nando depois com novas ondas , engole parte
difto : ao mefmo tempo que os rochedos pró-
ximos ficaó firmes e immoveis , ainda que as
©n>
A5 V I D A D E V O T A. O^
ondas venhaó quebrar nelles fua braveza. So-
bre ifto formou o Sanco efte lindo difcurfo :
que os fracos como conchinhas amêijoas e
ervinhas fe deixaó levar já da arlicçaó , já da
confolaçaó , expoftos à difcriçaó das ondas e
vagas da fortuna: mas os corações grandes ficaõ
firmes e immoveis a todo o género de tempef-
tade. E deite conceito deduzio eílas jaculató-
rias de David : Senhor fdkttai-nte , porque as
aguas tem penetrado até a minha alma. Se-
nhor Iwrxl-me do profundo das aguas. A4eti-me
velo mar alto , e a tempejiade me fumergio (i).
Porque entaó fe achava afligido , por caufa
da infame uíurpaçaó , que Máximo lhe inten-
tava fazer do leu Bifpado. S. Fulgencio Bif-
po de Rufpa , achando-fe em huma junta ge-
ral da nobreza Romana , em que Theodorico
Rei dos Godos orou , vendo o efplendor de
tantos Senhores , poítos em ordem , cada hum
fegundo a fua qualidade , difíe : Bom Deos ,
cjuaõ fermofa fera a Jerufalem celeflial , quan-
do cá na terra aparece taó pompofa Roma
terreftre ! E fe tanto efplendor he concedido
ncfte mundo aos amadores da vaidade , que
gloria eftarà guardada no outro , para os con-
templadores da verdade. Conta fe que Santo
Anfelmo Arcebifpo de Cantuaria ( cujo naf-
cimento honrou fummamente as noíTas monta-
nhas)era admirável nefta pratica de fanto^ pen-
famentos. Huma lebre perfeguida dos galgos >
foi
(O Pfalm. 68. v. I. Salvam me fec Deus 9 quo*
«wm intraveruot a<\«* ttfque ad eninwm m<am , ev.
96 Introducçaõ
foi acbitar-fe debaixo do cavalo do Santo Pre-
lado , que hia de jornada , como a hum afylo
que o perigo iminente da morte lhe fugeria.
Os galgos ladrando ao redor , naõ íe atreviaó
a violar a immunidade , a que a fua prefa fe
tinha refugiado : efpe&aculo por certo eftra-
nho , que fez rir a todos os da comitiva , ao
mefmo tempo que o grande Anfelmo gemen-
do e chorando dizia : Ah , vós rides-vos, mas
o pobre animal naó fe rie : os inimigos da al-
ma , depois de a perfeguirem e aíTaltarem por
vários rodeios, com todo o género de pecca-
dos , a efperaõ no eftreito da morre , para a
arrebatar e tragar : e ella aterrada , bufca por
roda a parte refugio c focorro , e fe o naó
acha , zombaô feus inimigos e fe riem. Dizen-
do ifto , foi gemendo e fufpirando. Conítan-
tino Magno efcreveo a Santo Antaõ com
muita reverencia : do que admirando-fe muiro
os Religiofos que eítavaô com elle , lhe diíle
o Santo : )) Porque vos admirais vós de que
7> hum Rei eícreva a hum homem ? admirai-
)) vos antes de que Deos eterno efcreveíle a
» fua lei aos mortaes , e lhe falaíTe face a fa-
)) ce na peffoa de feu Filho, » S. Francifco
vendo huma ovelha no meio de hum rebanho
de cabras , diíTe para feu companheiro : Ve-
des como eíla pob'e ovelhinha he levada en-
tre eftas cabras : aííim hia NoíTò Senhor man-
íb e humilde entre os Farifeos. E vendo nou-
tra ocaíiaó , que hum cordeirinho era tragado
de hum porco , diíle chorando : Ah , e que
bem vivamente reprefentas a meu Salvador !
