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Introduction à la vie dévote

Chapter 1

Preface

«17*

1 #Bf3C;3?>\

* 1

Presented to the
library of the

UNIVERSITY OF TORONTO

by

Dr. António Gomes

Da Rocha Madahil

át^

/

INTRODUCÇAÕ

ÁVIDA DEVOTA

D E

S. FRANCISCO DE SALES,

BISPO E PRÍNCIPE DE GENEBRA,
e Fundador da Ordem da Vifuaçaó.

Novamente traduqda n.t Língua Portitgueyt ,
com maior cxacçaõ.

LISBOA

Na OP. Patr. de Francisco Luiz Ameno*

w. DCC. LXXXIV.

Com licença da Real Mefa Cenforia,

PROLOGO

DESTA TRADUCCAÔ.

OS motivos particulares que
houve para efta Traducçaõ,
foraõ primeiro eftar quaíi e:>
tinfta a edição Portugueza , que ha
annosfe imprimio: e fer efta pouco
commoda , para fe trazer nas mãos ,
principalmente em lugares fagrados ,
por fer em quarto. O íegundo motivo
foi , encontrarem-fe na dita Traduc-
çaõ Portugueza innumeraveis defei-
tos , principalmente originados de fe
naõ exprimir com propriedade e ele*
gancia no noífo idioma, o que fe diz
no Francez. Ifto he o que procura*
mos evitar nefta Edição, tendo fem-
pre á Yifta o Original Francez j e cor-
a ii ren-

rendo regra por regra a Edição Pari-
fienfe de folha , que comprehende to-
das as obras defte Santo , impreíTa em
1669. Por efta nos deve examinar,
quem quizer averiguar a verdade e fi-
delidade com que procedemos.

Na pagina 13 Capitulo II. Diz
o Santo aíiím : E que reciprequement
les habitam ejloient des gens fi prodi-
gieux , qiCils mangeoient les antres
hommes comme de locufies. Quer dizer :
y> E que reciprocamente os habitado-
y> res eraõ gente taõ eftranha , que
» elles comiaõ aos outros homens co-
)) mo a gafanhotos. » Se nefte lugar
eftá ou naõ bem applicado o Texto
do livro dos Números cap. 3. v. 34.
nos naõ pertence a nós o decidi-lo ;
pois naõ fazemos as vezes de Cenfo-
res? mas de Tradu&ores.

Ifto bafte dizer; porque para re-
comendação da obra balia o nome de
feu Author, e a eftimaçaó que delia
fe faz em toda a Europa : perfuadin-
do-fe todos , que antes defte fanto
Efçritor, ninguém melhor do que el-

le foube concordar e aflbciar os d i cla-
mes da vida domeftica e civil com as
leis do Evangelho, e com os diíla-
mes da Perfeição Chrifta , enfinados
pelo Divino Meftre. A quem feja da-
do todo o louvor e gloria.

BRE-

BREVE

DO SS. PAPA

ALEXANDRE VIL

Em refpofia das graças que lhe deu o Conde de

Sales , fobrinho de S. Francifco de Sales ;

depois da Canonização defte Santo,

Nojo carijimo Filho Conde de Sales : Saúde e
Benção Apoftolica.

NOÍTb mui amado Filho. Entre
as graças mais /inaladas , com
que Deos foi Zervido fa^ore-
cer-nos mais do que merecía-
mos , foi huma efta , a de nos conduzir
á obra da Canonização do grande S. Fran-
cifco de Sales : a quem deíde a noíTa mo-
cidade tínhamos fempre venerado , pela
fua grande íantidade : e efcolliido deíde
então por noíío Meílre e.noflb Direclor
na vida efpiritual , por meio dos feus ef-
crítos que encerraò huma doutrina toda
de oiro e a mais faudavel. Por efta efco-
lha podeis conhecer , noflo cari/limo Fi-
lho , o noflb afTecto e caridade paternal
para comvofco e todos os voflos : prin-
cipalmente eftando nós períuadidos , de

que

que regrais os v oíTos coftumes e acções ,
e as de voíTos filhos por hum tal exem-
plar. E poílo que já aífím o fazeis de vós
mefmo , com tudo naó deixaremos com
amor paternal de vos exhortar a hum no-
vo vigor : pois lie muito racionavel , que
os que tem a honra de ferem taô chega-
dos a eíte grande Santo , naÕ defprezem
hum taô fermofo exemplar , que a maó
de Deos tirou da fua familia para admi-
ração do mundo todo ; e fejaÔ os feus
mais chegados , mais que todos os feus
imitadores. E para que vós e a voíTa cafa
poíTais ditofamente com a ajuda e favor
do Ceo , unir-vos aos fagrados veíligios
deite grande Santo , e alcançar a conti-
nuação e cumulo dos bens efpirituaes e
temporaes : de todo o noflb coração vos
concedemos Benção Apoífolica e Pontifí-
cia. Dado em Roma em Santa Maria
Maior ? de baixo do Annel do Pefcador :
a três de Junho de ióóy. : n. de noflb
Pontificado.

Sellado e affinado,

Joaõ Florentino.

PRE-

PREFAÇÃO

DO SANTO.

Amigo Leitor , peço-te , que leias ejla
Prefação , para tua fatisfaçaõ , e

minha.

Ramalheteira Gliceria fabia taó
propriamente diveríificar a dif-
pofíçaõ e miftura das flores , que
com as roefmas flores Fazia hu-
ma grande variedade de ramalhetes : de
forte que o pintor Pauíias , querendo á
competência arremedar efta variedade de
obra , ficou vencido , naõ labendo variar
a fua pintura de tantos modos, de quan-
tos compunha Gliceria os ramalhete?. Se-
melhantemente o Efpiriro Santo difpoem
e ordena com rar.ta variedade os docu-
mentos de devoção , que elle dá pelas
línguas e pennas de feus íervos , que fen-
do fempre buma meima a doutrina , os
difcurfos com tudo que fe fazem faõ bem
diferentes , fegundo os diverfos modos
com que eítao difpoftos. Na verdade nap
poíTo , nem quero , nem devo efcrçver

nef-

ii Prefação

neíla Introducçaô , fenao o que eílá já
publicado por noííos predeceííbres neíla
matéria : ifto nao faò mais que as mefmas
fiores , que te orFereço Leitor meu , mas
o ramalhete que faço , fera diferente dos
íeus , em razaõ da forma de quehe com-
pofto.