Aquellc grande perfonagem da noíía ida-
de ,
A3 V I D A DEVOTA. 97
de Francifco de Borja , fendo ainda Duque
de Gandia , indo a caça fazia mil devotas
conilderaçóes. Admirava-me , dizia elle de-
pois , como os falcões rornaó a maõ , fe dei-
xaó cobrir os olhos , e prender à percha , e os
homens fe fazem taó rebeldes à voz de Deos,
O grande Bafliio diz : que a rofí enrre os ef-
pinhos eftà dando aos homens eíle docume
to : Quanto nefte mundo he mais agradável tu-
do , ó mortaes , he mifturado de rriíleza ;
nada ha puro ; o pezar fe fegue fempre à ale-
gria , a viuvez aos defpoforios , os cuidados
à fertilidade , a ignominia à gloria , as defpe-
fas às honras , o diíTahor aos regalos , e a mo-
leília à íaude. Fermofa flor Ç diz efte Sanco
Prelado ) he a rofa , mas a mim me mete gran-
de trifteig , advertindo- me do meu pe ceado ,
pelo qual a terra foi condenada a dar efpinbos.
H'.;ma alma devota olhando para hum rega-
to j e vendo nelie retratado o Ceo , em huma
noite mui ferena , exclamou : Oh meu Dcos í
eítes mefmas eítrelas eíWáõ debaixo de meus
pés , quando vós me receberdes em voíTos fan-
tos Tabernáculos : e allim como a? eítrelas do
Ceo eílaó retratadas na terra , allim os homens
da terra faõ retratados no Ceo , na fonte viva
da claridade divina. Outro vendo os borbu-
Ihóes de hum rio , exclamou aíITm : Minha
alma nunca terá defeanço , em quanto fe naó
fumergir no mar da Divindade , que he a fua
origem. E S. Francifco olhando para hum
ameno ribeiro , em cuja margem efUva de
joelhos para fazer oraçaõ ; foi arrebatado ern
exíafis , repetindo com voz fuave cfta? pala-
G yras
ç3 Introducçaõ
vras muitas vezes : A graça de Deos corre taõ
doce e fuavemente como elt.e pequeno riacho.
Outro fujeito vendo as arvores floridas , fuípi-
rou dizendo .'Porque fó eu eftou fem flor no jar-
dim da Igreja í Outro vendo huns pintainhos
abrigados debaixo das afãs de fua mái , diíTe :
Senhor refguardai-nos debaixo da fombra das
voíTas afãs. Outro vendo o gira foi , excla-
mou : Quando fera , Senhor , que a minha
alma figa os acra&ivos da voiTa bondade í e
vendo as violetas de hum jardim fermcfas à
vifta , mas fem cheiro , diííe : Semelhantes
faõ os meus penfamentos , bons para ditos ,
mas fem effeito nem fruto.
Aqui rendes , minha Philotea , como fe
deduzem as fantas afpiraçóes , do que fe re-
prefenta na variedade defta mortal vida. Mal*
aventurados aquelles que apartaõ as creaturas
do Creador , para as converter ao peccado.
Bemaventurados os que as encaminhaó á glo-
ria de feu Creador , empregando a fua vaida-
de em honra da verdade. Por certo ( diz S.
Gregório Nazianzeno , que me tenho coftu-
mado a referir todas as coifas ao meu aprovei-
tamento efpiritual. Lede o epitáfio que S. Je-
ronymo compoz a Santa Paula : por fer coiía
agradável , o ver como eílá matizado de afpi-
raçóes e conceitos fanros , que ella fazia em
todo o género de acontecimentos.
Nefte exercício pois do retiro efpiritual ,
e das orações jaculatórias, fe eftriba a gran-
de obra da devoção : Ella he quem pode fu-
prir a falta das outras orações , mas a fua fal-
ta naõ fe pôde reparar por outro meio. Sem
A' V I D A D E V O T A, 99
elle fe naó pode fazer vida contemplativa: e
ainda mefmo a aíiiva mal fe poderia prati-
car, Sem elle o dc.canço naó he fenaó ocio-
íidade , e o trabalho eííorvo : por cuja caufa
vos exorto , a que o abraceis de todo o voílo
coração, lem nunca o largar.
CAPITULO XIV.
Do J atito Sacrificio da Mifla , e de comofe
de-ve owvir.
Ainda vos naó tenho falado do Sol dos ex-
ercicios cfpirituaes : qual he o Santiííimo,
facrofanto , e íbberano Sacrificio e Sacra-
mento da Miíía , centro da Religião Chriftá 9
coração da devoção , alma da piedade , myf-
terio inefável , que encerra o abifmo da cari-
dade divina : pelo qual Deos applicando-fe
realmente a nós 5 nos communica magnifica-
mente fuás graças e favores.
A oraçaó feita em uniaó deíle divino Sa^
crificio , tem huma eficácia indizível : de for-
te que , Phíiotea , por meio dele abunda a
alma em favores celeftiaes : como reclinada
fobre feu amado bem , que a enche de fra-
gancias e fuavidades efpirituaes de modo que
toda ella parece huma columna de fumo de
lenhos aromáticos de myrra e incenfo 3 e de
todos os pós odoríferos , como fe diz nos Can*
ticoc,
Procurai pois quanto puderdes , aíliítir to*
dos os dias ao fanto Sacrifício da MiíTa 3 para
Q ii som
ioo Introdt/cçaõ
com o Sacerdore oferecerdes o Sacrifício do
voíTo Redemptor a Deos Padre , por vós , e
por coda a Igreja. Os Anjos fe achaõ fempre
prefentes em grande numero , como diz S.
Joaó Chryfoílomo , a honrar efte fanto myf-
terio : e eílando nós alli com elles , com hu-
ma mefma intenção , naó podemos deixar de
receber muitas influencias propicias com tal
companhia. E os coros da Igreja militante e
triunfante fe vem a juntar e unir a NoíTo Se-
nhor , neíla divina acçaó : para com elle ,
nelie , e por elle , arrebatar o coração de
Deos , e fazer toda noffa a fua mifencordia.
Que dica para huma alma , concorrer devota-
mente com feus affeclos para hum bem taõ
preciofo e eftimavel !
Se por alguma ocupação forçofa naó po-
derdes aíliftir à celebração deite foberano Sa-
crifício com prefença corporal , convenien-
te fera que ao menos vades com o coração
aíliftir a elle com prefença efpiritual. A qual-
quer hora pois da manha , ide em efpirito ,
fe naó puderdes de outro modo , á Igreja :
uni a volTa intenção com a de todos os Chrif-
táos , e fazei os mefmos afros interiores , no
lugar onde eftiverdes , que fizéreis fe realmen-
te efti veííeis prefenre ao facrofanto oficio da
MiíTa , em qualquer Igreja.
Para ouvirdes pois ou real , ou mental-
mente a MiíTa , como convcm.
i Defde o principio até que o Sacerdote
chega ao Altar , fazei com elle a preparação:
a qual confifte em pôr na prefença de Deos ,
reconhecer a voíTa indignidade , e pedir perdão
das voíías faltas. De-
a5 Vida devota. ioi
2 Depois que o Sacerdote eftá no Akar
até o Evangelho , confiderai a vinda e vida
de NoíTo Senhor a efte mundo , com huma
fimples e geral confideraçaó,
3 Do Evangelho até o Credo 3 conílderai
a pregação de NoíTo Salvador : proteílai que-
rer viver e morrer na fé e obediência de Tua
fanta palavra , e na uniaõ da Santa Igreja Ca-
tholica.
4 Depois do Credo até o Pater nofter ,'
aplicai o voíTò coração aos Myiterios da Mor-
te e Paixaó do NoiTo Redemptor, que a&uai
e eíTenci ai mente fe reprefentaó nefte facro-
fanto Sacrifício , o qual com o Padre e com
o demais povo , offereceis a Deos 3 em honra
fua , e pela volTa falvaçaó.
5 Depois do Pater nofter até a Comunhão,
esforçai-vos em excitar em voíTo coração
muitos defejos ardentes de eftar fempre próxi-
ma e unida a NoíTo Salvador , por amor eter-
no.