Os que tem tratado de devoção, cua-
íl fempre atenderão a inílruir peííbas
mui retiradas do comercio do mundo,
cu ao menos enfmaraõ hum género de de-
voção, que conduz a efte inteiro retiro : o
meu intento he inílruir os que vivem nas
Cidades , nos negócios , e nas Cortes ;
e que pela fua condição eftaô obrigados a
fazer huma vida cornmua quanto ao exte-
rior , os quaes mui ordinariamente com
o pretexto de huma affe&ada impoíTibili-
dade , nem ao menos querem cuidar, em
emprehender a vida devora , aíTentando
no diclame: que.aíTim como nenhum ani-
mal fe atreve a provar o graõ da erva
chamada Palma Chrifti ; aíTim também
nenhum homem deve pretender a palma
da piedade Chriíla , etn quanto vive en-
tre a multidão de negócios" temporaes.
Mas eu lhe moílro , que aííim como as
madrepérolas vivem no meio do mar ,
íem receberem nem huma gota de agua
falg^da 5 e que junto ás lihas Chelidonias

ha

D O S A N T O. íii

ha fonte de agua mui doce no meio do
mar, e que as Salamandras voaó entre as
chamas , íem queimarem as azas : aflim
pode huma alma valeroía e confiante, vir
ver no mundo íem receber humor algum
mundano , achar a? fontes de huma íua-
ve piedade no meio das ondas amafgofas
deite mundo , e voar entre as cl mas dos
appetites terrenos , íem queimar as szas
dos fantos deíejos da vida devota. Ver-
dade he que iflo he riificulroío , e ei.a a
cauía por que eu defejava , que muitos
empregaffem niílo o jeu cuidado , com
mais fervor , do que o tem feito jue o
prefente. Ainda que eu fou iraquiffimo ,
me enfaio com efte tratado a contribui*
com algum íocorro , aos que com cora-
ção generofo entrarem neíta digna em-

preza. . '

Com tudo naó foi por eleição ou in-
clinação minha , que eíta IntroducçaÕ ía-
he a" publico : huma Alma verdadeira-
mente honrada e virtuoía , tendo depois
de paflado algum tempo recebido de Deos
a graça , de querer afpirar á vida devo-
ta , defejou a minha particular aíliítencia
a efte reípeito : e como eu lhe devia mui-
tas fortes de obrigações , e tinha muito
tempo antes advertido neila muitas dii-
poficoes a efte fim > tomei todo o cuida-
r 3 do

iv PrefaçAõ

do de bem a inítruir : e tendo-a condu-
zido por todos os exercidos convenien-
tes ao leu defejo , e á fua condição , lhe
deixei por eícrito algumas memorias, pa-
ra que recorrelTe a ellas , quando lhe
foííe neceííario. Cômunicou-as eJla depois
a hum grande douto e devoto Religiofo ,
o qual julgando , que muitos podiaõ ti-
rar proveito delias , me exhortou a que
as publicafle : o que lhe foi fácil de me
perfuadir , por ter a fua amizade grande
poder fobre a minha vontade , e o feu
juízo huma grande authoridade íobre o
meu.

Para que tudo pois foffe mais útil e
agradável , revi eíla obra , metendo-lhe
algum género de ornato , e acrecenran-
do-lhe muitos avifos e documentos pró-
prios ao meu intento : mas tudo iílo o
tenho feito , quaíl íem género algum de
deícanço. Por cuja caufa nada verás aqui
com exacçaó , mas fomente hum montão
de advertências bem intencionadas , que
explico com palavras claras e inteligíveis,
ou ao menos o defejo aífim fazer. E quan-
to aos de mais ornatos da lingua, nem fe-
quer cuidei niíTo , como quem lhe nao
faltao outras muitas coifas que fazer.

Dirijo minhas palavras a Philotea ,"
por que como quero que firvaõ á utilida-
de

D O S A N T O. V

de commua de muitas almas , o que pri-
meiramente tinha eícriro para huma fó ,
a apelido com hum nome comum a todas
as que querem fer devotas , porque Phi-
lotea quer dizer , amadora ou amante de
Deos.

Atendendo pois em tudo ifto a huma
alma , que pelo defejo da devoção afpi-
ra ao amor de Deos , dividi eíla Introduc-
çaõ em cinco partes : na primeira das
quaes me empenho com algumas perfua-
soes e exercícios , a converter o ílmples
defejo da Philotea , em huma inteira re-
íoluçao 3 que ella faz por fim , depois da
Confiííaõ geral , por huma foíida protef-
taça6 a que fe figa a fagrada Comunhão ,
na qual entregando-fe e recebendo a feu
Salvador , entra felizmente em feu fanto
amor. Feito ifto, para a conduzir adian-
te , lhe moftro dois grandes meios de fe
unir mais e mais á Divina Mageftade : o
ufo dos Sacramentos , pelos quaes efte
bom Deos vem a nós : e a fanta Oração,
pela qual elle nos leva a íi : nifto empre-
go a íegunda parte. Na terceira lhe
moftro , como fe deve ella exercitar em
muitas virtudes mais próprias do feu adi-
antamento; naô me detendo fenaó em vá-
rios documentos particulares , que naó
poderá facilmente achar em outra parte ,

nem

vi Prefação

nem de íl mefma. Na quarta , lhe pro-
curo defcobrir algumas embeiçadas de
feus inimigos , e lhe moílro como fe de-
ve defemtnraçar , e paííar adiante na fua
empreza. E finalmente na quinta parte ,
procuro , que fe mire hum pouco comfi-
go , para fe refrefcar , romar o fôlego ,
e reparar as forças , para poder depois
mais felizmente ganhar terra , eadiantar-
fe na vida devota.