6 Depois da Communhaõ até o fim , dai
graças â Mageftade Divina , por fua Incarna-
ção , Vida, Morte e Paixão; e pelo amor
que nos moftra neíle facrofanto Sacrifício : pc-
dindo-lhe por elle , que vos feja fempre propi-
cio , e a volíos pais e amidos , e a toda a
Igreja : e humilhando-vos de todo voíTo cora-
ção , recebereis devotamente a bençaó Divi-
na , que vos dá NoíTo Senhor por meio de
feu Miniftro.
Mas fe quizerdes , durante a Miílà , fazer
volTa meditação pelos Myfterios , que ides
continuando cada dia 5 naó fera neceíTario ,
que
v)
102 Introducçao
que vos divirtais afazer eítes a£los particula-
res : mas bailará , que no principio encami-
nheis voiTa intenção, a querer adorar e orTe-
recer eíle facroíanto Sacrifício , por meio do
exercício da voiTa meditação e oraçaõ ; por-
que em toda a meditação Te achaõ os a&os
íobreditos , ou expreilamente , ou tacita e vir-
tualmente.
CAPITULO XV.
De outros exercidos públicos e communs,
ALem do fobredito , Philotea , nas fefti-
vidades e Domingos , he conveniente
que aíliílais ao Officio das horas e Vefperas ,
fe tiverdes commodidade para iflb ; porque
eítes dias faó dedicados a Deos , e convém
fazer nelles mais obras em honra e gloria fua ,
que nos outros. Sentireis por efte meio mil
doçuras de devoção , como fucedia a Santo
Agoílinho , que teftifica nas fuás Coníifsóes ,
que ouvindo os Olficios Divinos no principio
da fua converfaõ 5 feu coração inundava em
íuavidade , e feus olhos em piedofas lagrimas.
E também (e iíto fique dito por huma vez )
porque fempre ha mais proveito e confolaçaó
nos Officios públicos da Igreja , que nas ac-
ções particulares ', porque aííim o tem Deos
ordenado , que a communidade feja preferi-
da a toda a forte de particularidade.
Entrai de boamente nas Confrarias do lu-
gar em cjue viveis 3 e particularmente naquei-
las 3
A5 V I D A DEVOTA, IOJ
las , cujos exercícios faó de maior fruto e edi-
ficação : porque nitfo praticareis hum género
Je obediência mui agradável a Deos. E poíto
que as Confrarias naõ faó de preceito 3 ião
com tudo recomendadas pela Igreja ; a qual
para teftificar que defeja que muitos fe alil-
tem nellas, concede indulgências e privi egios
aos Confrades. E na verdade fempre he obra
de grande caridade , concorrer com muitos ,
e cooperar com os mais para os feus bons in-
ternos. E ainda que poíla fucceder , queak
guem pratique também exercícios por íi fo ,
como os Confrades em commum , e poíla
goftar mais de os fazer em particular \ Deos
he mais glorificado pela uniaó e concurren-
cia , que^ fazemos em noíías boas obras , com
noiíos irmãos e próximos.
O melmo digo de toda a forte de orações
e devoções publicas , nas quaes devemos
quanto nos for poíKvel , concorrer com o bom
exemplo , para edificação do próximo , e com
o nofib affe&o a floria de Deos , e com a in-
tenção commum.
CAPITULO XVI.
Que devemos honrar , e invocar os Santos.
JA que Deos nos envia tantas vezes infpí-
raçóes por feus Anjos , também nós lhe
devemos remeter frequentemente as noíTas af-
piraçóes , pela mefma mediação. As almas
fantas dos defuntos , aue eftaó no Ceo com
os
104 Introditcçao
os Anjos , e como diz Nofíò Senhor , iguaes
e femelhantes a elles , também fazem o mef«
mo oríicio , de nos infpirar , e afpirar por nós,
com fuás famas orações.