A idade preíente he mui litigiofa :
prevejo muito bem , que muitos diraô ,
que nao pertence íenaó aos Retigiofos e
peííoas de devoção , fazer direcções taò
particulares á piedade , e que éílas pe-
dem mais lazer do que pôde ter hum
Biipo carregado dehuma Diocefe taò pe-
zada como a minha ; que iílo diítrae
muito o entendimento , o qual fe deve
empregar em coi(V«s importantes.

Mas eu , cariííimo Leitor , te digo
com o grande S. Dionyíio: que aos Bií-
pos pertence principalmente aperfeiçoar
as almas , e tanto he a fua Ordem fupre-
ma entre os homens, como a dos Sera-
fins entre os Anjos: pelo que nao podem
empregar melhor o feu tempo do que nif-
to. Os antigos Bifpos e Padres da igre-
ja , pelo menos eraò taÕ afeiçoados aos
feus cargos como nós : e nem por iífo

dei-

D O S A N T O. VÍl

deixavao de ter cuidado da direcção
particular de muitas almas , que recorriaó
ao feu amparo , como fe vê pelas íuas
cartas : imitando niílo aos Apoftolos ,
que no meio da íeara geral do Univerfo,
recolhiaõ naõ obftante certas efpigas mais
notáveis , com huma efpecial e diílindla
afFeiçaõ. Quem nao fabe , que Timo-
theo , Tito , Philemon , Onelimo , San-
ta Tecla , Apia , erao os filhos queridos
de S. Paulo ? aílirn como S. Marcos . e
Santa Petronilha de S. Pedro. Santa Pe-
tronilha, digo, a qual como provaõ dou-
tamente Baronio e Galonio , naõ foi fi-
lha carnal , mas fomente efpiritual de S.
Pedro. E S. João naõ efcreveo huma das
fuás Epiftolas Canónicas á devota ma-
trona Electa ? Ifto he de trabalho , bem
o confeflb ; mas hum trabalho que con-
fola , femelhante ao dos fegadores e vin-
dimadores , quu nunca mais contentes ,
que quando eíhÕ muito ocupados e carre-
gados. He hum trabalho que dilata e con-
forta o coração , com a luavidade, que
delle refulta aos que o emprendem ; co-
mo faz o cinamomo, aos que o trazem
no meio da Arábia Felis. Diz-fe que a
tigre fêmea , tendo achado algum de feus
filhinhos, que o caçador lhe deixou no
caminho > para a entreter, em quanto el-

le

viii Prefação

Ie leva o relto , carrega com elle por
pezado que feja •, e lhe na6 he ifto de Pe-
go, antes corre mais ligeira , para o (al-
var no íeu covil: aliviando-lhe a carga
o amor narural. Com quanto mais boa
vontade tomará hum coração paternal a
feu cargo huma alma, que encontrar com
o delejo da fanta perfeição^, trazendo-a
no feu feio , como huma mai a leu nlln-
nho , fem íe queixar delia querida car-

g3' Mas fem duvida deve fer efte hum
CÓracaÓ paternal : e por iíío os Apolto-
los e homens Apoftoliccs , chamao a feus
difcipulos, naÕ fó feus filhos , mas ainda
mais ternamente feus filhinhos.

Quanto ao de mais , meu canflimo
Leitor , verdade he que efcrevo da vida
devota , (em fer devoto , mas nao por
Certo fem o defejo de o vir a ler: e tam-
bém efte affeéto he o que me da animo
mra te inltruir. Porque como diz hum
Unde homem (i) de letras, hum bom
Sodo de aprender he eftudar , e melhor
ouvir , e óptimo mimar. Succede ordi-
nariamente , diz Santo Agoftmho elcre-
vendo á fua devota Florentina , que^ o

(i) Erafmo.

D O S A tf T O. IX

éfficio de diílribuir ferve de merecimento
para receber : e o oíScio de én finar , de
fundamento para aprender.

Alexandre mandou pintar a fermofa
Campafpe , a quem tanto amou , pe!a
mão do fingular Apeles. Apeles obriga-
do a con liderar muiro de eipsço a Cam-
pafpe , ao mefmo paifo que lhe hia deli-
neando as feições íobre o quadro , íe lhe
imprimia o amor no coração , affeiçoan-
dofe-lhe de tal forte , que .Alexandre
compadecido delle , lha deu por efpofa ,
prirando-fe por feu refpeito da que mais
amava nefte mundo : no que , diz Plí-
nio , moítrou a grandeza do feu coração,
mo menos que em huma iníigne victoria.
Iíto pois me admoeíta , amigo Leiror ,
que fendo eu Bifpo , quer Deos que eu
pinte nos corações das peíToas , nao lá
as virtudes commuas , mas também a lua
cariífima e dileetiílima devoção. Pelo que
de boamente o emprehendo , tanto por
obedecer e fazer o que devo , como pela
efperança que tenho , de que gravando-a
no efpirito dos outros , fe tornará talvez
o meu fantamente amorofo. Se a divina
Mageílade pois me vir fempre inflamado
neila , ma dará em matrimonio eterno. A
fermofa e cafta Rebeca dando de beber
aos camelos de Ifaac x foi deítinada para
b ler

X PUEFACAÔ

i

fer fua efpofa , recebendo da fua parte as
arrecadas das orelha? , e os braceletes de
oiro : aílim eu me prometo da immenfa
bondade de meu Deos , que conduzindo
íuas cariflimas ovelhas ás aguas falutiferas
da devoção , fará a minha alma íua efpo-
fa , metendo nos meus ouvidos palavras
doiradas de fanto amor , e em meus bra-
ços a fortaleza de as praticar , em que
Goníiíle a effencia da verdadeira devoção:
que eu fuplico a íua Mageílade , me quei-
ra outorgar , e a todos os filhos da Igre-
ja fanta } á qual quero íempre fubmeter
es meus eferitos , as minhas acções ,. as
minhas palavras , e a minha vontade e
meus penfamentos. Em Anecy , dia de
Santa Madalena. 1609.

ÍN4

IND í CE

DOS CAPÍTULOS.

PRIMEIRA PARTE.

CAPITULO I. Defcreve-fie a verdadei-
ra devoção , Pag. i.

CAP. II. Propriedades e excellencias da De-
voção , 5.

CAP."3 III. Que a Devoção ke própria de qual-
quer forte de prafiffaó ou eftado , 8-

CAP. IV. Da necejfulade de bum Direãor pa-
ra principiar , e fazer progr elfos na Devo-
ção , 10.

CAP. V. Que he necefiario começar por puri-
ficar a alma , 14.

GAP. VL Da primeira purificação, que he a
dos peccados mortaes . 17.

CAP. VII. Da Jegnnda purificação , afabcr,
do ajjeclo ao pe ceado , 15;.

CAP. VIII. De que modo fie ha de fazçr eftd
fegunda purificação , 21.

CAP. IX. Meditação I. Da Cr e aça o , 2$.

CAP. X. Do fim para que fomos creados , 16.

CAP. XI. Dos benefícios de Dcos , z<j.

CAP. XII. Dos peccados, \z.

CAP. XIII. Da Morte , : 7.

CAP. XIV. Do rjuizp , ?8.

CAP. XV. Do Inferno, *I,

GAP. XVL Do Ceo , 45.

b ii CAP.

xii Índice

CAP. XVII. Por modo de eleição e cfcolba do
Ceo , 46.

CAP. XVÍÍI. Por modo de eleição , que a ai-
ma fa\ da vida devota , 49.

CAP. XIX. Como fie deve jazer a Confiffa o ge-
ral , si.

CAP. XX. Proteftaçao autbentica , para gra-
var na alma a rejoluçao de fervi r a Deos ,1 e
concluir os aãos de penitencia , 54.

CAP. XXI. Conchifao deita primeira purifica-
ção, 57-

CAP. XXII. Qíh nos devemos purificar dos
affcãos aos peccador veniaes , 58.

CAP. XXI II. Que convém purificamos do aj-
jeclo a coifas inúteis e perigo/as ,61.

CAP. XXIV. Qiíc devemos purificar-nos das
más inclinações ,6$.

SEGUNDA PARTE.

V/ AP. T. Ba neccftdade daOraçaÕ 96ç.
CAP. II. Breve metbodo para a Meditação ,

cem primeiro lugar da prefença de Deos :

primeiro pomo da Preparação, 69.
CAP. III- Da invocação : fegundo ponto da

V reparação , 7?,.
CAP. ÍV! Da propofiçao do Myfierio : ponto

terceiro da Preparação , 74-
CAP. V. Dis confideraÇGcs -fcgtmda parte da

Meditação , 76.
CAP. VI. Dos ajfeãos e refohçoes : tercei-
ra

Índice. si li

ta parte da Meditação, 77.
CAP. VII. Da conclufao c ramitbete efpiri-

tu d , 78.
CAP. VI íí. D«? alguns a<vifos utiliffimos ácer*

ca da Meditaç 10 , 79.
ÇAP. IX. Das fe curas que acontecem na Ora-

çatfj 8;.
CAP. X. Exercício para o tempo da manha ,

??•

ÇAP. XI. Do exercido da noite, e exame de
conciencia , 87.

CAP. XII. Do retiro efpiriinal , 88.

CAP. XIII. Das afpir tcoes , orações jaculató-
rias , s bons penfamentos , 02.

C/AP. XIV. Do //ímío Sacrificio da Mija, e
de como fe deve ouvir , 99.

CAP. XV. De outros exercícios ptálicos e com-
muns , T02.

CAP. XVI. Que devemos honrar, e invocar
os Santos , io$.

ÇAP. XVII. Como fe deve ouvir e Ur a pa-
lavra de Deos , 106.

ÇAP. XVIII. Como fe devem receber as infpi-
raçces , to^.

CAP. XIX. Do Sacramento da Confijfao ,

I I !.

CAP. XX. Da frequente Communhf o , n6.
GAP. XXI, Como fç dwç commmgar , 121.

TER-

xi v Índice.

TERCEIRA PARTE.

CAP. I. Da ef colha que fe devefa%fr , no
tocante ao exercício das 'virtudes , 125.

CAP. II. Profegue-fe o mefmo difeurfo da elei-
ção das 'virtudes , 132.

CAP. III. Da Paciência, 137.

CAP. IV. Da Humildade no exterior , 14}.

CAP. V. Da Humildade mais interior 3 147.

CAP. VI. Qi'.e a Humildade nos ja\ amar o
nojjo próprio defpreip , 154.

CAP. VII. Como fe ha de confemar o bom
nome , praticando a humildade , 159.

CAP. VIII. Da Manfidao para com o próxi-
mo , e remédios contra a Ira , 164.

CAP. IX. Da Manfidao. para comnof co , 170.

CAP. X. Que fe hao de tratar os negócios com
cuidado , e fem anxiedade nem defajfoce-
go , 174.

CAP. Xí. Da Obediência, \~n.

CAP. XÍI. Da neceffidade da Cafiidade , igi,

CAP. Xílí. Confelho para confervar a Cafii-
dade , 186-

CAP. XIV. Da pobre \a de Ffpirito obferva-
da entre as riquexfts , ipo.

CAP. XV. Como fe de-ve praticar a pobreza
real , ficando nao obftante realmente ricos ,

194.
CAP. XVI. Como fe ha de praticar a rique*
yi de efpirito no meio da pobreza real ,

CAP,

Índice. xv

CAP. XVII. Da amizade : e primeiramente
da mâ e frvvola , 202.

CAP. XVIII. Dos galanteios , 205.

CAP. XIX. Das verdadeiras amizades , 210.