Philotea minha , juntemos noflbs corações
a eftes celeftiaes efpiritos e almas bemaven-
turadas ; porque aílim como os rouxinóes pe-
queninos aprendem a cantar com os grandes ,
aííim nós pelo comercio que tivermos com os
Santos , faberemos melhor rezar e canrar os
louvores Divinos : Salmearei ( dizia David )
na prefença dos Anjos, (i)
Honrai reverenciai e refpeitai com efpe-
cial amor a fagrada e gloriofa Virgem Maria :
ella he a Mái do nofib foberano Pai , e por
confeguinte noíla Avó. Por tanto recorramos
a ella , e como feus netos nos lancemos no
feu regaço a cada inflame , com numa intei-
ra confiança : em todas as ocurencias implo-
remos eíta doce Mái , invoquemos o feu ma-
ternal amor, e proponhamos imitar fuás vir-
tudes : feja fempre para com ella o noíTo co-
ração filial.
Familiariza i-«os mu iro com os Anjos , vê-
de-os muitas tfs?es prefenres invifivelmente ás
voíTus acções e principalmente amai e reve-
renciai o do voiTo Bifpado em que morais ,
os das peííoas com quem viveis , em efpeciaí
o voíío Rogai-os muitas vezes, , louvai-os de
ordinário, empenhai feu favor e focorro em
todos voíTos negócios , aííim efpirituaes como
tem-
(0 Piai». 37. v, 2. In cerifpettn Ansctorum via*
hm tlbl.
a9 Vida devota. ioy
temporaes , para que cooperem a voiTbs inten-
tos.
O grande Pedro Fabro , primeiro Sacer-
dote e primeiro Pregador e Leitor de Theo-
loga da Companhia do nome de Jelus , e
primeiro companheiro do B. Ignacio Teu fun-
dador ; vindo hum dia de Alemanha, onde
tinha feito grandes ferviços de gloria de Nof-
fo Senhor , e paliando por efta Diocefe lugar
de feu na (cimento , recontava : que tendo a-
traveiTado muitos lugares heréticos , recebera
milhares de confolaçóes , faudando na entra-
da de cada Parochia os Anjos prote&ores del-
ias : os quaes viílvelmeme conhecera íerem-
lhe propícios , tanto para fe falvar das embof-
cadas dos Hereges, como para tornar muitas
almas b;an:!as e dóceis a receber a doutrina
faudavel. Iílo dizia com ranra atTeveraçaó , que
huma donzela de pouca idade , ouvindo-o da
íua boca , o referia ha quatro annos : ifto he ,
mais de quarenta depois , com hum extremo-
íb afFect.o. E eu nefte anno palTado , recebi a
confolaçaó de confagrar hum Altar , no iug.ir
onde Deos foi fervido que nafcelTe eíte bem-
aventurado Varaó : no lugarejo de Villaret ,
entre as noíTas mais afperas montanhas.
Elegei alguns Santos particulares de cujas
vidas polTais goftar mais , c imitar ; e em cu-
ja interceíTaõ tenhais particular confiança. O
do votTo nome , vos lie defignado deíde o Bau-
tifmo.
CA-
v ^
106 iNTRODTJCqAÓ
II— I^WIMBI IHIWIIM1MWIIMIIIIII ■ Hl——— TTT— Mf
CAPITULO XVII.
Como fe dvve ouvir e ler a palavra de Deos*
SEde devota da palavra de Deos , ou a
oiçais em colóquios familiares com vof-
fos amigos efpirituaes , ou no Sermão : ouvi-a
fempre com atenção e reverencia. Aproveitai-
vos bem delia , e naõ confintais que vos caia
no chaõ , mas recebei-a como hum preciofo
balfamo em voíTo coração : á imitação da San-
tiílima Virgem , que confervava no Teu todas
as palavras que Te diziaó de louvor de feu Fi-
lho. E lembrai-vos , de que NoíTo Senhor re-
colhe as palavras que nós lhe dizemos em nof-
ías orações , à medida que nós recolhemos as
que nos diz por fua pregação.