CAP. XX. Da diferença das verdadeiras e
vãs amizades ,214.

CAP. XXI. Avifios e remédios contra asmas
amizades , z\j.

CAP. XXII. Alguns outros documentos febre
a matéria das amizades , 222.

CAP. XXII í. Dos exercícios de mortificação
exterior , 225.

CAP. XXIV. Das conver fiações e da fioh-
daÕ , 233.

CAP. XXV. Da decência dos vefiidos , 22,7.

CAP. XXVI. Do falar , c primeiramente c&>
mo fie ha de falar de Deos , 240.

CAP. XXVII. Da boneftidade das palavras 3
e do rcfveito que fie deve Ás pefioas , 242.

CAP. XXVIII. Dos jtúzps temerários, 245:,

CAP. XXIX. Da murmuração , 252.

CAP. XXX. Alguns outros avifios pertencen-
tes ao falar , 260.

CAP. XXXI. Dos pafiatempos e recreações:
e primeiramente dos lícitos e louváveis ,
26^

CAP. XXXIT. Dos jo*os prohibidos , 26$.

CAP. XXXI II. Dos bailes e p a ftatemp os líci-
tos ? mas perigofios , 266.

CAP. XXX IV. Quando fe pôde jogar e dan-
çar , 27c.

CAP. XXXV. Ç#e havemos fier fieis nas coi~
fias grandes e pequenas ,271.

CAP. XXXVI. Que devemos ter efipiritojuf-

to

XVÍ I N D I C E.

to e racionarei , 27c.

CAP. XXXVII. Dos defejos, 278.

CAP. XXXV III- Documento para, os cafx-
cios , 28 r.

CAP. XXXIX. Da honefiidade do tboro Nu-
pcial , 292.

CAP. XL. Documentos pura as Viuvas , 2p&

CAP. XLI. Huma palavra as Donzelas ,

QJUARTA PARTE.

CAP. I. Que nao devemos fazer cafo das
palavras dos filhos do mundo , 507.

CAP. H. Que devemos ter bom animo , 2,11.

CAP. III. Da natureza das tentações, e da
diferença que ha entre fentir a 'tentação e
confentir nella , 2,1:5.

CAP. IV. Dois bellos exemplos fohre efta ma*
teria , 2, 17.

CAP. V. Conforto para a alma que eftá meti-
da em tentações , 2.20.

CAP. VI. De como a tentação e deleitação
podem fer peccado , 2,22.

CAP. VII. Remédios para as tentações gra-
ves , 2,2^.

CAP. VIII. Que fe deve reftftir ás tentações
leves , 2,27.

CAP. IX. Como fe ha de dar remédio ás ten-
tações leves, 329.

CAP. X. Como devemos fortalecer o coração
contra as tentações, 2,2,1.

CAP.

Índice. xvii

CA?. Xí. Do defáffocego, 323.
CAP. XII. Da trifteip, 217.
CAP. XIII- Das confòlacÕcs efpiritnaes efeií-
fiveis , e como nelias nos devemos portar ,

CAP. XIV. Das fe curas ^ e ejterilidades ef pi-
ri tua es , 551.

CAP. XV. Ccnfirm/t-fe e illuftra-fe o que efiâ
dito com hum exemplo notável , 359.

(

QJJINTA PARTE.

^ AP. I. Que convém renovar todos ;, os an-
nos os bons propofitos , com os Xxercicios

feguintes , 265. .

CAP. II. Conftderaçao fobre o beneficio que
Deos nos ia\, em nos chamar a feufervico ,
fegundo a proteftaçao acima dita , ^7.

CAP. III. Do ex/rme /te wq/^f */»>* , Jo/re
o /r« adiantamento na vida devota ,
271.

CAP. IV. JEttfm* áo e fiado da noj} a alma pa-
ra com Deos , ;72,.

CAP. V. Exame do vojjo eslado para com
vòs mcfma , 7^*6.

CAP. vi. Exame do efiado da voffa alma pa-
ra com o próximo , $77.

CAP. VII. Exame febre os affeclcs da nofia
alma ,378-

CAP. VIII. Jffcclos que fe hao de praticar
depois do exame , 380. t

xviii Índice,

CAP. IX. CcnfidcraçÕes próprias para reno-
var os nojfos bons propojjtos , $81.

CAP. X. Confideraçao primeira 3 da excelên-
cia das nofas almas, ibid.

CAP. XI. Segunda confideraçao da excelência
das virtudes , ;8-].

CAP. XII. Terceira confideraçao fobre o ex-
emplo dos Santos , 384.

CAP'. XIII. Do amor que Jefu Cbrifto nos
tem , 2^6.

CAP. XIV. Quinta confideraçao do amor eter-
no de Deos para comnofco , $88.

CAP. XV. j4jfettos geraes fobre as antecenden-
tes confideraçoes , e conclufao do exercido ,

CAP. XVI. Dos fentimentos que fe haÕ de con-

fervar depois de fie exercido . zçu
CAP. XVII. Repofta a duas objecções que fe

podem fazer a efia IntroducçaÕ ', $92.
CAP. XVIII. Três últimos e principaes avi-

fos acerca deíla IntroducçaÕ , 394-
Modo de rezatr de-uotamente o Rofario , e

bem fervir a Virgem Maria , enfmado pof

S. Francifco de Sales , $(j6.

ERRA*

ERRATAS.

Erros.

Vag.
5 como lagoilas

63 digo-te

63 o deves

63 era ifto

c>é naó fe rie
139 opondo-lhe
142 os ajunte
146 iíTo la he próprio
202. o qual
215 mais exquifitos
229 as viandas
241 e por modo
244 mac
305 falficado

310 entregado

548 íbu

380 concedeíle

Emendas.

como gafanhotos

digo-vos

o deveis

era efta

naó fe ri

oponde-lhe

as ajunte

aqueliouiras faõ próprias

a qual

mas exqui fitos

os manjares

por modo

mas

falfifícado

entregues

fou eu

«oncede

INTRODUCÇAÒ

VIDA DEVOTA.

PRIMEIRA. PARTE,

NA aUAL SE CONTEMOS AVISOS,

e exercícios neceíTarios , para conduzir a

alma , defde o feu primeiro defejo da

vida devota , aré huma inreira reío-

luçaó de a abraçar.

CAPITULO I.

Defcreve-fe a 'verdadeira Devoção.

it-^N^S^S arissima Philotea , vós afpirais á
6X Q t& perfeição , porque como fois Cnrií-
2' X? tá , fabeis , fer huma virtude fum-
^'rÒrvi^ mamenre agradável á Mageftade di-
v;na. Mas como os pequenos defeitos que ie
comettem no principio de qualquer obra , çref-
cem infinitamente no progreíío delia , e L3
A * qual

2 Introditcçaõ

quafí irremediáveis no fim ; he neceíTario pri-
meiro que tudo, faibíMS, que coufa feja eíla
vircude da devoção : porque aflim como fó
huma ha verdadeira , aííim cambem ba grande
numero delias falias e vãs : e fe naó conhe-
cerdes a verdadeira , vos podereis facilmente
enganar , e perder tempo em feguir alguma de-
voção impertinente e fuperíticiofa.

Aurélio pintava todos os roftos das ima-
gens que fazia , com o ar e femelhança das
mulheres que amava : e cada hum pinta a de-
voção , fegundo a fua paixão e fantafia. O que
he dado ao jejum , fe tem por mui devoto ,
porque jejua ; ainda que tenha o coração cheio
de rancor : e naó fe atrevendo a molhar a lín-
gua com vinho , nem ainda com agoa , por fo-
briedade \ nenhuma duvida terá , em a banhar
no íangue do próximo, pela murmuração e
calumnia. Outro fe terá por mui devoto , por-
que todos os dias reza grande multidão de
orações ; ainda que depois difto , defmande a
JUngtia em palavras coléricas , arrogantes , e in-
juriofas , aííim com domefticos como com vi-
zinhos. Outro de boa vontade tirará a efmola
da boifa , para da-la aos pobres , mas naó pô-
de tirar de feu coração fuavidade , para per-
doar a feus inimigos : outro perdoará a feus
inimigos , mas naó pagará a feus credores ,
fenaó á viva força de juftiça. Todos eftes vul-
garmente faõ tidos por devotos , e de nenhum
modo o faó. Bufcando a gente de Saul a
David em fua cafa , meceo Micol no feu leito
huma eílatua comporta com os veftidos de Da-
vid , com que fez que Saul entendeíTe , íer o

Dief?

a' Vida devota. 3

tr>efmo David que eíUva enfermo. Affim ha
muitas peííoas , que fe cobrem com cercas ac-
ções exieriores de hnta devoção ; e o mundo
as rem por fujeicos verdadeiramente devotos e
efpírituaes , naó fendo na realidade mais que
eílatuas e rantafmas de devoção.

A verdadeira e viva devoção , Philotea ,
prefupóe amor de Deos , ou naó he ouc-a
coifa, fenaó Hum verdadeiro amor de Deos :
com tudo , naó he amor de qualquer carta :
porque em quanto eíte divino amor afermo-
fea noífa alma , fe chama graça , fazendo-nos
agradáveis 4 Mageítade divina : quando nos
da vigor para obrar bem , chama- fe caridade :
mas quando chega áquelle gráo de perfeição ,
que naó íó nos faz obrar bem , mas cuidadofa,
frequente , e promptamente , íe chama devo-
ção. Os aveíiruzes nunca voaó , a?s gallinhas
voaõ pouco, e mui baixo, e poucas vezes:
mas as águias, pombas, e andorinhas , voaó
frequente veloz c altamente : alíim o pecca-
dores naó voaó a Deos , mas todo o feu an-
dar he na terra e pela terra. A gente boa ,
que ainda naó tem confeguido a devoção , voa
a Deos com fuás boas obras , mas raras vezes,
e vag;rofa e pefadamente : as peiToas devotas
voaó a Deos, frequente prompta , e altamen-
te. Em huma palavra , a devoção naó he mais
que huma agilidade e viveza efpi ritual , por
cujo meio a caridade executa fuás acções em
nós, ou nós por ella , prompta e afFe&uofa-
mente. E como á caridade pertence fazer-nos
guardar geral c univerfalmente todos os Man-
damentos de Deos : aíTim pertence á devoç^

4 Introducçao

zer , que os guardemos prompta e diligente-
mente. Por cuja caufa , aquelle que naõ guar-
da todos os Mandamentos de Deos , naõ po-
de fer havido por bom , nem por devoto ; por-
que para fer bom , deve ter a caridade : e para
fer devoto , além da caridade , deve ter huma
grande viveza e promptidaó nas acçóes carita-
tivas.

Ao mefmo tempo que a devoção confífte
em certo gráo de excellente caridade , naó íò
nos torna promptos , a£livos , e diligentes na
obfervancia de todos os divinos preceitos : mas
além difto nos excita a executar prompta e af-
fcv^tuofamente as boas obras que podemos ,
ainda que por nenhum modo fejaó de precei-
to , mas unicamente de confelho ou infpira-
çaó. Porque da maneira , que hum homem
que ha pouco fe levantou de huma enfermi-
dade , anda o que lhe he neceffario , mas len-
ta e peíadamente : do mefmo modo o pecca-
dor , que fárou da fua enfermidade , caminha
aquiilo que Deos lhe manda , com tudo va-
garofa e pefadameme , até que chegue a al-
cançar a devoção : porque entaõ como homem
faõ e bem diípofto , naó fó anda , mas corre
e falra pelo caminho dos Mandamentos : e paf-
fando adiante , corre pelos atalhos dos confe-
lhos e infpiraçóes celeftiaes. vEm fim a carida-
de , e a devoção , naó tem entre íl mais dif-
erença , que a que ha entre a chama e o fo-
go ; porque a carid.ide como hum fogo efpiri-
tual , quando he mui ardente , fe chama de-
voção. De forte que a devoção naó acrefcen-
ta ao fo^o da caridade , fe.naõ a chama , que

faz

A5 V I D A D E V O T A. £

faz a caridade prompta , activa , e diligente ,
naó fó na obfervancia dos Mandamentos de
Deos , mas na execução dos confelhos e inf-
piraçóes celeftiaes.