Tende fempre comvofco algum bom livro
de devoção: como faó os de S. Boaventura ,
Gerfon, Dionyfio Cartufiano , Ludovico Blo-
íio , Granada , Eftela , Árias , Pinello , Ávi-
la , o Combate efpirituai , as Confií-óes de
Santo Agoftinho , as Epiftolas de S. Jerony-
mo , e outros femelhantes. E lede todos os
dias hum pouco com muita devoção , como
fe letTeis cartas miílivas , que os Santos vos
envialTem do Ceo , para vos moftrar o cami-
nho , e dar animo para lá irdes. Lede tam-
bém as hiftorias das vidas dos Santos , nas
quaes como em efpelho , vereis a imagem da
vida Chriíti , e acomodai as fuás acções ao
voílb aproveitamento , fegundo a voíía voca-
ção >
a5 Vida devota. 107
çaó. Porque ainda que muitas das acções dos
Santos fe naô potfaó irfmar , pelos que vi-
vem no meio do mundo : com tudo , rodas Te
podem feguir , ou de perto ou de longe : a
loledade de S. Paulo primeiro Eremita , imi-
tai-a em vollos retiros efpirituaes e corporaes,
de que ainda falaremos , e já falámos acima :
a fumma pobreza de S. Francifco , com os
exercícios de pobreza , da qualidade que di-
remos : e affim as mais. Verdade he , que ha
cerras hiítorias , que daó mais luz que outras,
para a conducta da notTa vida : como a vida
da Bemaventurada Madre Santa Terefa , a
qual para ifto he admirável : as vidas dos pri-
meiros Jefuitas , a de S. Carlos Borromeo Ar-
cebifpo de Miiaõ , de S. Luiz , de S. Bernar-
do , as Chronicas de S. Francifco , e outras
femelhantes. Outras ha onde fe acha mais ma-
téria de admiração que de imitação , como a
de Santa Maria Egypciaca , S. Simeaó Eíteli-
ta , das duas Santas Catharina de Sena , e de
Génova, de Santa Angela, e outras taes : as
quaes nem por iilb deixaõ de dar-nos hum
grande goíto geral do fanto amor de Deos.
CAPITULO XVIII.
Como fe ãe-vem receber as infpiraçoes.
CHamamos infpiraçoes todos os atractivos,
movimentos , reprehensóes e remórfos in-
teriores , luzes e conceitos que Deos obra em
nós , prevenindo noílòs corações com fuás bên-
çãos ,
io8 Intkodttccao
3
çãos , com feu cuidado e amor paternal ; a
fim de nos defpertar , excitar , impelir , e
atrahir ás virtudes íantas e amor celeftial , ás
fantas refoluçóes : em huma palavra , a tudo
o que nos encaminha á noíTo eterno bem. A
ifto he que o Efpofo chama bater à porta , fa-
lar ao coração de fua Efpofa , defperta-la
quando dorme , gritar e chamar por elia quan-
do eftá aufente , convida-la ao leu mel , ea
colher fuás maçãs e flores em feu jardim , e a
cantar e fazer fua voz fuave em feus ouvidos.
Neceííito de huma femelhança para me dar
bem a entender.
Para inteira refoluçaõ de huns defpoforios,
devem intervir três acções , em quanto á don-
zela que fe quer defpofar : porque primeira-
mente fe lhe propõem o partido , em fegundo
lugar admite a propofta , e em terceiro lhe dá
confentimento. AíTim Deos, querendo obrar
em nós por nós e comnoíco , alguma acçaõ
de grande caridade ; primeiramente no-la pro-
põem pela fua infpiraçaõ , fecundariamente a
aceitamos, em terceiro lugar a confentimos.
Porque aííim como para defcer ao peccado ,
lia três degráos , a tentação , a deleitação , o
confentimento: também ha três para fubirá
virtude : a infpiraçaõ que he oppofta á tenta-
ção : a deleitação na infpiraçaõ , que he con-
traria à deleitação da tentação : e o confenti-
mento da infpiraçaõ , que fe oppoem ao con-
fentimento da tentação.
Quando a infpiraçaõ dura (Te todo o tempo
de noíTa vida , nem por iffo feriamos em mo-
do algum agradáveis a Deos > fenaõ nosde-
lei-