CAPITULO II.

Propriedade e excellencias da Devoção.

AQuelles que defanimavaó aos Ifraelitas, de
irem para a terra de Promiííaó , diziaõ-
lhes , que era hum clima que devorava os ha-
bitadores : ifto he , que os ares eraó taó ma-
lignos , que naó fe podia viver muito tempo :
e que os habitadores eraó gente taó disforme ,
que comiaó aos outros homens , como lagof-
tas. Aííim o mundo ( cariííima Philotea ) dif-
fama quanto pôde a íanta devoção , defpin-
tando as peiToas devotas , com femblante enfa-
donho , triíte , e macilento : e publicando , que
a devoção caufa humores melancólicos e in-
fofFriveis. Mas aííim como Jofué e Caleb (i),
aífeguravaó , que a terra promettida naó íó
era boa , fenaó que a fua poffe feria agradá-
vel : de femelhante modo o Efpirito Santo pe-
la boca de todos os Santos , e nolTo Salvador
pela fua própria , nos fegu raó , que a vida
devota he fuave , ditofa , e amigável.

Vè o mundo , que os devotos jejuaó , oraó,
e íofFrem injurias , íervem o? enfermos , fo-
correm os pobres , fazem vigilias , reprimem

a
» ■ — — i -■

O) Nul^- '4- v. 7. & 8.

6 Introducçao.

a cólera , derem e affogaõ Tuas paixões , pri-
vaó-fe dos prazeres fenfuaes , e fazem outras
acções , que de fua natureza e qualidades faó
afperas e rigorofas : mas naó vê o mundo a
devoção interior e cordial , que torna todas
eftas acções agradáveis , fuaves, e fáceis. Oihai
como as abelhas fobre o tomilho (*) naó
achaó nelle mais que hum fueco amargofiíTí-
mo -, mas chupando-o , por propriedade que
tem, o convertem em mel. Attendei munda-
nos: as a'rrrs devoras muitas amarguras en-
contrão em feus exercícios , he bem verdade :
mas quando nelles fe empregaõ , fe lhe con-
vertem em doçura e fuavidade : os fogos 5 as
chamas , as rodas , as efpadas , pareciaõ flo-
res e perfumes aos Martyres , porque tinhaõ
devoção. E fe eíla pôde fuavízar os mais
cruéis tormentos e a mefma morte , que naõ
fará nas acções de virtude ? O aíTucar faz doces
os fru&os , que ainda naõ eítaó maduros : e
he correctivo da crueza e vicioíldade dos já fa-
zonados. A devoção he o verdadeiro aíTucar
efpirkual, que tira o amargor ás mortifica-
ções , e o dano ás confolações : ella he a
que tira a trifíeza aos pobtes , a prefumpçaõ
aos ricos , a defconfolaçaó ao opprimido , a
infolencia ao valido , a trifteza aos folitarios,
e a diílbluçaó ao acompanhado : ella ferve
de fogo no Inverno , e de orvalho no Veraõ :
íabe rer abundância , e padecer pobreza :
igualmente torna útil a honra , e o defprc*
20 : recebe o prazer e a dor > com hum cora-
ção

=*

( * ) He hum plante oêí>ry<ra 3 € <unfirgof«t

A' V I D A D E V O T A; J

çaõ qnafí fempre femelhante , e nos enche de
huma admirável fuavidade.

Contemplai a efcada de Jacob ( que he o
verdadeiro retrato da vida devota ) . Os dois
lados entre que fe fobe , onde Te firmaó os de-
gráos , reprefentaó a oraçaó , que impetra o
amor de Deos , e os Sacramentos que o con-
ferem : os degráos naó faó outra coifa , fenaó
os diverfos gràos de caridade , pelos quaes fe
vai de virtude em virtude : ou baixando pela
acçaó em focorro e ajuda do próximo , ou
fubindo pela contemplação , na uniaõ amoro-
ía com Deos. Vede agora , vos peço , como
os que eítaó fobre a elcada , faó huns homens
com corações Angélicos , ou huns Anjos com
corpos humanos : naõ faó moços , mas pare-
eem-no , fegundo eftaó cheios de esforço e agi-
lidade efpiritual. Tem afãs para voar e arro-
jar-fe a Deos , por meio da fanta oraçaó : e
cambem tem pés para caminhar com os ho-
mens , por huma fanta e amigável converfa-
çaó. Seus roftos faó formofos e alegres , rece-
bendo tudo com doçura e iuavidade. Eftaõ
com pés , braços , e cabeças defcobertas , por-
que feus penfamentos , affe&os , e acções , naó
tem outro defignio , nem motivo , que agradar
a Deos. O reítante do corpo o tem cuberto ,
mas de hum veílido viílofo e ligeiro ; porque
ainda que verdadeiramente ufaó deíle mundo ,
e das coifas mundanas , he por hum modo
innocente e fincéro , tomando de paíTagem fò
aquillo que he neceíTario , fegundo o feu ek
tado. Taes faó as peíToas devotas. Crêde-me ,'
cariíTima Fhilotea ; a devoção he a fuavidade

dai

8 Introducçaõ

das fuavidades , e a Rainha das virtudes , por
quanto he a perfeição da caridade. Se a cari-
dade he leite , a devoção he a nata : fe he
planta, a devoção he a flor : fe he pedra pre-
ciofa , a devoção he o lufr^e : fe he balfamo
rico , a devoção he o cheiro , e cheiro de tal
fuavidade, que conforta os homens e alegra
es Anjos.

CAPITULO III.

Qtie a Devoção he própria de qualquer forte

de profiífao ou ejlado.

^T A creaçaó mandou Deos ás plantas , que
^ cada huma déíTe fruto , fegundo a lua
efpecie : aiíim manda também aos Chriítios ,
c|«C faó as plantas vivas da fua Igreja , que
produzaõ frutos de devoção , cada hum fe-
gundo feu eftado c vocação. De differente
modo haó de praticar a devoção o Fidalgo
e OfRcial , o VafTallo e o Príncipe , a Viuva,
a Donzella , e a Cafada : e naõ baíta iílo : de-
ve o exercicio da devoção , accommodar-fe
ás forças , aos negócios , e ás obrigações de
cada hum em particular. Pergunto , Philotea :
íerá bem que o Bifpo queira ler folitario co-
çno os Cartuxos? E que os cafados nac façaó
por adquirir mais que os Capuchinhos r Que o
Orficiai efteja todo o dia na Igreja como o Re-
Ugiofo í e o Religiofo fempre expoílo a qual-
quer forte de encontro , por ferviço do próxi-
mo , como o Bifpo \ Naó feria tal devoção

ccmo

A' V I D A D E V O T A. 9

como eira , ridícula de (ordenada e infupor-
tavel í Com tudo , vemos cahir mui de ordi-
nário nefta falta : e o mundo que naó diftin-
gue , ou naó quer diftinguir , entre a devoção
e indiferiçaó daquelles que fe perfuadem fer
devotos , murmura e vitupera a devoção , que
naó he caufa deitas deíordens.

Naó , Philotea , a devoção quando he ver-
dadeira nada deítróe , antes he quem tudo a-
perfeiçoa : e logo que Te moilra contraria á
legitima vocação de. cada hum , he falfa fem
duvida. A abelha , diz Ariftoteies , tira o feu
mel das flores fem as murchar , deixando-as
inteiras e frefeas como as achou : ainda mais
faz a verdadeira devoção , porque naó fó naó
preverte género algum de vocação ou ocu-
pação , mas pelo contrario as orna e aformo-
fea. Toda a carta de pedra lançada no mel ,
fahe delle mais refplandecente , cada huma
íegundo a fua cor própria : e cada hum fe tor-
na mais agradável em feu eflado , juntando-
lhe a devoção. O cuidado da familia , com
ella fe faz mais tranquiilo , o amor do marido
e mulher mais ílncéro , o ferviço do Príncipe
mais fiel , e toda a íorte de ocupações mais
íuaves e amáveis.

Naó fó he erro , mas herefia , querer dei-
terrar a vida devota da companhia dos Sol-
dados , da loja dos Oiriciaes , ^a Corte dos
Principes , e da convivência dos cafados. Ver-
dade he , Philotea , que a devoção meramen-
te contemplativa , Monaítica e Religioia , fe
naó pode exereer neftes eftados : ma> também
alem deitas três fortes de devoção , ha outras

mui-

io Introducçaõ

muitas acommodadas a aperfeiçoar os qué
vivem em eflados feculares. Abraham , Ifac 5
Jacob , David , Job , Tobias , Sara , Rebe-
ca , c Judith , teítificaó bem efta verdade no
Antigo Teftamento : e no Novo , S. Jofeph ,
Lydia e S. Crifpim , foraó perfeitamente de-
votos , nas fuás lojas : Santa Anna , Santa
Martha , Santa Mónica , Aquila , Prifcilla ,
nas fuás famílias : Comelio , S. Sebaítiaô , e
S. Maurício , nos exércitos : Conítancino , He-
lena , S. Luiz , o Beato Amadeo , S. Eduar-
do , em íeus Thronos. E também tem fucccdi-
do , perderem muitos a perfeição na foleda-
de , que taó appetecivel he para a perfeição ;
e confervarem-na no meio do tumulto , que
taó pouco favorável lhe parece. Lot , diz S.
Gregório , que taó cafto foi na Cidade , naõ
o foube fer no Deferto. Onde quer que eíli-
vermos , podemos e devemos aípirar à vida
perfeita.

CAPITULO IV.

Da neceffidade de bum Direclor para principiar,
e fazçr progrejjíos na De<voçaÕ.

SEndo mandado a Rages Tobias o moço y
( i ) reípxsndeo : Em modo ^nenhum fei o
caminho. Anda pois , lhe tornou o pai , e buf-
ca algum homem que te guie. O mefmo vos

di-

(i) Tob. 5. v. 4. Pcrgç nunc , W inquire tiblfids^
Um viram»

a5 Vida devota. ii

digo eu , minha Philotea : Quereis com íegu-
rança caminhar á devoção ? bufcai algum ho-
mem de bem , que vos guie e conduza. Efta
he a advertência das advertências. Ainda que
mais bufqueis , ( diz o devoto Joaó de Ávila )
nunca já mais achareis taõ feguramente a von-
tade de Deos , como pelo caminho defta hu-
milde obediência , raó encomendada e prati-
cada de todos os antigos devotos. A bemaven-
turada Madre Santa Terefa , vendo que Dona
Catharina de Cardona fazia grandes peniten-
cias , defejou muito imita-la nifto , contra o
parecer de feu ConfeíTor, que lho prohibia :
ao qual eíleve tentada a naó obedecer ncfte
parricular , e Deos lhe diíTe : Filha minha ,
tu levas hum caminho bom e feguro : vês a
penitenc-a que eíTourra faz í pois eu eftimo mais
a tua obediência. E tanto amou ella efta vir-
tude , que além da obediência devida a feus
íuperiores , fez voto de obedecer a hum va-
rão excellente , obngando-fe a feguir fua di-
recção e conducla , com que ficou confolada
por extremo ; como antes e depois delia mui-
tas almas boas , para fujeitar-fe melhor a
Deos , fobmeteraõ a fua vontade á de feus
criados e domefticos , o que Santa Cachari-
na de Sena louva encarecidamente em feus
Diálogos. A devota Princeza Santa Ifabel fu-
jeitou-fe com fumma obediência ao Doutor